terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Chico Canta (Calabar: o elogio da traição)


À esquerda, a primeira capa, branca após censurarem a capa original com Calabar escrito, e à direita, a capa de outras edições, com o nome Chico Canta



Após serem citados três álbuns do Chico Buarque no presente blog (um que eu mesmo tinha escrito – Construção), percebi que certamente caberia mais. Um deles, em especial, merece uma atenção especial: Calabar (cujo nome foi censurado e ficou Chico Canta).

Entre 1972 e 1974, em parceira com Ruy Guerra, Chico Buarque escreve uma peça musical denominada “Calabar: o elogio da traição” tendo como tema a vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho do início do século XVII que se aliou aos holandeses e que, por isso, foi condenado e entrou na história (escrita pelos portugueses) como um traidor.
Capa original censurada
Na véspera da estreia da peça, a Policia Federal censurou totalmente a sua apresentação, estendendo a proibição à divulgação de que o espetáculo tinha sido proibido. Quanto ao disco com a trilha do musical, o nome Calabar foi proibido. Por isso, o disco teve que excluir seu nome e foi lançado apenas como “Chico Canta”. Muito mais do que questionar versões oficiais e demonstrar que a história depende de quem a escreve, a peça foi uma forma inteligente de questionar a própria ditadura que o Brasil vivia no início da década de 1970.

O disco começa com uma canção instrumental denominada “Prólogo”, para emendar em uma das minhas preferidas do Chico: “Cala a Boca, Bárbara”, canção que apresenta as faces romântica e política lado a lado. Como pessoalmente não conhecia o teor exato da peça proibida, fui pesquisar sobre quem seria a personagem Bárbara e encontrei uma análise muito interessante feita pela ensaísta Adélia Bezerra de Meneses, professora de literatura da USP e da Unicamp e autora de dois livros que dissecam a poética de Chico Buarque em entrevista à CULT ( ver http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/lirismo-e-resistencia-de-chico-buarque).

 “O “Cala a boca” que marca a canção estigmatiza a peça e os tempos que a geraram: remete ao mesmo silêncio imposto de “Cálice” (= Cale-se) da época em a canção foi produzida, a década de chumbo dos inícios dos anos 70, auge da ditadura militar; mas também remete a uma imposição de silêncio, à proibição de pronunciar o nome de Calabar, personagem da história colonial do Brasil, na época do domínio holandês, e que tinha sido julgado pelos portugueses como traidor, executado e esquartejado, e condenado à extinção de sua memória, o que implicaria a proibição de mesmo pronunciar o seu nome (o que é infringido na canção, à força de repetição do refrão: CALA a boca BARbara: CALABAR). E esse é um dos mais belos poemas eróticos da língua portuguesa.”

A terceira é a bela “Tatuagem” (quero ficar no seu corpo feito tatuagem... que é pra te dar coragem..pra seguir viagem...quando a noite vem..).

“Ana de Amsterdam”, que vem na sequência, é outra música que retrata uma personagem da peça, no caso uma prostituta holandesa que cruzou o oceano em busca de dias melhores. Ana de Amsterdam reaparece na canção seguinte (“Bárbara”) em um tocante diálogo de amor entre as duas: Bárbara... Bárbara..nunca é tarde, nunca é demais. (...) Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas ..E mergulhar no poço escuro de nós duas.”

As próximas duas (“Não existe peca ao sul do Equador/ Boi Voador não pode”), gravadas juntas, são marchinhas de carnaval levadas com muita alegria. A censura moralista novamente incomodou e o Chico teve que trocar o verso “Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor” por “Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”. Anos depois, ao ser gravada por Ney Matogrosso, atingiu grande popularidade.

“(...) Sabe, no fundo eu sou um sentimental...Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo... (além da sífilis, é claro)...Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar. ..Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora. (...)”

“Fado Tropical” (com pequeno trecho citado acima), tem, como o próprio nome diz, o tradicional ritmo lusitano que dá nome à música, uma verdadeira poesia. Nesta há partes cantadas por Chico Buarque, que se contrapõem aos lindos versos recitados por Ruy Guerra. O resultado é belíssimo. Para variar, a censura novamente interferiu e mandou suprimir a palavra “sífilis”. Na gravação final restou um breve silêncio no lugar.

