quarta-feira, 19 de novembro de 2008

No Paraíso... Céu (2004)


Que a música brasileira é cheia de grandes cantoras, belas vozes, elegantes, sensuais, e de muito bom gosto não é novidade. Mas quando uma nova cantora aparece com repertório novo, banda nova, cara nova, tudo novo, e de muito boa qualidade é sempre uma delícia. É o caso da Céu, que apareceu com este disco homônimo de 2004, onde a mistura da tradição, violão, cavaquinho, pandeiro e percussão típica do samba, com a modernidade de scratches e loops eletrônicos convive com tamanha suavidade que mal se percebe a inusitada mistura.


Em Lenda, Céu canta suavemente uma ameaça a príncipe encantado: num instante você vira sapo. É ela quem manda, e já avisa de saída. O choro Malemolência é executado com scratches acompanhando cavaquinho, e em Roda ela adverte caiu na roda ou acorda ou vai rodar... Lúcio Maia (ver posts anteriores, sobre o Futura da Nação Zumbi) é convidado para tocar guitarra nesta faixa. Rainha é minha música predileta, coincidentemente é a única que ela assina sozinha a composição. A música é levada por um baixo hipnótico que comanda o ritmo da seção percussiva e o naipe de metais. O refrão em forma de pergunta-resposta é um primor e na música toda, Céu contrapõe força e suavidade magistralmente.


10 Contados é um lamento acústico (na harmonia, porque o ritmo é recheado de loops eletrônicos) de saudade, bem-humorado e Céu faz voz e contracanto, ficou lindo! Segue Mais um Lamento, de saudade como o anterior, só que mais sóbrio. Neste “mais um lamento entre tantos já feitos”, Céu é mais mulher que a criança-adolescente do anterior. Concrete Jungle é um dos dois covers do disco, e ficou sensacional. Céu mais uma vez suaviza a Selva de Concreto e a ginga lenta do reggae fica mais suingada, mais abrasileirada aqui. Lúcio Maia, de novo, ajuda nas guitarras ao lado parceiro e produtor Beto Villares.


Véu da Noite é quase um jam session da banda já que o verso da música é mínimo. Uma concessão justa, já que a música ficou excelente, muito bem temperada na seção rítmica e com o balanço certo de guitarra, teclado e sopros. O chorinho Valsa pra Biu Roque vem em seguida, apresentando um formato mais tradicional só de voz, violão e bandolim. Ave Cruz é uma queixa, meu deus faça o favor de retornar o recado... o meu cabelo insiste em acordar despenteado. Até pra se queixar ela mantém o bom-humor. Essa aparentemente foi a música de rádio do disco, que apesar da roupagem eletrônica é um samba.


De João Bosco e Aldir Blanc vem O Ronco da Cuíca, que ficou excelente nesta roupagem moderna, mostrando que o caminho que seu som indica encaixa muito bem na tradição da MPB. O disco termina com o sambinha Bobagem e o delicioso Samba na Sola, um elogio ao povo brasileiro, antes de uma versão remix de Malemolência. A foto da capa ilustra o primeiro verso de Bobagem: minha beleza não é efêmera como o que eu vejo em bancas por aí... Só essa foto já vale o disco. [MATEUS]


terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Futuro é Vórtex - Os Replicantes (1986)


Entramos na segunda metade da década de oitenta e o rock nacional (BRock, segundo alguns) já é um fenômeno de massas. Gravadoras e bandas ganham muito dinheiro. Blitz, Barão Vermelho, Kid Abelha, Ultraje a Rigor, RPM, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, todos têm grande espaço na mídia e dominam corações e mentes. Mas o que fazer se você e sua banda estão fora do eixo Rio-São Paulo, onde "tudo acontece"?

Simples. Mude-se para o eixo. Foi exatamente isso que fizeram quatro jovens gaúchos na virada de 1985 para 1986. Com um contrato recém-assinado com a RCA, Os Replicantes (Wander Wildner, Cláudio Heinz, Heron Heinz e Carlos Gerbase) instalam-se em São Paulo e gravam o seminal "O Futuro é Vórtex". Um disco fundamental, cru, uma aula de punk rock brasileiro.

Rápida explicação - o nome da banda é uma referência aos andróides do filme "Blade Runner" (1982), de Ridley Scott, no qual os replicantes do filme eram uma cópia fiel dos seres humanos, porém mais fortes e ágeis. O filme, por sua vez, baseou-se na obra "Do androids dream of eletric sheep?" (1968), de Phillip K. Dick.

