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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A vida em seus métodos diz calma (Di Melo - 1975)

Tornando a estória longa, curta, em uma das nossas intermináveis discussões, Mateus me cobrou escrever sobre Di Melo. Ok, grande escolha, cá estou, defendendo esse herói não cantado. E logo daqueles difíceis de entender como é que não fez sucesso e como ficou tanto tempo no anonimato. Ele colaborou, sumindo. Pois é, o cara deu o wazari, ninguém sabia onde ele foi parar e após décadas acharam até que tinha morrido. Só que se esqueceram de avisa-lo que, quando soube, se declarou "imorrível".

Mestre do suingue fácil, de voz malandra, interpretação experta, forte, nordestina, daquele jeito pernambucano de tornar seu sotaque universal. É só ouvir esse seu único disco pra sacar o que eu tô falando. Tem suingue pra todo lado, bem na linha black brasileira, q se misturava com samba, funk, xaxado, MPB, soul, reggae, sem preconceitos.

Ele tem também aquela onda nordestina dos anos 1970 que veio com Fagner, Ednardo, Ze Ramalho, Alceu, aquelas misturas lisérgico-sertanejas, viajandonas, engajadas, surrealistas, Bob Dylan no sertão. Confesso que me empolguei tanto com o balanço que achava chata a parte lenta. Bobagem. Até porque, elas são metade do disco. É que o ritmo é tão gostoso que toma conta.

É questão de humor. Questão apenas de separar lado A e B, coisa q aliás ele num faz, mas deveria. Porque tem uma sequência dançante matadora que deveria estar definitivamente junta, pra galera poder tocar em festa sem preocupação de mudar a música. Ainda mais nos tempos dos LPs. E até faria mais justiça à parte MPB que acaba passando despercebida.

Mas ao que interessa...

O disco já chega chegando, com o baixo chamando a gente pra dançar Kilariô, convite aceito de cara pelos metais.

A poesia já é cheia de ritmo:

Kilariô! Raiou o dia eu vi chover em minha horta.
Ai, ai meu deus do céu quanto eu sofria ao ver a natureza morta.
Tinha mandioca pra farinha e o milho pra galinha e o capim para vaquinha e o feijão quem compra gosta
.”

Mas não é por causa letra que tô dançando enquanto escrevo essa resenha. A banda é um caso a parte, encontro de cobra criada: Heraldo do Monte, Violas e Violões; Cláudio Beltrame no contrabaixo (clap clap clap clap clap um monstro! Um dos baixos mais suingados e criativos que já dancei); Ubirajara, pai de Taiguara, no bandoneon; Dirceu, na bateria; Bolão, no sax; arranjos e violão, do maestro Miguel Briamonte; e o grande Hermeto Paschoal, nas flautas, teclados suingadissimos, arranjos e produção. Ou seja, num tem menino amarelo na parada.

A isso Di Melo junta sua divisão rítmica personalíssima, rara, contagiante, que deixaria Jackson do Pandeiro orgulhoso do pupilo. Lá pelas tantas, a(s) vocalista(s) (Eloá, você tava sozinha nessa ou tinha mais gente?) soltam um uuuuuuuuuuuu q se não te der tesão pode ter certeza que seu negócio não é mulher.

A segunda música é pura filosofia de vida, riponga, zen. Mas hedonista, como é que não, com esse ritmo? Os grngos sacaram e volta e meia ela aparece em alguma coletânea pelo mundo:

"A Vida em Seus Métodos Diz Calma
Vai com calma você vai chegar.
Se existe desespero é contra a calma
E sem ter calma nada você vai encontrar".

Anti-stress pra ouvir e dançar no trânsito:

“Calmas nas oficinas
nos postos de gasolina,

Principalmente nas maternidades,
hospitais e escolas”.

A terceira é Aceito Tudo, a bateria quebrando tudo.

Daí pula pra 7a música, pra manter a pista cheia. Pernalonga começa com um violãozinho jorgebeniano safado, preguicoso, pra logo atacar os metais e o baixo ir carregando a preguiça.

Depois, Minha Estrela:

Minha Estrela, vi tua imagem refletida em meu espelho.

Parei no ar com teu jeitão frio e matreiro

E fiz voltar o teu sorriso prateado”.

