sábado, 17 de janeiro de 2015
Álibi. Maria Bethania.
É batata! Vez ou outra você se vê num desses programas de índio inevitáveis e se pergunta: quéqueutôfazendoaqui? Churrascos com prazo de validade de duas horas, por exemplo. É nessa hora que sempre fantasio a perfeição. A perfeição atende pelo nome de Jair Rodrigues, Antonio Carlos Mussum, Maria Alcina e Wally Salomão. Churrasco perfeito.
Wally Salomão é co-autor da musica mais bacana desse disco: A faixa nº 4. O que nos remete a curiosidade desse disco icônico, que é a de, possivelmente, ser o único trabalho genial onde as três primeiras musicas não valem uma pataca.
O que torna indispensável o “Álibi” são as faixas 5, 6 e 7. Simplesmente são as versões definitivas de Ronda, Explode Coração e Negue. Isso em 1978. Seria algo comparável ao Pelé ser eleito o melhor jogador do século faltando vinte anos para o fim daquele centenário. Quero dizer, ninguém jamais interpretará melhor, enquanto esse globo for habitável, essas três musicas depois de 78.
Outra curiosidade do disco é que as duas parcerias com Bethania em musicas maravilhosas resultaram em uma coisa xoxa. E parceiras que em 1978 estavam no auge da voz. Alcione em “O meu Amor” e Gal em “Sonho meu”. Até Claudia Ohana e Marieta Severo no “Opera do Malandro” disco filme e disco peça fizeram mais bonito com Elba Ramalho neste “O meu Amor”.
“Cálice” está ótima com Bethania. Mas Cálice é Cálice. Possivelmente, junto com “Brejo da Cruz” e “Uma canção Desnaturada”, é a musica mais intensa do Chico. Meu, até Ritchie faria bonito! Seja como for, ainda perde para versão original com Milton no disco “Feijoada Completa”.
Voltando as faixas 5, 6 e 7. Me recordo de meu amigo Pimenta um dia asseverar: “Zeba, a coisa é o seguinte: se Maria Bethania cantar parabéns para você, nesta data querida...você realmente se sente envelhecendo mais um ano.
ZEBA
ET. Tá sem foto do disco, pq não sei como fazer isso.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
"É o que Temos" - Bárbara Eugênia
Nascida em Niterói e residente em
Sampa desde 2005, Bárbara Eugênia estreou com pé direito ao participar da
trilha sonora do filme “O Cheiro do Ralo” dois anos mais tarde. Desde então ela
tem atuado em diversos projetos solos ou em conjunto com outros músicos, sempre bem acompanhada, exibindo seu
talento tanto como intérprete, quanto como compositora.
Depois do promissor “Jornal da Bad”
em 2010, seu primeiro trabalho solo, Bárbara Eugênia seguiu conquistando
terreno até que obteve como prêmio no “Festival
MPTM (Música Para Todo Mundo)” a gravação de seu segundo álbum: “É o que Temos”,
lançado em 2013.
Com a produção e participação de Edgard
Scandurra (já parceiro dela em outros projetos)[1]
e de Clayton Martin (baterista do Cidadão Instigado), o disco ficou tão bom que faturou o
prêmio Multishow naquele ano. Vamos ao disco então...
Depois de iniciar suavemente com
“Coração”, a segunda canção merece destaque especial por resgatar “Porque
brigamos”, sucesso da Jovem Guarda no início do anos 70 com a Diana
interpretando uma versão de Rossini Pinto para “I am...I sad” de Neil Diamond. A
nova versão ficou tão boa que até mesmo o som do órgão de Astronauta Pinguim (tecladista) consegue nos levar para a atmosfera “brega” (sem nenhuma conotação pejorativa) que fazia parte da
gravação original da Diana. Para completar, o clipe dirigido por André
Gagliardo e disponível no youtube é
simplesmente genial.
