quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Homem Bruxa, André Abujamra




Difícil para mim falar de qualquer disco do André Abujamra sem lembrar de shows memoráveis de Os Mulheres Negras na época Unicamp no final dos anos 80. Aquela dupla, auto intitulada a terceira menor big band do mundo, era o que tinha de mais representativo de uma música verdadeiramente inovadora, que estava ali para quebrar paradigmas e ressignificar o que se entendia por música nacional. Tão boa aquela fase que um dos discos deles já foi resenhado aqui anteriormente.


Mas André Abujamra não ficou só naquilo. Longe disso. Desde então desenvolveu uma série de trabalhos, incluindo teatro, gravações com a banda Karnak (que também tem excelentes discos), Fatmarley (dj maluco que ele não falava que era ele) e dezenas de trilhas sonoras (dezenas mesmo). Como eu sei disso? Ouvindo uma das criativas músicas dele chamada “Curriculum”, que integra outro disco solo, O Infinito de Pé, de 2004.


Tudo isso até chegar ao atual e excelente “O Homem Bruxa”, disco que foi feito para homenagear seu pai ainda em vida (veio a falecer assim que acabou de gravar). 


Yo soy el hombre bruja

Yo soy um transformador (...)

Que tristeza e que coisa mais linda

Um amor de sarjeta

É o Sebastião amando a Florinda


O disco abre com a canção que batizou esse trabalho: “O Homem Bruxa”. Crítico, sem perder a veia humorística e transformando coisas feias em coisas lindas de valor, o homem bruxa serve como um fio condutor de todo o disco. Fazendo referências à magia, o clipe remete ao bom e velho cinema mudo com cenas da lâmpada mágica do Aladim: https://youtu.be/SyjooHpoMlA
 
Em “Mendigo” ele dá voz ao Sebastião, citado na música anterior, para falar sobre a invisibilidade de moradores de rua, fugindo dos discursos mais fáceis, sem deixar a ironia de lado (https://youtu.be/YjT_s-JF3zE). 

Na terceira música, “Espelho do Tempo”, sobressai a influência mais oriental (eu, na minha ignorância, diria indiana). O destaque fica por conta da narração inconfundível do seu pai, Antonio Abujamra, retratado como mestre dos bruxos: o seu tataraneto terá o brilho do seu olhar.

Um homem sobe na montanha azul

E lá em cima vê a lua cheia

Quase que dá pra pegar

Mas não dá


“50”, cujo título remete à sua idade e, talvez, às razões desse ser seu trabalho mais reflexivo, inicia-se como se fosse mais uma bela trilha sonora de um filme ao som de um piano que nos convida a sonhar. Ao longo da canção, o ritmo vai crescendo com a entrada da bateria até atingir o ápice com sua guitarra distorcida. Exceção dos instrumentos de corda (violino, viola, cello, etc), Abujamra assume todos os demais não só nessa canção, como nas demais. No espetáculo que leva o nome do disco (e que tive a grata oportunidade de assistir em Curitiba no último domingo 30/10/16), ele aproveita do fato de ser um trabalho realmente solo e literalmente dialoga com seus instrumentos (ideia do seu filho caçula Pedro). 


Na canção seguinte (Mãe Cazu) sobressai os instrumentos de cordas (esses sim, tocados por músicos convidados) com um ritmo bem suave. A animação retorna em “Ovô”, que conta com uma flauta chinesa e som de balalaica entre outros instrumentos. O estilo dessa divertida música bilíngue remete, para meus ouvidos, àquele adotado no início de sua carreira com os Mulheres Negras. No youtube tem um clipe idealizado, dirigido e editado pelo próprio Abujamra, filmado em um simples Iphone, que tem como protagonistas, entre outros, o filho Pedro e seus avôs (imagino): https://www.youtube.com/watch?v=YDv1gsfID8M
 

Bom demais viver

Mesmo que a vida dê rasteiras

O ritmo volta a ser suave em “Rio Quente”, música com um levada que me lembra aquelas boas canções de ninar. Quando eu tiver filhos, colocarei essa música no berço para que os ouvidos já se acostumem com bons sons desde bebê. 


