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domingo, 5 de junho de 2011

Bezerra da Silva e um punhado de bambas







Domingão, dia nacional do churrasco, do futebol à tarde e, no Rio De Janeiro (saudade!), dia de pagode, ou melhor, Partido Alto, mais elegante como merece nosso Embaixador dos morros e favelas, Bezerra da Silva.

O disco aqui começa com uma homenagem 'aqos morros de cá e de lá', no caso, da cidade do Rio e também de Niterói, 'Aqueles morros' cita muitos dos morros (ou comunidades, como se diz hoje de modo politicamente correto). Com carinho especial ao Morro do Cantagalo, lugar de moradia do nosso herói. Esta música é uma das poucas de autoria do Bezerra (co-autoria de Pedro Butina), que quase sempre garimpa e interpreta músicas de autores desconhecidos, com nomes muito diferenciados: Barbeirinho do Jacarezinho, Trambique, Adelzonilton, Criolo Doido, Bizum etc.

'Apertar o cinto' pra onde? "Se já não tem mais lugar, estou com a barriga nas costas, não sei onde vou parar". Bezerra foi mendigo nas ruas de Copacabana durante sete anos, chegando a tentar o suicídio. Ele sabe do que está falando.

'Na aba' é uma clássica do disco. "Não nasci pra coronel, saia da aba do meu chapéu/ Na aba do meu chapéu você não pode ficar/ meu chapéu tem aba curta/ você vai cair e se machucar".

'Deixe uma páia pro véio queimar', você deve saber sobre o que ele está cantando, mas é também sobre descarregos, malandros, otários e vaciladores em geral. Mas "Vovô é cabeça feita e não atrasa ninguém".

'Amigo do sereno' fala sobre Leonor, que quer morar com o autor mas não sabe quem ele é, um boêmio partideiro que "pra chegar não tem hora". E cheio de exigências...

'Cipó cabloco' serviu pra amarrar nego no toco e traz até uma viola discreta naquela conhecida massa sonora do samba, além de um berimbau esperto no meio.

'O federal' é um cara bem considerado, malandro no sentido mais elegante, afinal "cobra criada não pega sapo no chão/ ela não arma bote pra nada/ só come o que vem na mão". O federal "onde chega ele é bem chegado/ vê tudo e não vê nada/ tem boca e fica calado/ respeita malandro e mané/ só fala na hora certa/ não tem medo da madrugada e não acredita em sugesta". Sabia tudo o Bezerra!


Em seguida 'Vizinha faladeira', figura conhecida e letra auto-explicativa. "E o coitado do marido ainda morre de amores por ela"...Coral feminino em resposta, clássico. Põe mais lingüiça aí, magrinho!

'Punhado de bambas' fala sobre o bairro de Madureira, com seu característico carnaval festivo e seus muitos compositores, além de pontos conhecidos dos moradores do bairro. "A Portela e o Império Serrano moram em madureira também".

'Chico não deu sorte' é sobre o tal Chico que "está quase à morte no Souza Aguiar", hospital do Rio, devido a algo que teria comido, um cozido ou pó da china (?). Mas é mentira conforme Bezerra vai esclarecendo, na verdade tomou uma surra...porque, ninguém "na Colina" pode falar.

'Vovó D'Angola' é sobre umbanda/candomblé, religiões afro-brasileiras que o nosso intérprete abandonou em 2001 convertendo-se evangélico. "Bate tambor"! E manda a alcatra pro fogo que o arroz já vai ficar pronto.

A vida atribulada do sambista intérprete virou livro 'Bezerra da Silva - Produto do morro', que inclusive eu ganhei do amigo e colaborador Paul.

Mais pro fim da vida (Bezerra morreu em 2005, faz uma falta danada em tempos politicamente corretos de muita bundamolice), teve um reconhecimento da geração mais nova, como Planet Hemp, Rappa, Velha Virgens, inclusive gravando com estes citados.

Declarava-se um bom malandro e não queria, por isso, morrer numa sexta-feira e atrapalhar a praia dos amigos - morreu numa segunda-feira, 17 de janeiro. 17/1, ou como percebeu o amigo Dicró, 171!