"O Futuro é Vórtex" contém quatorze faixas. É nítida a influência de Sex Pistols, dos Ramones e da cena hardcore californiana. Rock cru, sem frescuras. Dentre as faixas, uma se destaca - um clássico na mais perfeita acepção da palavra. Uma música definitiva. O punk rock total - a canção que eu queria ter composto e gravado. Duvida? Então ouça. Sem preconceitos ou esnobismos, por favor.

Com cerca de três minutos e meio de duração, "Surfista Calhorda" tornou-se uma espécie de "hino punk nacional". Ela representa para o rock nacional o mesmo que "Anarchy in the UK", dos Pistols, para o rock mundial. No caso brazuca, foi a gênese de uma revolução que jamais aconteceu.

"Rack na caranga muito louca pra dar banda,
Cheque na carteira recheada de paranga,
Prancha importada assombrando a meninada,
Corpo de atleta e rosto de Baby Johnson.

É, mas quando entra na água.
É, na primeira braçada.
É, ele não vale uma naba.
Ele não surfa nada, ele não surfa nada!

Tem duas Surf Shops que só abrem meio dia,
Vive da herança milionária de uma tia,
Vai pra Nova Iorque estudar... advocacia!
Ah, Surfista Calhorda,
Vai surfar noutra borda"

Adolescente, muito adolescente, dizem os críticos (e até mesmo os não tão críticos assim). De fato, não há como discordar dessa constatação. Mas o rock´n´roll não passa disso, não? Energia adolescente feita para adolescentes de todas as idades. Dos 8 aos 80.

É isso. Long live rock´n´roll.

André Xampu, fã d´Os Replicantes

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Futura - Nação Zumbi (2005)


Uma das piores coisas que podem acontecer a uma banda é perder seu líder, seja cantor, guitarrista, compositor. Poucas conseguiram sobreviver ou se reinventar. Rapidamente cito Barão Vermelho e Rolling Stones (sim, o líder era Brian Jones, que era a principal cabeça da banda no seu início e que fez uma viagem sem volta), mas para quem tinha Jagger/Richards, era até covardia. Com o lançamento de Futura, a Nação Zumbi também pode ser incluída nesta lista.

Era difícil ver vida após a morte de Chico Science. Um dos idealizadores do movimento Mangue Beat, grupo de artistas recifenses, músicos, cineastas, agitadores culturais, que aplicavam o que havia de melhor da autofagia. De fato, a banda passou uns anos curtindo a dor, labendo a ferida, e tocando e gravando sempre, vivos acima de tudo.

Mas também, convenhamos, a tarefa também não foi assim tão complicada para uma banda que tem Lucio Maia, um dos guitarristas mais injustiçados do rock brasileiro. A crítica, que não se furta em endeusar “gênios” a todo momento, panelinha fácil, comprada ou na brodagem, devia reconhecer mais explicitamente o valor desse cara. Lucio Maia é o homem do riff certeiro, memorável, sempre criativo, surpreendente, ainda mais agora que está com mais liberdade para arriscar, com mais espaço para criar.

A percussão também ainda está lá, mas na falta do líder, foi obrigada a repensar seu papel. Antes base das músicas, porradão, passou a compor, incorporou novos instrumentos, dialoga melhor com a bateria e explora a música eletrônica sem medo de ser feliz. O vocal de Jorge Du Peixe lembra muito o de Chico Science e se houve perda de carisma no palco, fica um ar de familiaridade.

Sua herança indubitavelmente está lá, assim como as tradições nordestinas e a urbanidade recifense, mas de maneira mais sutil que antes. Como toda revolução, no início tudo era mais explícito, panfletário, escancarado. Agora eles sabem que isso não precisa mais ser dito, se reconstruíram e se tornaram uma banda que não nega nem um centímetro do que já foi, mas deixa claro que está olhando pra frente.

Há dois anos fui a um show da turnê do Futura, que no nome já denunciava o que pensava a banda, e fiquei hipnotizado desde o primeiro riff, meio stoniano, meio surf music, de Hoje, Amanhã e Depois. São os mesmos que abrem o disco e depois é uma viagem só: “Correndo atrás do amanhã e depois”; “Outro endereço desse mesmo lugar”; “Sempre daqui pro depois, já tenho o que quero pra chegar onde vou”; termina com Futura, e no meio tem Na Hora de Ir, Respirando, e Vai Buscar, todas indicando movimento, apontando pra frente. Mas tem também “Zumbi era Lampião, Lampião era Zumbi”, de Memorando, pra mostrar que eles não esquecem quem são, de onde vieram. Futura é o testemunho de uma banda que sabe quem é, o que quer e onde quer chegar.

