domingo, 23 de novembro de 2008

Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)



Dessa vez vou falar de um disco que não foi lançado, mas descoberto. Trinta anos depois, foi encontrada uma fita com um show que Gil fez na Poli-USP em 1973 em protesto contra o assassinato dos estudantes Honestino Guimarães, à época presidente da UNE, e Alexandre Vanucchi Leme, pelo governo militar. Reza a lenda que o show, programado para meia hora de voz e violão, acabou durando três e foi repleto de estórias de Gil, bate-papos, interação com o público, num clima de intimidade que foi perfeitamente captado pela gravação.

As estórias são um ponto alto do show. Exemplo: o público pede Cálice, música dele e de Chico, prevista para ser tocada no Festival Phono 73, mas que na hora H o som foi desligado, para a irritação dos dois. Ele não só conta essa estória, como explica que como cada um iria cantar sua parte na apresentação, ele acabou não decorando a parte de Chico. Finalmente alguém da platéia escreve a letra em um papel para ele cantar. Terminada, ele pede pra ficar com o papel, pois não tinha a letra. Claramente viajandão, ele está no melhor da sua verve, da sua retórica gilbertiana (que nem nesse vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=LfYM3iFG8qU).

Essas estórias saborosíssimas por si só já justificariam a citação desse disco, mas acima de tudo isso, há a música. Muito à vontade entre os estudantes, num show sem roteiro, como não se vê mais, ele vai desfilando canções próprias (Procissão, Expresso 2222, Back in Bahia) e do repertório de artistas que gosta, como Germano Matias (Senhor Delegado), Gordurinha e Almira Castilho (Chiclete com Banana), Dominguinhos (Eu só Quero um Xodó), João Gilberto (que lhe ajudou a entender Eu quero um samba), Clementina de Jesus (de quem ele evoca o espírito em O Sonho Acabou) e mostra consciência da importância e da qualidade da própria obra (“Não vai nenhuma vaidade, eu tô falando de fora de mim, agora. Eu gosto de Domingo no Parque, acho uma música belíssima. Se não fosse minha eu admiraria mais ainda”, fala aos risos, dele e de todos).

Gil dispensa justificativas, mas nesse caso vale um comentário. Caetano tem uma tese que a linha evolutiva da música popular brasileira se deu por meio de artistas que usavam o violão como instrumento preferencial de sua arte: Caymmi, João Gilberto, Jorge Ben e Gilberto Gil. E aqui a gente tem a oportunidade de ouvir o violão de Gil por inteiro, despido e, nesse caso, numa versão às avessas do rei nu, não há vestimenta mais rica. Ele passeia por sambas tradicionais, novos, xote, rock, bossa, afoxé, num largo leque de influências e interesses, todos transformados por sua forma personalíssima de tocar. Mostra em seu violão, na prática, a tese de Caetano. E depois de escutá-lo tocando, fica difícil não concordar com ela.

Luiz Marcelo

13 comentários:

  1. Pra quem quiser baixar. Uma hora e meia de show. Quem tiver o resto, disponibiliza aí pra galera.
    http://www.4shared.com/file/72742192/b02274e4/Ao_vivo_na_USP.html

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    1. poxa sobe de novo por favor, eh muito dificil achar

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    2. poxa sobe de novo por favor, eh muito dificil achar

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  2. Celo,
    olha aí o blog que eu estou fazendo
    www.afonsodantas.blogspot.com
    Aquele abraço!
    Afonso

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  3. Muito legal essa teoria do violão. E por falar nele, pra mim, o Gil é, entre os quatro, o melhor no instrumento. [M]

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  4. A quem postou a foto, meu muito obrigado. Andava procurando uma bacana.
    Abs, LM

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  5. Muito legal o som, tô ouvindo agora... Inseri uma foto mais ou menos da época. Apesar da guitarra, foi o mais perto que achei... [M]

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  6. Esse é um debate pra mais de légua. João mudou a música mundial. Caymmi influenciou João, que influenciou Gil e Jorge. Se considerar só o violão, acho que o que eu mais gosto (não quero dizer que seja melhor) é Jorge, mas até por sua forma personalísisma de tocar, ele acaba ficando limitado. Já Gil é mais completo, mais interessante, enquanto artista.
    Abs, LM

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  7. É bom, né? Qualidade de som boa, as estórias, ele doidão hahaha E dá pra sacar muito bem o estilo dele e como ele dá um toque pessoal aos ritmos. Muito legal!
    Abs, LM

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  8. Muito legal este blog. gostei, está na minha lista e no meu blog também http://toque-musicall.blogspot.com

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  9. Esta idéia de postar 1001 discos nacionais é ótima. Se precisar de alguma coisa, no Toque Musical tem muitos que valem estar nessa lista.

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  10. Muito bom o texto e o blog. Coloquei no meu blog:http://essaerapratocarnoradio.blogspot.com

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  11. Com um pequeno atraso de mais de um ano...
    Valeu, Toque Musical! A gente publicou o seu numa lista de blogs que a gente gosta.
    TF, obrigado pela audiencia. Tentei acessar seu blog, mas ta fora do ar. Eh pena... A blogosfera tem que continuar viva.
    Grande abraco a todos!
    Luiz Marcelo

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