terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ACÚSTICO BABY DO BRASIL (1998)



Então, continuando com o clima praiano e discos solo, prosseguimos com Baby, antes Consuelo, agora evangélica e Do Brasil.
Esse é um acústico atípico, porque não traz agregado ao título MTV que, ao que parece, não é proprietária do formato nem da palavra 'acústico'.
Animado e variado, o disco tem um pique de ao vivo mesmo, com aqueles gritinhos ridículos e tudo.
E uma banda de luxo: Lincoln Cheib (bateria e percussão), o saudoso Nico Assumpção (baixo) e Nelson Faria (violão).
Baby e Pepeu permaneceram no recém postado Novos Baianos até 1978, quando os dois decidiram sair e se dedicar a suas carreiras solo.
'O que vier eu traço', música que inicia o cd, vem justamente do primeiro disco solo da niteroiense Baby, emendando num medley ou pout-pourri alucinante com 'Apanhei-te cavaquinho/ Baião/ Samba do ziriguidum'.
Depois vamos pro repertório baiano, 'Farol da Barra' (Galvão/Caetano Veloso), num climinha bem leve e solto.
Sai pra bem longe da praia depois: 'Sampa', numa versão bem suingada e cheia de breques, com direito a solo de violão.
“E os novos baianos te podem curtir numa boa”
Voltando para a praia e prosseguindo no Caetano, vamos de 'Menino do Rio', uma homenagem ao carioca Petit, surfista e praticante de asa delta, composta especialmente para ela cantar para a trilha da novela 'Água viva', que meus amigos de blog (dizem que) não veem... É uma versão bem jazzistica, mas mantendo aquele arpejo inicial característico da música.
Brasilsilsil: 'O samba da minha terra' emendando com 'Aquarela do Brasil', em versões bem legais, animadas e cheias de gás e ufanismo, inclusive com ela fazendo a galera gritar 'Brasil'...
Esse medley é inusitado: 'Mania de você' e 'Is this love', mas combinou, ou melhor, mixou bem!
Essa é de autoria da Baby, linda linda: 'Um auê com você', cheia de brisa praiana...
Vamos de Gil agora: 'Esotérico', que começa bem solta e depois dá uma acelerada com percussão. Depois 'Super Homem', ainda do Gilberto Gil, numa versão original e bonita.
Um Djavan com aquele leveza, 'Mal de mim', bonita e com um ritmo com cara de praia...estou forçando, eu sei. Tem uma brincadeira improvisada entre a voz e o violão.
Tem até um sambinha da melhor safra do Chico, 'Estação derradeira'! Com muito balanço e até uma cuíca simulada pela super versátil voz da Baby.
'É', do Gonzaguinha, também é um samba da melhor qualidade, o cd tem um repertório excelente e que não deixa a peteca cair.
Momento solo de voz!! 'Brasileirinho' parece ter sido feita pra voz, velocidade, precisão e interpretação da Baby. Depois o violão entra (mas sai quando a música acelera, não dá pra acompanhar), mas a voz é realmente o show.
E para terminar, a música arquetípica dos Novos Baianos, 'Brasil pandeiro', numa versão de levantar o salão!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Guitar Player BR!!!

Edição especialíssima com guitarristas brasileiros e lições pessoais, confiram!!
Scandurra, Pepeu, Sérgio Dias, Lanny, Frejat, Luiz Carlini!!!!
Feliz 2013, amigos, colaboradores e leitores!


Arnaldo Baptista: 'Lóki?' & 'Loki' (dvd)



Estas são obras independentes e com uma distância de 34 anos (o disco de 1974 e o dvd de 2008), mas mesmo assim, uma ajuda muito na compreensão da outra. E mesmo nunca tendo resenhado dvds por aqui, acho que este em especial tem seu lugar por aqui.