Faixas:
1. "Hoje, Amanhã e Depois"
2. "Na Hora de Ir"
3. "Memorando"
4. "A Ilha"
5. "Respirando"
6. "Voyager"
7. "O Expresso da Elétrica Avenida"
8. "Nebulosa"
9. "Sem Preço"
10. "Vai Buscar"
11. "Pode Acreditar"
12. "Futura"

Luiz Marcelo, Baiano, Luma, LM

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Bloody!!!!! - (Roots - Sepultura - 1996)



Roots

Hoje comento um disco atípico, brasileiro sim, mas quase todo ‘cantado’ em inglês. É um marco no metal mundial, influenciando tudo o que foi feito de lá pra cá nesta área restrita e fechada do rock.
Esse disco também está citado no livro 1001 original, sendo que o Sepultura tem o álbum ‘Arise’ também na lista.
O disco já começa na pancada clássica e obrigatória em todo show: ‘Roots bloody roots’, gritada a plenos pulmões pelo fundador Max Cavalera.
‘Attitude’ começa com um berimbau, tem efeitos de DJ, uma batida quebrada, passagens mais calmas, percussões muito legais. Foge totalmente da mesmice do metal. Tem um clipe muito legal com o pessoal do Brazilian Jiu-Jitsu, procure no youtube.
Entre as influências, além da percussão (muitas das quais a cargo do Carlinhos Brown) e DJs, o Sepultura traz nesse disco afinações baixíssimas, um tom ou dois tons e meio abaixo do padrão.
Segue ‘Cut-throat’, mais uma porrada com efeitinhos dissonantes e percussão na cara. Os solos fogem do padrão metal, abusando de alavancas e dissonâncias com wah-wah.
‘Ratamahatta’ começa com uma batucada e vozes do Brown e Max, seguindo numa letra fraca em português, mas é uma música empolgante. Também tem um clipe bem legal, com animação em massinha...
‘Breed apart’ vem com um riff de batucada e guitarra muito legal – que lembra a rítimica de tamborins em sambas, na seqüência vem uma música típica do Sepultura, com quebradas, um riff agressivo no refrão e uma passagem lenta e barulhenta no meio e no fim. A novidade fica por um diálogo entre berimbau e guitarra. Muito bom.
‘Straighthate’ começa com baixo e bateria, seguindo em harmônicos de guitarra estranhos e dissonantes, feedbacks de dar gosto em Hendrix, descambando pra paulada, lenta e com vocais distorcidos.
‘Spit’ é uma música mais típica, thrash, rápida, gritada, com uma quebrada no final.
‘Lookaway’ já é outro papo, começa com uma bateria arrastada, entra o instrumental pesado que some em seguida, entra uma voz etérea, umas vozes faladas, uns efeitos de DJs (DJ Lethal, do Limp Bizkit). A música tem particpações de Johnathan Dvis (Korn) e Mike Patton nos vocais. Diferente, mas não é das minhas preferidas.
‘Dusted’ é típica música heavy, com as quebradas atípicas do Sepultura.
‘Burn stubborn’ começa com uma guitarra tipo sirene, seguida de 2 outras em estéreo fazendo o paredão de peso e preparando o riff corrido em oitavas, típico de Andréas Kisser. O vocal se alterna entre gritado nas partes rápidas e gutural/sombrio nas partes mais lentas. Ao final entram os índios Xavante com um coral que tem tudo a ver com o peso.
E aí vem a música ‘Jasco’, com Andréas ao violão, bonitinha.
‘Itsári’ (que significa raízes) mescla esse violão e os vocais ‘Datsi wawere’ (canto de cerimônia de cura dos índios) dos Xavantes, além de uma percussão tocada pela banda ao vivo na aldeia Pimentel Barbosa, MT. Muito legal.
Seguem mais 3 excelentes músicas pesadas, ‘Ambush’ (com uma batucada meio nada a ver no meio), ‘Endangered species’ (arrastada e com mais uma batucada no meio, deve ser pra justificar o cachê do Brown) e ‘Dictatorshit’.
A edição nacional vêm com dois bônus: os covers ‘Procreation (of the wicked)’ dos suíços Celtic Frost e ‘Symptom of the universe’ do Black Sabbath, que já tinha sido lançada no NIB vol 1 (tributo ao Sabbath). Boa escolha e excelente versão, com parte lentinha e tudo (que o Max não canta, mas o Andreas improvisa no violão).
Em 2005 foi lançada uma edição comemorativa com um cd extra, contendo as covers já citadas, mais ‘War’ (Bob Marley), excelente versão!! Ainda vem com umas versões demo e mixagens alternativas de músicas do disco original.
Após esse disco, Max saiu. Depois de 10 anos, o Igor Cavalera também saiu, fazendo alguns trabalhos de DJ com a mulher. Também se reuniu ao irmão e lançou uma pancada do Cavalera Conspiracy. Max lançou vários discos interessantes com sua banda experimental/metal Soulfly. Os boatos sobre uma reunião continuam vivos.