O bom e velho som de sintetizador que marcou bastante trabalhos anteriores, reaparece na criativa “3 Homens, 3 Celulares”, de autoria do velho parceiro Maurício Pereira. Trata-se da única canção que não é de autoria própria em “O Homem Bruxa


Retomando com força o tema desse trabalho, “O Segredo da Levitação” tem um tom grandioso para inserir com ironia a atual era da informação. Tendo Abujamra tocando todos os instrumentos, o destaque fica por conta da narração de Edinho Moreno, locução bastante familiar por diversas publicidades que acostumamos a ouvir diariamente. Essa canção serve para encerrar o show de mesmo nome, com uma performática levitação do próprio Abujamra. Para quem duvidar, recomendo assistir. 


O olhar do olho de quem vê a vida vindo vendo o vento

Minha cabeça também venta e eu vivo de inventar

Venta forte balança tudo e começo a ver a ventania

Depois de flutuar por diversos estilos e influências, o disco encerra brilhantemente com aquela que, na minha opinião, é a melhor: “Magia do Vento”. Para mim, parece com uma receita de quem, como ele, vive de inventar, colocando tudo que se pode imaginar. O disco não poderia se encerrar de melhor forma. O clipe vale a pena ser conferido justamente pela sua simplicidade que lembra aqueles vídeos amadores: https://www.youtube.com/watch?v=awWCypqiP08 . Eu achei muito bom justamente por isso.


Enfim, filho de uma das maiores lendas do teatro nacional, André não poderia ter crescido em ambiente mais propício para desenvolver todo o seu potencial criativo e nos presentear com uma riquíssima e, antes de tudo, ímpar carreira musical. Que continue assim por mais 50.

Paul
PS. aproveito para deixar a dica: quem puder, assista ao espetáculo O Homem Bruxa. Simplesmente sensacional.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Nave Manha", Trupe Chá de Boldo


Foi escutando música no Spotify que descobri essa trupe. Acho que foi quando escutava Bárbara Eugênia ou algum músico contemporâneo que reparei com certa curiosidade, entre os artistas relacionados, um nome no mínimo curioso: "Trupe Chá de Boldo”. Resolvi matar minha curiosidade e me surpreendi com um som bem original, animado,  com letras criativas e um gingado gostoso de ouvir, tudo isso com sob influência da boa e velha vanguarda paulistana, mas com uma roupagem mais atual.
Passei a escutar com frequência cada vez maior até que tive a oportunidade de vê-los ao vivo há pouco tempo no aconchegante Teatro Paiol de Curitiba (uma espécie de La Bombonera local, como eles mesmos citaram). Foi um show memorável de uma trupe de 11 músicos (no disco em questão são 12). Poderia ser um time de futebol, mas é uma banda! E que banda!

No final do show, pude conhecer rapidamente alguns de seus integrantes e comprar seus dois CDs (devidamente autografados por um deles): o mais recente (Presente) e o primeiro (Nave Manha), de 2012, selecionado para ingressar o rol dos 1001 discos brasileiros para escutar antes de morrer.
Encarte do CD, com ilustração de Laura Teixeira
Produzido por Gustavo Ruiz (irmão da Tulipa Ruiz) e contando com uma bela ilustração de Laura Teixeira, Nave Manha inicia “No Escuro”, música de autoria de Gustavo Galo (responsável pela voz dessa música). Trata-se de uma espécie de bossa com som que remete a Tom Zé, tendo a cidade de São Paulo como cenário. Começou muito bem!
Saindo da Estação da Luz (citada em “No Escuro”) para o rush no Minhocão, a segunda é outra preciosidade bem-humorada e repleta de duplo sentido: “A Rolinha e o Minhocão”. A música começa com uma linha de baixo interessante. No YouTube, tem um clipe dessa música muito original, gravado dentro do carro percorrendo as ruas de Sampa (chegando até o Minhocão, obviamente). Vale a pena checar: https://www.youtube.com/watch?v=k8ClQ9LOP1I

Depois de “Se For Parar” (com a participação, entre outras, de Alzira E), vem “Apesar”, uma baladinha gostosa de ouvir que termina com “então me leve para longe daqui”. No caso do disco, para “Belém Berlin”, a canção seguinte que conta com a participação de André Abujamra e Gustavo Ruiz: me leve meu bem pra Belém pra Berlin. 

