sexta-feira, 17 de junho de 2011

Audio architecture, DJ Marky



Polêmica corrente por aqui: o que é um disco brasileiro? Feito por um brasileiro? Com músicas brasileiras? Não sei.

Este aqui é um feito por um genial, Marky é um dos caras que tornou esse sub-estilo, drum'n'bass, um reduto brazuca, mesmo que hoje em dia tenha deixado de ser hype, como diria o amigo e colaborador Baiano. Que inclusive pode ser que tenha visto/ouvido o DJ em alguma balada londrina. Se não viu, não sabe o que perdeu.

Eu tinha um enorme preconceito com música eletrônica, muitos instrumentistas, músicos da antiga têm, o que não justifica nada. Até um dia que estava em São Paulo pra ver o Prodigy e comprar uma viola (contraditório, né?) e, naquelas noites que não terminam, fui à saudosa L.O.V.E. por insistência de um grande amigo: 'você precisa ver essa cara!'.

Fiquei chocado! Extremamente habilidoso com as pick-ups (vitrola pros antigos), ele fazia miséria e botava a galera pra urrar! Uma celebração e algo muito próximo de uma virtuose instrumentista. Principalmente pelos bpm (batidas por minuto) altíssimos, mixar isso deve ser dificílimo, aventura à qual não me arrisco.

Ouvindo o disco não dá pra ter ideia do que é a performance, mas é o que tem pra hoje. Se vcs acharem interessante procurem videos no youtube ou levantem a bunda e vão ver o cara tocar.

O disco em si não tem muito o que comentar, pois na verdade se trata de uma mixagem de várias músicas, possivelmente com alguma mexida em estúdio pra retoques.


As músicas:


Kosheen - Hide U (Decoder & Substance Remix) (4:40)
Future Cut - The Specialist (4:41)
Ram Trilogy - Reflections (Look Inside) (5:46)
Q Project - Champion Sound (Total Science Remix) (5:06)
Solid State - Just A Vision (Marcus Intalex & ST Files Remix) (5:25)
EZ Rollers - RS 2000 (4:47)
60 Minute Man - Brand Nu Day (5:13)
Dillinja - 30 Hz (3:58)
Moving Fusion - Atlantis (3:36)
Bad Company & Fierce - Thin Air (4:19)
DJ Reality - Detroit Blues (5:02)
Drumagick - Aí Maluco! (DJ Marky Remix) (5:03)
Phantom Audio - Remote Control (4:32)
Bad Company & Trace - Nitrous (5:19)

Noite, Lobão




Depois que o talvez último grande artista dos anos 80 apareceu por aqui (com a discordância do Mateus, antecipo), vamos mandar mais um dele. (Curiosidade: o post de 'O rock errou' teve que ser postado a partir de Guaíra...tempos globalizados e conectados, pero com alguns problemas de configuração brasiliense).


Outro dia estava a ouvir Depeche Mode e pensei em postar algo no estilo por aqui. Aí, pensei, pensei, pensei e vi que não tem nada nem próximo, pelo menos que eu conheça.


Então lembrei que o Lobão quando lançou este disco falava que parecia que só ele tinha ouvido Portishead e Nine Inch Nails no Brasil... (Mais um parêntese: Trent Reznor, do NIN, é pra mim o único gênio pós-Nirvana; e o mais incrível é que ele foi reconhecido pela supostamente estúpida indústria do entretenimento norte americano: ganhou um Oscar pela trilha de 'The social Network', numa premiação que ignorou 'Inception', a coisa mais legal depois de Star Wars e Senhor dos anéis...é, eu sou nerd sim).

Enfim, este é um disco de música eletrônica, 'hedonista e de direita' como acho que o autor declarou na época. Claro que com a cara do Velho Lobo, como diria meu amigo Xampu. Letras criativas e corrosivas, músicas dançantes (algumas) e convidativas à contemplação lounge (outras). Lembra em alguns momentos o 'Puro êxtase' do Barão Vermelho.

Até comprei a autobiografia dele - a preço de aeroporto...pressa.

Ao disco: 'A noite' começa elétrica com guitarra e depois entra a sonoridade mais eletrônica propriamente dita. No refrão fica meio disco, com uma guitarra em estéreo legal. Tem uma voz filtrada e uns barulinhos típicos da fritação dance.