sábado, 8 de novembro de 2008

Raça Humana - Gilberto Gil (1984)



O Gil é garantia de viagem e "RAÇA HUMANA" (1984) é mais que um passaporte, é a viagem em si. Gosto muito de muitas coisas do Gil porque ele tem a curiosa força da osmose: entra sem pedir licença, se instala em cada pedaço do nosso corpo. O Gil é corporal, atiça tudo que é involuntário. E o segredo é se entregar para essa viagem, deixar o corpo se entregar aos sons, as poesias, as vozes. E esse cd fala de mim, fala de você – como uma sonda bem fininha, Gil vai em cada esquina da gente e canta lindamente o que ele pensa ser a raça humana.

A sonzeira começa com “Extra II”! É um rock abusado, desses que a gente enche a boca pra cantar! É um rock que é meio reggae, enfim, todas as moléculas dessa música resultam numa química perfeita, sob as melhores CNTP. E o Gil pra lá de inspirado inverte a importância das pessoas. O ninguém se transforma em alguém especial e único. “Essa aparência de um mero vagabundo/ é mera coincidência/ deve –se ao fato de eu ter vindo ao seu mundo com a incumbência/ de andar a terra, saber porque o amor/ saber porque a guerra/ olhar a cara da pessoa comum/ e da pessoa rara.
Essa música atravessa como um raio!

“Feliz por um Triz” chega aos gritos! Outro rock de matar que conta com a participação de Wally Salomão no vocal, Pedro Gil na batera e Liminha na maravilhosa guitarra. Essa música canta a nossa condição precária de pertencer à raça humana… Canta também nossa criatividade em viver a vida, canta a nossa safadeza interior, o nosso lado mais vivo. O lado que vibra mesmo estando por um triz. Acho que isso que é a esperança! É estar por um triz e de repente fica tudo bom…
Essa música não é uma delícia? “Chama-se o aladim da lâmpada neon”…

Outra a mil por hora! Eita Gil acelerado! Tudo corre nessa música! Em “Pessoa Nefasta” Gil exorciza o mal, a cobiça, o inferno, o baixo astral, a alma bissexta. E com a ajuda de todos os guias, do senhor do bonfim, da guitarra, da percussão e duma batida aguda recheada de lindos vocais que viram instrumentos musicais, Gil garante que tu pessoa nefasta pode se ver livre das dentadas do mundo.
Essa música é um arraso… Aqui o espírito é obeso e vaga como um pedaço de tábua no mar. O Gil conseguiu com muita graça, rapidez e poesia, adicionar todos os ingredientes da crença e do vocabulário dos terreiros à nossa vida moderna.

“Tempo Rei” chega slowzinha, do jeito que tem sido, transcorrendo, transformando, tempo, espaço, navegando todos os sentidos. Taí, a beleza do tempo…
Essa música é um hino: uma delicada escolha de palavras simples, de frases feitas que numa outra ordem, ganham cor e nos enfeitiçam.
Essa música, com essa voz mansa do Gil, com esse vocal doce do Ritchie, dá vontade de ir pro quintal, acender um cigarrilho, deitar na grama e olhar para as estrelas…

Vamos fugir? Assim, devagarinho, discretinho, de mansinho… The Waillers emprestam sua energia ao que há de melhor no Gil! Como não poderia deixar de ser…
Essa música inaugura o lado malicioso, sensual e delicioso do “Raça Humana”. Um reggae que transpira desejo, um reggae “onde haja só meu corpo nu junto ao seu corpo nu”. “Vamos Fugir” eu quero ouvir mil vezes! E de novo, tudo muito simples, tudo lúdico, num amor-brincadeira. Tudo muito simples para falar do mais difícil: a entrega.

