quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Não é coletânea não!!!!!! (Pai Herói - 1979)




A última novela que acompanhei com certo prazer foi “a última vítima”. Poxa, isso já faz tempo! Esta indicação é de uma novela de 1979, há mais tempo ainda.

É do tempo em que as trilhas sonoras das novelas não vinham com atores estampando as capas. É do tempo de Janete Clair. Não é preciso dizer mais sobre a novela propriamente dita.

É do tempo que os discos anuais do Roberto Carlos eram ansiosamente aguardados...e valiam a espera. Mas estou digredindo.

Mas, é do tempo em que as seleções musicais eram realmente ótimas. Esse disco é um exemplo.

Imagino que todos aqui que tenham mais ou menos a mesma idade viam os pais, religiosamente, comprarem não só as trilhas sonoras nacionais, como as internacionais das novelas. Sempre uma delícia!

“Pai” e “14 anos” são as melhores músicas do repertório de Fábio Jr e Guilherme Arantes, respectivamente. Singularmente autorais; ímpares. Sem pensar muito não consigo indicar outras tão boas na mesma linha.

“Homem Calado” é triste de doer. Linda. Música tema do personagem de Dionizio Azevedo.

“Pode Esperar” e “Meu Drama” sambas indispensáveis em qualquer discoteca básica sobre o ritmo.

Era com “Passarinho” que eu tentava fazer Nana voltar a dormir nas madrugadas insones de novo pai. Não tendo nem sombra do talento de Beth Carvalho, as tentativas não eram tão bem sucedidas.

“Espírito Esportivo” é uma das músicas mais deliciosas que conheci. A relação entre futebol e os riscos do amor é sensacional.

Mais umas três ou quatro trilhas de novelas não fariam feio por aqui. Mas Pai Herói tem que ser a primeira e ponto final.

Ah. Um comentário final: para os que, como eu, tem severas restrições a coletâneas, defendo que trilhas musicais não se enquadram na espécie. Possuem uma história, um começo, meio e fim.

(ZEBA)

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Contato, contato (O dia em que faremos contato - Lenine - 1997)