A seguir vem a agradável “Box 11”, outra repleta de referências paulistanas que, segundo informações do encarte, aborda  um homem solitário que se depara um outro apaixonado fazendo uma serenata para recuperar o seu amor. Após essa, o disco atinge o clímax:

Não quero gota
Não quero gota
Quero você gostoso todo
Na garrafa
Não quero gota
Eu quero o gosto
De te tomar inteiro
Pra ver se chapa

“Na Garrafa”, é a melhor do disco e apresenta todas as características de um ótimo hit: letra sensacional, batida animada, vocais entusiasmados. Um clássico. A versão que tem no disco já é excelente e dá vontade de sair dançando, mas ao vivo consegue melhorar ainda mais, com uma performance empolgante, principalmente com a vocalista Julia Valiengo e do Cabelo na guitarra. Auge do disco e do show. Vale a pena ver também o clipe muito bem produzido dessa música: https://www.youtube.com/watch?v=sBG0k8k7hLUAlém disso, essa canção fez parte do disco “Rolê, News Sounds of Brazil”, lançado em 2014.

As duas seguintes parecem estarem propositalmente nessa ordem: primeiro “Mar Morro”, (outra das minhas preferidas) que relata a descida para o litoral para, em seguida, com uma levada caribenha, vem a canção “Verão”.

“Splix”, a próxima, é uma composição conjunta do Galo com a Ciça (outra vocalista) e Peri Pane, que juntamente com Tatá Aeroplano, participam da sua gravação. Novamente diversão garantida!

(...) Pra você que transforma
Rímel em rima
Fuga em fogo
Pra você que transforma
Linha em lenha
Careta em carinho (...)


Para fechar o disco em alto estilo, “Até Chegar no Mar”. Música mais suave com uma letra lindíssima.

Com disco bem produzido, esse time demonstra que é uma verdadeira seleção, com som equilibrado desde as linhas de baixo do Felipe Botelho bem articuladas com a bateria e a percussão de Gongom e Rafinha, acompanhado de bons metais de Mumu e Remi, guitarras afinadas de Bastos e Cabelo, tendo como a cereja do bolo os vocais do Galo, Ciça, Julia e Leila, além de músicos como Rayraí e outros convidados. Talvez eu tenha até errado a referência a algum deles, mas a intenção era citar todos.
O show que tive a oportunidade de presenciar foi espetacular. Espero que não demorem mais 10 anos para retornar (foi o primeiro deles aqui). Além do ótimo som, destaca-se ainda a postura politizada e bem esclarecida, algo fundamental nesse momento em que a democracia tem sido violentada nesse país. Vida longa para essa trupe!

 Paul

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Beth Carvalho, Nos Botequins da Vida



Ontem, 17 de abril de 2016, foi um dia triste na história do Brasil e da sua frágil democracia. Como se não bastasse o golpe impulsionado por figuras mais deploráveis da política nacional, a votação transmitida ao vivo escancarou o estarrecedor nível dos deputados federais. Foi um espetáculo dantesco.
E nessas horas, tentando me apegar a algo que possa dar algum significado ou esperança, lembrei de tantos artistas que se mobilizaram nos últimos dias em prol da democracia. Gente do nível de um Chico Buarque, Chico César e Beth Carvalho, que chegou a lançar um samba contra o golpe.

Ao ouvir o samba da Beth Carvalho nesse momento da história do país, minha memória afetiva me levou diretamente para 1977, ano em que, criança, morei no Rio de Janeiro e, acompanhando minha mãe em algumas festas de amigos dela, passei a conhecer a fina nata da MPB e do samba, a começar pelo disco “Nos Botequins da Vida” que, inclusive, fazia parte da discografia de casa.  

 “Meu Deus mas para que tanto dinheiro
Dinheiro só pra gastar
Que saudade tenho do tempo de outrora
Que vida que eu levo agora
Já me sinto esgotado
E cansado de penar, meu Deus
Sem haver solução
De que me serve um saco cheio de dinheiro
Pra comprar um quilo de feijão”

O disco, lançado em março de 1977, abre com um clássico “Saco de Feijão” de autoria de Francisco Santana, com uma bem-humorada crítica às dificuldades econômicas da época do regime militar (e pensar que tem gente que sente saudades...).
Em seguida, outro samba clássico na voz da Beth Carvalho: “Olho por Olho”, de Zé Maranhão e Daniel: Dente por dente, olho por olho. Se tentar me enganar, bota a barba de molho. Irônico ela celebrar que a partir de hoje os direitos são iguais justamente quando se colocam em pauta dentro do Congresso Nacional diversas pautas retrógradas, inclusive relacionadas aos direitos das mulheres.