Pra completar esse quarto de hora de alegria e diversão, Se o Mundo Acabasse em Mel deixa um recado pra galera estressada, desaceleraê, galera, e vamos curtir:

“Deu pane no nervo do cérebro.

Taquicardia e revertério.

Momentos trágicos e instantes sórdidos.

(...)

A ele eu dizia que queria morrer doce quando o mundo acabasse em mel.”

Como ele diz, coberto de razão: “Meu som não deixa nada a desejar para o que houve, há, e, haverá no mercado musical. Digo, repito, atesto, e, assino embaixo, sem medo de errar e sem falsa modéstia. É muito swing, balanço, molho, charme e malemolência, pois nem Santo Antonio com gancho consegue segurar.”

Esse disco deveria estar naquelas cápsulas cheias de coisas especiais que o ser humano faz e que de tempos em tempos são lançadas no espaço, de presente para alguma civilização “perdida” por aí, para eles saberem que apesar das merdas que a gente faz, de vez em quando manda bem. Se algum dia algum extraterrestre abrir a cápsula com esse disco, vai ter um monte de marciano chacoalhando as antenas, dançando, felizões, loucos pra pegar o primeiro bonde pro planeta Terra.

sábado, 25 de junho de 2011

Claridade, Clara Nunes (1975)



Esse blog está quase chegando ao nº 200 e me dei conta de que estávamos cometendo uma falha grave, com a ausência de uma das maiores cantoras brasileiras: a guerreira Clara Nunes. Nesse sentido, o presente post tem como missão primordial preencher essa lacuna. Dentre os 15 discos de estúdios, optei por Claridade, de 1975, porque, por um lado, conta com um repertório de primeira, aliado ainda ao sensacional bandolim de Joel Nascimento e excelentes arranjos; enquanto, por outro lado, me faz retornar à minha infância quando escutava essas canções na vitrola da minha mãe no Rio de Janeiro.


Demonstrando sua predileção por compositores da Portela, Claridade abre em grande estilo com “O Mar Serenou”, de Candeia. Trata-se de uma interpretação magnífica de uma canção que marcou um estilo, canção até hoje relembrada nas melhores rodas de samba. O mar serenou, quando ela pisou, na areia,...Quem samba na beira do mar, é sereia... Com seu vestido branco, Clara Nunes certamente é a melhor imagem dessa canção.


“O Sofrimento de quem Ama”, de Alberto Lonato, e “Tudo é ilusão”, de Éden Silva e Raul Moreno, (5ª canção do disco) demonstram que além de grande intérprete, Clara Nunes é rainha na arte de transmitir alegria e esperança com temas tristes.

Iansã cadê Ogum...foi pro mar... Sua influência de temas afro (esteve várias vezes na África) atinge o apogeu em “Deusa dos Orixás”, de Romildo e Toninho, uma maravilhosa canção em que se misturam elementos do samba e do candomblé. Para apreciar a verdadeira Deusa dos orixás, vale a pena ver essa apresentação: htAdicionar vídeotp://www.youtube.com/watch?v=82n6dZ74F3c (que ainda emenda na próxima música).


Pausa para respirar: com toda garra e afinação, Clara Nunes dá ao clássico da música brasileira "Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, a sua interpretação definitiva. É o juízo final, a história do bem e do mal...quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer... Música para arrepiar...


Se o lado A do vinil fecha em ritmo mais lento e triste com “Valsa de Realejo” , o lado B compensa abrindo com um samba de primeira de João Nogueira e Paulo César Pinheiro (seu marido a partir dessa época). Para de beber, compadre...Meu compadre deixa disso...Larga essa mulher de lado...Lembra do teu compromisso.


Candeia volta a ser cantado em “O Último Bloco”: E hoje volto cantando...me abraço ao violão...e marco o compasso junto do coração. Outra jóia rara desse disco.


Depois de outro samba em alto astral com “Ninguém tem que achar ruim”, de Ismael Silva, Clara Nunes diminui o ritmo para lembrar que “Às Vezes Faz Bem Chorar”, de Ivor Lancelotti, e antecipa o clima de despedida com “Vai Amor” (Monarco/W.Rosa):

Não chore por favor...Porque um bom perdedor não chora Reconhece a derrota se dirige a porta...Abre, diz adeus e vai-se embora.