"Malandro é malandro e mané é mané".

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Tempos modernos, Lulu Santos



Bom, depois da longa e elaborada manufatura da postagem do Camelo (e sofrida, porque fui vendo que nunca ficaria Andréa style), vamos pra uma mais fluida e fácil, atendendo ao pedido do (quase fictício) amigo Baiano.


Primeiro assinado só pelo Lulu (antes, em 1981, tinha lançado em parceria com Nelson Mota 'Tesouros da juventude'), tem clássicos eternos, regravados e sempre re-arranjados, parecendo uma coletânea (ops).


Começa com tudo, a faixa título tem aquele riff fluido seguido de um comentário da slide guitar meio havaiana do nosso herói pop. A letra é muito boa, otimista sem ser piegas. Já foi gravada pela Marisa Monte numa versão muito legal no disco 'Barulinho bom'. "E não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir". E termina com aquelas cordas fake tão anos 80 a cargo do mago execrado Lincoln Olivetti.


Na seqüência mais uma clássica eterna, 'Tudo com você', com todo o pacote Lulu: letra romântica, guitarra bonita e marcante, refrão emocionante e ganchudo. Enfim, vocês conhecem. "Foi mais profundo com você, me fez chorar mas fez viver, não vá para Nova York, não, não vá".


'De repente California' também é sempre presente em shows e nas muitas coletâneas do Lulu. Surf music sem ser surf music. É uma parceria com Nelson Motta, um quase tango com guitarra slide quase havaiana de novo, aqui num solinho marcante e redondinho. Mais tarde, quando todos estavam fascinados pelo Buena Vista Social Clube, Lulu pôde dizer convicto "eu já tinha feito isso".


Aqui vem uma das menos conhecidas, autoria de Rita Lee pra Scarlet Moon (é esse o nome da música), mulher do guitarrista eclético e inventivo. Pop, cheio de 'uh uh uuuuuhs'. Solinho com drive, como não mais se vê.


'Sirigaita', balançada e simples, é uma das esquecidas no tempo. Fala sobre aquelas pessoas a quem você faz muito e recebe muito pouco. Mas como ele diz, "fui teu cão e gostei". Solinho tipo guitarra pica-pau, atípico.


'Palestina' não tem na minha 'versão' do disco...mais um que eu baixei e não tenho o disco. Na minha versão tem 'Bole-bole', com uma bateria eletrônica, uma música estranha.


'Areias escaldantes' é uma pérola do disco, às vezes ele toca ao vivo ou em acústicos. Guitarrona grande e limpíssima, letra sobre o deserto (ou sobre praia?), épica sem ser grandiloqüente.


Aí vem o calcanhar de Aquiles do disco (na verdade nem sei se tinha no disco original, sei que foi single antes do disco, em 1981): uma versão de 'Get back' do Beatles, aqui 'De leve', com uma letra sobre Chuchu, que saiu de Pelotas. Vale a chacota, né? Mas é divertida e tem um baixão bem legal, além de ser bem diferente do country original.


Quando saiu em cd, trazia também 'Tesouros da Juventude' e 'Fricção científica'.

(Dão)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cantando na chuva, no chuveiro...


Janeiro de 1985. Cidade do Rock. Rio de Janeiro, Brasil. Nova República. Embarcamos na véspera na rodoviária de Campinas para acordar no dia seguinte na cidade maravilhosa. Esperamos deitados num banco de praça qualquer até que abrisse o primeiro McDonald’s para tomarmos o café da manhã. Na época era novidade, não tinha isso em Campinas...


Não lembro mais como nos foi permitido ir ao show, éramos dois de quinze, um de dezesseis e o caçula com catorze. Equipamento? A roupa do corpo, uma mochila com uns sanduíches e (talvez) água, e os ingressos. Eu queria ver o Queen, Deco (não época não existia o mito Darciley), o B52’s. Celo e Duda queriam ver o Queen, o B52’s, o corcovado, o pão-de-açúcar, o Mc... tudo!