"eu tô na paz, eu tô relax/ mas preciso de mais emoção"


'O grito' é das preferidas da casa, inspirada livremente no quadro do Munch, uma excelente letra. Até tem aqueles 'ô ô ô' típicos do Lobo e uma guitarrinha solo esperta com wah-wah (Sérgio Serra).

"a certeza da certeza faz o louco gritar"


'Sozinha minha' é muito legal também, com aqueles barulhos psicodélicos de trance, arrastada, chapada lounge. Boa pra se ouvir no escuro. Belas guitarras.


'A véspera' já começa mais eletrônica, boa pra mixar com aquele bumbo 'em um', voz meio distorcida, mais uma boa letra do nosso herói lupino.

"aí eu me pergunto: hoje é véspera de quê?

talvez hoje seja, simplesmente, véspera de nada"


'Hora deserta' traz um início que lembra a versão de 'Cena de cinema' que o Barão fez no disco citado...irônico, ainda mais com o Dé (ex-Barão) tocando baixo. Boas guitarras, mais uma boa letra. Gritos heavy ao final.

"halo de vida que exala das pequenas mortes

sexo, ascese

acaso, sorte"


'Meu abismo, meu abrigo' é daquelas boas baladas do Lobão, só que com roupagem eletrônica, vozes dobradas e filtradas em alguns momentos, guitarra criativa.


Aí chega a acidez total, crítica mordaz do espírito ixperto e do oba-oba vazio carioca, decadência pós 'vergonhosa campanha Rio 2004' e pré 'ganhamos a olimpíada 2016': 'Samba da caixa-preta', acelerada, precisa.

"salve samba, nos temos samba

esse é o arremedo de suingue, balanço, funk, telecoteco

esse é o aconchego indulgente das águas de março fechando o verão

esse é o narciso se achando esperto por não dar bandeira de afogado

se afoga narciso, pelo menos isso

(...)

Rio, me abraça com todos os seus restos

que eu sou tua cria, subproduto do subproduto

Rio, me abraça com a tua decadência que eu te chamo de

Maravilhosa precariedade na permanência"


'Me beija' diminui a tensão, guitarras suingadas, quase balada mais rock, com um rap no meio a cargo de Plínio Profeta.


'24 horas' foi a primeira composta pro disco, legalzinha, meio baladinha.


'Na poeira do mundo' tem um ar meio oriental, em parte por conta dos instrumentos de 12 cordas e o tema desértico, destoa um pouquinho do disco, mas tem sons ainda eletrônicos com percussão, com uma bateria mais orgânica no meio. Um teclado eventual lembra os clássicos discos do velho Lobo.


'Do amor' termina o disco, uma música mais etérea, com guitarras grandes. Tem uma citação bossa-nova com pianinho meio Tom Jobim. "Continente fissurado pelo conteúdo".


Produção de Humberto Barros (que também pilota os teclados), Lobão e Jungui (que também compõe as programações, texturas essenciais ao som do disco).

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Big bang, Paralamas do Sucesso



Aproveitando que comprei (e estou devorando) o 'Vamo batê lata', biografia do Paralamas pelo Jamari França - do excelente blog Jam Sessions do ogloboonline, da qual tirei muitas informações aqui expostas, vamos a mais um dos caras.

Durante a gravação, a banda inventou e divulgou que o disco se chamaria 'Rumo ao planeta ovo' e a imprensa caiu e divulgou.

Agora um septeto, com tecladista e naipe de metais, é um disco que aproveita essas possibilidades sonoras.



Inicia com o sacolejante xaxado 'Perplexo', levada pelo baterista João Barone quebrando tudo, além dos sopros mostrando a cara com vigor, incluindo um solo de trompete a cargo de Demétrio Bezerra no finzinho. Fala da perplexidade da população diante dos planos furados do governo (Cruzado 1 e 2), apesar da nova Constituição ("fim da censura, do dinheiro/ muda nome, corta zero/ entra na fila de outra fila pra pagar"). E a incredulidade e a disposição de luta, claro: "Não penso mais no futuro/ é tudo imprevisível/ posso morrer de vergonha/ mas eu ainda estou vivo/ eu vou lutar/ eu sou Maguila, não sou Tyson". No fim, Maguila foi à lona e elegemos Collor...



'Dos restos', co-autoria com Liminha, já traz uma guitarrona poderosa num riff maneiríssimo e ainda a resistência e a perplexidade: "Pra essa nova moral oportunista/ eu me viro e digo não", "Será que eu existo?/ será que não?/ surgem novas criaturas/ novos pontos de interrogação". Tem um solinho rápido no meio, harmonizado e criativo.