https://www.youtube.com/watch?v=Nr5xeHMIGDQ
Tudo se resume, tudo se resume a uma
Uma dúzia, tantas dúvidas, as mesmas velhas dúvidas
E você numa atitude irresponsável me deixou suspenso no ar
Não é do meu feitio, mas vou entregar
Se foram as noites brancas que te deiUma dúzia, tantas dúvidas, as mesmas velhas dúvidas
E você numa atitude irresponsável me deixou suspenso no ar
Não é do meu feitio, mas vou entregar
Por que essa roupa suja pra lavar
Se não tínhamos o menor cabimento
E pensando bem a gente deu o que tinha que dar
Mantendo como pano de fundo uma
crise de relacionamento, “Roupa Suja”, composta e gravada em parceira com
Pélico, mostra toda a sua capacidade de se cercar de bons músicos. O clipe,
lançado recentemente em uma versão mais “acústica”, também merece ser observado
com atenção: https://www.youtube.com/watch?v=pudTZfJllps
Você devia mudar o seu rumo
Você devia achar que merece mais
“O Peso dos seus Erros”, a quarta
canção do álbum, nos leva novamente para o ambiente da Jovem Guarda, mas desta
vez com uma canção de sua autoria. Você devia achar que merece mais
Em “I Wonder”, a parceria desta
vez é com os músicos de Mustache e os Apaches. O banjo de Pedro Pastoriz e o
coro bem arranjado produzem um resultado muito criativo.
A próxima canção, “Sozinha” é uma
adaptação feita por ela mesma de “Me siento solo”, do francês Adanowsky (Adan_Jodorowsky).
Eu, particularmente, não conhecia a original, mas cheguei à conclusão que a versão da Bárbara Eugênia
ficou muito melhor.
A sétima música, “Jusqu'a La
Mort” é, pessoalmente, uma das minhas prediletas. Para falar de amor, desta vez ela
se arrisca a compor em francês e acertou a mão incrivelmente, com uma
sonoridade que me faz pensar em um improvável casamento do rock progressivo (Pink
Floyd na veia) com o tropicalismo. O som de uma das guitarras me remete ao vocal da Gal Costa nos velhos tempos (viagem minha). Como se não bastasse, o clipe
é de uma sensualidade de muito bom gosto: https://www.youtube.com/watch?v=26qBo16Uo0A
Em seguida, ela acelera o ritmo
em um excelente rock com “Ugabuga Feeling”, canção na qual o amor se coloca de
uma forma mais visceral e carnal, sob uma batida bem primitiva. Sensacional.
Eu piso na poça debaixo da chuva
Sai um arco-íris com raios de sol
Eu danço no vento, me perco no tempo
Balanço, sacudo o cabelo e não fico só
Não tenho medo da chuva e não fico só
“Eu Não Tenho Medo Da Chuva e Não
Fico Só”, a próxima, é fruto da sua parceria com Tatá Aeroplano (que no
primeiro disco já tinha rendido bons frutos), contando ainda com a participação
de Chankas, com quem ela gravou o trabalho mais recente: Aurora. Nela o amor
flui leve, sem medo. Sai um arco-íris com raios de sol
Eu danço no vento, me perco no tempo
Balanço, sacudo o cabelo e não fico só
Não tenho medo da chuva e não fico só
Em “You wish, You get it”, retoma
o tom mais animado, alto astral, em uma
feliz composição dela, desta vez em inglês, tal como a canção que encerra o
álbum, “Out to the Sun”, que conta com a participação especial do violoncelo de
Peri Pane, outro parceiro que rende bons trabalhos para ambos, como na “Note”,
que faz parte do disco dele.
Por fim, tendo no amor das mais
diversas formas como fio condutor, ela vagueia pelas canções com sua voz doce e
afinada. Uma ponte unindo Niterói a São Paulo, canções próprias a versões,
letras em português àquelas em inglês ou francês. Quase sempre com clipes muito
bem produzidos (vale uma busca no YouTube na página dela). A sua beleza se traduz em suas canções. A continuar assim, sua carreira vai longe. Por enquanto, é o que
temos, mas para Bárbara, nunca é tarde, nunca é demais.
[1]
Entre outros projetos dela com Scandurra, destaca-se o a homenagem a Serge Gainsbourg
com o Les Provocateurs e a gravação do programa MTV na Brasa, com uma versão matadora
de “Dor e Dor”, do Tom Zé: https://www.youtube.com/watch?v=wbbKbTrl0WU
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sábado, 3 de janeiro de 2015
"Eu Menti pra Você", Karina Buhr
Cantora, compositora, percursionista, atriz, desenhista,
ativista, enfim, Karina Buhr é uma artista completa. E como se não
bastasse, os dois discos da sua carreira solo são tão bons que foi
difícil escolher qual deles seria primeiramente selecionado para entrar nesse
blog.