A idéia era assistir a uma única noite de show, e voltar no próximo ônibus, assim não havia necessidade de pernoite. Nosso hotel seria o Cometa. Kid Abelha abriu de forma sofrível, tinham um único disco, com musiquetas fraquíssimas e a Paula Toller ainda não era o que a gente vê hoje. Foi perfeito pra gente dar uma banda pelo ambiente enlameado, comer alguma coisa, comprar um boné de recordação, banheiro...


Lulu Santos fez um show impecável, ainda que na época eu conhecesse muito pouco da sua música. Curioso é que ainda hoje, este foi o único show dele que eu fui. Na seção internacional, uma totalmente dispensável banda de mulheres chamada Gogo’s e depois o B52’s que fez um ótimo show também, mesmo que a gente só conhecesse Private Idaho e Legal Tender (O Deco que tinha o disco, cantou o show todo). Fechou a noite o Show do Queen, uma coisa inacreditável, com aquelas engrenagens gigantes e Freddie Mercury foi rei do Rio por uma noite... Durante muito tempo aquela foi a melhor noite da minha vida!


Mas o melhor da melhor noite da minha vida nem foi o show em si, mas foram os detalhes. A volta de Jacarepaguá para a rodoviária num ônibus lotadaço, onde dormimos literalmente em pé, uns apoiados nos outros (não havia a necessidade de se segurar). A roupa inteira cheia de barro, a gente na janela do ônibus de ida, fazendo chifrinho e gritando “Ozzy” pros carros que passavam nos ignorando solenemente na estrada. E 48 horas livres e soltos, deixando os pais preocupados na torcida de que seríamos capazes de ir e voltar (salvos. Sãos?).


O outro detalhe veio depois do show do Lulu Santos (ou terá sido antes? não me lembro mais...). No palco um box completo com chuveiro toalha e tudo mais. Luzes anunciam que está para começar o show e... montado numa vespa Eduardo Dusek adentra freneticamente o palco para cantar no banheiro, berrar no chuveiro e mostrar que o Rock era in Rio!!! Artista único, é a cara do Rio de Janeiro (hoje vejo isso). Misto de Casseta e Planeta com novela das oito, maracanã com IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), preto com alemão, feijoada com sashimi, música, teatro, rock, samba, bolero e forró. Um anjo que havia caído do céu poucos anos antes num desses festivais da TV, Nostradamus anunciando que o mundo estava acabando, Dusek aproveitou o Rock in Rio para fazer uma retrospectiva de sua (então curta) carreira, onde o disco de destaque é este Cantando no Banheiro. Disco preparado com cuidado, conta com a participação especial dos Miquinhos Amestrados de João Penca que dão o clima Rock’n’roll das antigas, a faixa título conta o “drama” do moleque trancado no banheiro enquanto papai bate na porta/a maçaneta entorta/ eu não abro! Quem não se lembra? Confesso que eu mesmo não me lembro do disco todo... E, além desse Cantando no Banheiro, mais duas obras-primas encontramos aqui.


Barrados no Baile é muito feliz, as rimas são longe das óbvias (Mas foram barrados no baile/ tratados como maus-elementos/ lá dentro rolando Bob Marley!/ cá fora por favor documentos....) e impossíveis de serem cantadas sem aquele sotaque do riiiiioo... E o Rock da Cachorra é simplesmente genial (apesar de ser do Léo Jaime, ô disinfiliz): Troque seu cachorro por uma criança pobre/ sem parente sem carinho/ sem rango sem cobre.... Espetada na Classe Media Way of Life, é a versão do nascente rock brasileiro dos anos 80 para o Bolsa-família. E o Rock in Rio foi minha primeira inesquecível aventura adolescente.