Coladinha (muito legal quando as músicas ficam mixadas assim!) já entra 'Pólvora', reggae rápido quase ska bombando com todo mundo sincronizadíssimo, além de uma das melhores letras de Mr Vianna, que aqui cita o título do disco ("as teorias que explicam o universo"). Dá aquela subida de tom no meio e acaba sensacional!



Diminuindo o ritmo vem a new bossa (obrigado, Jamari!) 'Nebulosa do amor', linda e intimista, depois coerentemente regravada no 'Acústico'. Cuíca de Armando Marçal dialogando com o naipe de metais.



'Vulcão dub' é uma instrumental arrasa quarteirão, com metais solando e alternando as luzes entre si. HUUUU!



'Se você me quer' começa diferente e quase acústica, pandeiro e violões, quase um samba, com pitadas de música sertaneja, vai crescendo a massa sonora no meio.

"Se você me quer eu te quero

se não eu não me desespero

afinal eu respiro por meus próprios meios

afinal eu vivo enquanto espero"



'Rabicho do cachorro rabugento' é no estilo 'Melô do marinheiro', reggae repente com bateria usando timbres eletrônicos, engraçadinho, cantado por Bi Ribeiro (canal esquerdo) e João Barone (canal direito). A música volta ao fim, com o nome 'Cachorro na feira'.



'Esqueça o que te disseram' é mais uma influenciada pela ju ju music africana, que já tinha gerado 'Alagados', com a qual inclusive é parecida. Vocais quase de lambada...

"É preciso sangue frio pra ver

que o sangue é quente

e que vai ser diferente"



'Lanterna dos afogados' é uma das mais belas canções do Herbert, belos arpejos, imagens ambíguas, podendo ser um local físico ou emocional. Foi uma das primeiras que eu notei (deve haver outras) que era afinada meio tom abaixo, o que facilita o trabalho sincronizado com os metais, em geral nos tons transpostos de Eb ou Bb. Alterna um belo solo de flugelhorn com um matador de guitarra por Mestre Vianna. Talvez uma das últimas geradas das infelicidades amorosas com Paula Toller (momento Caras...).



'Bang bang', reggae típico com bons riffs de metais, tenso, quando um bala perdida que matasse um jovem ainda era notícia. Hoje deixou de ser, pela freqüência e banalidade.

'Mas naquele dia até Deus se escondeu

não quis ouvir pedidos de socorro

a voz da razão sumiu

quando a polícia civil subiu o morro"



'Lá em algum lugar' é mais uma romântica, lentinha meio motel, bela e discreta guitarra, com o saxofone safado de George Israel (Kid Abelha).

"Eu sei que em algum lugar ficou uma luz acesa

no escuro desse amor que se apagou

a luz que um dia brilhou só existe num canto do coração"



'Jubiabá', versão do folclórico baiano Jerônimo para 'Give me the things', completa o excelente repertório do discaço. Animada e acelerada, quase um axé music.



Do release poético de lançamento, pelo então titã Arnaldo Antunes, trechos:

"O pé que dança decodifica melhor o recado.

As misturas rítmicas (África Londres Caribe Bahia Mangueira Kingston) se dão com uma naturalidade orgânica. Os contrastes já não são a meta, mas a matéria prima.

Entre a bossa a roça.

Entre a fossa e a troça.

Banalidade para pensar: 'Pode ser exatamente o que eu digo/e também pode não".

Profundidade para dançar: 'O que é tudo isso diante da pólvora?/(Dessa paixão que se renova)'.

Novos pontos de interrogação."



Na seqüência vêm mais discos dos Paralamas, além de pitacos complementares e secundários nos já postados da banda.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma nova volta ao passado: O rock errou, Lobão



“Dizem que o Rock andou errando
Não valia nada, alienado
E eu aqui na maior das inocências
O que fazer da minha santa inteligência?
Será que esse é o meu pecado, porque
Errou, errou, errou, errou
Eu sei que o rock errou”





Começa assim um dos álbuns mais relevantes da música brasileira dos anos 80. Lançado em 1986 em meio às mudanças político-econômicas pelas quais o Brasil passava, trata-se de um contundente retrato de sua época.



