domingo, 27 de abril de 2014

"A Arca de Noé" - Vinícius de Moraes (1980)


 
Lembro até hoje do dia em que, ainda criança, minha mãe chegou com um disco Arca de Noé, que mostrava que músicas infantis não precisam ser bobas, ainda mais interpretadas por cantores do naipe de Ney Matogrosso, Chico Buarque e Alceu Valença entre outros.
O disco tinha uma capa interativa, daquelas que só os antigos vinis permitiam.  Pelo que me recordo, uma capa em branco com uma arca desenhada. O restante dos desenhos estava disposto em um encarte interno para recortar e colar na capa, algo que eu rapidamente me prontifiquei a fazer. Depois descobri que aquilo era mais uma criação do mestre Elifas Andreato (sobre os desenhos de Antonio Bandeiras).

Os poemas de A Arca de Noé foram escritos por Vinicius muitos anos antes de sua primeira edição para seus filhos Suzana e Pedro de Moraes. Por muitos anos, eles ficaram guardados. Só em 1970, o conjunto de poemas infantis ganhou o mundo em lançamento na Itália, país onde a presença do poeta era constante.

É lá, justamente que o disco com os poemas infantis é preparado com o nome  L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, com arranjos de Rogério Duprat e Toquinho, resolveram transformar o conjunto de belos poemas  em  disco (resultou em dois discos – embora aqui falarei apenas do primeiro), com o mesmo nome do livro. 
“E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Após uma abertura orquestrada sob a narração de Chico Buarque, o disco abre de forma grandiloquente, com a canção “Arca de Noé” com a voz de Milton Nascimento trazendo tranquilidade alternando com um coro infantil que acelera no tempo certo. Belíssimo resultado.

Em seguida, lá vem “O Pato” para ver o quê que há, com o MPB-4. Que nunca se divertiu com a voz do próprio pato nessa canção? Depois vem a coitadinha da “Corujinha” (que feinha que é você) com a brilhante voz da Elis Regina, em talvez uma das suas últimas gravações antes de falecer,
"Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz”
O clima circense vem em grande estilo com a voz de Alceu Valença cantando “A Foca”, outra que se tornou clássica e emenda com o clima tropicalista de Moraes Moreira cantando “As Abelhas”.  Bebel Gilberto canta “As pulgas”, com um ritmo que deve  fazer a festa das crianças mais novas. Depois vem o divertido clima de cabaré com divertidas Frenéticas cantando “Aula de Piano”.

O disco segue com “A Porta” (cantada por Fábio Jr.), “A Casa” (poema que consolidou a expressão rua dos bobos número zero) e “São Francisco”, numa bela interpretação do Ney Matogrosso depois de uma abertura com um coro gótico.

"Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão"
“O Gato” vem com a voz da Marina, canção que vai acelerando também em ritmo circense, alternando com trechos mais sossegados em arranjo caprichado. Depois vem o “O Relógio” com a voz de Walter Franco (outro que está até então ausente desse blog e que merece ser lembrado também).

"Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
Canção que certamente deve ter servido de inspiração para tantos pais ninarem suas filhinhas nos anos 80, “Valsa para uma Menininha” serve para ilustrar bem a bela parceria de Vinícius com Toquinho, que marcou a última década de vida do primeiro.

O disco termina com uma canção final que traz uma espécie de pout-pourri orquestrado de trechos das canções do disco.

Infelizmente pouco depois do lançamento desse belo disco que mereceu inclusive um especial na Rede Globo, quando planejava o volume 2 desse disco (lançado em 1981), Vinícius faleceu deixando um imenso e valioso legado.
Enfim, a Arca de Noé tornou-se um dos discos mais populares de Vinicius de Moraes por trazer o mundo da literatura e das canções para o público infantil, e de quebra aproveitando também para despertar a criança que há em cada adulto.  Dá até vontade de ter filhos só para ter pretexto de escuta-lo novamente.
[Paul]

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Mestre Ambrósio - Fuá na Casa de Cabral (1998)



Naquele Brasil antigo / Perdido no desengano / Seu Cabral chegou nadando
E não preocupou com nada / Deu ordem à rapaziada / Mandou varrer o terreiro
"Me chame o pai do chiqueiro / que hoje eu quero forró, / Toré, samba, catimbó / Que eu já virei brasileiro-ô-ô-ô..."