Depois do romantismo de “Tira as mãos do mim”, “Cobra de Vidro” retoma a crítica política finalizando sensacionalmente com vários Presta Atenção com inegável tom policialesco.

“Vence na Vida quem diz sim” teve a letra totalmente censurada, restando na primeira versão do disco apenas a versão instrumental. Posteriormente, com a letra um pouco alterada, Nara Leão gravou-a, com a participação do Chico Buarque.

Para fechar o álbum, a breve e contundente “Fortaleza”: (...) minha fortaleza é de um silêncio infame... Bastando a si mesma, retendo o derrame... A minha represa”. Simples e forte ao mesmo tempo.


Sou obrigado a confessar que quando comprei esse disco (em formato CD há uns 20 anos) e com o nome de “Chico Canta” (com a sua foto de perfil na capa), desconhecia a sua história e até mesmo o fato de que o nome era para ser “Calabar”. Mesmo assim sempre gostei muito desse disco a ponto de, como muito bem lembrou a Carol, ter sido o escolhido como trilha sonora para o primeiro café da manhã que fiz para ela. Quanto à capa, tempos depois de ter sido lançado com a branca ou ainda com o seu perfil, o disco finalmente teve sua capa original divulgada. Pena que nos tempos atuais poucos compram CD ou vinil.

Sobre a influência dos anos de chumbo, que se caracterizou pela forte repressão e censura na primeira metade da década de 1970, em entrevista à Rádio Eldorado em 1989 (encontra-se em seu site oficial www.chicobuarque.com.br) Chico Buarque  diz o seguinte:

“Existe alguma coisa de abafado, pode ser chamado de protesto... eu nem acho que eu faça música de protesto....mas existem músicas aqui que se referem imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do país”.

De fato, fica evidente essa relação e só temos a agradecer o Chico Buarque por ter transformado esses graves obstáculos políticos em inspiração para compor e encantar. Triste é constar que quarenta anos depois, Chico Buarque ao invés de lidar com estúpidos censores de uma ditadura, tenha que aguentar os filhotes da ditadura que voltam a perturbar todos aqueles que, como Chico Buarque, lutaram por um país mais democrático. A esses, resta dizer um sonoro "Tire as Mãos de Mim!"

Para escutar esse verdadeiro clássico da MPB pode-se utilizar o aplicativo de músicas Spotify: https://open.spotify.com/album/2HbAJZnA6a8orrEtZEooRH

Paul

domingo, 22 de fevereiro de 2015

"Eu quero é botar meu bloco na rua", Sérgio Sampaio





Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, tal como Roberto Carlos, chegou no Rio de Janeiro em 1967 para dar início a sua carreira artística, a começar com trabalhos em rádios como locutor. Após um início repleto de dificuldades e vivendo intensamente as noites cariocas, conheceu Raul Seixas, quando este era produtor da CBS, e gravaram juntos A Sociedade da Grã-Ordem Cavernista apresenta Sessão das 10 (disco que também merece uma resenha nesse blog), em companhia de Edy Star e Míriam Batucada em 1971, inspirado por Freak Out (1966), de Frank Zappa e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles

Em 1972, sua carreira finalmente parecia que iria decolar quando apresentou-se no VII Festival Internacional da Canção com a marcha-rancho “Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua”. Apesar de não ganhar o festival, foi um imenso sucesso popular, servindo como carro-chefe para que o disco das melhores canções do VII FIC chegasse a 500 mil cópias vendidas. Parte do seu sucesso pode ser atribuída ao fato de sua letra simbolizar tão bem um sentimento coletivo na época do auge da repressão imposta pelo regime militar no Brasil.

No ano seguinte, catapultado pelo sucesso dessa música, assinou com a Philips/Polygram para gravar um disco com esse mesmo nome. Segundo André Midani, presidente da gravadora na época, Sérgio Sampaio chegou à gravadora como um artista completo[1].