Começamos aqui a falar sobre a obra de um artista não ligado a nenhum movimento, assim como, ele mesmo gosta de citar, Djavan, Tim Maia, Jards Macalé etc. Ele prefere a palavra movimentação.
Lenine é o nome dele, e ‘O dia em que faremos contato’ o nome do disco. Não é o primeiro, mas ‘Olho de peixe’, com Marcos Suzano (que também participa desse disco aqui comentado), é dificílimo de encontrar, pra quem ainda compra cds como eu. ‘Baque solto’ é um disco coletivo que pouquíssimo tem a ver com este aqui.
O disco começa com ruídos não musicais, um fax conectando, uns meninos (Caju e Castanha) contando sobre sua vida de artista de rua – que depois são sampleados no meio da música. De repente, por trás de um barulho sintetizado rítmico, surge a voz poderosa de Lenine, cantando e ‘rapeando’. ‘A ponte’ não podia ser melhor pra iniciar o disco, impressionante, moderna e com pressão.
Já li ele dizendo em algum lugar que se aproximou da música não pela MPB, e sim pelo rock (Led Zeppelin foi o nome que li). Talvez por isso eu goste tanto do seu trabalho. A pegada é rock, a sonoridade é caprichada, mas tem balanço, vozes agradáveis e letras belas.
Como é a pop ‘Hoje eu quero sair só’, com uma harmonia que se repete a música toda (mas não é repetitiva), um solinho de guitarra wah-wah esperto (cortesia do sempre preciso Fernando Vidal), um pandeiro meio escondido, uma guitarra eventual suingada e aquele violão excelente que marca muitas de suas músicas, além de várias vozes sobrepostas.
Depois, a minha favorita, o baião heavy ‘Candeeiro encantado’. Mesmo sem guitarras pesadas (que eu teria colocado), tem a pegada e a estrutura inspirada em blues, mas com a rítmica e letra de repente. Mistura bem timbres eletrônicos, violão legal e vozes sampleadas de ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, de Glauber Rocha. Demais.
Liminha, mesmo sem produzir, toca baixo em quase todas as faixas. Participação especialíssima. Na faixa seguinte (‘Etnia caduca’) desenvolve uma linha muito legal.
‘Distante demais’ apresenta a face lírica, de belíssimas canções e letras lindas. Co-autoria de Dudu Falcão.
Na seqüência vem a faixa-título, com a idéia original que a paz surgiu aqui na terra, mais especificamente no morro, pois ‘vive perto do espaço sideral’. ‘Essa coisa de riso e de festa só tem aqui’. Mais uma com uma mistura de pandeiro, sons eletrônicos, um violãozaço e outros ruídos. Funciona muito bem, principalmente porque as canções são excelentes composições, que funcionariam mesmo só com voz e violão. Mas Lenine capricha no aspecto mais essencial da música, o Som.
Em ‘A balada do cachorro louco’, mais uma vez Lenine brinca com suas vozes, canta e contra-canta, dobra e se multiplica, com uma bateria reta sobre uma música tipicamente nordestina, com pifes do Carlos Malta. Mais uma que se ouve com muitos mais detalhes no fone de ouvido, que ainda vai me ensurdecer...
Segue ‘Aboio avoado’, só na voz, ‘um aboio para trazer de volta ao curral as paixões que se desgarraram’.
‘Dois olhos negros’, música sobre uma mulher, pop, redondinha, dançante e divertida, uma letra meio Carlinhos Brown, um violão tipicamente bem tocado. Essa foi até pra alguma novela. Termina com um solo curto e hendrixiano do Fernandinho Vidal.
‘O marco marciano’ destoa não pela qualidade, mas por ser totalmente acústica, com voz(es) e viola de 10 cordas. E a letra nada tem de regional, misturando ficção científica, paisagens amplas, tom épico e outras cositas más.
Vozes percussivas, uma guitarra com timbre estranhíssimo, uma bateria de fundo. Falando assim não deveria combinar. Mas depois começa a música, com aquele violão, vozes, uma baixo subterrâneo do produtor Chico Neves e vários saxofones. ‘Que baque é esse?’, ele se pergunta. Eu me pergunto também, mas que porra é uma guitarra Chelpa??
Segue um pout pourri com 4 músicas, amarradas pelo violão e pandeiro: ‘Pernambuco falando para o mundo’, ‘Voltei Recife’, ‘Frevo ciranda’, ‘Sol e chuva’ e ‘Rios pontes e overdrives’ do genial e saudoso Chico Science e Fred Zero Quatro (do mundo livre s.a.).
‘Bundalelê’ é o lado carnavalesco e carioca do disco, inclusive gravada com o bloco Suvaco de Cristo.E vamos nos despedindo com ‘Mote do navio’, com um coral de várias vozes e agradecimentos em profusão. Nem precisava, Lenine, nós é que agradecemos!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Delicado? Infernal?... (Sim e não - Nando Reis - 2006)


Seu nome responde a qualquer tentativa de classificar o disco de Nando Reis e os Infernais lançado em 2006: Afinal, este é um disco de rock? Sim e não. É um disco de baladas de amor? Sim e não.

É o primeiro disco do compositor sem a sombra de Cássia Eller, que foi sua voz em "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo" (ver entre as postagens anteriores) e no póstumo "Dez de Dezembro", disco onde a cantora gravou as canções mais célebres do compositor. Cássia se foi, mas Nando segue em frente.

Também é o primeiro disco que marca a fase "clean" de Nando Reis, afastado do álcool e de outras drogas. De alguma forma, essa nova fase transparece no álbum, ao mesmo tempo em que também estão presentes referências à sua vida "anterior", tornando este o seu mais autobiográfico trabalho.

Estranhamente o disco abre com sua música mais fraca, Sim, uma melancólica declaração de amor que será totalmente esquecida quando chegar ao final da audição. Em seguida, vem o hit deste disco: Sou Dela. A levada da música é irrestível, "grudenta" sem ser pegajosa, o pop-rock perfeito. O refrão traz uma sutil referência sobre seu momento: "Estava tão longe, num outro lugar, trancado e distante, na esfera lunar...". Mas agora, o Nando é dela e a música transborda a alegria desta descoberta e celebra este amor renovado.