Mealembro vagamente das comemorações dos 500 anos de descobrimento do Brasil. A ideia era de festa, mas o pau comeu e houve protestos em muitos locais e ocasiões. Hum, vejamos nós aqui que esse negócio de povo festeiro, sem consciência sóciopolíticaeconômica que 14 anos depois surpreende os fãs do megafutebol patrocinado pela tal de FIFA já aflorava...

Eita disquinho bom esse segundo do Mestre Ambrósio (que segundo o Wikipedia é banda de manguebeat?)! Banda efêmera, átimo, como diria nosso tamborista zé tatu. Três discos e se acabou. O primeiro saiu independente. Mais forte no conteúdo que na produção, algo que neste segundo já é aprimorado.

Vimos o Mestre aqui num mês frio qualquer em Curitiba (surpresa?), no antigo forró do vasquinho. Palco pequeno, quase de colégio. A plateia se espalhava pela (ex-)quadra poliesportiva do (ex-)clube. Nos cantos, vendia-se cerveja, caldinho de feijão e mocotó. Calamengau era uma espécie de nome coringa, aplicava-se ao espaço e a banda anfitriã da casa. Se não me engano, criada e gerida pelo “Ceará” que vi tocar sanfona com a camisa do Santa Cruz, vai entender (bem, pode ser minha memória que me apunhala pelas costas).

Oh-oh, sim, o disco! Mestre Ambrósio é, ou era neste disco, principalmente Siba (rabeca, guitarra, voz, letra e música). Siba não é de muita concessão, se arrepiaria torcendo o nariz para o supra-citado verbete da wiki. Siba curte mesmo é o som do interior de Pernambuco, do nordeste, música matuta (como atesta a autobiográfica Pé-de-Calçada). Forró pé-de-serra calçado na sua rabeca, já veja aí a diferença. Mas, a parte estas questões sociológicas, antropológicas, musicológicas ou outras lógicas quaisquer (das quais eu só começo a entender depois da terceira ou quarta ampola), a música deles é boa pra cacete! Siba tem um vozeirão potente, toca(ava, pelo menos no Calamengau) uma Gibson SG cristalina e tinha essa coisa de “forrabeca” que eu nunca tinha ouvisto antes. A faixa que dá nome ao disco, por exemplo, é a sua cara.

Mestre Ambrósio aproveita a oportunidade de, dispondo de melhor estrutura refazer três temas do álbum de estreia. Pessoalmente, não penso que tenha sido essencial. Mas o Mestre não é só Siba. São três percussionistas, Éder “o” Rocha, Sérgio Cassiano (que também dança e canta, num timbre e estilo completamente diferente de Siba), Maurício Alves e eventualmente Helder Vasconcellos (que também empunha o fole de 8 baixos) e mais o baixista Mazinho Lima. A formação pode sugerir algum paralelo com a Nação Zumbi, mas a realidade passa looooonge. Apesar da inclinação regionalista do conjunto, o som é mais variado (mesmo sem incluir o óbvio rock) e a percussão acompanha.

Neste Fuá destacam-se ainda Sêmen (Como posso saber de onde venho/ Se a semente profunda eu não toquei?), Pescador (Já faz tempo que eu sai de casa / Pra viver no mar), Os Cabôco que homenageia o carnaval de Olinda, e Chamá Maria (Toda noite é assim  / Toda festa é assim  / ... / Um brabo bate, um mole apanha / E o pagamento é que é ruim / ... / O fole emperra, a voz arranha / Eita, pisada sem fim!).
Ainda sairia um ótimo Terceiro Samba, menos Siba e mais Hélder e Sérgio Cassiano, e depois disso Siba se mandou para a Fuloresta e eu perdi o contato. Enquanto isso, o tempo passou e nada ficou mais atual que a última estrofe do Fuá:


Mas na hora da verdade
Quando passou a cachaça
Seu Cabral sentou na praça
Caiu na reflexão
Disse: "Esta situação
sei que nunca mais resolvo!"
Então falou para o povo:
"Juro que me arrependi
o Brasil que eu descobri
queria cobrir de novo!"