Produzido por ninguém menos que Raul Seixas, acompanhado ainda por músicos como José Roberto Bertrami, Alexandre Malheiros, Ivan Conti, Renato Piau e Wilson das Neves, o disco inicia-se com a criativa “Leros, Leros e Boleros”, cujo ritmo faz mesmo menção a um bom bolero e segue com a ótima “Filme de Terror”, que inspirou um criativo vídeo de Antonio Celso Barbieri (https://www.youtube.com/watch?v=M2RjMh17CVk).

Em seu conjunto, o vinil apresenta algumas canções mais autorais (“Pobre meu Pai”, “Eu sou aquele que disse”), outras mais melódicas (“Não tenha medo não”) e por fim algumas com uma batida mais ritmada como “Labirintos Negros”. 

Destaca-se ainda a ótima “Cala a boca Zebedeu”, composta por seu pai, Raul Sampaio, maestro de uma banda em sua cidade natal; a bela letra de “Viajei de Trem”, que conta com a participação de Raul Seixas; e o animado samba “Odete” (não é vivendo que se aprende, Odete... mas é vivendo que se aprende a viver), em que cita trechos de “Que Maravilha” de Jorge Ben.

O disco culmina de maneira apoteótica com “Eu quero é Botar meu Bloco na Rua”, a sua mais conhecida e tantas vezes regravada, e finaliza com “Raulzito Seixas”, uma espécie de homenagem ao seu parceiro que o ajudou no início. Para escutar o disco mais facilmente para quem não conhece, recomendo acessar: https://www.youtube.com/watch?v=etf6oyZmS-A

Apesar de músicas como Cala a boca, Zebedeu", "Odete" e "Viajei de trem" terem tocado nas rádios, infelizmente as vendas decepcionaram (estima-se em 5 mil cópias). Nessa época, Sérgio Sampaio já era muito conhecido pelo seu comportamento inquieto, um artista fora do sistema,  considerado para muitos como o maldito da MPB. Como diria Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, com seu porte magérrimo, seu cabelão comprido e seu comportamento bizarro, sempre bebendo, cantando ou gargalhando com espalhafato, ele jamais poderia passar despercebido ao mais distraído habitué de bares da zona sul carioca[2]

Nos anos 1970 e início dos 1980 teve ainda dois discos lançados (o último de forma independente) e acabou atravessando a maior parte da década de 1980 esquecido, embora compondo canções cada vez mais aprimoradas.

Tentou retomar a carreira nos anos 1990 mas morreu antes de finalizar seu novo trabalho, “Cruel, que acabou sendo posteriormente produzido e lançado por Zeca Baleiro em 2006. Em termos de melodias e qualidade das canções, pode-se afirmar que o resultado desse último trabalho supera o aqui citado, mas optei por começar com esse pela sua importância histórica com o intuito mais de falar do artista do que do disco em si. 

Embora sua importância para a música brasileira tenha sido relegada a segundo plano durante muito tempo, felizmente nos últimos anos trabalhos como a sua biografia escrita por Rodrigo Moreira; regravações interpretadas por cantores como Zeca Baleiro e Elba Ramalho; ou ainda o documentário "Cabine 103", de Julia Bosco (filha de João Bosco), Gustavo Macacko e Juliano Rabujah, com direção de Chico Regueira e Inês Garçoni (https://www.youtube.com/watch?v=yAS3nrLn8_U) tem contribuído para o justo resgate de sua memória. 

Depois de tanto tempo vivendo no ostracismo e após sua morte quase no esquecimento, nos damos conta da falta que nos faz artistas que como ele que contestam o sistema e que, fundamentalmente, vivem com intensidade. De acordo com Sérgio Natureza, seu parceiro em diversas canções e autor do prefácio do livro de Rodrigo Moreira, Sérgio Sampaio foi o verdadeiro "Garrincha da MPB" devido à postura rebelde e não enquadrada que sempre norteou sua vida. Tal como o eterno camisa 7, Sérgio Sampaio morreu abandonado, mas nos deixou um belo legado.[3]

[Paul]  



[1] MIDANI, André. Mùsica, Ídolos e Poder – do vinil ao download, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[2] SEVERIANO, Jairo e HOMEM DE MELLO, Zuza, A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras, São Paulo: Editora 34, 2006 (5ª. Edição).
[3] Parte das informações que constam aqui é de Bruno Ribeiro, no site: http://www.samba-choro.com.br/artistas/sergiosampaio, obtido em 22 de fevereiro de 2015.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Álibi. Maria Bethania.