Depois, o primeiro samba-enredo da Portela: “Dinheiro Não Há (lá vem ela chorando), de Benedito Lacerda-  Ernani Alvarenga, de 1932. Consta que no desfile oficial da Praça XI, a então "Vai Como Pode" desfilaria com um samba de Paulo. Contudo, quando o líder portelense ouviu o samba de Alvarenga, imediatamente preferiu retirar seu samba, reconhecendo a superioridade da composição do amigo. Quase na hora do desfile, Paulo, empolgado, disse: "Alvarenga, o seu samba é melhor, nós vamos com ele. Vou retirar o meu" (1). Foi o primeiro samba apresentado em desfile a fazer sucesso nas rádios.

Os clássicos seguem com “Deus não castiga ninguém” (Paulinho Soares). Seria interessante que os nobres deputados de um país laico soubessem disso, afinal a gente mesmo é quem se castiga, meu bem.

Não Quero me vingar porque...vingança é sinal de covardia..: O disco segue em ritmo de roda de samba, com “Vingança”, de Carlos Cachaça. Talvez se Cunha gostasse de samba, poderiam ter poupado o Brasil do show de horrores proporcionado por vingança.

Tempo para respirar um pouco com “As moças”, de Paulinho Soares e Paulo César Pinheiro. Nessa, a roda de samba abre espaço para uma espécie de bossa.

A roda de samba volta com “Se você me ouvisse” do Nelson Cavaquinho e “Carro de Boi”, clássico de Manacea, que conta com a participação da Velha Guarda da Portela.

Depois de “Cuidado com a minha viola”, de Gracia do Salgueiro, vem “Desengano”, de Aniceto:

Um desengano dói
A minha alma tanto sente
Uma dor pungente,
Que invadiu meu coração
Depois de ser tão benevolente
Deste-me o desprezo ao invéz de gratidão
Recompensar-te a regalia que gozaste em minha companhia
Sempre procurei te agradar porém em vão
Me abandonaste sem qualquer satisfação
Hoje vivo assim a lamentar a minha sorte
Algo que só esquecerei com a morte.

Embora a letra remeta claramente a um desengano amoroso, ouvindo-a logo após o fatídico golpe de 2016, impossível não lembrar do Temer.

O ritmo diminui um pouco nas duas últimas lindas canções, deixando um certo ar de melancolia. Primeiro com “Sempre Só” (Edmundo Souto – Joaquim Vaz de Carvalho) para depois fechar com o clássico “O Mundo é um Moinho” do Cartola. Embora haja certos rumores de que ele teria composto essa música quando a filha estava saindo de casa, não encontrei nenhuma fonte confiável a respeito disso. De qualquer forma, quando a Beth Carvalho interpreta brilhantemente “Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos... Vai reduzir as ilusões à pó”, ficamos com certa esperança de que isso seja um recado ao Cunha e seus asseclas. Pode ser que demore, mas chegará um dia que quando notarem, estarão à beira de um abismo que cavaram a seus pés. Espero que não ainda tenha algo no país para ser salvo quando conseguirmos nos livrar desses bandidos. E que a luta da Beth Carvalho não seja em vão.

Para escutar no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=j2bgQW_vFu8

Paul
Nota
(1)    Informações obtidas em 18/042016 no site: http://www.portelaweb.com.br/arquivos.php?codigo=30&cod_cat=3

domingo, 10 de janeiro de 2016

Elis Regina: "Falso Brilhante"


Para fazer justiça, finalmente o blog inclui um disco de uma das maiores intérpretes brasileiras: Elis Regina. Há tempos já pensava em me arriscar a resenhar um disco dela, mas não sabia se estaria à altura desse desafio, já que embora grande admirador do seu talento e da sua voz imortal, não sou especialista na sua carreira e nos seus discos.