O dvd dá uma perspectiva de contexto e do criador Arnaldo, não só como autor, mas como músico, compositor, arranjador, cantor, marido, pai, irmão, etc.
Em muitos momentos do dvd as lágrimas aparecem e me pego perguntando porque estou vendo uma história tão triste, principalmente nesta época, com altas tendências à depressão...Mas o filme é de sobrevivência, forte e ao final otimista, como deve ser esta história. A primeira vez que o vi fiquei muito impressionado, queria fazer logo a resenha do disco, mas pensei que talvez devesse dar um tempo e vê-lo de novo mais tarde, o que fiz agora.
Também há muitos depoimentos, que algumas vezes colocam o Arnaldo (e os Mutantes) num nível de reconhecimento altíssimo, a saber:
- o Maestro Rogério Duprat diz com todas as letras que os Mutantes foram o que de mais relevante havia no movimento Tropicália, que inclusive foi objeto de um recente (e a comprar) dvd de documentário; pra mim faz todo o sentido, os Mutantes foram os primeiros (e além disso originais, criativos e competentes) a traduzir o rock'n'roll pra uma versão brasileira com cara própria - a Jovem Guarda o fazia sem mudar quase nada do rock estrangeiro, principalmente do italiano; e por mais que eu goste e admire Gal, Gil e Caetano, o rock brasileiro pra mim é muito mais importante e relevante do que a mpb; o Devendra Banhart chega a dizer que os Mutantes são melhores do que os Beatles!
- vários artistas e críticos (Lobão, Liminha, Roberto Menescal - que produziu este disco juntamente com Mazola, João Ulhoa - que produziu 'Let it bed' do Arnaldo, Tarik de Souza, Nelson Motta, Gilberto Gil, Sean Lennon - que cita um paralelismo interessante entre o Arnaldo e Syd Barret, Tom Zé, Kurt Cobain etc) ressaltam a importância do Arnaldo e do disco 'Lóki';
- contextualizando a autor e sua história, você ouve com muito mais atenção a 'densidade emocional' no disco, onde percebemos o quão exposto e corajoso o Arnaldo se pôs e, mais do que tudo, o quanto de alma e coração ele colocou no álbum.

E há mais que coração e alma: intensa dor, depressão, desespero e isolamento, delírios e imagens pessoais, problemas graves com drogas (principalmente o LSD que, como lembrado por várias pessoas, não é brincadeira não), frustração e decepção amorosa, angústia e solidão, sexo e ovnis, paranóias e incertezas, lucidez e loucura entrelaçadas, um grito desesperado de um jovem genial de 25 anos que tinha perdido a mulher e a banda. Mas que ainda tinha o rock'n'roll.

"Rock eu gosto porque é meu sangue. É minha vida, desde que nasci" (Arnaldo em entrevista à Ana Maria Bahiana, publicada no Globo em 1978).

É um disco de rock sem guitarras. Arnaldo tem a seu lado velhos companheiros: Liminha no baixo, Dinho Leme na bateria, Rita Lee (vocais de apoio em 'Não estou nem aí') e Rogério Duprat. Em alguns momentos Arnaldo se indispôs com os músicos, por se negar a refazer algumas faixas (por isso o disco é em alguns momentos muito cru e contém alguns pequenos erros).
É um disco feito com urgência e sofreguidão, visceral, o que em algum artigo aí abaixo o ligou coerentemente a 'Plastic Ono Band'.
Há uma grande mistura de gêneros: glam rock, boogie-woogie, rock progressivo, bossa nova, samba, rock'n'roll, música clássica etc.

Os dois lados originais iniciam-se com canções perguntas: o lado A 'Será que vou virar bolor' e o B com 'Cê tá pensando que eu sou loki?'.
Qual o futuro? O esquecimento? A loucura?
Cada música traz um pouquinho de resposta, ou melhor, um monte de procuras...

A minimalista canção final, 'É fácil', parece ter um resposta: a genialidade da música!
"Eu me amo
como eu amo você
é fácil"

"Hoje eu percebi que venho me apegando às coisas materias que me dão prazer
(...)
não gosto do pessoal da NASA
Cadê meu disco voador?"
(Será que vou virar bolor)

'Uma pessoa só' foi herdada dos Mutantes, utópica sobre a plenitude da convivência humana, traz um belo arranjo de cordas e versos lindos:
"Estamos numa boa pescando pessoas no mar
Aqui
Numa pessoa só"

'Não estou nem aí' é a exata antítese da canção anterior, negando os projetos utópicos e enfrentando o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.
"Ontem me disseram que um dia eu vou morrer
mas até lá eu não vou me esconder
porque eu não estou nem aí pra morte
não estou nem aí pra sorte
eu quero mais é decolar toda manhã"

'Vou me afundar na lingerie' traz mais uma possibilidade, com muito humor: o hedonismo, o ócio, como destruidores das opressões e barras pesadas. (Antecipando ''Diversão é solução sim")
"quem já dançou sempre tem medo dos homens"

Finalizando o lado A, 'Honky tonky', instrumental onde Arnaldo passeia por estilos ao piano.