Depois de muito escutá-los, resolvi falar sobre o primeiro.
Com perdão do trocadilho, eu mentiria para você se dissesse que ouvi esse disco
na época do seu lançamento, em 2010. Não
me recordo ao certo como que fui descobrir a Karina Buhr, mas creio que foi em 2012 através da internet e posso afirmar que foi paixão à primeira
vista.
Baiana de nascimento, crescida em Recife, Karina Buhr é
daquelas que se entrega de corpo e alma ao que faz. Embora eu ainda não tenha tido a
oportunidade de assisti-la ao vivo (aguardo-a em Curitiba), já pude constatar
em vídeos que seus shows são espetaculares. Sua música é carregada de
energia. Seu suor, solidifica, vira pó.
Com currículo recheado de diversas manifestações culturais, em
1997 Karina Buhr formou a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou três
discos[1].
Esse rico histórico certamente contribuiu para que seu disco solo de estreia já
apresentasse uma sonoridade tão marcante, combinando canções ao mesmo tempo
bonitas e fortes. Mas vamos ao disco em questão:
Depois de abrir com a canção que batiza o CD, na qual o
sotaque pernambucano agrega muito à música e demonstra toda sua singularidade, o
disco segue com a original “Vira Pó”, para emendar numa canção que é, para mim,
uma das suas melhores: Avião Aeroporto.
“Porque o corpo humano tem a resistência
perfeita
Se bate de leve, dói, bate de com força, mata”
Se bate de leve, dói, bate de com força, mata”
Além de uma letra contundente, a música tem uma batida que
nos remete ao mangue beat. No youtube tem algumas versões dessa canção
nas quais ela dá um verdadeiro espetáculo. Recomendo a gravação no programa Na
Brasa, com a participação da guitarra singular do Edgard Scandurra: https://www.youtube.com/watch?v=cltr2yXbn0M
“Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo Eu posso não ter mais você
Você não mais que isso”
Daqui a um segundo Eu posso não ter mais você
Você não mais que isso”
“Nassíria e Najaf” nos emociona ao falar do universo de
crianças que vivem nessas duas cidades iraquianas fortemente bombardeadas
durante a guerra do Iraque. Infelizmente, esse tema se mantém na Palestina,
Afeganistão e outros tantos lugares, tornando a música tragicamente
atual. Seu clipe é tocante: https://www.youtube.com/watch?v=aPx5e4BVlWI
O disco segue brilhantemente com “O Pé” e “Ciranda do
Incentivo”, canção na qual é faz uma paródia com o mercado fonográfico:
“Eu não sei negociar...eu sei no máximo tocar
meu tamborzinho e olhe lá...”
Depois vem “Telekphonen”, música experimental em que ela
insere uma letra em alemão. Som completamente diferente, mas que vale a pena
escutar. Nessa canção, ela faz uso do Theremin, instrumento
musical eletromagnético criado pelo russo de mesmo nome, cujos sons são obtidos
com movimentos da mão. Interessante.
Depois o ritmo diminui, sem perder o tom crítico em “Mira
Ira”:
“Tá tudo padronizado
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado”
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado”
O ritmo volta a subir em “Soldat”, o verdadeiro poema
cantado em ritmo punk-rock. Depois vem as igualmente boas “Esperança Cansa” (minha fúria odiosa já está na agulha) e
“Solo de Água Fervente”.
“Essa tarde dourada que traz
felicidade pras pessoas normais”
felicidade pras pessoas normais”
“Bem vindas”, a penúltima canção, é mais uma que tem uma
letra inspirada, mas dessa vez com um ritmo mais lento, quase como se fosse uma
canção de ninar. Excelente.
“Hoje eu não tô afim
de corre-corre e confusão
eu quero passar a tarde
estourando plastico bolha”
de corre-corre e confusão
eu quero passar a tarde
estourando plastico bolha”
O disco encerra com a criativa “Plástico Bolha”, afinal quem
nunca quis passar uma tarde estourando plástico bolha.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim, que
traduz muito bem a sua energia. Um som desses para nos encher de esperança de que não está tudo
padronizado nos nossos corações.