É batata! Vez ou outra você se vê num desses programas de índio inevitáveis e se pergunta: quéqueutôfazendoaqui? Churrascos com prazo de validade de duas horas, por exemplo. É nessa hora que sempre fantasio a perfeição. A perfeição atende pelo nome de Jair Rodrigues, Antonio Carlos Mussum, Maria Alcina e Wally Salomão. Churrasco perfeito. Wally Salomão é co-autor da musica mais bacana desse disco: A faixa nº 4. O que nos remete a curiosidade desse disco icônico, que é a de, possivelmente, ser o único trabalho genial onde as três primeiras musicas não valem uma pataca. O que torna indispensável o “Álibi” são as faixas 5, 6 e 7. Simplesmente são as versões definitivas de Ronda, Explode Coração e Negue. Isso em 1978. Seria algo comparável ao Pelé ser eleito o melhor jogador do século faltando vinte anos para o fim daquele centenário. Quero dizer, ninguém jamais interpretará melhor, enquanto esse globo for habitável, essas três musicas depois de 78. Outra curiosidade do disco é que as duas parcerias com Bethania em musicas maravilhosas resultaram em uma coisa xoxa. E parceiras que em 1978 estavam no auge da voz. Alcione em “O meu Amor” e Gal em “Sonho meu”. Até Claudia Ohana e Marieta Severo no “Opera do Malandro” disco filme e disco peça fizeram mais bonito com Elba Ramalho neste “O meu Amor”. “Cálice” está ótima com Bethania. Mas Cálice é Cálice. Possivelmente, junto com “Brejo da Cruz” e “Uma canção Desnaturada”, é a musica mais intensa do Chico. Meu, até Ritchie faria bonito! Seja como for, ainda perde para versão original com Milton no disco “Feijoada Completa”. Voltando as faixas 5, 6 e 7. Me recordo de meu amigo Pimenta um dia asseverar: “Zeba, a coisa é o seguinte: se Maria Bethania cantar parabéns para você, nesta data querida...você realmente se sente envelhecendo mais um ano. ZEBA ET. Tá sem foto do disco, pq não sei como fazer isso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

"É o que Temos" - Bárbara Eugênia


Nascida em Niterói e residente em Sampa desde 2005, Bárbara Eugênia estreou com pé direito ao participar da trilha sonora do filme “O Cheiro do Ralo” dois anos mais tarde. Desde então ela tem atuado em diversos projetos solos ou em conjunto com outros músicos, sempre bem acompanhada, exibindo seu talento tanto como intérprete, quanto como compositora.

Depois do promissor “Jornal da Bad” em 2010, seu primeiro trabalho solo, Bárbara Eugênia seguiu conquistando terreno até que obteve como prêmio no Festival MPTM (Música Para Todo Mundo)” a gravação de seu segundo álbum: “É o que Temos”, lançado em 2013.

Com a produção e participação de Edgard Scandurra (já parceiro dela em outros projetos)[1] e de Clayton Martin (baterista do Cidadão Instigado), o disco ficou tão bom que faturou o prêmio Multishow naquele ano. Vamos ao disco então...

Depois de iniciar suavemente com “Coração”, a segunda canção merece destaque especial por resgatar “Porque brigamos”, sucesso da Jovem Guarda no início do anos 70 com a Diana interpretando uma versão de Rossini Pinto para “I am...I sad” de Neil Diamond. A nova versão ficou tão boa que até mesmo o som do órgão de Astronauta Pinguim (tecladista) consegue nos levar para a atmosfera “brega” (sem nenhuma conotação pejorativa) que fazia parte da gravação original da Diana. Para completar, o clipe dirigido por André Gagliardo e disponível no youtube é simplesmente genial.
https://www.youtube.com/watch?v=Nr5xeHMIGDQ