O Brasil vivia a (curta) lua-de-mel do Plano Cruzado – a euforia rapidamente deu lugar ao desespero da população. O então presidente José Sarney, que assumiu o posto “por acaso”, após o inesperado falecimento de Tancredo Neves, gozava de seus momentos de altos índices de popularidade (que jamais se repetiriam). O regime militar já era página virada de nossa História, mas um certo “Estado policialesco” ainda mostrava suas garras. E Lobão foi uma das vítimas desse estado de coisas.



João Luiz Woerdenbag Filho, o Lobão, foi preso por porte de drogas no exato momento da conclusão de “O Rock errou”. Encarcerado e com pouco acesso à defesa, o artista viu-se na situação de bode (lobo?) expiatório de uma sociedade retrógrada. Parte da grande imprensa atacou os “atos” de Lobão e defendeu sua prisão. A liberdade só veio após intensa batalha na justiça (cabe lembrar que dois Titãs, Arnaldo Antunes e Tony Belloto, passaram por situação semelhante na mesma época).



Ao final do processo, “O Rock errou” sintetiza o momento pessoal de Lobão. Também, conforme dito acima, é um pequeno instantâneo do Brasil de 1986.



A faixa título, um petardo, abre o disco. Trata-se de uma ácida crítica ao país e aos seus políticos (Jânio Quadros, então prefeito de São Paulo, é apresentado como o “bruxo da vassoura”). Fala das dificuldades da transição do militar para o civil (“vivemos num país bem revistado/uma nova volta ao passado”). O vocal rascante e as camadas de guitarras tornaram a canção um pequeno hino, e hoje pode ser considerada um clássico.



Entre os demais “clássicos” do disco, podemos citar “Noite e dia” (com letra safada e sacana, “menina quer brincar de amar”) e a porrada “Moonlight paranóia”. Outras duas canções merecem atenção especial.



A primeira delas é “Canos silenciosos”. A exemplo de “O Rock errou”, trata-se de um petardo. A letra, um primor. O início é acachapante:



“Onda na madrugada, silêncio na batida
Tá todo mundo se aplicando pra festa,
Pra chegar na festa bem aplicadinho
Movimento na esquina, todo mundo entra, todo mundo sai;
sexo, drops, rock'n roll, adrenalina;
diversões eletrônicas num poderoso hi-fi”.



A letra segue falando em “homens, fardas, cassetetes, camburões/abusando da lei com suas poderosas credenciais”. Lobão tinha autoridade para tratar do assunto – ele sentirá o peso da justiça e da lei sobre ele. Os contundentes “canos silenciosos” tinham endereço certo.





A música mais emblemática, porém, é “Revanche”. A letra é, digamos, autoexplicativa:



“Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso, oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso



Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...



O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?”
Quem é que vai pagar por isso?



“Revanche” sintetiza o difícil momento de Lobão atrás das grades. O bode-lobo expiatório acaba por pagar pelos erros de todos – mas não quer revanche por isso. A canção é amarga e tem melodia e harmonia soturnas. Uma pancada forte no estômago – a verdade é ou não é incômoda?



O disco com tem ao menos um momento de grande ironia, quando Lobão mostra que o rock “errou” mesmo. Trata-se da canção “A voz da razão”, que conta com a participação especial (especialíssima) de Elza Soares. Menos rock e mais samba, impossível. O velho e bom rock´n´roll, tal qual o conhecemos, não tem mais o que dizer, segundo Lobão. Estará ele certo?



O tempo passou, Lobão virou VJ da MTV (quem paga as contas dele, afinal?) e nunca mais produziu uma obra de tal envergadura. Nem precisava. “O rock errou” é definitivo.



André Xampu

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Corpo de Energia Racional. Puro, Limpo e Perfeito (Tim Maia,Racional v. 1 - 1975)



De certa forma esta é uma experiência gospel de Tim Maia. Dito com mais precisão: uma experiência gospel a la Tim Maia. Não que o rei brasileiro da alma precisasse de motivação extra para soltar a voz (bem, não no início dos anos 70 pelo menos...).


A história é mais ou menos conhecida. Tim leu o livro e entrou na onda da imunização racional. Gravou o(s) disco(s, há um volume dois), se desentendeu com o movimento, ficou puto, recolheu o material, sumiu com as fitas mestre e deu origem ao LP mais cult da história da música brasileira. Até o relançamento do disco em cd (restauração feita partir do vinil!), só uma meia dúzia de gato pingado tinha o disco. Destes, dois não tinham agulha, três tinham agulha, mas não tocavam com medo de riscar o disco. O outro gato emprestou pruma antiga namorada e o disco ficou escondido numa coleção heterogênea que incluía Trini López, Quiet Riot e Luiz Caldas.