N é uma balada de saudade. Uma saudade de quem fica menos de uma semana sem ver a mulher amada. Parece um exagero, mas quem já viveu uma história de amor quinzenal, de rodoviária, sabe bem como é essa saudade e a intensidade do encontro. A introdução traz um Carlos Pontual tocando um lick simples e intenso na strato, lembrando o lado mais sentimental de Clapton. Monóico é o primeiro rock'n'roll stoniano deste disco. Baita música com uma poesia um pouco diferente daquela que é a clássica do Nando Reis. No jogo de palavras há uma troca de papéis e é a mulher que o penetra. Nos Meus Olhos é outra balada, mais uma vez, um pouco diferente também da poesia típica do NR. Aqui ele mistura frases curtas e suas clássicas frases longas.

Santa Maria é um rock'n'roll stoniano de estrada, que conta a história de um amor inesquecível, marcado pelo calçar e descalçar das botas de uma mulher amada. Espatódea é simplesmente, a mais linda canção de amor de pai pra filha já escrita em português. A música dedicada à caçula Zoé diz: "não sei se o mundo é bão, mas ele está melhor desde que você chegou e explicou o mundo pra mim". O arranjo é delicado como a flor, e a gente vai percebendo o sim e não, o yin e yang se alternando ao longo do disco.

Pra Luzir o Dia é uma canção folk de poesia curta que se concentra em temas do dia-a-dia, celebrando as coisa simples desta vida: “bolo pra comer, bola pra bater”, “som para ouvir, sono pra dormir”. Uma bela e suave orquestração acompanha o arranjo. Como se o Mar é uma canção de amor que lembra os aranjos típicos da soul music brasileira dos anos 70, a la Tim Maia. Pena que a letra não seja tão boa quanto a música. Nando volta com mais uma canção de amor, pra um amor que se despede em Pra Ela Voltar, e reclama: "desde que ela foi embora nada mais funcionou".

Caneco 70 é o mais stoniano dos rocks deste disco. Desde as guitarras, até um "uh uh!" que lembra Sympathy for the Devil. Porque será que eu gosto tanto deste disco? Outra canção de estrada, conta uma história de amor real, com suas delícias e cagadas. “Teríamos futuro de eu não fosse um selvagem”. No final, uma micro autobiografia: canta seu amor pela sua São Paulo natal, pelo seu São Paulo Futebol Clube, time do coração, os pais, os filhos... Meio que justificando seu comportamento, se apresentando, sei lá...

“Não sei quantas vezes te deixei bem triste, Não sei se comigo foi feliz ou não. Não sou exatamente o cara mais fácil que existe. Mas posso te dizer que para sempre te trarei dentro do meu coração”. Não, não, não. E sim.

O disco termina com Ti Amo, um raga a la George Harrison, onde a melodia da música toda é cantada por um "ti amo", com se entoasse um mantra. Um sim. Sim de amor não só pela sua amada (aquela de Sou Dela), mas pela sua "nova" vida e os prazeres que estão por vir (como cantado em Pra Luzir o Dia). [MATEUS]

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Papel de Bala Colorido (Por onde andará Stephen Fry? - Zeca Baleiro - 1997)




Há tempos queria escrever algo sobre a música do Zeca Baleiro… O difícil era escolher por onde começar… Resolvi então começar pelo começo, pelo filho mais velho “POR ONDE ANDARÁ STEPHEN FRY? ” (1997). Na verdade acho que tem um outro motivo – eu adoro especialmente algumas músicas desse cd.
E o Zeca tem uma voz deliciosa de ouvir, uma imagem única e criativa de ver e uma poesia pra lá de boa de sonhar…
Ele é um alquimista musical! No seu caldeirão estão os melhores ritmos nordestinos com pitadas de outras influências não só musicais como poéticas.

“O melhor futuro este hoje escuro/o maior desejo da boca é o beijo/ eu não quero ter o tejo me escorrendo das mãos". “Bandeira” chega arrasando com o desencontro de palavras que mais encontradas não poderiam ser! E o violão que de tão manso, te conquista. “Bandeira” te faz parar, te capta por vários canais, entra por todos os poros.
Em seguida vem “Mamãe Oxum”com uma alegria e ingenuidade contagiante! Zeca Baleiro canta junto com Chico César, numa combinação perfeita, sem dizer na percussão de Ramiro Mussoto.