[M]

sexta-feira, 3 de julho de 2009

As Aventuras da Blitz (1982)


Aquele seria o primeiro show da minha vida. Mas não foi... Embora fossem ficar populares, nos idos de 1982, numa cidade do interior, um show de rock era sinônimo de drogas e violência (e o sexo?). Como cantava a Blitz em De Manhã: “Eu tinha doze anos, ainda me lembro do dia, eu escutava o que mamãe dizia. Ela dizia: tome cuidado, tenha juízo, esse mundo é o cão”. Assim, do alto dos meus doze anos, fui obrigado a passar aquele final de semana chuvoso na fazenda.
Nós (eu, meus irmãos, primos e amigos) sempre passávamos as férias lá, no maior esquema Sítio do Pica-Pau Amarelo. A gente jogava bola, nadava no rio, andava pelas matas, caçava cobra, morrendo de medo de achar, montava bicicleta pelas estradas enlameadas, passeava de canoa, versões antigas do rafting, trekking, mountain bike, etc. que se praticam hoje. Bom demais!, mas naquele fim de semana parecia mais um castigo...
Pra minha sorte (ou azar), a rádio local transmitiu o show e pude curtir (sofrer?) a energia da banda, que já nasceu no auge. Eu me lembro bem da primeira vez que os vi, no Fantástico. As gírias, as ironias, a temática adolescente, as referências pop (prestatenção na capa), mensagens subliminares, a conversa de mesa de bar, Fernanda Abreu deliciosa, e Evandro Mesquita, que com seu jeito Evandro de ser, perpetuado depois em dezenas de papéis na televisão e cinema, esbanjava carisma. Era tudo muito legal, muito diferente! Para quem cresceu ouvindo os discos dos pais (a MPB dos anos 70), não podia haver nada mais libertador, porque era a primeira vez que eu me identificava com uma banda/artista que era só meu.
Sei que a Blitz ficou careta, chata, as piadas foram perdendo a graça e eles acabaram pousando com Papai Noel num Maracanã lotado de crianças, criança que eu não queria mais ser. Mas passados quase trinta anos, talvez eu também esteja ficando careta, chato e minhas piadinhas ficando repetitivas. Sem problemas, o que importa é que minha namorada ainda ri delas e que a Blitz tem seu lugar reservado dentre as bandas que marcaram a minha vida. Eu não sabia, mas, como num rito de passagem ao contrário, naquele fim-de-semana eu comecei a virar adolescente.

As Aventuras da Blitz

1. Blitz cabeluda. Começa com uma vinheta, tipo Sgt. Pepper’s: “Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro”. Clássico!
2. Vai, vai Love. Fala da gata querendo ir pro Baixo Leblon e o cara argumentando: “Eu disse que não era bom. Acho Leblon-todo-dia, vicia. E você perde a classe, vadia. Desvaloriza o passe maninha”.
3. De manhã (aventuras submarinas). O cara acorda, preguiçoso, sol já alto, e passa o dia sonhando com musas de cinema, enquanto fica de bobeira. Antológica!
4. Vitima do amor. Um rock romântico, cheio de vocais legais.
5. O romance da universitária otária. De versos antológicos: “Era boa em línguas, mas não sabia beijar”; “Ser ou não ser, o que será que serei, o que será que eu vou ser”; “Eu não queria falar, mas agora vou dizer: todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”.
6. O beijo da mulher aranha. Nada especial, mas me amarro nela, acho que pela melodia, os vocaizinhos, sei lá.
7. Totalmente em prantos. “Todo vestido bonitinho e não tenho onde cair. E sem nenhum lugar pra ir”.
8. Eu só ando a mil. Começa com uma vinhetinha, também: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração tchanraaammm Um som que marcará toda uma época. Vocês verão Blitz no melhor papel de sua carreira. Blitz amando, sofrendo, chorando e tocando como jamais alguém ousou tocar em toda história do seu rádio, vitrola ou gravador”. Perfeito! Uma das minhas preferidas.
9. Mais uma de amor. Mega sucesso! “Essa é mais uma daquelas manjadas estórias de amor que já aconteceram comigo, com você e com todo mundo”. A do geme-gemiiiiiiiii, uuuuuuuuuu!!!
10. Volta ao mundo. Boba, mas era engraçada. “Eu e meu amigo Julio. Julio, o tal do Verne. Dando a volta ao mundo”.
11. Você não soube me amar. “Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na ruuuuuaaaa”. Precisa falar mais?
12. Ela quer morar comigo na lua. O disco ainda tinha isso, duas músicas censuradas por causa de palavrões. Era a glória! No vinil, as duas últimas músicas vinham arranhadas, pra gente não poder ouvir. E essa nem sei por quê. Talvez porque falava “bundando”.
13. Cruel, cruel, esquizofrenético blues. Essa é a outra censurada. Fala de brilho... nos olhos. E da empregada que pegou no peru do marido. No peru de Natal, lógico. Tá, tudo bem, lá pelas tantas rola um “puta que pariu”.
(LM)