E para fechar no maior estilo e sem espaço para rancor, Clara emenda “Que Seja Bem Feliz” de Cartola: Que seja bem feliz...E leve-me na mente... Que cresçam suas glórias...E as minhas lágrimas contentes.


Nem sempre a qualidade combina com vendagem, mas até nisso esse disco surpreendeu, ultrapassando a marca de 600 mil cópias vendidas, numa “Clara” demonstração de que tem muita gente de bom gosto. Foi o primeiro de uma cantora – mulher – que ultrapassou essa marca.


Em 1983, após conplicações decorrentes da anastesia em uma aparentemente inofensiva cirurgia de varizes, Clara Nunes deixou esse mundo que conhecemos. Como diria a própria Clara Nunes em “Tudo é Ilusão”, nada dura eternamente...


Felizmente deixou obras como esse disco para que a voz dela continue ecoando nos nossos corações.


[Paul]

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Corpo de Energia Racional. Puro, Limpo e Perfeito (Tim Maia,Racional v. 1 - 1975)



De certa forma esta é uma experiência gospel de Tim Maia. Dito com mais precisão: uma experiência gospel a la Tim Maia. Não que o rei brasileiro da alma precisasse de motivação extra para soltar a voz (bem, não no início dos anos 70 pelo menos...).


A história é mais ou menos conhecida. Tim leu o livro e entrou na onda da imunização racional. Gravou o(s) disco(s, há um volume dois), se desentendeu com o movimento, ficou puto, recolheu o material, sumiu com as fitas mestre e deu origem ao LP mais cult da história da música brasileira. Até o relançamento do disco em cd (restauração feita partir do vinil!), só uma meia dúzia de gato pingado tinha o disco. Destes, dois não tinham agulha, três tinham agulha, mas não tocavam com medo de riscar o disco. O outro gato emprestou pruma antiga namorada e o disco ficou escondido numa coleção heterogênea que incluía Trini López, Quiet Riot e Luiz Caldas.


O disco todo é muito bom. Abstraia o tom de pastor pregando na praça. O som é o que interessa. Iniciando com o (quase-)mantra Imunização Racional, uh uh uh, que beleza!, passando pelo confessionário em Bom-Senso, uma sensacional canção de expurgos dos pecados e pelas mais “evangélicas” Leia o Livro Universo em Desencanto, Contacto com o Mundo Racional, até a apoteótica Rational Culture.


Impressiona no disco, a unidade sonora em torno do tema central e maneira em que se equilibram nos arranjos as baladas e as levadas mais balançantes. Ouso dizer que em nenhum dos três (maravilhosos) discos anteriores ele havia conseguido esta estranha harmonia. Este é que me parece ser o ar gospel do disco. Tim Maia celebra.


Até a banda está extremamente envolvida no projeto. Será que ele converteu alguém? Prefiro imaginar, que esta conversão tenha sido apenas no sentido musical... Afinal, fechando o disco, um balanço hipnoticamente irresistível com levadas de guitarras fuzz e wah-wah (para converter o Dão), teclados, palmas e a costumeira ginga na cozinha, quando Tim canta:


We are gonna rule the world, don’t you know, don’t know...


A única coisa que me vem à cabeça, aos pés, aos quadris e ao coração é:


Yes sir! And will follow you faithfully!


[M]

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Refazenda - Gilberto Gil (1975)


Hoje acordei com o canto de um passarinho estilhaçando meu sono! O inverno é marcante pela ausência do som da natureza. A neve cai silenciosamente – é linda, mas é silenciosa e branca. O som do passarinho inaugura algo novo: renascimento, refazenda,rouxinol.

Refazenda trilha o caminho da natureza: vasculha o nosso sertão e o nosso mar. É um conjunto musical que procura o simples, a beleza do natural, a necessidade de reconexão do corpo com algo mais, da saudade com o encontro.

O caminho musical-natural acontece amplo:
Em “Ela”: quando ela te faz um navegador, a musa única nas ilhas do amor. É aquela viagem de olhos fechados.
Em “Essa é pra Tocar no Rádio”: quando o desejo da melhor onda sonora se materializa através da música chegando como uma maré alta, invadindo os ouvidos do chofer de táxi, do querido ouvinte do interior e que finalmente chega para vencer o tédio, quando ele pintar.