O disco todo é muito bom. Abstraia o tom de pastor pregando na praça. O som é o que interessa. Iniciando com o (quase-)mantra Imunização Racional, uh uh uh, que beleza!, passando pelo confessionário em Bom-Senso, uma sensacional canção de expurgos dos pecados e pelas mais “evangélicas” Leia o Livro Universo em Desencanto, Contacto com o Mundo Racional, até a apoteótica Rational Culture.


Impressiona no disco, a unidade sonora em torno do tema central e maneira em que se equilibram nos arranjos as baladas e as levadas mais balançantes. Ouso dizer que em nenhum dos três (maravilhosos) discos anteriores ele havia conseguido esta estranha harmonia. Este é que me parece ser o ar gospel do disco. Tim Maia celebra.


Até a banda está extremamente envolvida no projeto. Será que ele converteu alguém? Prefiro imaginar, que esta conversão tenha sido apenas no sentido musical... Afinal, fechando o disco, um balanço hipnoticamente irresistível com levadas de guitarras fuzz e wah-wah (para converter o Dão), teclados, palmas e a costumeira ginga na cozinha, quando Tim canta:


We are gonna rule the world, don’t you know, don’t know...


A única coisa que me vem à cabeça, aos pés, aos quadris e ao coração é:


Yes sir! And will follow you faithfully!


[M]

Enquanto a Bomba Atômica não cai (Gil, Luar - 1981)



Bem, este disco tem 30 anos... Uau! Eu conheci este disco com uns 14 ou 15 anos, minha mãe tinha um namorado que comprava simplesmente tudo de “mpb”, e a coleção dele morava lá em casa...


Imagino que as gerações mais novas possam encontrar um som datado, típico de uma época específica, preso num lócus temporal qualquer. De certa forma isso é correto. Eu não sabia, mas o encarte da edição lançada recentemente em cd revela que Gil preparava uma retirada da cena musical em busca de uma “vida monástica”. Para esta despedida, Gil queria um som mais contemporâneo (em 1981, lembre-se) e chamou Lincoln Olivetti e uma 'tecladeira infernal', o que dá às músicas um ar mais ‘disco’.


Começando do fim, Se Eu Quiser Falar com Deus era uma música destinada ao Rei Roberto, que não gravou, e a gente entende, a letra é agnóstica e panteísta e não menciona JC. Minha professora de português nos passou essa música para analisar na sexta série, isso na escola salesiana, de padre até a medula. Dona Leda, uma silenciosa revolucionária era excelente professora, pena que lecionava a mais chata das disciplinas. Dona Leda nos mostrou a canção com Elis Regina, sua versão definitiva.


Em Sonho Molhado, Gil chama a sanfona do parceiro Dominguinhos, e já aparece aqui uma das características da sua música: síntese. Baião-reggae-disco com a sanfona do Domingos e os teclados de Lincoln. Outros bons momentos são a semi-balada Lente do Amor, que foi trilha sonora de seriado na globo nos anos 80, a caetânica Cara a Cara, que com arranjo exibido aqui poderia muito bem ter sido gravado pelas Frenéticas.


Tomar pé / Na maré desse verão / Esperar pelo entardecer / Mergulhar / Na profunda sensação / De gozar / Desse bom viver...


Assim começa Cores Vivas, pérola perdida do repertório de Gil, mais uma música-síntese, plena de melodias, poesia simples, zen como o cinema transcendental do mano Caetano, cores da pena de pavão...


Mas este é o disco que consagrou Palco, que seria assim como uma música de despedida. Em grande estilo, convenhamos, um cesto de alegrias de quintal. Sutilmente iniciada com um assovio sintetizado, logo entra a seção arrebatadora de sopros, guitarras dedilhadas a la Andy Summers, e


papapa papaia! pa pa pa páia, pa pa pa papá!

Fogo eterno pra afugentar / o inferno pra outro lugar

Fogo eterno pra consumir / o inferno fora daqui!


Caetano cantou a Lua de São Jorge, lua deslumbrante, azul verdejante cauda de pavão. Afinal: a lua é dos poetas. E então, para Gil,


Do Luar... / do luar não há mais nada a dizer / a não ser / que a gente precisa ver o luar...