Tudo se resume, tudo se resume a uma
Uma dúzia, tantas dúvidas, as mesmas velhas dúvidas
E você numa atitude irresponsável me deixou suspenso no ar
Não é do meu feitio, mas vou entregar
Se foram as noites brancas que te dei
Por que essa roupa suja pra lavar
Se não tínhamos o menor cabimento
E pensando bem a gente deu o que tinha que dar


Mantendo como pano de fundo uma crise de relacionamento, “Roupa Suja”, composta e gravada em parceira com Pélico, mostra toda a sua capacidade de se cercar de bons músicos. O clipe, lançado recentemente em uma versão mais “acústica”, também merece ser observado com atenção: https://www.youtube.com/watch?v=pudTZfJllps

Você devia mudar o seu rumo
Você devia achar que merece mais
“O Peso dos seus Erros”, a quarta canção do álbum, nos leva novamente para o ambiente da Jovem Guarda, mas desta vez com uma canção de sua autoria.

Em “I Wonder”, a parceria desta vez é com os músicos de Mustache e os Apaches. O banjo de Pedro Pastoriz e o coro bem arranjado produzem um resultado muito criativo.

A próxima canção, “Sozinha” é uma adaptação feita por ela mesma de “Me siento solo”, do francês Adanowsky (Adan_Jodorowsky). Eu, particularmente, não conhecia a original, mas cheguei à conclusão que a versão da Bárbara Eugênia ficou muito melhor.

A sétima música, “Jusqu'a La Mort” é, pessoalmente, uma das minhas prediletas. Para falar de amor, desta vez ela se arrisca a compor em francês e acertou a mão incrivelmente, com uma sonoridade que me faz pensar em um improvável casamento do rock progressivo (Pink Floyd na veia) com o tropicalismo. O som de uma das guitarras me remete ao vocal da Gal Costa nos velhos tempos (viagem minha). Como se não bastasse, o clipe é de uma sensualidade de muito bom gosto: https://www.youtube.com/watch?v=26qBo16Uo0A

Em seguida, ela acelera o ritmo em um excelente rock com “Ugabuga Feeling”, canção na qual o amor se coloca de uma forma mais visceral e carnal, sob uma batida bem primitiva. Sensacional.

Eu piso na poça debaixo da chuva
Sai um arco-íris com raios de sol
Eu danço no vento, me perco no tempo
Balanço, sacudo o cabelo e não fico só
Não tenho medo da chuva e não fico só
“Eu Não Tenho Medo Da Chuva e Não Fico Só”, a próxima, é fruto da sua parceria com Tatá Aeroplano (que no primeiro disco já tinha rendido bons frutos), contando ainda com a participação de Chankas, com quem ela gravou o trabalho mais recente: Aurora. Nela o amor flui leve, sem medo.

Em “You wish, You get it”, retoma o tom mais animado,  alto astral, em uma feliz composição dela, desta vez em inglês, tal como a canção que encerra o álbum, “Out to the Sun”, que conta com a participação especial do violoncelo de Peri Pane, outro parceiro que rende bons trabalhos para ambos, como na “Note”, que faz parte do disco dele.

Por fim, tendo no amor das mais diversas formas como fio condutor, ela vagueia pelas canções com sua voz doce e afinada. Uma ponte unindo Niterói a São Paulo, canções próprias a versões, letras em português àquelas em inglês ou francês. Quase sempre com clipes muito bem produzidos (vale uma busca no YouTube na página dela). A sua beleza se traduz em suas canções. A continuar assim, sua carreira vai longe. Por enquanto, é o que temos, mas para Bárbara, nunca é tarde, nunca é demais.

 [Paul]






[1] Entre outros projetos dela com Scandurra, destaca-se o a homenagem a Serge Gainsbourg com o Les Provocateurs e a gravação do programa MTV na Brasa, com uma versão matadora de “Dor e Dor”, do Tom Zé: https://www.youtube.com/watch?v=wbbKbTrl0WU