[M]

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lobão nº 00668



Gênese da indicação: troca de e.mails *: Rolou um link (creio eu, pois não li) com considerações de Lobão. O que vem e repercussão interna parcial.

Vc acha o brasileiro um derrotado? Todos uns politicos uns merdas? O Brasil um pais de terceira?” – “Não consegui abrir...Mas se for algo do Lobão...pelo amor de deus, né: não precisamos nem perder tempo (...)” – “Veja, falando sério agora (se bem que as piadas às vezes são mais precisas que o desfile racional de idéias, que, admito, não é meu forte...). Estava totalmente por fora desses discursos direitistas do Lobão (...) e do Roger (de quem sou fã confesso). Simplesmente porque NÃO ME INTERESSA.” – “Consegui  ler agora...Entendi...e concordo. E não é patrulha ideológica: é opinião pessoal. Ele pode dizer o que quiser por ai. Só não me peça para eu ler ou dar a mínima atenção a ele...” – “Ele eh f. Eu gosto muito dele como letrista, mas na verdade nunca li absolutamente nada interessante dele. Sempre falou m. em entrevista, ao vivo. Mas tem letras brilhantes.” – “Tem letras brilhantes...compostas há quase 3 décadas. Qual foi a última coisa boa que compôs? Confesso que cheguei a comprar aquele disco dele que vendeu em bancas, mas não encontrei coisas boas por lá..e isso foi há uns 10 anos.” – “Nos anos 90 lancou coisa boa. Inclusive aquele lancado em banca. Acho q foram dois. Acho q ele parou de lancar discos, rolou so um acustico ha alguns anos. Mas isso pouco importa. Importa a obra dele. Sem falar q mesmo em seus melhores momentos, ele so falava m. Impressionante!” – “(...)Sobre o cd de banca do Lobão. Se vc se refere ao primeiro, ele é bom. Embora o meu tenha vindo danificado...mas numa musica menor.” – “P. Zéba...achei que você meteria o pau..e está elogiando o cd do Lobão? Então “seje homi, rapá” e resenha esse cd para colocar no blog!”.
Lá vai. É o primeiro que ele lançou no esquema banca de revista. O meu veio danificado na faixa 4, mas receio que tenha prescrito o meu direito de reclamar a troca. Acho que é de 99 e chama “a vida é doce”.
Faixa 1: Uma batida super “Blaze Of Glory”. Simpática, já dando o tom quase funesto do disco. Faixa 2: Sombria no ponto certo, com um namoro com o funk e hip-hop...creio eu. Faixa 3: Tambem funkzinho. Letra e batida bem agradáveis. Faixa 5: A título e melhor do disco. Obra prima na altura de um “Revanche”. Lobão puro!. Aliás, resgata essa coisa já retrô de um disco ter como titulo sua melhor faixa. Faixa 6: Idem faixa 5, só mais acustica. Faixa 9: creio que essa foi gravada em disco anterior ou no acustico posterior...o que empobrece a proposta libertáriadograndesquemajabáeditoragravador. De qualquer forma merecia se regravada. Faixa 11: Bossa nova? Ok, é certo que tem muito carinha da bossa nova original que fez coisa pior.
Enfim, o disco tem 11 musicas, considerando que Gil e Caetano têm trabalhos que se aproveita menos, vale a indicação num universo de 1001.
Conclusão: ótimo disco para um retorno solitário para casa às 3 da manhã em seu carro!
Ah, cada cd vinha com uma tosca inscrição do seu nº na capa. Realmente não consigo imaginar qual o proveito. À época ele falou que era para um maior controle autoral...bom, ele falou tanta coisa bem pior depois...
*Apenas fragmentos sem indicação de autoria...para evitar problemas judiciais.