E em tempos de Obama, como não achar o máximo “A Mão da Limpeza”? Gil nessa música canta todos os rastros de um dos mais primitivos sentimentos humanos - o racismo. Com humor, ironia e uma musicalidade contagiante, a letra vai pontuando a vergonha, a mentira. O que eu acho incrível nessa letra é que ela não é ressentida. A sujeira ganha um sentido universal. Esse é o engajamento do Gil: o recado vem colorido, não é um recado preto no branco.

“Índigo Blue” inunda nossos ouvidos com a música de amor mais corporal que eu já ouvi. Um delírio, um arraso, uma coisa de enloquecer, exagero mais delicado e sensual impossível. “Índigo Blue” começa e você já tá de quatro!
O Gil faz nossa imaginação caminhar nas pontas dos pés pelo corpo feminino e depois pelo masculino como se esses corpos, de peles macias, fossem lindas paisagens… E ele vai cantando todas as nossas sensações durante a trilha. Covardia.
E tudo começa devagar, como se os corpos fossem terras estrangeiras, tudo sob o indigo blue. Mas aí os dedos ficam alegres e afoitos com a descoberta. Deleite puro! E os “músculos másculos dizem respeito/ a quem por direito carrega essa terra nos ombros/ com todo respeito”, vira “seu guardião, seu amigo/ seu amante fiel”. Ah…
Adoro o título!" Índigo Blue" é A estória de amor. Aquela em que a única voz que se pode ouvir vem do corpo. Em “Índigo Blue” são os corpos que viram amantes, mesmo que as mentes não queiram…

Depois de muito suar em “Índigo Blue”, “Vem Morena” chega alegre, com um baixo sacana e te convida de novo pra uma transa. É que para Gil (Luiz Gonzaga e Zé Dantas também), a Raça Humana é um espaço, um lugar, um ser onde acontece tudo – todos os sentimentos passam e param nessa estação. "Vem Morena” é uma música sem idade, ela veste qualquer um. Ela cutuca! E tem algo que me lembra Alceu Valença, acho que é pelo “approach” nordestino do fungado quente bem no pé do pescoço.

E Gil finalmente pulsa com sua “Raça Humana”. Todas as nossas contradições são traduzidas em beleza, em ferida acesa, em fogo e em saudade. Gil empresta palavras quase religiosas e constrói uma anti-prece. Da raça humana tudo se pode esperar – isso é o lindo e também o assustador. Mas para Gil somos a “Grande Síntese” – como num mosaico, onde diferentes cores se encontram num desenho único e possível.

É de esperança que estamos falando…
[ANDRÉA]


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Música e Objeto - Língua de Trapo (1982)


O time de oito músicos do conjunto Língua de Trapo desfila uma obra prima que inclui, samba, choro, rock, baladas, tango, moda de viola, bolero e discothèque... Exigindo, além da instrumentação básica de banda, outros menos ortodoxos.... Entre os convidados especiais, Zé Rodrix e Tico Terpins completam o time liderado pelos vocais de Pituco e Laerte Sarrumor (Uma vez, num show deles caí na besteira de perguntar se Sarrumor era apelido ou sobrenome. Ele disse que era sobrenome, “Sarro do meu pai e humor da minha mãe”...).

O LP originalmente verde com rótulo amarelo inicia com uma melodia suave de cordas que parece anunciar a história da dona baratinha. De repente o narrador anuncia: Em audição especial, o conjunto... Língua de Trapo!

Este é o tipo de detalhe que torna este disco tão especial. Não só pela seleção musical que apresenta (e já vamos a elas, as músicas), mas pelo tratamento dado ao encarte, à capa e ao LP em si. Detalhes irreconciliáveis com a era do MP3, e até mesmo, pasmem, do CD! O encarte do LP vem com as letras cifradas para acompanhar no violão (muuuuuito antes da Marisa Monte) e com passinhos de dança! Na época, ainda sob o manto do governo militar, os LPs lançados no Brasil vinham, obrigatoriamente, com o carimbo “Disco é Cultura”, carimbo que foi substituído nos discos do Língua por “Disco é Chato”, “Disco é Furado”, “Disco é o Cassete”, “Disco é Supérfluo” (este último faz lembrar a taxação extra que o governo colocou sobre produtos na época taxados como supérfluos, entre os quais se encaixava os discos).