sábado, 3 de janeiro de 2015

"Eu Menti pra Você", Karina Buhr


Cantora, compositora, percursionista, atriz, desenhista, ativista, enfim, Karina Buhr é uma artista completa. E como se não bastasse, os dois discos da sua carreira solo são tão bons que foi difícil escolher qual deles seria primeiramente selecionado para entrar nesse blog. 
Depois de muito escutá-los, resolvi falar sobre o primeiro. Com perdão do trocadilho, eu mentiria para você se dissesse que ouvi esse disco na época do seu lançamento, em 2010.  Não me recordo ao certo como que fui descobrir a Karina Buhr, mas creio que foi em 2012 através da internet e posso afirmar que foi paixão à primeira vista.
Baiana de nascimento, crescida em Recife, Karina Buhr é daquelas que se entrega de corpo e alma ao que faz. Embora eu ainda não tenha tido a oportunidade de assisti-la ao vivo (aguardo-a em Curitiba), já pude constatar em vídeos que seus shows são espetaculares. Sua música é carregada de energia. Seu suor, solidifica, vira pó.
Com currículo recheado de diversas manifestações culturais, em 1997 Karina Buhr formou a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou três discos[1]. Esse rico histórico certamente contribuiu para que seu disco solo de estreia já apresentasse uma sonoridade tão marcante, combinando canções ao mesmo tempo bonitas e fortes. Mas vamos ao disco em questão:
Depois de abrir com a canção que batiza o CD, na qual o sotaque pernambucano agrega muito à música e demonstra toda sua singularidade, o disco segue com a original “Vira Pó”, para emendar numa canção que é, para mim, uma das suas melhores: Avião Aeroporto.
“Porque o corpo humano tem a resistência perfeita
Se bate de leve, dói, bate de com força, mata”
Além de uma letra contundente, a música tem uma batida que nos remete ao mangue beat. No youtube tem algumas versões dessa canção nas quais ela dá um verdadeiro espetáculo. Recomendo a gravação no programa Na Brasa, com a participação da guitarra singular do Edgard Scandurra: https://www.youtube.com/watch?v=cltr2yXbn0M
“Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo Eu posso não ter mais você
Você não mais que isso”
“Nassíria e Najaf” nos emociona ao falar do universo de crianças que vivem nessas duas cidades iraquianas fortemente bombardeadas durante a guerra do Iraque. Infelizmente, esse tema se mantém na Palestina, Afeganistão e outros tantos lugares, tornando a música tragicamente atual. Seu clipe é tocante: https://www.youtube.com/watch?v=aPx5e4BVlWI
O disco segue brilhantemente com “O Pé” e “Ciranda do Incentivo”, canção na qual é faz uma paródia com o mercado fonográfico:
“Eu não sei negociar...eu sei no máximo tocar meu tamborzinho e olhe lá...”
Depois vem “Telekphonen”, música experimental em que ela insere uma letra em alemão. Som completamente diferente, mas que vale a pena escutar. Nessa canção, ela faz uso do Theremin, instrumento musical eletromagnético criado pelo russo de mesmo nome, cujos sons são obtidos com movimentos da mão. Interessante.
Depois o ritmo diminui, sem perder o tom crítico em “Mira Ira”:
“Tá tudo padronizado
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado”
O ritmo volta a subir em “Soldat”, o verdadeiro poema cantado em ritmo punk-rock. Depois vem as igualmente boas “Esperança Cansa” (minha fúria odiosa já está na agulha) e “Solo de Água Fervente”.
“Essa tarde dourada que traz
felicidade pras pessoas normais”
“Bem vindas”, a penúltima canção, é mais uma que tem uma letra inspirada, mas dessa vez com um ritmo mais lento, quase como se fosse uma canção de ninar. Excelente.
“Hoje eu não tô afim
de corre-corre e confusão
eu quero passar a tarde
estourando plastico bolha”
O disco encerra com a criativa “Plástico Bolha”, afinal quem nunca quis passar uma tarde estourando plástico bolha.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim, que traduz muito bem a sua energia. Um som desses para nos encher de esperança de que não está tudo padronizado nos nossos corações.