(ZEBA)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ACÚSTICO BABY DO BRASIL (1998)



Então, continuando com o clima praiano e discos solo, prosseguimos com Baby, antes Consuelo, agora evangélica e Do Brasil.
Esse é um acústico atípico, porque não traz agregado ao título MTV que, ao que parece, não é proprietária do formato nem da palavra 'acústico'.
Animado e variado, o disco tem um pique de ao vivo mesmo, com aqueles gritinhos ridículos e tudo.
E uma banda de luxo: Lincoln Cheib (bateria e percussão), o saudoso Nico Assumpção (baixo) e Nelson Faria (violão).
Baby e Pepeu permaneceram no recém postado Novos Baianos até 1978, quando os dois decidiram sair e se dedicar a suas carreiras solo.
'O que vier eu traço', música que inicia o cd, vem justamente do primeiro disco solo da niteroiense Baby, emendando num medley ou pout-pourri alucinante com 'Apanhei-te cavaquinho/ Baião/ Samba do ziriguidum'.
Depois vamos pro repertório baiano, 'Farol da Barra' (Galvão/Caetano Veloso), num climinha bem leve e solto.
Sai pra bem longe da praia depois: 'Sampa', numa versão bem suingada e cheia de breques, com direito a solo de violão.
“E os novos baianos te podem curtir numa boa”
Voltando para a praia e prosseguindo no Caetano, vamos de 'Menino do Rio', uma homenagem ao carioca Petit, surfista e praticante de asa delta, composta especialmente para ela cantar para a trilha da novela 'Água viva', que meus amigos de blog (dizem que) não veem... É uma versão bem jazzistica, mas mantendo aquele arpejo inicial característico da música.
Brasilsilsil: 'O samba da minha terra' emendando com 'Aquarela do Brasil', em versões bem legais, animadas e cheias de gás e ufanismo, inclusive com ela fazendo a galera gritar 'Brasil'...
Esse medley é inusitado: 'Mania de você' e 'Is this love', mas combinou, ou melhor, mixou bem!
Essa é de autoria da Baby, linda linda: 'Um auê com você', cheia de brisa praiana...
Vamos de Gil agora: 'Esotérico', que começa bem solta e depois dá uma acelerada com percussão. Depois 'Super Homem', ainda do Gilberto Gil, numa versão original e bonita.
Um Djavan com aquele leveza, 'Mal de mim', bonita e com um ritmo com cara de praia...estou forçando, eu sei. Tem uma brincadeira improvisada entre a voz e o violão.
Tem até um sambinha da melhor safra do Chico, 'Estação derradeira'! Com muito balanço e até uma cuíca simulada pela super versátil voz da Baby.
'É', do Gonzaguinha, também é um samba da melhor qualidade, o cd tem um repertório excelente e que não deixa a peteca cair.
Momento solo de voz!! 'Brasileirinho' parece ter sido feita pra voz, velocidade, precisão e interpretação da Baby. Depois o violão entra (mas sai quando a música acelera, não dá pra acompanhar), mas a voz é realmente o show.
E para terminar, a música arquetípica dos Novos Baianos, 'Brasil pandeiro', numa versão de levantar o salão!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Guitar Player BR!!!

Edição especialíssima com guitarristas brasileiros e lições pessoais, confiram!!
Scandurra, Pepeu, Sérgio Dias, Lanny, Frejat, Luiz Carlini!!!!
Feliz 2013, amigos, colaboradores e leitores!


Arnaldo Baptista: 'Lóki?' & 'Loki' (dvd)



Estas são obras independentes e com uma distância de 34 anos (o disco de 1974 e o dvd de 2008), mas mesmo assim, uma ajuda muito na compreensão da outra. E mesmo nunca tendo resenhado dvds por aqui, acho que este em especial tem seu lugar por aqui.