domingo, 29 de março de 2009

Barão vermelho, o primeiro (1982)


E pensar que a dupla Cazuza & Frejat (‘o mais próximo de Jaggers & Richards que o rock brasileiro jamais chegou. Feitos um para o outro’ conforme Arthur Dapieve) só começou a nascer devido a um fracasso do grupo, um show furado na feira da Providência, no qual a produção não providenciou amplificação...
De posse de uma fita demo, Ezequiel Neves (um Barão de fato) convenceu Guto Graça Mello de que tinham boa coisa em mãos. Difícil foi convencer o diretor da Som Livre, João Araújo, pai de Cazuza. Mas assim foi.
A gravação do primeiro álbum foi tumultuada, muita gente no estúdio, Cazuza muito doido tendo problemas no andamento. Mas salvou-se, e foi lançado em 27/09/1982, um dia depois de ‘As aventuras da Blitz’.
Mal gravado, mas com muitas qualidades. Aproximava-se do amadorismo no melhor sentido, músicos inexperientes e muita vontade.
Afinal, um disco que tem ‘Todo amor que houver nessa vida’ necessariamente é um clássico.

‘Ser ter pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia’

Depois Caetano tocou essa música no show de seu disco ‘Uns’, elogiando Cazuza e criticando as rádios que não tocavam o Barão. Havia aí um pedido de desculpas ao enciumado Cazuza que jogou uma mesa pro alto ao ver Caê se desmanchando pelo seu namorado...mas isso está parecendo Caras.
Mais tarde, com mais uma benção da MPB – Ney Matogrosso (ex namorado de Cazuza, olha a Caras aí de novo) gravou ‘Pro dia nascer feliz’, finalmente o Barão seria tocado nas rádios.

O Barão era formado por 4 colegas dos cursos de música da Escola Pro Arte: Guto Goffi, Maurício Barros, Frejat e Dé. Chamaram Leo Jaime pra cantar que, achando o grupo ‘esporrento’ demais, indicou Cazuza.
Os caras, como bem definiu Ricardo Alexandre, ‘conseguiam, instintivamente, encontrar um elo perdido entre o blues americano e as canções de dor-de-cotovelo de Dolores Duran, entre os gritos hippie de Janis Joplin e o resmungo tosco do punk; fazia a ponte entre os riffs herdados dos Rolling Stones e a esperteza das esquinas cariocas. E as letras uniam a marginalidade cosmopolita de Lou reed à boemia de Lupicínio Rodrigues’.
Finalmente A Banda de Rock brasileira. Ou conforme o citado Ezequiel Neves ‘rock sem frescura, sem nada de bem-comportado, garagem mesmo’.

Mas vamos às músicas:
‘Posando de star’ inicia bem, com uma bateria e o vocal característico do Cazuza, depois vira um rock básico e animado.
Aí o álbum cresce, ‘Down em mim’ é uma belíssima balada, pena que pouco executada. Letra típica (‘da privada eu vou dar com a minha cara de panaca pintada no espelho e me lembrar sorrindo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados’) e bonito solo blues de guitarra limpa do Roberto Frejat!
‘Conto de fadas’ mantém o pique, e ao contrário da inspiração citada de fossa, mostra que a solução dessa geração era diferente. Se não deu certo, segue a vida.
‘Billy Negão’ estava na demo original, legal, animada, bem-humorada.
‘Certo dia na cidade’ começa instrumental, depois fica meio igual, mas dá uma mudada e vem mais um solo inspirado.
‘Rock’n’geral’ segue no pique, com solinho de teclado e tudo, uma declaração de princípios.
‘Ponto fraco’ é uma das melhores do disco, arrastada e malandra, uma letra que diz tudo (‘todo mundo tem um ponto fraco, você é o meu, por que não?’). Depois eles regravaram no ‘Ao vivo’, mais pesadona.
‘Por aí’ é mais uma declaração de princípios doidona, ouça e descubra de novo...
‘Todo amor que houver nessa vida’ dispensa comentários, poesia e rock’n’roll ao extremo.
E aí fecha com chave de ouro: ‘Bilhetinho azul’, tchu tchu tchuru.
(Dão)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Música e Objeto - Língua de Trapo (1982)