PS: para escutar, conhecer, ouvir, sugiro entrar no site dela, de onde se pode baixar ou comprar o disco:
http://www.karinabuhr.com.br/discos 
[Paul]




[1] Karina BUhr participou de rodas e côco e ciranda em Pernambuco, e integrou bandas como Eddie, Bonsucesso Samba Clube, Dj Dolores e Orchestra Santa Massa (com Erasto Vasconcelos e Antônio Nóbrega).

domingo, 27 de abril de 2014

"A Arca de Noé" - Vinícius de Moraes (1980)


 
Lembro até hoje do dia em que, ainda criança, minha mãe chegou com um disco Arca de Noé, que mostrava que músicas infantis não precisam ser bobas, ainda mais interpretadas por cantores do naipe de Ney Matogrosso, Chico Buarque e Alceu Valença entre outros.
O disco tinha uma capa interativa, daquelas que só os antigos vinis permitiam.  Pelo que me recordo, uma capa em branco com uma arca desenhada. O restante dos desenhos estava disposto em um encarte interno para recortar e colar na capa, algo que eu rapidamente me prontifiquei a fazer. Depois descobri que aquilo era mais uma criação do mestre Elifas Andreato (sobre os desenhos de Antonio Bandeiras).

Os poemas de A Arca de Noé foram escritos por Vinicius muitos anos antes de sua primeira edição para seus filhos Suzana e Pedro de Moraes. Por muitos anos, eles ficaram guardados. Só em 1970, o conjunto de poemas infantis ganhou o mundo em lançamento na Itália, país onde a presença do poeta era constante.

É lá, justamente que o disco com os poemas infantis é preparado com o nome  L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, com arranjos de Rogério Duprat e Toquinho, resolveram transformar o conjunto de belos poemas  em  disco (resultou em dois discos – embora aqui falarei apenas do primeiro), com o mesmo nome do livro. 
“E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Após uma abertura orquestrada sob a narração de Chico Buarque, o disco abre de forma grandiloquente, com a canção “Arca de Noé” com a voz de Milton Nascimento trazendo tranquilidade alternando com um coro infantil que acelera no tempo certo. Belíssimo resultado.

Em seguida, lá vem “O Pato” para ver o quê que há, com o MPB-4. Que nunca se divertiu com a voz do próprio pato nessa canção? Depois vem a coitadinha da “Corujinha” (que feinha que é você) com a brilhante voz da Elis Regina, em talvez uma das suas últimas gravações antes de falecer,
"Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz”
O clima circense vem em grande estilo com a voz de Alceu Valença cantando “A Foca”, outra que se tornou clássica e emenda com o clima tropicalista de Moraes Moreira cantando “As Abelhas”.  Bebel Gilberto canta “As pulgas”, com um ritmo que deve  fazer a festa das crianças mais novas. Depois vem o divertido clima de cabaré com divertidas Frenéticas cantando “Aula de Piano”.

O disco segue com “A Porta” (cantada por Fábio Jr.), “A Casa” (poema que consolidou a expressão rua dos bobos número zero) e “São Francisco”, numa bela interpretação do Ney Matogrosso depois de uma abertura com um coro gótico.

"Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão"
“O Gato” vem com a voz da Marina, canção que vai acelerando também em ritmo circense, alternando com trechos mais sossegados em arranjo caprichado. Depois vem o “O Relógio” com a voz de Walter Franco (outro que está até então ausente desse blog e que merece ser lembrado também).

"Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
Canção que certamente deve ter servido de inspiração para tantos pais ninarem suas filhinhas nos anos 80, “Valsa para uma Menininha” serve para ilustrar bem a bela parceria de Vinícius com Toquinho, que marcou a última década de vida do primeiro.

O disco termina com uma canção final que traz uma espécie de pout-pourri orquestrado de trechos das canções do disco.

Infelizmente pouco depois do lançamento desse belo disco que mereceu inclusive um especial na Rede Globo, quando planejava o volume 2 desse disco (lançado em 1981), Vinícius faleceu deixando um imenso e valioso legado.
Enfim, a Arca de Noé tornou-se um dos discos mais populares de Vinicius de Moraes por trazer o mundo da literatura e das canções para o público infantil, e de quebra aproveitando também para despertar a criança que há em cada adulto.  Dá até vontade de ter filhos só para ter pretexto de escuta-lo novamente.
[Paul]

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mestre Ambrósio - Fuá na Casa de Cabral (1998)



Naquele Brasil antigo / Perdido no desengano / Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada / Deu ordem à rapaziada / Mandou varrer o terreiro
"Me chame o pai do chiqueiro / que hoje eu quero forró, / Toré, samba, catimbó / Que eu já virei brasileiro-ô-ô-ô..."