O dvd dá uma perspectiva de contexto e do criador Arnaldo, não só como autor, mas como músico, compositor, arranjador, cantor, marido, pai, irmão, etc.
Em muitos momentos do dvd as lágrimas aparecem e me pego perguntando porque estou vendo uma história tão triste, principalmente nesta época, com altas tendências à depressão...Mas o filme é de sobrevivência, forte e ao final otimista, como deve ser esta história. A primeira vez que o vi fiquei muito impressionado, queria fazer logo a resenha do disco, mas pensei que talvez devesse dar um tempo e vê-lo de novo mais tarde, o que fiz agora.
Também há muitos depoimentos, que algumas vezes colocam o Arnaldo (e os Mutantes) num nível de reconhecimento altíssimo, a saber:
- o Maestro Rogério Duprat diz com todas as letras que os Mutantes foram o que de mais relevante havia no movimento Tropicália, que inclusive foi objeto de um recente (e a comprar) dvd de documentário; pra mim faz todo o sentido, os Mutantes foram os primeiros (e além disso originais, criativos e competentes) a traduzir o rock'n'roll pra uma versão brasileira com cara própria - a Jovem Guarda o fazia sem mudar quase nada do rock estrangeiro, principalmente do italiano; e por mais que eu goste e admire Gal, Gil e Caetano, o rock brasileiro pra mim é muito mais importante e relevante do que a mpb; o Devendra Banhart chega a dizer que os Mutantes são melhores do que os Beatles!
- vários artistas e críticos (Lobão, Liminha, Roberto Menescal - que produziu este disco juntamente com Mazola, João Ulhoa - que produziu 'Let it bed' do Arnaldo, Tarik de Souza, Nelson Motta, Gilberto Gil, Sean Lennon - que cita um paralelismo interessante entre o Arnaldo e Syd Barret, Tom Zé, Kurt Cobain etc) ressaltam a importância do Arnaldo e do disco 'Lóki';
- contextualizando a autor e sua história, você ouve com muito mais atenção a 'densidade emocional' no disco, onde percebemos o quão exposto e corajoso o Arnaldo se pôs e, mais do que tudo, o quanto de alma e coração ele colocou no álbum.

E há mais que coração e alma: intensa dor, depressão, desespero e isolamento, delírios e imagens pessoais, problemas graves com drogas (principalmente o LSD que, como lembrado por várias pessoas, não é brincadeira não), frustração e decepção amorosa, angústia e solidão, sexo e ovnis, paranóias e incertezas, lucidez e loucura entrelaçadas, um grito desesperado de um jovem genial de 25 anos que tinha perdido a mulher e a banda. Mas que ainda tinha o rock'n'roll.

"Rock eu gosto porque é meu sangue. É minha vida, desde que nasci" (Arnaldo em entrevista à Ana Maria Bahiana, publicada no Globo em 1978).

É um disco de rock sem guitarras. Arnaldo tem a seu lado velhos companheiros: Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria, Rita Lee (vocais de apoio em 'Não estou nem aí') e Rogério Duprat. Em alguns momentos Arnaldo se indispôs com os músicos, por se negar a refazer algumas faixas (por isso o disco é em alguns momentos muito cru e contém alguns pequenos erros).
É um disco feito com urgência e sofreguidão, visceral, o que em algum artigo aí abaixo o ligou coerentemente a 'Plastic Ono Band'.
Há uma grande mistura de gêneros: glam rock, boogie-woogie, rock progressivo, bossa nova, samba, rock'n'roll, música clássica etc.

Os dois lados originais iniciam-se com canções perguntas: o lado A 'Será que vou virar bolor' e o B com 'Cê tá pensando que eu sou loki?'.
Qual o futuro? O esquecimento? A loucura?
Cada música traz um pouquinho de resposta, ou melhor, um monte de procuras...

A minimalista canção final, 'É fácil', parece ter um resposta: a genialidade da música!
"Eu me amo
como eu amo você
é fácil"

"Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materias que me dão prazer
(...)
não gosto do pessoal da NASA
Cadê meu disco voador?"
(Será que vou virar bolor)

'Uma pessoa só' foi herdada dos Mutantes, utópica sobre a plenitude da convivência humana, traz um belo arranjo de cordas e versos lindos:
"Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só"

'Não estou nem aí' é a exata antítese da canção anterior, negando os projetos utópicos e enfrentando o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.
"Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
mas até lá eu não vou me esconder
porque eu não estou nem aí pra morte
não estou nem aí pra sorte
eu quero mais é decolar toda manhã"

'Vou me afundar na lingerie' traz mais uma possibilidade, com muito humor: o hedonismo, o ócio, como destruidores das opressões e barras pesadas. (Antecipando ''Diversão é solução sim")
"quem já dançou sempre tem medo dos homens"

Finalizando o lado A, 'Honky tonky', instrumental onde Arnaldo passeia por estilos ao piano.