Entretanto, na sexta-feira, dia 8/1/16, no caminho do trabalho, escutei na BandNews o seu filho e crítico de música, João Marcelo Bôscoli tecendo diversos comentários interessantes, e encarei o fato de tê-lo escutado como um sinal de que era para finalmente incluir um disco da Elis no blog.

O escolhido para inaugurá-la aqui é Falso Brilhante, gravado em 1976 a partir de um espetáculo da Elis Regina que esteve em cartaz no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, durante 14 meses entre 1975 e 1976 com mais de 300 apresentações, sempre com lotação esgotada e enorme sucesso.

As duas canções que abrem o discos são de autoria do Belchior e certamente a belíssima interpretação da Elis para ambas contribuiu para o reconhecimento dele como compositor. “Como nossos pais” tornou-se um clássico da MPB, enquanto “Velha Roupa Colorida” tem uma letra tão boa que suas frases permanecem na memória de muita gente até hoje, como: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Depois, trazendo um caráter libertário para o espetáculo, Elis interpreta a belíssima “Los Hermanos”, um verdadeiro clássico da América Latina, de autoria de Atahualpa Yupanqui, nome artístico de Héctor Roberto Chavero, argentino cujo pseudônimo vem de Atahualpa e de Tupac Yupanqui, dois dos últimos governantes Incas antes da consolidação do domínio espanhol (1).

“Lavo as mãos e prossigo adiante ...
Eu por mim mesma... Todos por mim, meu oportuno herói”

A quarta música é uma das três interpretações de canções de João Bosco e Aldir Blanc nesse disco. Ao longo da sua carreira, Elis encontrou nessa parceria uma das suas principais fontes de canções que, com sua voz, alcançaram maior brilhantismo.
Depois vem “Fascinação”, uma versão em português de Fascination, popular valsa francesa composta por F. D. Marcheti e Maurice de Féraudy em 1905 que, em 1946, Arnaldo  Louzada traduziu para o português,  sendo interpretada originalmente por Carlos Galhardo. Ao longo do tempo, em diversas versões, esta música foi interpretada por gente do calibre de Nat King Cole e Edith Piaf.  Mesmo ao lado dessa gente, Elis deixou também sua marca e imortalizou-a também. (2).

O ritmo muda novamente em "Jardim de Infância” (outra composição da dupla João Bosco e Aldir Blanc). Nessa canção são citadas diversas brincadeiras de crianças, sob um inegável tom metafórico referindo-se à “brincadeiras” de adultos e a sua violência. Aldir Blanc caprichou na letra.

                               “Quero ver o sol atrás do muro ...
Quero um refúgio que seja seguro 
Uma nuvem branca sem pó, nem fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou vidraça”

 Em “Quero”, de autoria de Thomas Roth, tanto a letra quanto a melodia rementem à turma do Clube de Esquina, com referências a uma vida lúdica e rural que ficou para trás.
O tom libertário latino retoma em “Gracias a la Vida”, outro clássico, anteriormente imortalizado na voz de Mercedes Sosa, de composição da chilena Violeta Parra.

A penúltima é “Cavaleiro e os Moinhos”, outra canção da dupla Bosco e Blanc. Começando com uma marcha, a canção altera o ritmo e remete aos anos de chumbo da ditadura que estavam vivenciando naquele período.

“Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem”

O disco fecha brilhantemente com “Tatuagem”, linda canção romântica do Chico Buarque e Ruy Guerra, do repertório de Calabar, e que Elis conseguiu, acertando na dramaticidade, eternizar com uma interpretação magnífica.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim que serviu para colocar a Pimentinha (apelido que a acompanhou durante sua carreira) definitivamente no rol das maiores intérpretes nacionais de todos os tempos.

Em uma entrevista, Rita Lee lembrou que quando foi presa pela ditadura, a Elis foi a primeira e única pessoa a visita-la na prisão e que a ajudou muito não só para ser solta, mas para retomar a carreira posteriormente (3). No início de 1982, a Elis acabou falecendo com apenas 36 anos, mas felizmente nos deixou não apenas uma vasta obra, mas também uma bela história de vida.