E aí a gente chega numa das minhas favoritas: “Salão de Beleza”. Acho um barato um salão de beleza virar tema de música! Só mesmo a cabeça colorida e aguda do Zeca para escolher o salão de beleza como metáfora para a a nossa busca tão incansável e cotidiana pela beleza (no seu sentido mais amplo). Perfeito!
Ele vai cantando e vem chegando os coros, os bongôs, e o nosso corpo estranhamente começa a entrar em sintonia com aquela linda melodia . "Salão de Beleza” tem uma onda contagiante, faz a cabeça pensar e o corpo dançar! É tão bom…

“Vapor Barato”. Para essa eu fecho os olhos e brindo a existência de Wally Salomão! Tudo é lindo: a letra, a melodia, todas as vozes que já cantaram, todas as viagens viajadas pelas nossas cabeças. Se só existisse o título, já seria uma obra de arte: Vapor barato.
No words.

Outra coisa que me encanta no Zeca Baleiro é a sua curiosidade pelo ser humano (acho que é porque eu também sou bem interessada nesse bicho raro!). Digo isso porque Stephen Fry foi um ator londrino desconhecido que sumiu depois de sua estréia, por ter se achado um fracasso no palco.
Zeca Baleiro leu essa pequena nota no jornal e escreveu “Stephen Fry”. Essa música é tão humana, tão simples e completamente profunda. O que também me toca na poesia e na música do Zeca Baleiro é essa antena que capta essas pequenas estórias e através delas nos permitimos nos emocionar. E o Zeca é um mago para encontrar a beleza nas coisas simples.
E arranjos são delicadamente feitos sob medida para alguém que resolveu trilhar outros paradeiros.

Outra favorita… Tenho várias favoritas! Ainda bem! "Skap”- adoro música onde a presença do violão é marcante.
Depois de um soneto de Shakespeare recitado por Wanderléa, Zeca Baleiro entra discreto, suave, como quem não quer atrapalhar. Essa música é um balé de tão leve, é um caleidoscópio das letras, que em cada fim de frase você tem um desenho diferente - uma surpresa. Os verbos ganham novas vozes e o piano arremata tudo isso com uma magia que arrebata.

“Dodói”! Favorita total também… Com um balanço que não deixa ninguém no sossêgo, Zeca canta um xeque-mate! “Se você não me quer mas eu quero”. Bicho, você não tem saída, porque senão eu piro e aí vou pro Juqueri ou pra Bangú!
Essa é a voz louca de amor, aquela que de tão louca, já tá mansa.
E quem não tem essa voz dentro de si?
[ANDRÉA]

Um Anticomputador Sentimental (Caetano Veloso 1969)



Selecionar um ou outro disco do Caetano Veloso para compor essa seleta lista não é das tarefas mais fáceis. Entre tantas obras primas, já foram citados o “petardo” Cê (Dão) e Cores Nomes, um “caetano sem gelo e limão” (Mateus).

Como bom gosto não se discute, mas se compartilha, vou dar minha contribuição, incentivado pelo recente show que tive o prazer de assistir no Municipal na semana passada.
Trata-se de “Caetano Veloso”, de 1969, disco que conheci ainda na infância graças ao bom gosto musical da Nati, minha irmã.

Pessoalmente, creio que foi uma versão tropical do conhecido “álbum branco” dos Beatles, lançado menos de um ano antes desse, a começar pela capa igualmente branca (apenas assinatura do músico - pode não parecer, mas a capa está no início do post), passando pela ausência de um nome, até sua própria configuração, com músicas aparentemente contraditórias que travam um interessante diálogo. Mais do que influência, o disco do quarteto de Liverpool pode ter servido como inspiração.

O disco abre com a irreverente “Irene”, que de modo perspicaz, reproduz, ao som da guitarra, a famosa risada que ele tanto queria ver (homenagem à sua irmã). Reparem...

Depois, a melancólica “Empty Boat”, talvez uma das primeiras composições de Caetano em inglês. Embora pouco conhecida, seu belo arranjo consegue transmitir um vazio existencial que tão bem se encaixa em certos momentos da vida (duvido que alguém já não tenha sentido).

O ritmo volta a ficar alegre com o faceiro “Marinheiro Só” com seu bonezinho, repetindo a fórmula nas músicas seguintes: “Lost in Paradise” (outra composição em inglês, na sua preparação para o exílio) seguida pela carnavalesca “Atrás do Trio Elétrico” que dispensa comentários. Só não vai quem já morreu.