Iniciando o lado B, 'Cê tá pensando que eu sou loki?', que meio que cita a bossa nova e o disco do Tom com Sinatra.

'Desculpe' pode ser interpretada como releitura de 'Desculpe, Baby' dos Mutantes, e traz mais uma possibilidade de resposta: o Amor. Mesmo sendo 'uma das baladas mais corta-pulso da história'...
"Desculpe
se eu fiz você chorar
Te esqueça
Olha, o sol chegou
Diga-me o meu nome
Diga-me que você me quer
Sinta o pulso de todos os tempos
Comigo
Até quando, eu não sei
Mas desculpe
mas eu vou me fechar
não sou perfeito
nem mesmo você é
me abrace, diga-me o o meu nome
(...)
sinta o barato de ser humano
Comigo
até quando Deus quiser"

'Navegar de novo' traz uma resposta concisa: seguir em frente. Traz uma das primeiras críticas à nascente sociedade de consumo e sua superficialidade, mas com esperança.

'Te amos podes crer' é uma canção de amor, em menos de 3 minutos Arnaldo faz um tratado das dores de amores.
"é muito triste pensar em você como quem não vive depois da morte"

Finaliza com 'É fácil'. Que traz Arnaldo ao violão, com um impressionante domínio do instrumento, que não era seu principal.

No cd se perde uma coisa meio louca: os dois lados tem exatamente 16 minutos e 50 segundos.
E na ficha técnica: "Este disco é pra ser ouvido em alto volume".

Arnaldo não gostou do nome, imposto pela gravadora, nem da capa, além do que havia imaginado.
Logo após o lançamento, Arnaldo sofreu uma das suas primeiras internações psiquiátricas.

Sobre os anos pós-Loki: "Passei 4 anos num ostracismo. Não tinha ninguém, mulher nenhuma. Ninguém me queria. Não tinha amor. Aí me internaram, porque parece que fiquei uma pessoa violenta. E eu não quero ser uma pessoa violenta. Diziam que eu era. Me internaram. Agora estou bem. Cortei as drogas. Tomo uns remédios. Estou bem. (...) Não sou violento. A bateria é. O piano não consegue, por causa da amplificação" (Arnaldo na entrevista citada).

O dvd traz muita história anterior (Mutantes principalmente, infelizmente sem depoimento da Rita) e posterior, culminando com o retorno dos Mutantes, e os shows em Londres (2006) e em Sampa (2007).

Ana Maria Bahiana, na entrevista citada: "Subitamente pede licença, vai correndo ao palco cuidar, pessoalmente, das ligações elétricas de seu teclado Hohner. Se é possível ter certeza de algo, de uma coisa sei: ele não está brincando de pirado. Todo seu corpo, todo seu rosto está empenhado numa batalha surda e intensa, digna, que não tem nada a ver com as possíveis fantasias de sua ex ou atual plateia. Agachado atrás dos amplificadores, metodicamente checando fios e plugs, sobrancelhas cerradas, ele não parece um herói: está lutando por sua vida. Com todas as forças".

Links (de onde eu tirei muita informação e onde roubei uma ou outra frase...):
Wikipedia do Arnaldo
Wikipedia do 'Lóki?'
Wikipedia do 'Loki' (dvd)
site música estranha e boa
site do Arnaldo

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fim de ano é época de Noel...



Para fechar o ano, resolvi fazer justiça com um dos grandes artistas da música brasileira que até o momento não foi citado, muito provavelmente porque na sua época não se produzia “discos” tal como conhecemos conceitualmente nos dias de hoje, tornando-se mais conhecido pelas suas composições tão gravadas que por algum disco específico. Trata-se de Noel Rosa.