O time de oito músicos do conjunto Língua de Trapo desfila uma obra prima que inclui, samba, choro, rock, baladas, tango, moda de viola, bolero e discothèque... Exigindo, além da instrumentação básica de banda, outros menos ortodoxos.... Entre os convidados especiais, Zé Rodrix e Tico Terpins completam o time liderado pelos vocais de Pituco e Laerte Sarrumor (Uma vez, num show deles caí na besteira de perguntar se Sarrumor era apelido ou sobrenome. Ele disse que era sobrenome, “Sarro do meu pai e humor da minha mãe”...).

O LP originalmente verde com rótulo amarelo inicia com uma melodia suave de cordas que parece anunciar a história da dona baratinha. De repente o narrador anuncia: Em audição especial, o conjunto... Língua de Trapo!

Este é o tipo de detalhe que torna este disco tão especial. Não só pela seleção musical que apresenta (e já vamos a elas, as músicas), mas pelo tratamento dado ao encarte, à capa e ao LP em si. Detalhes irreconciliáveis com a era do MP3, e até mesmo, pasmem, do CD! O encarte do LP vem com as letras cifradas para acompanhar no violão (muuuuuito antes da Marisa Monte) e com passinhos de dança! Na época, ainda sob o manto do governo militar, os LPs lançados no Brasil vinham, obrigatoriamente, com o carimbo “Disco é Cultura”, carimbo que foi substituído nos discos do Língua por “Disco é Chato”, “Disco é Furado”, “Disco é o Cassete”, “Disco é Supérfluo” (este último faz lembrar a taxação extra que o governo colocou sobre produtos na época taxados como supérfluos, entre os quais se encaixava os discos).

O disco abre com Burrice Precoce, história de amor que conta o que vem depois do final feliz:

Ao lhe pedir em casame-en-to, esqueci de lhe de dizer....

que eu não sou o rapaz norma-al... que você esperava ter...


A levada é de pop-brega irresistível. Segue um Régui Espiritual, catequizando o ouvinte:

Regue sua alma, lave seu espírito

Com límpidas, translúcidas, bolhinhas de amor...


Tragédia Afrodisíaca é um choro que narra a desventura do sujeito que sai “à caça“ sonhando com uma chacrete para terminar a noite em grande estilo. Pra evitar humilhação nosso protagonista decide forrar o estômago com tudo o que é (supostamente) afrodisíaco, catuaba, ovos de codorna, tutano (para aumentar minha energia! Ele confessa, pra lá de mal intencionado)...

Quando eu inda queixava-me da conta lá no hall de entrada aponta

Um monumento de guria (cinco de frente, três de esguia)


Pois bem, nosso herói não perde tempo e parte logo para ação, atacando
a nora que mamãe pediu a Deus num táxi que conduz o fogoso casal pro seu chatô em Santo Amaro (a ceia foi no Bixiga, de tal forma que no ponto em que estava nosso herói não dava mesmo pra esperar chegar em casa...). E então, a tragédia se configura:

Depois de mordiscar a sua nuca, vi que ela usava peruca

E que seu nome era João (nas horas vagas, Conceição...)

