terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Página do Relâmpago Elétrico, Beto Guedes (1977)


Ainda que fosse só pelo nome, A Página do Relâmpago Elétrico já mereceria menção. Claro que em 1977, o rock nacional já não era novidade, com Rita, Raul e os Secos e Molhados, além de outras expressões "menores". A novidade aqui talvez seja a página...

Oriundo do Clube da Esquina, nesta página muito sua, Beto Guedes parece reinventar seu próprio clube, depois de tanto frequentar o clube dos "irmãos" mais velhos, Milton e Lô Borges. Com produção de Ronaldo Bastos e a participação de diversos músicos do antigo clube (Toninho Horta, Flávio Venturini, Vermelho), Beto Guedes acrescenta uma página elétrica ao som dos clubes mineiros de esquina, como num relâmpago. O disco, o som da banda e, principalmente, a voz de Beto Guedes, tem um pouco daquele ar de Minas Gerais, que, mesmo radicado em Belo Horizonte (Beto é de Montes Claros) faz tudo parecer meio de interior, de além das montanhas, de longe do mar. Seu timbre de voz é único, uma recriação tupiniquim de Bob Dylan ou Neil Young, mas com uma certa melancolia que lembra o mar distante, do outro lado da serra.

De certa forma, o clube da esquina e esta página elétrica seriam quase um... Novos Mineiros... Ao som de minas, agrega-se a guitarra fuzz de Beto sem que isso torne o relâmpago um disco de rock'n'roll, como disse, é uma página. E a página do relâmpago elétrico, faixa título que abre o lado A , é uma linda canção de amor na forma de raio, frases curtas e soltas que nunca caem no mesmo lugar, mas que são prenúncio de chuva forte.

Outra página da página é uma leve influência de rock progressivo em canções tanto quanto em faixas instrumentais (Chapéu de Sol) provavelmente devido a presença de Flávio eVenturini, que já tocava com o Terço e estava por formar o 14 bis. A presença de teclados é extensa, hora com Flávio, hora com Vermelho, horas com ambos. Mas a instrumentação não para aí: no mesmo formato do Clube, as seções de gravação incluíam muitos músicos e outro elemento importante é uma percussão variada que se agrega na receita do trovão. Trovão bem temperado, uma vez que com o excesso de sons, muitas vezes a textura da massa se sobrepõe ao sabor, o que não é o caso aqui: esta é uma página de canções.

Nascente, de Flávio Venturini e Murilo Antunes é primorosa. Em tom crescente, a manhã clareia, nasce, ilumina e esconde a clara estrela, revelando o corpo e a alma da mulher amada. O piano aqui é essencial e é executado por Novelli. Beto canta e toca bateria. Uma orquestração desenhada por Toninho Horta harmoniza o sol nascente e o crescente dos desejos ardentes que nascem junto com o astro rei. Impecável (Milton Nascimento gravaria esta mesma canção um ano após, no Clube de Esquina 2, bem, a voz de Milton é covardia, mas a originalidade do arranjo aqui é imbatível). Maria Solidária é outra grande canção (de Milton Nascimento!) e o disco todo tem uma unidade surpreendente, ainda mais considerando-se que as faixas são bem distintas uma da outra. Em Bandolim por exemplo, temos uma (das três) faixas instrumentais que dão oportunidade a Beto de tocar este instrumento.

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear até chegar Lumiar e depois deitar no sereno só pra poder dormir e sonhar pra passar a noite caçando sapo, contando caso, de como deve ser Lumiar

A música de Minas também se caracteriza pela presença de alguns elementos de cristianinsmo, muitas vezes sutis, o pão por exemplo (que também pode ter uma leitura mais... marxista?). Talvez deva-se ao fato de ser um estado onde o Catolicismo é forte, talvez o mais forte da nação. O outro elemento é a terra, a fonte de alimento, da vida. Nesta página elétrica Beto Guedes ainda está insinuando estas coisas, que ficariam mais explícitas em trabalhos posteriores, Amor de Índio, O Sal da Terra... Mas em Lumiar ele está extremamente relaxado (ao invés de engajado). Esta é, pra mim, sua melhor composição. Uma linda música de amor, a vida do cotidiano, do dia-a-dia. A música tem um riff de entrada executado no violão, acompanhada por uma percussão, e depois vai entrando o resto da banda, num crescente.

Estender o sol na varanda até queimar só pra não ter mais nada a perder pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar, clarear de vez Lumiar

O que é Lumiar eu não sei, mas pouco importa, o recado é bem dado. A tempestade passa, o tempo acalma, e a página final é o samba-choro Belo Horizonte, de autoria de seu pai, Godofredo Guedes, só pra mostrar que no clube do Relâmpago cabem várias páginas, elétricas ou não.