PS: para escutar, conhecer, ouvir, sugiro entrar no site dela, de onde se pode baixar ou comprar o disco:
http://www.karinabuhr.com.br/discos
PS: para escutar, conhecer, ouvir, sugiro entrar no site dela, de onde se pode baixar ou comprar o disco:
http://www.karinabuhr.com.br/discos
[1]
Karina BUhr participou de rodas e côco e ciranda em Pernambuco, e integrou
bandas como Eddie, Bonsucesso Samba Clube, Dj Dolores e Orchestra Santa Massa
(com Erasto Vasconcelos e Antônio Nóbrega).
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domingo, 27 de abril de 2014
"A Arca de Noé" - Vinícius de Moraes (1980)
Lembro até hoje do dia em que, ainda criança, minha mãe
chegou com um disco Arca de Noé, que mostrava que músicas infantis não precisam
ser bobas, ainda mais interpretadas por cantores do naipe de Ney Matogrosso,
Chico Buarque e Alceu Valença entre outros.
O disco tinha uma capa interativa, daquelas que só os
antigos vinis permitiam. Pelo que me
recordo, uma capa em branco com uma arca desenhada. O restante dos desenhos estava
disposto em um encarte interno para recortar e colar na capa, algo que eu
rapidamente me prontifiquei a fazer. Depois descobri que aquilo era mais uma
criação do mestre Elifas Andreato (sobre os desenhos de Antonio Bandeiras).
Os poemas de A Arca de Noé foram escritos por
Vinicius muitos anos antes de sua primeira edição para seus filhos Suzana e
Pedro de Moraes. Por muitos anos, eles ficaram guardados. Só em 1970, o
conjunto de poemas infantis ganhou o mundo em lançamento na Itália, país onde a
presença do poeta era constante.
É lá, justamente que o disco com os poemas infantis é preparado com o nome L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, com arranjos de Rogério Duprat e Toquinho, resolveram transformar o conjunto de belos poemas em disco (resultou em dois discos – embora aqui falarei apenas do primeiro), com o mesmo nome do livro.
“E abre-se a porta da arcaÉ lá, justamente que o disco com os poemas infantis é preparado com o nome L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, com arranjos de Rogério Duprat e Toquinho, resolveram transformar o conjunto de belos poemas em disco (resultou em dois discos – embora aqui falarei apenas do primeiro), com o mesmo nome do livro.
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca”
Após uma abertura orquestrada sob a narração de Chico Buarque, o disco abre de forma grandiloquente, com a canção “Arca de Noé” com a voz de Milton Nascimento trazendo tranquilidade alternando com um coro infantil que acelera no tempo certo. Belíssimo resultado.
Em seguida, lá vem “O Pato” para ver o quê que há, com o
MPB-4. Que nunca se divertiu com a voz do próprio pato nessa canção? Depois vem a coitadinha da “Corujinha” (que feinha que é você) com a brilhante voz da Elis
Regina, em talvez uma das suas últimas gravações antes de falecer,
"Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz”
O clima circense vem em grande estilo com a voz de Alceu
Valença cantando “A Foca”, outra que se tornou clássica e emenda com o clima
tropicalista de Moraes Moreira cantando “As Abelhas”. Bebel Gilberto canta “As pulgas”, com um ritmo que deve fazer a festa das crianças mais novas. Depois
vem o divertido clima de cabaré com divertidas Frenéticas cantando “Aula de
Piano”.É por uma bola
No seu nariz”
O disco segue com “A Porta” (cantada por Fábio Jr.), “A Casa” (poema que consolidou a expressão rua dos bobos número zero) e “São Francisco”, numa bela interpretação do Ney Matogrosso depois de uma abertura com um coro gótico.
"Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão"
“O Gato” vem com a voz da Marina, canção que vai acelerando também
em ritmo circense, alternando com trechos mais sossegados em arranjo
caprichado. Depois vem o “O Relógio” com a voz de Walter Franco (outro que está
até então ausente desse blog e que merece ser lembrado também).Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão"
"Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
Canção que certamente deve ter servido de inspiração para
tantos pais ninarem suas filhinhas nos anos 80, “Valsa para uma Menininha” serve
para ilustrar bem a bela parceria de Vinícius com Toquinho, que marcou a última
década de vida do primeiro. Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
O disco termina com uma canção final que traz uma espécie de pout-pourri orquestrado de trechos das canções do disco.
Infelizmente pouco depois do lançamento desse belo disco que
mereceu inclusive um especial na Rede Globo, quando planejava o volume 2 desse
disco (lançado em 1981), Vinícius faleceu deixando um imenso e valioso legado.
Enfim, a Arca de Noé tornou-se um dos discos mais populares
de Vinicius de Moraes por trazer o mundo da literatura e das canções para o
público infantil, e de quebra aproveitando também para despertar a criança que
há em cada adulto. Dá até vontade de ter
filhos só para ter pretexto de escuta-lo novamente.
[Paul]
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quarta-feira, 23 de abril de 2014
Mestre Ambrósio - Fuá na Casa de Cabral (1998)
“Naquele
Brasil antigo / Perdido no desengano / Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada / Deu ordem à
rapaziada / Mandou varrer o terreiro
"Me chame o pai do chiqueiro / que
hoje eu quero forró, / Toré, samba, catimbó / Que eu já virei brasileiro-ô-ô-ô..."
Mealembro vagamente das comemorações dos 500 anos de
descobrimento do Brasil. A ideia era de festa, mas o pau comeu e houve
protestos em muitos locais e ocasiões. Hum, vejamos nós aqui que esse negócio
de povo festeiro, sem consciência sóciopolíticaeconômica que 14 anos depois surpreende
os fãs do megafutebol patrocinado pela tal de FIFA já aflorava...
Eita disquinho bom esse segundo do
Mestre Ambrósio (que segundo o Wikipedia
é banda de manguebeat?)! Banda
efêmera, átimo, como diria nosso tamborista zé tatu. Três discos e se acabou. O
primeiro saiu independente. Mais forte no conteúdo que na produção, algo que
neste segundo já é aprimorado.
Vimos o Mestre aqui num mês frio qualquer
em Curitiba (surpresa?), no antigo forró do vasquinho. Palco pequeno, quase de
colégio. A plateia se espalhava pela (ex-)quadra poliesportiva do (ex-)clube.
Nos cantos, vendia-se cerveja, caldinho de feijão e mocotó. Calamengau era uma espécie de nome
coringa, aplicava-se ao espaço e a banda anfitriã da casa. Se não me engano,
criada e gerida pelo “Ceará” que vi tocar sanfona com a camisa do Santa Cruz,
vai entender (bem, pode ser minha memória que me apunhala pelas costas).
Oh-oh, sim, o disco! Mestre
Ambrósio é, ou era neste disco, principalmente Siba (rabeca, guitarra, voz, letra
e música). Siba não é de muita concessão, se arrepiaria torcendo o nariz para o
supra-citado verbete da wiki. Siba
curte mesmo é o som do interior de Pernambuco, do nordeste, música matuta (como
atesta a autobiográfica Pé-de-Calçada).
Forró pé-de-serra calçado na sua rabeca, já veja aí a diferença. Mas, a parte
estas questões sociológicas, antropológicas, musicológicas ou outras lógicas
quaisquer (das quais eu só começo a entender depois da terceira ou quarta
ampola), a música deles é boa pra cacete! Siba tem um vozeirão potente, toca(ava,
pelo menos no Calamengau) uma Gibson
SG cristalina e tinha essa coisa de “forrabeca” que eu nunca tinha ouvisto antes.
A faixa que dá nome ao disco, por exemplo, é a sua cara.
Mestre Ambrósio aproveita a oportunidade
de, dispondo de melhor estrutura refazer três temas do álbum de estreia. Pessoalmente,
não penso que tenha sido essencial. Mas o Mestre não é só Siba. São três
percussionistas, Éder “o” Rocha, Sérgio Cassiano (que também dança e canta, num
timbre e estilo completamente diferente de Siba), Maurício Alves e
eventualmente Helder Vasconcellos (que também empunha o fole de 8 baixos) e
mais o baixista Mazinho Lima. A formação pode sugerir algum paralelo com a
Nação Zumbi, mas a realidade passa looooonge. Apesar da inclinação regionalista
do conjunto, o som é mais variado (mesmo sem incluir o óbvio rock) e a
percussão acompanha.