Xote Bandeiroso é uma homenagem panfletária, música de campanha mesmo para um então candidato ao governo do estado de SP, um nordestino chamado Severino, que depois de ser eleito o “Operário Padrão” (lembram disso?) passa por um processo de politização que inclui a perda de um dedo na prensa e o endurecimento nas negociações com a Fiesp (qualquer semelhança não é mera coincidência). A música termina com o utópico sonho socialista,

Mas eu tenho confiança que esse Brasil-criança um dia inda vai ver

cada um se eleger o Operário Patrão

E esse xote pra lá de bandeiroso se confirmaria, pela metade, aos trancos e barrancos, vinte anos depois... com Severino tornando-se ele, o “operário patrão”.

Concheta é a música clássica do Língua de Trapo. Se alguém conhece só uma única música do Língua, há de ser esta. Uma balada setentista a la Odair José (onde seu lado mais trágico é transformado em cômico), inicia com um lento lick de guitarra, grudento que só, que te ganha já no comecinho. Um órgão anacrônico acompanha tornando a canção ainda mais sublime. Concheta é convidada pelo nosso herói para um banquetão no ristorante do Grupo Sérgio (repare como o tema gastronômico se repete...), mas ele parece ter outras intenções:

e ocê parlô per me: facchiano I'amore lá no meu beliche.

E eu te diche: má logo agora que misturei cocomero com aliche,

ocê vem me falá em amore,em séquiço,

logo agora que eu tô com una bruta dolore no duodeno...

E ocê parlô per me: vá! má me toma um sar de fruta Eno!

O lado A terminaria com esta chave de ouro se não fosse por um detalhezinho que não cabe na era do MP3, sequer do CD. AO final de Conhcheta, quando você se prepara para trocar o disco de lado, entra o coro pedindo:

Vira, vira, vira,

Vira, vira, vira...

Enquanto que o lado B começa com:

Virô!

E só então toca Xingu Disco, a primeira faixa deste lado... Como o próprio nome sugere, esta é uma canção disco, a la Frenéticas (com uma produção bem mais modesta), em que o tema é a aculturação dos povos indígenas. O que tinha obviamente tom de crítica na época, hoje pode passar até por elogio ao processo.

A minha irmã foi trabalhar na Zona

Franca de Manaus, no comércio de japona

Peri, meu mano, é campeão de fliperama

Meu pai é revendedor dos produtos da Brahma

E se não fosse o milagre brasileiro

Os meus parentes inda eram seringueiros

E eu não seria presidente da Brazil

United Corporation Bauxita and Steel

O Que é Isso Companheiro? toma emprestado o título do livro do Gabeira e conta a história de dois camaradas que foram confundidos com terroristas quando tentavam assaltar um banco. A levada é de música caipira de raiz, com viola e acordeão. Vampiro S.A. é mais uma ode panfletária ao socialismo, comparando o empresário a um vampiro sanguessuga. A levada é de um heavy metal lento a la Black Sabbath com destaque para as guitarras (ainda que a produção tenha deixado a música bem mais leve do que é costumeiro ouvir no metal pesado...). A introdução é feita num piano distorcido acompanhado de efeitos (que lembra 2000 Light Years from Home dos Stones) que deixa o clima ainda mais sombrio para acompanhar a letra:

Monstro asqueroso de horrenda feição

Sou um cadáver em decomposição

Me ergo da tumba já putrefato

Mais tenebroso do que o Nosferato

Romance em Angra é um bolero ecológico onde um casal, literalmente desfeito e deformado, lembra seus áureos tempos antes do acidente na usina nuclear. E o disco termina (musicalmente falando) com Quem Ama Não Mata, música censurada na época e que na versão que eu tenho em LP é completamente instrumental (os vocais foram suprimidos). Este tango conta uma história de amor e adultério, e o protagonista recorre à mamãe, golpe baixo, pra falar mal da sua mulher:

Mamãe, mamãe, venha ver a sua nora

Ela sempre me ignora depois grita o dia inteiro

Só pra me deixar cabreiro:

- Eu vou dar pro tintureiro, eu vou dar para o leiteiro, eu vou dar para o padeiro

Sua nora eu afoguei lá no bidê

Agora ela fica resmungando

E, às vezes borbulhando inda ouço ela dizer:

- Eu vou dar pro encanador (glub! glub!)... Eu vou dar pro encanador (glub! glub!)