O arco natural de Gil é móvel, transita entre o campo e a cidade e o Jeca Tatu se transforma em “Jeca Total”, aquele doente curado, representante da gente, defronte da televisão, assistindo Gabriela viver tantas cores dores da emancipação.
Com Gil não dá pra falar de “Refazenda” sem falar em movimento e novidade: "Re-cidade".
Faz parte do arco, os deslocamentos e as descobertas. Faz parte falar da saudade do que ficou, do que a gente já foi e do que a gente se tornou. E aí, o poeta em "Lamento Sertanejo" transforma dor em mel e traduz o intraduzível.

“Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou como res desgarrada
nessa multidão boiada
caminhando a esmo"

Mas o recolhimento gera frutos, e às vezes; passarinhos! O Rouxinol com sua asa tratada começa a piar um rock diferente, dizendo que era um rock do oriente pra mim.
E voou deixando um cheiro de jasmim…
[ANDRÉA]

ps:O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.
(& - Eudoro Augusto)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Adoniran Barbosa (1975)

Quando Deus fez o homem

Quis fazer um vagolino que nunca tinha fome

E que tinha no destino, nunca pegar no batente e viver folgadamente

O homem era feliz enquanto Deus ansim quis

Mas depois pegou Adão, tirou uma costela e fez a mulher...

Desde então o homem trabalha pr'ela...

Vai daí o homem reza todo dia uma oração:

Se quisé tirá de mim arguma coisa de bão...

Me tira o trabáio, a muié não...


Do ponto de vista estritamente musical, este álbum de 1975 nada mais é que a continuação daquele lançado no ano anterior. Nada mais justo, para um artista com a produção de Adoniran que estava estreando na era do disco. As diferenças ficam por conta dos arranjos mais diversificados deste segundo trabalho e o fato de que só um super-clássico aparece aqui. Samba do Arnesto ficou célebre não só por ser uma música genial, de apelo extremamente popular, mas também por ter marcado o uso “vulgar” do português (que aparece em quase toda obra do autor), um português incorreto na gramática mas perfeito na musicalidade, puro Adoniran.


O disco começa avisando o ouvinte que o silêncio da madrugada está pra ser desfeito pois o samba na casa verde enfezou! Segue o pagode com um agradecimento em forma de canção onde Adoniran faz questão de usar a língua castiça em Vide Verso meu Endereço. Tocar na Banda tem o som de coreto de praça em cidade do interior, uma música que cairia muito bem no repertório psicodélico dos Mutantes!


Malvina é uma de suas primeiras composições (de 1951, quando ganhou até concurso de marcha carnavalesca), canção-manifesto à mulher que deseja abandoná-lo não é das mais famosas quando se fala em Adoniran, e de fato sua obra é repleta de canções melhores que esta. Em Não Quero Entrar Adoniran não se julga digno de entrar na sua ex-casa, de sua ex-mulher, ele vem só mesmo pra buscar o meu cachorrinho, o meu cobertor e (é óbvio) o meu violão...


Piove, Piove! Ha tempo que piove quá... Gigi

E io, sempre io! soto la tua finestra

e voi senza me sentire, ridere ridere ridere de questo infelice qui!


Ti ricordi Gioconda di quela sera in Guarujá

Quando il mare te portava via... E me chiamaste:

Aiuto Marcelo! La tua Giconda ha paura de quest'onda!


O Samba Italiano deve ser o samba mais charmoso do mundo... Além da letra e da interpretação inigualável de Adoniran, a música é levada por uma batida deliciosa de bateria, um cavaquinho e um violino. O resultado da improvável salada é de lamber os beiços!


Em Triste Margarida, Adoniran volta ao tema das desventuras do amor, com a história do jardineiro que se fingiu de engenheiro do metrô pra conquistar o bem-querer de uma mulher. A bateria que embalou o Samba Italiano retorna em Mulher, Patrão e Cachaça, triângulo amoroso onde os personagens são eu, (o narrador) Violão da Silveira (seu criado); ela, Cuíca de Souza e o Cavaquinho de Oliveira Penteado. Adoniran consegue criar esta história a partir dos sons dos instrumentos de forma genial, quando o cavaquinho centrava, a cuíca soluçava e eu entrava de baixaria... Quando o violão se descobre traído e resolve tirar satisfação, é o amigo pandeiro quem aconselha:


Não seja bobo, não se escracha

Mulher, patrão e cachaça

Em qualquer canto se acha


A próxima canção é um samba ligeiro cuja descrição não pode ser melhor que os seus próprios versos:


Pafunça, Pafunça, Pafunça que pena Pafunça,

que nossa amizade virou bagunça...