Para escutar mais esse clássico da MPB pode-se utilizar o aplicativo de músicas Spotify: https://open.spotify.com/album/1F57xqKnbpTQB2SPoovTGJ

 Paul

Notas



(3)    Vídeo da entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=ghUnVxgXvus

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Chico Canta (Calabar: o elogio da traição)


À esquerda, a primeira capa, branca após censurarem a capa original com Calabar escrito, e à direita, a capa de outras edições, com o nome Chico Canta



Após serem citados três álbuns do Chico Buarque no presente blog (um que eu mesmo tinha escrito – Construção), percebi que certamente caberia mais. Um deles, em especial, merece uma atenção especial: Calabar (cujo nome foi censurado e ficou Chico Canta).

Entre 1972 e 1974, em parceira com Ruy Guerra, Chico Buarque escreve uma peça musical denominada “Calabar: o elogio da traição” tendo como tema a vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho do início do século XVII que se aliou aos holandeses e que, por isso, foi condenado e entrou na história (escrita pelos portugueses) como um traidor.
Capa original censurada
Na véspera da estreia da peça, a Policia Federal censurou totalmente a sua apresentação, estendendo a proibição à divulgação de que o espetáculo tinha sido proibido. Quanto ao disco com a trilha do musical, o nome Calabar foi proibido. Por isso, o disco teve que excluir seu nome e foi lançado apenas como “Chico Canta”. Muito mais do que questionar versões oficiais e demonstrar que a história depende de quem a escreve, a peça foi uma forma inteligente de questionar a própria ditadura que o Brasil vivia no início da década de 1970.

O disco começa com uma canção instrumental denominada “Prólogo”, para emendar em uma das minhas preferidas do Chico: “Cala a Boca, Bárbara”, canção que apresenta as faces romântica e política lado a lado. Como pessoalmente não conhecia o teor exato da peça proibida, fui pesquisar sobre quem seria a personagem Bárbara e encontrei uma análise muito interessante feita pela ensaísta Adélia Bezerra de Meneses, professora de literatura da USP e da Unicamp e autora de dois livros que dissecam a poética de Chico Buarque em entrevista à CULT ( ver http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/lirismo-e-resistencia-de-chico-buarque).

 “O “Cala a boca” que marca a canção estigmatiza a peça e os tempos que a geraram: remete ao mesmo silêncio imposto de “Cálice” (= Cale-se) da época em a canção foi produzida, a década de chumbo dos inícios dos anos 70, auge da ditadura militar; mas também remete a uma imposição de silêncio, à proibição de pronunciar o nome de Calabar, personagem da história colonial do Brasil, na época do domínio holandês, e que tinha sido julgado pelos portugueses como traidor, executado e esquartejado, e condenado à extinção de sua memória, o que implicaria a proibição de mesmo pronunciar o seu nome (o que é infringido na canção, à força de repetição do refrão: CALA a boca BARbara: CALABAR). E esse é um dos mais belos poemas eróticos da língua portuguesa.”

A terceira é a bela “Tatuagem” (quero ficar no seu corpo feito tatuagem... que é pra te dar coragem..pra seguir viagem...quando a noite vem..).

“Ana de Amsterdam”, que vem na sequência, é outra música que retrata uma personagem da peça, no caso uma prostituta holandesa que cruzou o oceano em busca de dias melhores. Ana de Amsterdam reaparece na canção seguinte (“Bárbara”) em um tocante diálogo de amor entre as duas: Bárbara... Bárbara..nunca é tarde, nunca é demais. (...) Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas ..E mergulhar no poço escuro de nós duas.”

As próximas duas (“Não existe peca ao sul do Equador/ Boi Voador não pode”), gravadas juntas, são marchinhas de carnaval levadas com muita alegria. A censura moralista novamente incomodou e o Chico teve que trocar o verso “Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor” por “Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”. Anos depois, ao ser gravada por Ney Matogrosso, atingiu grande popularidade.

“(...) Sabe, no fundo eu sou um sentimental...Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo... (além da sífilis, é claro)...Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar. ..Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora. (...)”

“Fado Tropical” (com pequeno trecho citado acima), tem, como o próprio nome diz, o tradicional ritmo lusitano que dá nome à música, uma verdadeira poesia. Nesta há partes cantadas por Chico Buarque, que se contrapõem aos lindos versos recitados por Ruy Guerra. O resultado é belíssimo. Para variar, a censura novamente interferiu e mandou suprimir a palavra “sífilis”. Na gravação final restou um breve silêncio no lugar.