Depois de uma rápida pesquisa de opinião pública sobre o conjunto Língua de Trapo, o disco termina com uma voz incompreensível recitando alguma coisa em russo, búlgaro ou algum dialeto eslavo perdido. Bem, pelo menos esta é a impressão, porque se você desligar a “vitrola” (que é um aparelho que toca discos de vinil) e rodar (manualmente!) o disco ao contrário, a mensagem codificada se esclarece:

Você está estragando a sua vitrola, você está estragando a sua vitrola!...

É. Existem coisas que não dá pra escutar em CD, muito menos em MP3. [MATEUS]

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos? (Cores Nomes Caetano Veloso - 1982)

Eu disse!, e a prova tá aqui: este post não é apenas uma provocação ao post do "Cê", é acima de tudo, uma opinião (mas se alguém postar "Araçá Azul" eu não brinco mais!...). Bem, vamos ao que interessa: Cores Nomes, disco do Caetano de 1982. Meu disco favorito do Caetano. Porque? nem sei... Talvez porque me lembre da casa da minha irmã, este disco, Luz (Djavan, que em breve será postado), e 4Way Street (CSN&Y). Ou talvez por que o disco seja real e simplesmente muito bom!!! Abre com "um amor assim delicado, você pega e despreza!", caetano gritando uma queixa à mulher amada, "não devia ter despertado, ajoelha e não reza". Quem é que já não se sentiu assim? A música tocou demais? Sorte nossa! E pros enjoados: isso foi há mais de 20 anos, pode sentar e escutar de novo, tranquilamente. Depois, pra arrebentar, "Ele me deu um beijo na boca". A música é um show à parte da banda que o acompanha, em especial um contra-canto árabe, cortesia de Jane Duboc. Trem das Cores, "a seda azul do papel que envolve a maçã", é a próxima, uma das músicas mais bonitas do caetano. As três próximas faixas que fecham o lado A dão um descanso ao ouvinte, o que arrebenta mesmo são essas três primeiras... Descansou? Levantou, mudou o lado e lá vem "Cavaleiro de Jorge" tirando o fôlego de novo. Caetano interpreta Sina de Djavan em seguida, e essa música casa muito bem com ele. Depois vem a música de amor mais bela já escrita em português, "Meu Bem, Meu Mal". Muito mais exagerada que o exagerado de cazuza, muito mais desesperado que o amor do maestro por Luiza, "você é meu caminho, meu vinho, meu vício desde o início...". De novo ele desacelera pra terminar o disco, preguiçosamente, com Gênesis, Sonhos (de Peninha) e Surpresa...
Cores de vários tons e matizes. Nomes de gente as mais diversas. Caetano puro, sem gelo ou limão. [MATEUS]

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Cavalo doido, cavalo de pau - Alceu Valença - 1982

Alceu Valença já tinha uma carreira quando este disco apareceu em 1982. A diferença é que com este aqui, ele se tornou um artista de projeção nacional alavancado pelo sucesso de Morena Tropicana e Como Dois Animais. Mas o disco vai bem além desses dois "hits". Rima com Rima com seu ritmo acelerado, rimas e aliterações é quase incompreensível, mas é irresistível. Pelas Ruas que Andei é um passeio por Recife, literalmente. Alceu enumera ruas e bairros da capital pernambucana procurando um amor perdido. Azar dele. Sorte nossa. Ainda tem a música que dá nome ao LP (sim, LP. Até onde eu saiba esse disco não saiu em CD), um blues nordestino. Martelo Alagoano, olha é não sei que raio de ritmo é esse aqui, mas é uma baita música. O disco ainda traz Lava Mágoas e Maracatu, num tempo que este ritmo não passava nem perto de qualquer coisa que tivesse divulgação nacional. Alceu retornaria em 1983 com outro excelente disco (Anjo Avesso, a pintar aqui no blog, num futuro post), reforçando ainda mais a parceira com o guitarrista Paulo Rafael.
[MATEUS]