Mealembro vagamente das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. A ideia era de festa, mas o pau comeu e houve protestos em muitos locais e ocasiões. Hum, vejamos nós aqui que esse negócio de povo festeiro, sem consciência sóciopolíticaeconômica que 14 anos depois surpreende os fãs do megafutebol patrocinado pela tal de FIFA já aflorava...

Eita disquinho bom esse segundo do Mestre Ambrósio (que segundo o Wikipedia é banda de manguebeat?)! Banda efêmera, átimo, como diria nosso tamborista zé tatu. Três discos e se acabou. O primeiro saiu independente. Mais forte no conteúdo que na produção, algo que neste segundo já é aprimorado.

Vimos o Mestre aqui num mês frio qualquer em Curitiba (surpresa?), no antigo forró do vasquinho. Palco pequeno, quase de colégio. A plateia se espalhava pela (ex-)quadra poliesportiva do (ex-)clube. Nos cantos, vendia-se cerveja, caldinho de feijão e mocotó. Calamengau era uma espécie de nome coringa, aplicava-se ao espaço e a banda anfitriã da casa. Se não me engano, criada e gerida pelo “Ceará” que vi tocar sanfona com a camisa do Santa Cruz, vai entender (bem, pode ser minha memória que me apunhala pelas costas).

Oh-oh, sim, o disco! Mestre Ambrósio é, ou era neste disco, principalmente Siba (rabeca, guitarra, voz, letra e música). Siba não é de muita concessão, se arrepiaria torcendo o nariz para o supra-citado verbete da wiki. Siba curte mesmo é o som do interior de Pernambuco, do nordeste, música matuta (como atesta a autobiográfica Pé-de-Calçada). Forró pé-de-serra calçado na sua rabeca, já veja aí a diferença. Mas, a parte estas questões sociológicas, antropológicas, musicológicas ou outras lógicas quaisquer (das quais eu só começo a entender depois da terceira ou quarta ampola), a música deles é boa pra cacete! Siba tem um vozeirão potente, toca(ava, pelo menos no Calamengau) uma Gibson SG cristalina e tinha essa coisa de “forrabeca” que eu nunca tinha ouvisto antes. A faixa que dá nome ao disco, por exemplo, é a sua cara.

Mestre Ambrósio aproveita a oportunidade de, dispondo de melhor estrutura refazer três temas do álbum de estreia. Pessoalmente, não penso que tenha sido essencial. Mas o Mestre não é só Siba. São três percussionistas, Éder “o” Rocha, Sérgio Cassiano (que também dança e canta, num timbre e estilo completamente diferente de Siba), Maurício Alves e eventualmente Helder Vasconcellos (que também empunha o fole de 8 baixos) e mais o baixista Mazinho Lima. A formação pode sugerir algum paralelo com a Nação Zumbi, mas a realidade passa looooonge. Apesar da inclinação regionalista do conjunto, o som é mais variado (mesmo sem incluir o óbvio rock) e a percussão acompanha.

Neste Fuá destacam-se ainda Sêmen (Como posso saber de onde venho/ Se a semente profunda eu não toquei?), Pescador (Já faz tempo que eu sai de casa / Pra viver no mar), Os Cabôco que homenageia o carnaval de Olinda, e Chamá Maria (Toda noite é assim  / Toda festa é assim  / ... / Um brabo bate, um mole apanha / E o pagamento é que é ruim / ... / O fole emperra, a voz arranha / Eita, pisada sem fim!).
Ainda sairia um ótimo Terceiro Samba, menos Siba e mais Hélder e Sérgio Cassiano, e depois disso Siba se mandou para a Fuloresta e eu perdi o contato. Enquanto isso, o tempo passou e nada ficou mais atual que a última estrofe do Fuá:


Mas na hora da verdade
Quando passou a cachaça
Seu Cabral sentou na praça
Caiu na reflexão
Disse: "Esta situação
sei que nunca mais resolvo!"
Então falou para o povo:
"Juro que me arrependi
o Brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!"



[M]