O teu coração sem amor, se esfriô, se desligô

Inté parece Pafunça aqueles alivadô...

que tá escrito não fununça e a gente sobe a pé

E pra me judiá Pafunça, nem meu nome tu pronunça!...


E assim segue a sina de Adoniran, ouvindo Conselho de Mulher dizendo pra ele largar da boemia e ir trabalhar, afinal pogréssio, eu sempre escuitei falá: pogréssio vem do trabáio, então amanhã cedo nóis vai trabaiá...


E este delicioso segundo LP de Adoniran termina com o samba Joga a Chave,


Joga a chave meu bem! Aqui fora tá ruim demais...

Cheguei tarde perturbei teu sono, amanhã eu não perturbo mais.


E quando você acha que ele se redimiu é que vem a solução genial, a “malandreza” típica de Adoniran:


Faço um furo na porta, amarro um cordão no trinco

pra abrir pro lado de fora...

Não perturbo mais teu sono, chegue meia-noite e cinco

ou então a qualquer hora...


Não sei de onde veio a história de que São Paulo é o túmulo do samba, mas se for por causa da música de Adoniran, que eu seja enterrado nele. [M]


sábado, 22 de novembro de 2008

Minas - Milton Nascimento (1975)

Tarefa difícil elogiar um disco de Milton. Não por falta de talento, que acho indiscutível. Grande voz, sempre bem acompanhado, repertório com diversos clássicos, e por aí vai. O problema é que ele ficou chato, virou uma mala sem alça. Obviamente que falo do artista, pois a pessoa é tão doce e tranquila que acho que qualquer um gostaria de bater um papo, trocar uma idéia. Ele, portanto, está longe de ser um Ivan Lins, porque aí também não dá, o cara é quase imbatível, sendo que eu tô dando o benefício da dúvida, porque não conheço ninguém mais chato.

Mas voltando a Milton, depois que ele virou menestrel, cantou pra Tancredo, aquela super exposição, as músicas, sei lá, perdi a paciência e aí acabei esquecendo que o cara teve uma produção excelente antes disso. E por isso, não foi sem surpresa quando fui apresentado a este disco.

Minha reação inicial foi de desconfiança natural, “O mala do Milton?”, mas o disco já começa conquistando de cara com Paula e Bebeto, música incidental que abre e fecha Minas. Linda, com coro de amigos, coral de meninos, vocalizes de Milton, que acompanha tudo com o violão. E mais nenhum instrumento. Bonito demais! Curioso é que Paula e Bebeto, além de seu momento solo, também faz participação especial/incidental em Idolatrada e Saudade dos Aviões da Panair.

Saudade que é palavra chave no disco (e talvez em toda a arte de Milton), porque o disco não é sobre Minas Gerais, mas sobre a Minas de Milton, desde a sua infância no interior à BH do Clube da Esquina, dos Beatles, dos amigos, que em cada música é evocada em imagens, símbolos e lembranças levemente melancólicas, saudosistas, com um quê de triste. Que nem em Ponta de Areia, mais um hino ao passado, lembranças de um lugar e um tempo que não existem mais.

E referências, há várias, como a música sacra, trazida pelo coral, e que fez parte da infância de Milton e mesmo de sua formação como cantor; ao barulho de trem, em Gran Circo; além de vocalizes de Beto Guedes, seu velho parceiro e amigo, que também divide os vocais em Fé Cega, Faca Amolada. E há outros, como costumava ser entre eles: Wagner Tiso em vários teclados e na produção, Nivaldo Ornellas nos sopros, Toninho Horta na guitarra (em excelente forma, às vezes límpida, às vezes torta), todos eles artistas com produção individual respeitada, mas com a humildade de saber ser coadjuvante, ainda mais num disco que preza a simplicidade nos arranjos.