Neste Fuá
destacam-se ainda Sêmen (Como posso
saber de onde venho/ Se a semente profunda eu não toquei?), Pescador
(Já faz tempo que eu sai de casa / Pra viver no mar), Os Cabôco
que homenageia o carnaval de Olinda, e Chamá Maria (Toda noite é assim / Toda festa é assim / ... / Um brabo bate, um mole apanha / E o
pagamento é que é ruim / ... / O fole emperra, a voz arranha / Eita, pisada sem fim!).
Ainda sairia um ótimo Terceiro
Samba, menos Siba e mais Hélder e Sérgio Cassiano, e depois disso Siba se
mandou para a Fuloresta e eu perdi o
contato. Enquanto isso, o tempo passou e nada ficou mais atual que a última
estrofe do Fuá:
Mas na hora
da verdade
Quando passou a cachaça
Seu Cabral sentou na praça
Caiu na reflexão
Disse: "Esta situação
sei que nunca mais resolvo!"
Então falou para o povo:
"Juro que me arrependi
o Brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!"
[M]
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Mestre Ambrósio
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Lobão nº 00668
Gênese da indicação: troca de e.mails *: Rolou um link (creio eu, pois não li) com considerações de Lobão. O que vem e repercussão interna parcial.
“Vc acha o brasileiro um derrotado? Todos uns politicos uns merdas? O Brasil um pais de terceira?” – “Não consegui abrir...Mas se for algo do Lobão...pelo amor de deus, né: não precisamos nem perder tempo (...)” – “Veja, falando sério agora (se bem que as piadas às vezes são mais precisas que o desfile racional de idéias, que, admito, não é meu forte...). Estava totalmente por fora desses discursos direitistas do Lobão (...) e do Roger (de quem sou fã confesso). Simplesmente porque NÃO ME INTERESSA.” – “Consegui ler agora...Entendi...e concordo. E não é patrulha ideológica: é opinião pessoal. Ele pode dizer o que quiser por ai. Só não me peça para eu ler ou dar a mínima atenção a ele...” – “Ele eh f. Eu gosto muito dele como letrista, mas na verdade nunca li absolutamente nada interessante dele. Sempre falou m. em entrevista, ao vivo. Mas tem letras brilhantes.” – “Tem letras brilhantes...compostas há quase 3 décadas. Qual foi a última coisa boa que compôs? Confesso que cheguei a comprar aquele disco dele que vendeu em bancas, mas não encontrei coisas boas por lá..e isso foi há uns 10 anos.” – “Nos anos 90 lancou coisa boa. Inclusive aquele lancado em banca. Acho q foram dois. Acho q ele parou de lancar discos, rolou so um acustico ha alguns anos. Mas isso pouco importa. Importa a obra dele. Sem falar q mesmo em seus melhores momentos, ele so falava m. Impressionante!” – “(...)Sobre o cd de banca do Lobão. Se vc se refere ao primeiro, ele é bom. Embora o meu tenha vindo danificado...mas numa musica menor.” – “P. Zéba...achei que você meteria o pau..e está elogiando o cd do Lobão? Então “seje homi, rapá” e resenha esse cd para colocar no blog!”.
Lá vai. É o primeiro que ele lançou no esquema banca de revista. O meu veio danificado na faixa 4, mas receio que tenha prescrito o meu direito de reclamar a troca. Acho que é de 99 e chama “a vida é doce”.
Faixa 1: Uma batida super “Blaze Of Glory”. Simpática, já dando o tom quase funesto do disco. Faixa 2: Sombria no ponto certo, com um namoro com o funk e hip-hop...creio eu. Faixa 3: Tambem funkzinho. Letra e batida bem agradáveis. Faixa 5: A título e melhor do disco. Obra prima na altura de um “Revanche”. Lobão puro!. Aliás, resgata essa coisa já retrô de um disco ter como titulo sua melhor faixa. Faixa 6: Idem faixa 5, só mais acustica. Faixa 9: creio que essa foi gravada em disco anterior ou no acustico posterior...o que empobrece a proposta libertáriadograndesquemajabáeditoragravador. De qualquer forma merecia se regravada. Faixa 11: Bossa nova? Ok, é certo que tem muito carinha da bossa nova original que fez coisa pior.