[M]

A Pedido do Clayton, segue a ficha técnica:

1) A Página do Relâmpago Elétrico (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio e Beto.
2) Maria Solidária (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Violão, guitarra e voz - Beto Guedes; Baixo e guitarra - Toninho Horta; Piano elétrico - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy.
3) Choveu (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Piano - Flávio Venturini; Piano elétrico e Órgão - Vermelho; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho; Flauta - Paulo Guimarães.
4) Chapéu de Sol (Beto Guedes/Flávio Venturini)
Moog e flauta doce - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Moog - Faraó; Baixo - Toninho Horta; Piano - Vermelho; Bateria - Holy.
5) Tanto (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Moog - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy; Orquestração e regência - Toninho Horta.
6) Lumiar (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Guitarra- Zé Eduardo; Piano - Vermelho; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho.
7) Bandolim (Beto Guedes)
Bandolim, baixo e guitarra - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Beto; Piano - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Guitarra - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho e Toninho; Flauta - Paulo Guimarães.
8) Nascente (Ronaldo Bastos/Murilo Antunes)
Bateria e Voz - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Piano - Novelli; Violão - Nelson Ângelo; Baixo - Toninho Horta; Orquestração e regência - Toninho Horta.
9) Salve Rainha (Zé Eduardo/Tavinho Moura)
Viola e Voz - Beto Guedes; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Violão - Zé Eduardo; Órgão - Flávio Venturini; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio, Zé Eduardo, Holy e Beto.
10) Belo Horizonte (Godofredo Guedes)
Bandolim, violão - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Toninho Horta; Percussão - Holy e Vermelho; Flauta - Paulo Guimarães; Clarinete - Abel Ferreira.

18 comentários:

  1. puxa, que bela resenha. eu adoro esse disco, que é subestimado por boa parte dos roqueiros de plantão. não tanto pela sofisticação musical, inclusive nas harmonias, mas principalmente pela atmosfera. é um trabalho de grande astral.
    parabéns pelo blog e pelos textos.

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  2. Muito bonito, mesmo. A comparação com Dylan/Young, para mim, pelo menos, foi inusitada. Confirmando o comentário de Olímpio, vc tem um olhar rock and roll que nunca consegui ter com o Clube da Esquina.

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    1. é verdade, essas palavras cheia de humanidade, hoje estamos longe disso é so marketing

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  3. Atmosfera! essa realmente a palavra-chave nesta página... E esta atmosfera consegue mesmo se sobrepor ao conteúdo formal da música, a riqueza das harmonias, dos arranjos... Como Bob Dylan e Neil Young, a voz de Beto Guedes pode ser imediatamente reconhecida, até mesmo num bocejo...
    E o meu olhar rock-and-roll sobre o Clube da Esquina e o som das Minas Geraes, bem, talvez seja este o único que eu tenho... Mas o pessoal de Minas era chegadão nos Beatles de qualquer forma, veja que o prórpio Beto tinha canções com nomes tipo "no céu com diamantes" e um disco inteiro chamado alma de borracha! Isso não pode ser mera coincidência. [M]

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  4. Rapaz, estive no lançamento desse disco no Teatro Ipanema. Tinha uma menina que ficava o tempo todo dizendo um Beeetoooo bem arrastadamente carioca. Esse dia teve seus relâmpagos... e que relâmpagos, final dos setenta imagina. O cara tava inspirado e sua excessiva timiodez era um chame que fazia todo mundo chegar mais zen, entende ? Sempre pensei que a Lumiar era em homenagem a um lugar perto de friburgo com esse nome, um lugar bem cult por sinal. No mais tudo é cult nesse grande artista. Meu sobrinho recebeu o nome de Gabriel em homenagem e o meu Rafael. Tudo se explica, né? Obrigado Dão pelas lembraças que tive. Abs

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  5. Valeu Luis! Beto Guedes experimentado ao vivo, isso eu não tive, infelizmente. O esclarecimento sobre Lumiar também foi legal. abs, [M]

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  6. Gostaria que fosse publicada, se possível, a ficha técnica do disco, faixa a faixa. Tenho muito vontade de saber quem toca com Beto principalmente nas instrumentais "Bandolim" - incrível! - e "Belo Horizonte", um belo chorinho.

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  7. Caro Clayton, será providenciado. Fique antenado! [M]

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  8. Clayton, inlcuí a ficha técnica no final do post, ok? Bom proveito... [M]

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  9. Vídeo bem legal de uma visita do Beto em Lumiar.

    https://www.youtube.com/watch?v=DKcv8DBoVK0

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    1. Não consegui ver, porque o vídeo foi removido do YouTube. Pena sô.

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  10. Olá Otávio! Muito legal o vídeo, agradeço(emos) muito a lembrança. Logo no comecinho, em frente a placa dos pontos turísticos ele diz:

    "eu vou dar uma passada pra mostrar pra vocês no Encontro dos Rios..."

    "... mas antes, vou dar uma passada no outro bar da cidade..."

    Sensacional, fiquei ainda mais fã!

    [M]

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  11. E o Beto Guedes pode até fazer um bico de dublador, ele ficaria excelente na voz do Sid, a preguiça de A Era do Gelo...

    [M]

    ps: desculpem, não pude evitar a piada, era maior do que eu...

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  12. Kd a bosta do link pra baixar?

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  13. Achei, baixei e escutei. Ôooo bosta!!!

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  14. Lumiar é um distrito localizado em casimiro de abreu rj local frequentado por hippies, simpatizantes e assemelhados

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  15. Quem tocou bateria nesse disco foi o Hely Rodrigues, futuro 14 Bis. ( nos créditos está escrito Holy ��)

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