Arranjos que são um dos destaques do disco. Simples, mas sofisticados, essa mistura difícil é típica dos discos de Milton, que conseguiu grandes resultados nos anos 70. Isso fica claro em Norwegian Wood, dos Beatles, que ganha uma versão com belos vocais, divididos com Beto Guedes, uma banda, com guitarra, baixo, bateria e teclados, além de uma orquestra que consegue dar um ar dramático sem cair na suntuosidade. Desde o início percebe-se que é uma música familiar, mas demora até cair a ficha, mérito do trabalho de recriação de um clássico.

Milton produziu grandes discos e este sem dúvida é um deles. Daqueles que, mesmo quem, como eu, não é fã, gostam. Daqueles que são bons, mesmo transbordando todos aqueles clichês de Minas, da vaquinha, o morrinho, o riozinho, o trenzinho. É prova de que não se deve ter preconceitos na arte, para não corrermos o risco de perder belos momentos como os deste disco.

Luiz Marcelo

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Fruto Proibido - Rita Lee & Tutti-Frutti (1975)

Não dá pra economizar: este é O disco de rock’n’roll brasileiro. Não porque não houveram outros discaços de rock brasileiro, aqui neste blogue encontram-se vários deles... Mas o Fruto Proibido da Rita Lee é um marco, é um gol de placa, chapéu na defesa toda, meia lua no goleiro, tudo isso de trás pra frente, por que o arremate final é do meio-campo, lembrando todos os gols que Pelé, charmosamente não fez em 70.


Primeiro que o entrosamento entre Rita e o Tutti-Frutti estava tinindo, depois do ótimo disco de 74 (ver posts anteriores). Segundo, e principalmente porque a seleção de canções deste disco é de rara felicidade e inspiração. Além de uma ou outra parceria com os tuttis e algumas composições só suas, Rita agregou, em três faixas, um novo parceiro, o dupla de Raul Seixas: Paulo Coelho. A banda perdeu a cilibrina Lucinha, mas o Carlini se ocupou muito bem das cordas. Um novo baterista que parece até o animal dos muppets de tanta pancada que soca pra todo lado, em tudo que é tambor foi agregado junto com um tecladista, de tal forma que Rita dedica-se mais a compor e cantar. E valeu a pena...


Ovelha Negra é o super-clássico dos clássicos da Rita Lee, uma adorável balada (supostamente) autobiográfica que mistura folk, rock e pop na medida certa. Carlini repete à exaustão um dos solos de guitarras mais marcantes da música brasileira, ideal para fechar com chave de diamante um disco como este.


O lado A também termina em grande estilo, na parceria mais famosa de Rita e Paulo, Esse tal de Roque Enrow, que retrata o choque de gerações embalado ruidosa e irresistivelmente pelo som do TF acompanhado de um sax a la Bobby Keys.


Outra que ficou célebre foi Agora Só Falta Você, parceria de Rita com Carlini. A música contrapõe o peso da bateria e guitarra de Carlini ao piano meio booggie que ajuda a dar mais leveza à voz de Rita Lee. Dá até pra sentir o quanto a banda se diverte tocando essa aqui...


Luz del Fuego foi trilha de um filme homônimo estrelado por Lucélia Santos (que deve até ter passado em Sala... Especial!). O lick de abertura é a deixa pra Rita Lee desenhar a história desta personagem e começar a flertar com sua face mais “feminista”. Pirataria de Rita e Marcucci é também um rockão-manifesto: quem falou que não pode ser? não, não, não eu não sei por quê... eu posso tudo! Em outra parceria com Paulo Coelho, Rita Lee dá O Toque, rockão poderoso e sem concessões que vai suavizando quando chega no refrão psicodélico: o som das nuvens, a conversa do vento, a voz dos astros, a história do tempo... Aqui a harmonização vocal é fundamental (aliás, ao longo do disco, os vocais de fundo mostram ser outro ponto certo desta produção), e o verso final é uma espécie de celebração-manifesto pela preservação da natureza: o universo segue o rumo que todos nós escolhemos.