Depois do romantismo de “Tira as mãos do mim”, “Cobra de Vidro” retoma a crítica política finalizando sensacionalmente com vários Presta Atenção com inegável tom policialesco.

“Vence na Vida quem diz sim” teve a letra totalmente censurada, restando na primeira versão do disco apenas a versão instrumental. Posteriormente, com a letra um pouco alterada, Nara Leão gravou-a, com a participação do Chico Buarque.

Para fechar o álbum, a breve e contundente “Fortaleza”: (...) minha fortaleza é de um silêncio infame... Bastando a si mesma, retendo o derrame... A minha represa”. Simples e forte ao mesmo tempo.


Sou obrigado a confessar que quando comprei esse disco (em formato CD há uns 20 anos) e com o nome de “Chico Canta” (com a sua foto de perfil na capa), desconhecia a sua história e até mesmo o fato de que o nome era para ser “Calabar”. Mesmo assim sempre gostei muito desse disco a ponto de, como muito bem lembrou a Carol, ter sido o escolhido como trilha sonora para o primeiro café da manhã que fiz para ela. Quanto à capa, tempos depois de ter sido lançado com a branca ou ainda com o seu perfil, o disco finalmente teve sua capa original divulgada. Pena que nos tempos atuais poucos compram CD ou vinil.

Sobre a influência dos anos de chumbo, que se caracterizou pela forte repressão e censura na primeira metade da década de 1970, em entrevista à Rádio Eldorado em 1989 (encontra-se em seu site oficial www.chicobuarque.com.br) Chico Buarque  diz o seguinte:

“Existe alguma coisa de abafado, pode ser chamado de protesto... eu nem acho que eu faça música de protesto....mas existem músicas aqui que se referem imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do país”.

De fato, fica evidente essa relação e só temos a agradecer o Chico Buarque por ter transformado esses graves obstáculos políticos em inspiração para compor e encantar. Triste é constar que quarenta anos depois, Chico Buarque ao invés de lidar com estúpidos censores de uma ditadura, tenha que aguentar os filhotes da ditadura que voltam a perturbar todos aqueles que, como Chico Buarque, lutaram por um país mais democrático. A esses, resta dizer um sonoro "Tire as Mãos de Mim!"

Para escutar esse verdadeiro clássico da MPB pode-se utilizar o aplicativo de músicas Spotify: https://open.spotify.com/album/2HbAJZnA6a8orrEtZEooRH

Paul

domingo, 22 de fevereiro de 2015

"Eu quero é botar meu bloco na rua", Sérgio Sampaio





Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, tal como Roberto Carlos, chegou no Rio de Janeiro em 1967 para dar início a sua carreira artística, a começar com trabalhos em rádios como locutor. Após um início repleto de dificuldades e vivendo intensamente as noites cariocas, conheceu Raul Seixas, quando este era produtor da CBS, e gravaram juntos A Sociedade da Grã-Ordem Cavernista apresenta Sessão das 10 (disco que também merece uma resenha nesse blog), em companhia de Edy Star e Míriam Batucada em 1971, inspirado por Freak Out (1966), de Frank Zappa e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles

Em 1972, sua carreira finalmente parecia que iria decolar quando apresentou-se no VII Festival Internacional da Canção com a marcha-rancho “Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua”. Apesar de não ganhar o festival, foi um imenso sucesso popular, servindo como carro-chefe para que o disco das melhores canções do VII FIC chegasse a 500 mil cópias vendidas. Parte do seu sucesso pode ser atribuída ao fato de sua letra simbolizar tão bem um sentimento coletivo na época do auge da repressão imposta pelo regime militar no Brasil.

No ano seguinte, catapultado pelo sucesso dessa música, assinou com a Philips/Polygram para gravar um disco com esse mesmo nome. Segundo André Midani, presidente da gravadora na época, Sérgio Sampaio chegou à gravadora como um artista completo[1].