Iniciando o lado B, 'Cê tá pensando que eu sou loki?', que meio que cita a bossa nova e o disco do Tom com Sinatra.

'Desculpe' pode ser interpretada como releitura de 'Desculpe, Baby' dos Mutantes, e traz mais uma possibilidade de resposta: o Amor. Mesmo sendo 'uma das baladas mais corta-pulso da história'...
"Desculpe
se eu fiz você chorar
Te esqueça
Olha, o sol chegou
Diga-me o meu nome
Diga-me que você me quer
Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo
Até quando, eu não sei
Mas desculpe
mas eu vou me fechar
não sou perfeito
nem mesmo você é
me abrace, diga-me o o meu nome
(...)
sinta o barato de ser humano
Comigo
até quando Deus quiser"

'Navegar de novo' traz uma resposta concisa: seguir em frente. Traz uma das primeiras críticas à nascente sociedade de consumo e sua superficialidade, mas com esperança.

'Te amos podes crer' é uma canção de amor, em menos de 3 minutos Arnaldo faz um tratado das dores de amores.
"é muito triste pensar em você como quem não vive depois da morte"

Finaliza com 'É fácil'. Que traz Arnaldo ao violão, com um impressionante domínio do instrumento, que não era seu principal.

No cd se perde uma coisa meio louca: os dois lados tem exatamente 16 minutos e 50 segundos.
E na ficha técnica: "Este disco é pra ser ouvido em alto volume".

Arnaldo não gostou do nome, imposto pela gravadora, nem da capa, além do que havia imaginado.
Logo após o lançamento, Arnaldo sofreu uma das suas primeiras internações psiquiátricas.

Sobre os anos pós-Loki: "Passei 4 anos num ostracismo. Não tinha ninguém, mulher nenhuma. Ninguém me queria. Não tinha amor. Aí me internaram, porque parece que fiquei uma pessoa violenta. E eu não quero ser uma pessoa violenta. Diziam que eu era. Me internaram. Agora estou bem. Cortei as drogas. Tomo uns remédios. Estou bem. (...) Não sou violento. A bateria é. O piano não consegue, por causa da amplificação" (Arnaldo na entrevista citada).

O dvd traz muita história anterior (Mutantes principalmente, infelizmente sem depoimento da Rita) e posterior, culminando com o retorno dos Mutantes, e os shows em Londres (2006) e em Sampa (2007).

Ana Maria Bahiana, na entrevista citada: "Subitamente pede licença, vai correndo ao palco cuidar, pessoalmente, das ligações elétricas de seu teclado Hohner. Se é possível ter certeza de algo, de uma coisa sei: ele não está brincando de pirado. Todo seu corpo, todo seu rosto está empenhado numa batalha surda e intensa, digna, que não tem nada a ver com as possíveis fantasias de sua ex ou atual plateia. Agachado atrás dos amplificadores, metodicamente checando fios e plugs, sobrancelhas cerradas, ele não parece um herói: está lutando por sua vida. Com todas as forças".

Links (de onde eu tirei muita informação e onde roubei uma ou outra frase...):
Wikipedia do Arnaldo
Wikipedia do 'Lóki?'
Wikipedia do 'Loki' (dvd)
site música estranha e boa
site do Arnaldo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fim de ano é época de Noel...



Para fechar o ano, resolvi fazer justiça com um dos grandes artistas da música brasileira que até o momento não foi citado, muito provavelmente porque na sua época não se produzia “discos” tal como conhecemos conceitualmente nos dias de hoje, tornando-se mais conhecido pelas suas composições tão gravadas que por algum disco específico. Trata-se de Noel Rosa.