Como nos anos 20 e 30 as gravações de canções eram esparsas, o disco citado aqui foi lançado primeiramente apenas em 1965 através do Selo MIS, do Museu da Imagem e do Som, que foi criado com o objetivo de resgatar registros de nomes notáveis da música brasileira. Mas foi inteiramente constituído por gravações realizadas entre os anos de 1930 e 1936. Mais recentemente, em 1997, esse mesmo disco foi remasterizado em processo digital, mas suas canções não perderam aquela sonoridade antiga, cuja audição faz lembrar os velhos vinis rodando com seus ruídos característicos. Foi essa versão quefelizmente caiu em minhas mãos, presenteado pela minha mãe, que possui um acervo de discos nacionais espetacular (e a ela que dedico essa resenha).

Seu garçon faça o favor..de me trazer depressa...um boa média que não seja requentada....Quem não conhece “Conversa de Botequim”, que abre o disco? Gravada em 1935 com o Conjunto Nacional, essa canção marcou não só a sua curta carreira, mas sim a história da música nacional a ponto de ser gravada diversas vezes por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Rita e João Nogueira (provavelmente a versão mais conhecida).

Depois de “João Ninguém” e “Arranjei um Fraseado” (arranjei um fraseado que já trago decorado para quando lhe encontrar...”), vem “Onde está a honestidade”, mais um clássico samba, regravado recentemente pela Paula Toller e pela Orquestra Imperial.

Adepto da boemia, Noel encontra nessa vida a maior inspiração para suas canções, como as seguintes “Provei, (Quem fala mal do amor...não sabe a vida gozar...quem maldiz a própria dor.. tem amo, mas não sabe amar) e “Você vai se quiser” (você vai ser quiser...você vai se quiser...pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar...mas não vai dizer depois que você não tem vestido , que o jantar não dá pra dois), ambas gravadas  com Marilia Batista e Benedito Lacerda e seu conjunto.

Antes de completar 20 anos, no final de 1930, gravou “Com que Roupa”, que se tornou um seus maiores clássicos e fez grande muito sucesso no carnaval de 1931. Essa canção foi inspirada na ocasião em que sua mãe escondeu suas roupas na tentativa de impedir mais uma noitada.

Vivendo de trocados que conseguia com as suas composições, mas torrando tudo com bebidas e mulheres, Noel Rosa também transforma sua má relação com dinheiro em temas para músicas bem humoradas em “Quem dá mais?” e “Cordiais Saudações”. Até o lançamento desse disco, a versão de “Cordiais Saudações” aqui gravada estava inédita, já que o próprio Noel tinha classificado-a como “horrível” e rejeitado, para gravar outra com o Bando dos Tangarás. Terminou que essa versão ficou guardada por Almirante, um dos seus principais parceiros, e só foi revelada muito depois de sua morte.

Depois de desfilar seu bom humor com “Mulata Fuzarqueira” e “Coração” (na qual satiriza o tal sangue azul), o disco fecha com “Minha Viola”, canção em que faz uma ponte entre o samba e a legítima música caipira (estilo denominado como “embolada” no disco): Minha viola...tá chorando com razão....por causa duma marvada...que roubou meu coração.

A seleção das músicas nesse disco, por fim, ficou excelente. Mas é claro que com o repertório tão vasto, certamente muitas canções clássicas acabaram ficando de fora, como “Gago Apaixonado”, “Palpite Infeliz” ou ainda “Pra que mentir”. Mas de qualquer forma esse trabalho do MIS merece ser louvado. A se lamentar apenas o fato de que a falta de maiores cuidados com a saúde aliada à boemia acabou levando Noel Rosa muito cedo (com apenas 26 anos em 1937). Certamente ele teria deixado um legado muito maior. Mas o jeito é homenageá-lo da melhor forma: abrindo uma cervejinha e entrando no clima que esse disco consegue trazer.