Produzido por ninguém menos que Raul Seixas, acompanhado ainda por músicos como José Roberto Bertrami, Alexandre Malheiros, Ivan Conti, Renato Piau e Wilson das Neves, o disco inicia-se com a criativa “Leros, Leros e Boleros”, cujo ritmo faz mesmo menção a um bom bolero e segue com a ótima “Filme de Terror”, que inspirou um criativo vídeo de Antonio Celso Barbieri (https://www.youtube.com/watch?v=M2RjMh17CVk).

Em seu conjunto, o vinil apresenta algumas canções mais autorais (“Pobre meu Pai”, “Eu sou aquele que disse”), outras mais melódicas (“Não tenha medo não”) e por fim algumas com uma batida mais ritmada como “Labirintos Negros”. 

Destaca-se ainda a ótima “Cala a boca Zebedeu”, composta por seu pai, Raul Sampaio, maestro de uma banda em sua cidade natal; a bela letra de “Viajei de Trem”, que conta com a participação de Raul Seixas; e o animado samba “Odete” (não é vivendo que se aprende, Odete... mas é vivendo que se aprende a viver), em que cita trechos de “Que Maravilha” de Jorge Ben.

O disco culmina de maneira apoteótica com “Eu quero é Botar meu Bloco na Rua”, a sua mais conhecida e tantas vezes regravada, e finaliza com “Raulzito Seixas”, uma espécie de homenagem ao seu parceiro que o ajudou no início. Para escutar o disco mais facilmente para quem não conhece, recomendo acessar: https://www.youtube.com/watch?v=etf6oyZmS-A

Apesar de músicas como Cala a boca, Zebedeu", "Odete" e "Viajei de trem" terem tocado nas rádios, infelizmente as vendas decepcionaram (estima-se em 5 mil cópias). Nessa época, Sérgio Sampaio já era muito conhecido pelo seu comportamento inquieto, um artista fora do sistema,  considerado para muitos como o maldito da MPB. Como diria Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, com seu porte magérrimo, seu cabelão comprido e seu comportamento bizarro, sempre bebendo, cantando ou gargalhando com espalhafato, ele jamais poderia passar despercebido ao mais distraído habitué de bares da zona sul carioca[2]

Nos anos 1970 e início dos 1980 teve ainda dois discos lançados (o último de forma independente) e acabou atravessando a maior parte da década de 1980 esquecido, embora compondo canções cada vez mais aprimoradas.

Tentou retomar a carreira nos anos 1990 mas morreu antes de finalizar seu novo trabalho, “Cruel, que acabou sendo posteriormente produzido e lançado por Zeca Baleiro em 2006. Em termos de melodias e qualidade das canções, pode-se afirmar que o resultado desse último trabalho supera o aqui citado, mas optei por começar com esse pela sua importância histórica com o intuito mais de falar do artista do que do disco em si. 

Embora sua importância para a música brasileira tenha sido relegada a segundo plano durante muito tempo, felizmente nos últimos anos trabalhos como a sua biografia escrita por Rodrigo Moreira; regravações interpretadas por cantores como Zeca Baleiro e Elba Ramalho; ou ainda o documentário "Cabine 103", de Julia Bosco (filha de João Bosco), Gustavo Macacko e Juliano Rabujah, com direção de Chico Regueira e Inês Garçoni (https://www.youtube.com/watch?v=yAS3nrLn8_U) tem contribuído para o justo resgate de sua memória. 

Depois de tanto tempo vivendo no ostracismo e após sua morte quase no esquecimento, nos damos conta da falta que nos faz artistas que como ele que contestam o sistema e que, fundamentalmente, vivem com intensidade. De acordo com Sérgio Natureza, seu parceiro em diversas canções e autor do prefácio do livro de Rodrigo Moreira, Sérgio Sampaio foi o verdadeiro "Garrincha da MPB" devido à postura rebelde e não enquadrada que sempre norteou sua vida. Tal como o eterno camisa 7, Sérgio Sampaio morreu abandonado, mas nos deixou um belo legado.[3]

[Paul]  



[1] MIDANI, André. Mùsica, Ídolos e Poder – do vinil ao download, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[2] SEVERIANO, Jairo e HOMEM DE MELLO, Zuza, A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras, São Paulo: Editora 34, 2006 (5ª. Edição).
[3] Parte das informações que constam aqui é de Bruno Ribeiro, no site: http://www.samba-choro.com.br/artistas/sergiosampaio, obtido em 22 de fevereiro de 2015.