Enfim, o disco tem 11 musicas, considerando que Gil e Caetano têm trabalhos que se aproveita menos, vale a indicação num universo de 1001.
Conclusão: ótimo disco para um retorno solitário para casa às 3 da manhã em seu carro!
Ah, cada cd vinha com uma tosca inscrição do seu nº na capa. Realmente não consigo imaginar qual o proveito. À época ele falou que era para um maior controle autoral...bom, ele falou tanta coisa bem pior depois...
*Apenas fragmentos sem indicação de autoria...para evitar problemas judiciais.
(ZEBA)
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
ACÚSTICO BABY DO BRASIL (1998)
Então,
continuando com o clima praiano e discos solo, prosseguimos com Baby, antes
Consuelo, agora evangélica e Do Brasil.
Esse
é um acústico atípico, porque não traz agregado ao título MTV que, ao que
parece, não é proprietária do formato nem da palavra 'acústico'.
Animado
e variado, o disco tem um pique de ao vivo mesmo, com aqueles gritinhos
ridículos e tudo.
E
uma banda de luxo: Lincoln Cheib (bateria e percussão), o saudoso Nico
Assumpção (baixo) e Nelson Faria (violão).
Baby
e Pepeu permaneceram no recém postado Novos Baianos até 1978, quando os dois
decidiram sair e se dedicar a suas carreiras solo.
'O
que vier eu traço', música que inicia o cd, vem justamente do primeiro
disco solo da niteroiense Baby, emendando num medley ou pout-pourri alucinante
com 'Apanhei-te cavaquinho/ Baião/ Samba do ziriguidum'.
Depois
vamos pro repertório baiano, 'Farol da Barra' (Galvão/Caetano Veloso),
num climinha bem leve e solto.
Sai
pra bem longe da praia depois: 'Sampa', numa versão bem suingada e cheia
de breques, com direito a solo de violão.
“E
os novos baianos te podem curtir numa boa”
Voltando para a praia e
prosseguindo no Caetano, vamos de 'Menino do Rio', uma homenagem ao
carioca Petit, surfista e praticante de asa delta, composta especialmente para ela cantar para a trilha
da novela 'Água viva', que meus amigos de blog (dizem que) não veem... É uma
versão bem jazzistica, mas mantendo aquele arpejo inicial característico da
música.
Brasilsilsil:
'O samba da minha terra' emendando com 'Aquarela do Brasil', em
versões bem legais, animadas e cheias de gás e ufanismo, inclusive com ela
fazendo a galera gritar 'Brasil'...
Esse
medley é inusitado: 'Mania de você' e 'Is this love', mas
combinou, ou melhor, mixou bem!
Essa
é de autoria da Baby, linda linda: 'Um auê com você', cheia de brisa
praiana...
Vamos
de Gil agora: 'Esotérico', que começa bem solta e depois dá uma
acelerada com percussão. Depois 'Super Homem', ainda do Gilberto Gil,
numa versão original e bonita.
Um
Djavan com aquele leveza, 'Mal de mim', bonita e com um ritmo com cara
de praia...estou forçando, eu sei. Tem uma brincadeira improvisada entre a voz
e o violão.
Tem
até um sambinha da melhor safra do Chico, 'Estação derradeira'! Com
muito balanço e até uma cuíca simulada pela super versátil voz da Baby.
'É',
do Gonzaguinha, também é um samba da melhor qualidade, o cd tem um repertório
excelente e que não deixa a peteca cair.
Momento
solo de voz!! 'Brasileirinho' parece ter sido feita pra voz, velocidade,
precisão e interpretação da Baby. Depois o violão entra (mas sai quando a
música acelera, não dá pra acompanhar), mas a voz é realmente o show.
E
para terminar, a música arquetípica dos Novos Baianos, 'Brasil pandeiro',
numa versão de levantar o salão!
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Baby Consuelo
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