O disco abre com Burrice Precoce, história de amor que conta o que vem depois do final feliz:

Ao lhe pedir em casame-en-to, esqueci de lhe de dizer....

que eu não sou o rapaz norma-al... que você esperava ter...


A levada é de pop-brega irresistível. Segue um Régui Espiritual, catequizando o ouvinte:

Regue sua alma, lave seu espírito

Com límpidas, translúcidas, bolhinhas de amor...


Tragédia Afrodisíaca é um choro que narra a desventura do sujeito que sai “à caça“ sonhando com uma chacrete para terminar a noite em grande estilo. Pra evitar humilhação nosso protagonista decide forrar o estômago com tudo o que é (supostamente) afrodisíaco, catuaba, ovos de codorna, tutano (para aumentar minha energia! Ele confessa, pra lá de mal intencionado)...

Quando eu inda queixava-me da conta lá no hall de entrada aponta

Um monumento de guria (cinco de frente, três de esguia)


Pois bem, nosso herói não perde tempo e parte logo para ação, atacando
a nora que mamãe pediu a Deus num táxi que conduz o fogoso casal pro seu chatô em Santo Amaro (a ceia foi no Bixiga, de tal forma que no ponto em que estava nosso herói não dava mesmo pra esperar chegar em casa...). E então, a tragédia se configura:

Depois de mordiscar a sua nuca, vi que ela usava peruca

E que seu nome era João (nas horas vagas, Conceição...)

Xote Bandeiroso é uma homenagem panfletária, música de campanha mesmo para um então candidato ao governo do estado de SP, um nordestino chamado Severino, que depois de ser eleito o “Operário Padrão” (lembram disso?) passa por um processo de politização que inclui a perda de um dedo na prensa e o endurecimento nas negociações com a Fiesp (qualquer semelhança não é mera coincidência). A música termina com o utópico sonho socialista,

Mas eu tenho confiança que esse Brasil-criança um dia inda vai ver

cada um se eleger o Operário Patrão

E esse xote pra lá de bandeiroso se confirmaria, pela metade, aos trancos e barrancos, vinte anos depois... com Severino tornando-se ele, o “operário patrão”.

Concheta é a música clássica do Língua de Trapo. Se alguém conhece só uma única música do Língua, há de ser esta. Uma balada setentista a la Odair José (onde seu lado mais trágico é transformado em cômico), inicia com um lento lick de guitarra, grudento que só, que te ganha já no comecinho. Um órgão anacrônico acompanha tornando a canção ainda mais sublime. Concheta é convidada pelo nosso herói para um banquetão no ristorante do Grupo Sérgio (repare como o tema gastronômico se repete...), mas ele parece ter outras intenções:

e ocê parlô per me: facchiano I'amore lá no meu beliche.

E eu te diche: má logo agora que misturei cocomero com aliche,

ocê vem me falá em amore,em séquiço,

logo agora que eu tô com una bruta dolore no duodeno...

E ocê parlô per me: vá! má me toma um sar de fruta Eno!

O lado A terminaria com esta chave de ouro se não fosse por um detalhezinho que não cabe na era do MP3, sequer do CD. AO final de Conhcheta, quando você se prepara para trocar o disco de lado, entra o coro pedindo:

Vira, vira, vira,

Vira, vira, vira...

Enquanto que o lado B começa com:

Virô!

E só então toca Xingu Disco, a primeira faixa deste lado... Como o próprio nome sugere, esta é uma canção disco, a la Frenéticas (com uma produção bem mais modesta), em que o tema é a aculturação dos povos indígenas. O que tinha obviamente tom de crítica na época, hoje pode passar até por elogio ao processo.