O fado lusitano se faz presente com “Argonautas”, que trouxe para camisetas do Brasil todo a frase Navegar é Preciso Viver não é preciso. Ao contrário de que muita gente pensa, o sentido que Fernando Pessoa empresta ao termo “preciso” não tem nada a ver com necessário, mas sim com exatidão. Seria a contraposição da navegação (com regras da ciência exata) com a vida (cujo fim ninguém conhece). Era Caetano às vésperas do exílio.

Na seqüência, interpretação da bela “Carolina” de autoria de Chico Buarque.
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar... só Carolina não viu.

Sensivelmente bela e ao mesmo tempo triste, parece que essa música serviu de inspiração para o batismo de tantas “Carolinas”, que certamente procuram outro destino.

O disco segue com tempero argentino no tango “Cambalache” para emendar com a belíssima “Não Identificado”, uma canção dizendo tudo a ela, que ainda está(ou) sozinho, apaixonado... uma canção de amor! De tão linda, essa música foi gravada e regravada várias vezes (Gal, Bethânia, etc), cada um com uma levada diferente, mas igualmente líricas. No youtube tem um depoimento da mana do Caetano seguida de uma interpretação que faz marear os olhos (http://www.youtube.com/watch?v=sJN_a8dy7kU),

E caso canção de amor não identificado não fosse suficiente para abrir olhos de Carolinas, Caetano não poderia ter se saído melhor na seqüência: Podemos ser amigos simplesmente... coisas do amor nunca mais, interpretando Chuvas de Verão, de Fernando Lobo. Momento sublime.
Para finalizar, quero o que não mereço....o começo, a poesia “Acrilírico”, com a participação do maestro do tropicalismo Rogério Duprat, seguida de “Alfômega”, do amigo Gilberto Gil, que deve ter servido de inspiração para que outro baiano – Carlinhos Brown - fizesse o também elogiado “alfagamabetizado” cerca de 25 anos depois.

Enfim.... só escutando mesmo todo o disco para sentir como essa profusão de estilos, ritmos e línguas que interliga um ie-ie-ie romântico com Carolina dos olhos fundos, passa de trio elétrico para o empty boat e mistura tango com fado produz um resultado tão genial.
[PAUL]

Segue link para baixar o disco: http://link-protector.com/176329/

domingo, 19 de outubro de 2008

modnoC kcalB (Condom Black - Otto - 2001)





O branco que se pinta de preto, o branco que se emaranha nos sons negros. Esse é o Otto no CONDOM BLACK (2001).

Não dá pra começar a falar do cd sem falar do encarte: é um visual meio vermelho-preto-esfumaçado, meio sex shop, meio demoníaco, meio candomblé, meio cidade do Recife. E com muita inspiração e batuque de primeira, ele transforma essas imagens em música.

As músicas falam também de amor, mas no Condom Black não tem espaço para o amor puro, no Condom Black só cabe o amor carnal, aquele que dilata, aquele que procria.

O cd abre com “Dilata”, música com batida e vocabulário eletrônicos que com o vocal de Luciana Mello e um trompete discreto e delicado dão ao som um suingue e um charme todo especial.

Aí os Orixás começam a entrar em cena em “Anjos do Asfalto”, com o aviso de Exu dizendo que é melhor você se salvar! Música gostosa de ouvir, com um batuque manso e constante. Girando para a próxima, caímos na “Armadura”. O que eu adoro nessa música são as rimas, as palavras não convencionais para contar a busca da felicidade e do amor - “Armadura buracos de fechadura/ não tape mais, mulher/ a tua alma nua”. E sempre com um fundo eletrônico, melodioso, circular.

Aterrissamos em Cuba. Os sopros nessa música dão um sotaque caribenho incrível! Aqui mistura tudo: América do Sul, Caribe, Brasil, Cuba, rap, Xangô, Iemanjá, Papa. Um caldeirão tão familiar pra gente. E Cuba foi o nosso grande amor… A Babilônia e que se tudo aquilo é uma farsa, então disfarça…

Em “Dias de Janeiro”, “Londres”, “Por que” e “Retratista” (minha favorita...) o Otto acalma e volta a falar do amor de uma forma dilacerada, com uma poética maliciosa, quente, musical, ritmada, aérea e com perfume de rosa. Sempre com vozes femininas abafadas, porém muito vivas. É de uma sensibilidade muito masculina essa insistência do Otto em usar vozes femininas na música dele. E isso é uma característica também do “Sem Gravidade”, seu último disco (2003). Ele parece não conseguir falar de amor sem ter a contrapartida da mulher, como num jogo erótico.