Voltando ao lado A, Fruto Proibido é rock’n’roll clássico, numa das passagens mais suaves do disco, onde Carlini toca apenas violão e gaita, e o piano ensandecido são ideais para descrever a relação com as tentações e os frutos proibidos que Rita descreve e assume aqui. Dançar pra não Dançar é a música de abertura, numa sugestão que Caetano assumiu quando cantou deixa eu dançar, pro meu corpo ficar Odara... A música (portanto, o disco) inicia com os compassos executados só no piano, frenético, boggie-wooggie, mostrando que o som deste disco está um pouco diferente, quando o resto da banda entra, mostrando a cara do TF.


Cartão Postal é um blues irresistível, sobre encontros e despedidas, canção estradeira de levada lenta e acústica, piano e violão muito bem sintonizados, acompanhados por uma harmonização vocal impecável e Carlini num slide inspiradíssimo.

Pra que? Sofrer com despedida...

Se só vai, quem chegou...


...Pra que?... sofrer...

[MATEUS]


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Apesar da Marrom...naquele dia o samba morreu! (A voz do samba - Alcione - 1975)



“Trabalho igual ao meu todo mundo quer. Mas nem todos podem arranjar. Pego às onze horas, largo ao meio-dia e tenho uma hora pra almoçar”. Esse delicioso trecho de “Todo Mundo Quer” está nesse primeiro LP da Alcione. A VOZ DO SAMBA de 1975.

O que se pode falar sobre Alcione além de que, junto com Beth Carvalho, disse tudo no samba entre a década de 70 e meados de 80. Simplesmente não existe roda de samba amadora que não saque lá em algum momento coisas como “O surdo” ou “Não deixe o samba morrer”.

Aliás roda de samba e...Karaokês amadores...e aí vai uma tragédia pessoal: numa festa familiar que tem tudo para ser um pouco menos que chata, o anfitrião resolveu alugar um desses aparelhos karaokês digitais. Aqueles que indicam notas ao final na tela da TV. Pois bem. A coisa ia andando, a criançada judiando com os Xuxa e Elianas da vida, até que um membro da família (vou preservar a identidade para evitar problemas judiciais) resolve cantar o clássico “Não deixe o samba morrer”...não existe adjetivo em nossa língua para definir a tragédia que foi sua interpretação. Nem Bethania seria mais melancólica. Resultado: NAQUELE DIA O SAMBA MORREU!!!! E de forma medieval. Morte lenta e torturante. E o aparelho ainda dá uns 67 pontos: “Bom. Mas é preciso treinar mais”.

À parte o relato, o disco é fundamental para quem gosta de samba. Tem Candeia, Ismael Silva, Zé Kéti e até uma apoteótica composição de Caetano Veloso.

Sem contar que ela está ótima na capa!

História de pescador/O Surdo/Acorda, que eu quero ver/Aruandê/Batuque feiticeiro/Espera/Não deixe o samba morrer/Etelvina, minha nega/É amor...deixa roer/Todo mundo quer/Até o dia de são nunca/Samba em paz-A voz do morro.

(ZEBA)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Não fazes favor nenhum em gostar de alguém...nem eu (Gal canta Caymmi - Gal Costa - 1975)



















Quando se conversa sobre qual o melhor disco da Gal Costa, quase sempre são citados o "Gal Tropical", "Gal a Todo Vapor" e, um pouco menos, o "Caras & Bocas".

Cada um possui uma Gal Costa diferente em seus malabarismos vocais. Mas todos se identificam pela exuberância e força nas interpretações. Sabe aquele grito que fica bonito?. Aquele exagero lindo?. Pois é.

Agora, nesse "Gal Canta Caymmi" a coisa muda de figura e figurino. Além do repertório ser inapelável, a cantora se mostra mais serena em sua cantoria. Aliás é difícil adjetivar essas coisas, talvez serena não caiba.

É como se os outros discos sempre citados sejam ideais para um belo final de festa, gente embriagada querendo elogiar o que foi Gal um dia. Esse, o "Gal Canta Caymmi", já é para o começo dessa mesma festa, antes do pessoal todo chegar, enquanto o anfitrião tá lá arrumando as cervejas no congelador. Essa comparação é o maximo que consigo chegar.

Seja como for, o disco é ótimo e se houver uma competição um dia entre ele e os outros citados, diria que ganharia nos penaltis e só depois da primeira série total de cobranças.

A nota triste é que Gal se tornou uma triste figura que certamente não mais acrescentará nenhum outro trabalho nesta competição.

(ZEBA)