A minha irmã foi trabalhar na Zona

Franca de Manaus, no comércio de japona

Peri, meu mano, é campeão de fliperama

Meu pai é revendedor dos produtos da Brahma

E se não fosse o milagre brasileiro

Os meus parentes inda eram seringueiros

E eu não seria presidente da Brazil

United Corporation Bauxita and Steel

O Que é Isso Companheiro? toma emprestado o título do livro do Gabeira e conta a história de dois camaradas que foram confundidos com terroristas quando tentavam assaltar um banco. A levada é de música caipira de raiz, com viola e acordeão. Vampiro S.A. é mais uma ode panfletária ao socialismo, comparando o empresário a um vampiro sanguessuga. A levada é de um heavy metal lento a la Black Sabbath com destaque para as guitarras (ainda que a produção tenha deixado a música bem mais leve do que é costumeiro ouvir no metal pesado...). A introdução é feita num piano distorcido acompanhado de efeitos (que lembra 2000 Light Years from Home dos Stones) que deixa o clima ainda mais sombrio para acompanhar a letra:

Monstro asqueroso de horrenda feição

Sou um cadáver em decomposição

Me ergo da tumba já putrefato

Mais tenebroso do que o Nosferato

Romance em Angra é um bolero ecológico onde um casal, literalmente desfeito e deformado, lembra seus áureos tempos antes do acidente na usina nuclear. E o disco termina (musicalmente falando) com Quem Ama Não Mata, música censurada na época e que na versão que eu tenho em LP é completamente instrumental (os vocais foram suprimidos). Este tango conta uma história de amor e adultério, e o protagonista recorre à mamãe, golpe baixo, pra falar mal da sua mulher:

Mamãe, mamãe, venha ver a sua nora

Ela sempre me ignora depois grita o dia inteiro

Só pra me deixar cabreiro:

- Eu vou dar pro tintureiro, eu vou dar para o leiteiro, eu vou dar para o padeiro

Sua nora eu afoguei lá no bidê

Agora ela fica resmungando

E, às vezes borbulhando inda ouço ela dizer:

- Eu vou dar pro encanador (glub! glub!)... Eu vou dar pro encanador (glub! glub!)

Depois de uma rápida pesquisa de opinião pública sobre o conjunto Língua de Trapo, o disco termina com uma voz incompreensível recitando alguma coisa em russo, búlgaro ou algum dialeto eslavo perdido. Bem, pelo menos esta é a impressão, porque se você desligar a “vitrola” (que é um aparelho que toca discos de vinil) e rodar (manualmente!) o disco ao contrário, a mensagem codificada se esclarece:

Você está estragando a sua vitrola, você está estragando a sua vitrola!...

É. Existem coisas que não dá pra escutar em CD, muito menos em MP3. [MATEUS]

domingo, 2 de novembro de 2008

Amoroso - João Gilberto (1977)

AMOROSO

Ele, João, o criador e recriador.
O disco de João começa wonderful, com a música ‘S Wonderful’ (hohoho). Realmente auto-explicativa. Sotaque quase engraçado do baiano, mas lindo e sensual, como só microfones excelentes permitiram a João quase não cantar.
Mais uma ‘estrangeira’ (bullshit, música é boa ou não, e só), ‘Estate’, que João torna brasileira (?), ou melhor, baiana, ou melhor, sua. É mais do que sufuciente, o disco poderia terminar aqui já.
‘Tin tin por tin tin’, de Haroldo Barbosa e Geraldo Jaques, começa o repertório nacional, narra um fim de relação, daquele modo dolente e genial que só o samba-canção tem. ‘Você tem que dar, tem que dar, o que você prometeu, meu bem; Mande meu anel de volta...’ (quem sabe não é uma inspiração do ‘segundo sol’???).
João aqui nesse disco tem acompanhamentos, bateria, baixo e cordas conduzidas pelo onipresente Claus Ogerman. Mas é ele sempre totalmente à frente, em todos os sentidos.
‘Besame mucho’. A versão definitiva. Essa eu nem vou comentar. Se você nunca ouviu, feche esta página e vá navegar em outro lugar.
‘Wave’ segue mantendo o alto nível. Essa você já ouviu, a não ser que esteja chegando de Marte. A melodia perfeita na voz que a cantou melhor.
‘Caminhos cruzados’, também do Mestre Jobim, bela e inocente como a bossa-nova, mostra que o disco não tem ponto médio, muito menos baixo.
Mais uma do Tom, ‘Triste’, que beleza! Triste é viver na solidão. Sem João.
Pra fechar perfeitamente, ‘Zíngaro’, de Tom e Chico. Também conhecida como ‘Retrato em preto e branco’, não sei o porquê desse nome aqui.
O cd que eu tenho vem junto com o BRASIL, diretamente da Amazom, porque na época não estava em catálogo (!!!!!!). Depois vem um post com esse disco.

Houve uma época em que eu não gostava de bossa-nova. Houve uma época em que eu não conhecia João Gilberto, e não entendia chamarem-no de gênio. Coisas da juventude.