O Otto vai pra rua com “Street Cannabis Street” e quando escuto essa música imediatamente me vem à cabeça a versão de um Bob Marley do século XXI, algo ligado ao futuro e que a gente deve perder o medo. É uma celebração de coisas que podem trazer prazer - cannabis, sêmem e as crianças. Tudo isso de uma maneira bem da rua, de sarjeta. Lindo!

E termino aqui falando de “Condom Black”, - resultado de todo o amor que o Otto foi cantando, batucando e nos eletrizando ao longo do cd. De tudo que é gostoso - do pau, do cu e da boceta, alguns dos personagens que habitam nossas vidas e nossas fantasias. E ele dá o último respiro e canta o maior presente: “o filhim” dele com a preta, fruto do amor das misturas: do preto com branco, do eletrônico com batuque, da natureza com a cidade e do homem com a mulher. Isso é o condom black!
[ANDRÉA]

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Diamante Verdadeiro (Álibi - Maria Bethânia - 1978)


Lembro bem deste LP com as cores fortes da capa contrastando com o ar levemente entristecido da Bethania. Na época, eu não dava a mínima pra este LP, e ele rodava um monte no aparelho lá de casa. Isso foi há uns trinta anos atrás. Hoje, sou fã. Dizer que o disco é maravilhoso ainda é pouco! A produção combina de maneira magistral, orquestração suave com o som da banda de bethania, destacando nessa salada, é claro, a voz privilegiada da cantora. Por onde começamos? O disco abre com Diamante Verdadeiro, choro do irmão Caetano, belíssimo por sinal. A faixa título vem em seguida, Bethania grava pela primeira vez um então pouco conhecido compositor alagoano, Djavan. A música não é das minhas preferidas nem do repertório dela, nem entre as composições dele, ainda assim é um daqueles tipicos "blues do Djavan". Depois vem um dueto com Alcione em O Meu Amor, composição magistral de Chico que na voz das duas cantoras é insuperável, transbordando sensualidade... Segue A Voz de uma Pessoa Vitoriosa, composição de Caetano com letra de Wally Salomão (uma parceria que, até onde eu saiba, se restringe a esta única canção), sambinha que começa suave e que Bethania trata de eletrizar à medida que se aproxima do refrão (repare na sutileza do solinho de guitarra). Bethania gravou ainda dois super clássicos, Ronda, de Paulo Vanzolini e Negue (Adelino Moreira e Enzo Passos), duas versões que também ficaram imbatíveis em sua voz. Explode Coração foi o hit deste disco, composição de Gonzaguinha, tocou até furar o vinil. Sonho Meu de Dona Yvonne Lara é um samba delicioso que conta com a participação mais do que especial de Gal Costa. Mais uma canção do Chico aparece aqui, De Todas as Maneiras. Outro momento caprichadíssimo. Depois vem Cálice de Chico e Gil, o que dizer? Você vai perdendo o fôlego porque o disco realmente é de arrebentar... Essa música recebe um tratamento diferenciado do restante do disco. Começa só com violão e suave percussão. A banda só vai entrando aos poucos e a orquestração fica em terceiro plano. O disco finaliza com uma deliciosa composição de Rosinha de Valença. Aliás, Rosinha de Valença (que me foi apresentada pelo Paulinho seguindo uma sugestão do Zédu) é um capítulo à parte. Ela toca todos os violões e cavaquinhos no disco. Seu estilo é bastante sutil, mas essencial (principalmente nas duas últimas faixas onde a produção é mais econômica). A música, que se chama Interior, é levada só no violão e gaita e a voz de Bethania. Perfeita.

O fato de ter sido campeão de vendas em 1978 é só um sintoma, ainda que não seja o motivo de estar aqui. A verdade é que este disco é um verdadeiro diamante. [MATEUS]