Gil canta menos com as palavras que com as lindas melodias que cria. Tanto que a palavra gênio aqui soaria até inadequada, dada a fluência natural de suas canções. Aliás, o Luar de Gil me fez entender porque eu gosto tanto do Cinema transcendental postado outro dia: é um dos discos do Caetano que mais se parece com o som do Gil...


[M]

Alumbramento, Djavan


Este artista aqui também estava faltando. O Mateus me disse que tinha postado o 'Luz', mas deve ser em alguma realidade alternativa, porque aqui eu não encontrei...
Por incrível que possa parecer, eu tenho a coleção quase completa do Djavan, e hoje de manhã foi difícil escolher um pra postar, cogitei o 'Malásia', mas esse o Mateus acho que também quer postar, e o 'Lilás' (o meu som preferido) tem a capa muito brega...então vamos neste aqui mesmo.
Alagoano de Maceió, nosso ídolo de hoje quase foi jogador de futebol pelo CSA. Mas felizmente pra nós, amantes da boa música e inimigos do mau futebol, optou por fazer e viver de sua música.
Começou com trilhas de novela lá pelos anos 70, explodindo mesmo depois de seu segundo álbum, principalmente através da gravação de 'Álibi' por Maria Bethânia, num álbum que vendeu mais de um milhão de cópias, bons tempos da mpb que não voltam mais. Também Nana Caymmi e Elis Regina gravaram músicas suas nessa época, além de Gal Costa e Roberto Carlos.
Chegava assim ao olimpo da mpb quando, em seu terceiro disco - este aqui comentado, passa a ter como companheiros de composição Aldir Blanc e Chico Buarque de Hollanda.

'Tem boi na linha' dá início ao disco, um bom samba com a cara original do Djavan, lembrando seus primeiros sucessos, 'Fato consumado' e 'Flor de lis', mas agora com auxílio luxuoso do citado Aldir Blanc e do Paulo Emilio. Nosso herói é freqüentemente criticado pelo uso de palavras pela sua sonoridade, às vezes resultando em algo non sense. Mas é música, não é narrativa e, se o som é bom, pra mim tá ótimo.

'Sim ou não' é mais lentinha. Bonita, com seu violão Ovation na cara e sua voz límpida. E tem cordas de verdade, um violoncelo que aparece ali de vez em quando, além daquele fundo orquestrado que parece aqueles teclados bregas dos anos 80.

'Lambada de serpente' é das minhas preferidas, nordestina e moderna, com viola e tudo! "Lambada de serpente/ a traição me enfeitiçou/ quem tem amor ausente/ já viveu a minha dor". No final vozes dobradas encorpam e terminam bem a linda canção.

'A rosa', do Chico e cantada com o próprio, é daqueles sambões clássicos, dispensa comentários, nem vou ficar citando trechos de letra, porque ela inteira é demais.

'Dor e prata' (belo nome) é a música que termina o lado A no disco de vinil, mais uma com aquelas letras djavaneando, um piano bonito espetado e um lindo arranjo de cordas de Oscar Castro Neves.

O (antigo) lado B começava com 'Meu bem querer', uma das mais belas canções de amor já escritas nesse universo, toda paixão, dor, êxtase e sofrimento sintetizadas e cantadas com a carne exposta e sangrando. Wagner Tiso caprichou na orquestração e regência. Um solinho discreto de guitarra e muitas vozes dobradas n segunda parte abrilhantam a pérola.

'Aquele um' tem uma sonoridade mais moderna, uns teclados meio distorcidos e filtrados, um sambão com cara mais californiana, mas sempre com aquele violão e aqueles vocais 'tchubiru' ao fundo (ouça com fones!). Legal! Parceria com Aldir Blanc.

'Alumbramento' começa lentinha, orquestra e piano (os dois a cargo de Luizinho Avelar), mais uma belíssima pra coleção do cara. Parceria com Chico, caprichadíssima. Solinho dividido entre a guitarra e os vocalises djavaneantes.

'Triste Baía da Guanabara' é a única que não é do cantor, desconhecida mas que cai bem no conjunto.

'Sururu de Capote', que eu não faço ideia do que significa e a letra também não ajuda muito, termina bem o disco, arranjo com metais à Tim Maia, tecladeira moderna, que inclusive deu origem ao nome da banda que acompanhou Djavan por algum tempo.

Depois vem mais Djavan.