Como nos anos 20 e 30 as gravações de canções eram esparsas, o disco citado aqui foi lançado primeiramente apenas em 1965 através do Selo MIS, do Museu da Imagem e do Som, que foi criado com o objetivo de resgatar registros de nomes notáveis da música brasileira. Mas foi inteiramente constituído por gravações realizadas entre os anos de 1930 e 1936. Mais recentemente, em 1997, esse mesmo disco foi remasterizado em processo digital, mas suas canções não perderam aquela sonoridade antiga, cuja audição faz lembrar os velhos vinis rodando com seus ruídos característicos. Foi essa versão quefelizmente caiu em minhas mãos, presenteado pela minha mãe, que possui um acervo de discos nacionais espetacular (e a ela que dedico essa resenha).

Seu garçon faça o favor..de me trazer depressa...um boa média que não seja requentada....Quem não conhece “Conversa de Botequim”, que abre o disco? Gravada em 1935 com o Conjunto Nacional, essa canção marcou não só a sua curta carreira, mas sim a história da música nacional a ponto de ser gravada diversas vezes por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Rita e João Nogueira (provavelmente a versão mais conhecida).

Depois de “João Ninguém” e “Arranjei um Fraseado” (arranjei um fraseado que já trago decorado para quando lhe encontrar...”), vem “Onde está a honestidade”, mais um clássico samba, regravado recentemente pela Paula Toller e pela Orquestra Imperial.

Adepto da boemia, Noel encontra nessa vida a maior inspiração para suas canções, como as seguintes “Provei, (Quem fala mal do amor...não sabe a vida gozar...quem maldiz a própria dor.. tem amo, mas não sabe amar) e “Você vai se quiser” (você vai ser quiser...você vai se quiser...pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar...mas não vai dizer depois que você não tem vestido , que o jantar não dá pra dois), ambas gravadas  com Marilia Batista e Benedito Lacerda e seu conjunto.

Antes de completar 20 anos, no final de 1930, gravou “Com que Roupa”, que se tornou um seus maiores clássicos e fez grande muito sucesso no carnaval de 1931. Essa canção foi inspirada na ocasião em que sua mãe escondeu suas roupas na tentativa de impedir mais uma noitada.

Vivendo de trocados que conseguia com as suas composições, mas torrando tudo com bebidas e mulheres, Noel Rosa também transforma sua má relação com dinheiro em temas para músicas bem humoradas em “Quem dá mais?” e “Cordiais Saudações”. Até o lançamento desse disco, a versão de “Cordiais Saudações” aqui gravada estava inédita, já que o próprio Noel tinha classificado-a como “horrível” e rejeitado, para gravar outra com o Bando dos Tangarás. Terminou que essa versão ficou guardada por Almirante, um dos seus principais parceiros, e só foi revelada muito depois de sua morte.

Depois de desfilar seu bom humor com “Mulata Fuzarqueira” e “Coração” (na qual satiriza o tal sangue azul), o disco fecha com “Minha Viola”, canção em que faz uma ponte entre o samba e a legítima música caipira (estilo denominado como “embolada” no disco): Minha viola...tá chorando com razão....por causa duma marvada...que roubou meu coração.

A seleção das músicas nesse disco, por fim, ficou excelente. Mas é claro que com o repertório tão vasto, certamente muitas canções clássicas acabaram ficando de fora, como “Gago Apaixonado”, “Palpite Infeliz” ou ainda “Pra que mentir”. Mas de qualquer forma esse trabalho do MIS merece ser louvado. A se lamentar apenas o fato de que a falta de maiores cuidados com a saúde aliada à boemia acabou levando Noel Rosa muito cedo (com apenas 26 anos em 1937). Certamente ele teria deixado um legado muito maior. Mas o jeito é homenageá-lo da melhor forma: abrindo uma cervejinha e entrando no clima que esse disco consegue trazer.

Para escutar: http://grooveshark.com/#!/album/Noel+Rosa+E+Sua+Turma+Da+Vila/6399202

[Paul]