Para escutar: http://grooveshark.com/#!/album/Noel+Rosa+E+Sua+Turma+Da+Vila/6399202

[Paul]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Naná Vasconcelos - Contando histórias (Storytelling)



Chegamos a ele, o místico mas também excelente administrador de sua carreira internacional (inclusive morador de New York), eleito 8 vezes o melhor percussionista do mundo pela revista Down Beat!, o típico percussionista brasileiro mas extremamente original e reconhecível, Naná Vasconcelos.
A princípio vinculado ao Milton Nascimento, Geraldo Vandré, depois a Egberto Gismonti, depois o mundo, Paris, New York, Alemanha e por aí vai. E volta também, participando de PercPans ou homenagens em Recife.
Compõe muitas trilhas, para ballet ou cinema ('Down by law', 'Procura-se Susan desesperadamente', entre muitos).
Também produziu, entre outros, o Cordel do Fogo Encantado.

Tendo como principal instrumento, mas longe de ser o único, o berimbau, nesse disco explora muitas sonoridades e acompanhamentos de outros instrumentos, principalmente uma orquestra muito bonita.
Citando o próprio:
"(...) partindo do princípio de que o primeiro instrumento é a voz e o melhor é o corpo";
"A origem mais remota da percussão é a vida, porque se o coração não bater, não tem música, não tem vida";
"Hermeto é responsável pela ideia de que tudo é percussão. Você pode pegar qualquer coisa e fazer virar um instrumento".

O disco é bem etéreo, cheio de sons mais do que músicas, aparentemente, porque depois percebe-se que tudo é música. Em alguns momentos de experimentalismos lembra o polêmico 'Araçá azul' do Caetano, que ninguém tem coragem de postar aqui...



Assim 'Fui fuio (na praça)' começa com assovios e palavras quase faladas pelo percussionista que depois, com um 'auxílio luxuoso' de um pandeiro vira uma música bem legal que já faz você se mexer! Depois vai entrando uma bandinha de coreto e é só belezura.

Também com pequenos sons começa 'Cortina', mais um canto poderoso que depois é acompanhado de uma orquestra muito bonita, só ouvindo mesmo, difícil traduzir...Tema bonito, música crescendo!

'Clementina' começa com umas risadas gostosas do Naná, mas é mais tradicional, um samba de roda com berimbau e letra, balança e remexe...

'Uma tarde no norte' começa com ruídos e vozes, para depois entrar o canto próximo a uma cantiga de roda ''o meu chapéu é o alto do céu'', cantada por Naná e muitas crianças (o que reforça o aspecto de cantiga), citada no disco recentemente postado do Otto.

'Noite das estrelas': mais ruídos, agora noturnos, e um violoncelo que emerge como um dinossauro na noite, muito bonito mesmo! Mais vozes e percussões esparsas sugerem bem uma noite.

'Tu nem quer saber' é mais um samba de roda conduzido pelo berimbau, rebola aí. Ou tu não é neguinha?

'Um dia no Amazonas', 'Nordeste', 'Vento chama vento' e 'Tira o Leo' são as seguintes, com estruturas parecidas com as já citadas, mas cada uma tem sua sonoridade própria, estranha mas bonita, além de se utilizar de elementos variados (vozes, assovios, ruídos, instrumentos, coros de crianças, risos, percussões e até sanfona) e suas diversas combinações para compor sua textura e mensagem.
Parece viajante, e é! Mas mesmo 'purinho' dá pra curtir...

Links:

http://www.nanavasconcelos.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nan%C3%A1_Vasconcelos
blog multiplicidade
site gafieiras
site página da música


(Dão)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Brasil Musical - Pau Brasil/Hermeto Paschoal


Aproveitando o ensejo da citação do Hermeto Paschoal na postagem do Paulo Moura pelo Mateus, vamos a ele, juntamente com o grupo instrumental Pau Brasil, 'juntados' nesse disco dessa excelente série.
Tanto o Hermeto quanto o Naná Vasconcelos vieram à minha cabeça nesses dias, como artistas que faltam por aqui. O problema desses dois para mim é que, mesmo sendo reconhecidamente gênios, não tem AQUELE disco pelo qual sejam reconhecidos.
Mas mesmo assim, vamos preenchendo as lacunas...

Essa série do Selo Tom Brasil se originou de shows promovidos no SESC Pompéia/SP, com grandes nomes da música instrumental, que pela lotação, provou que também tem aceitação popular.
Esse cd aqui reúne o grupo Pau Brasil, que comparece com duas longas suítes contendo várias músicas, e Hermeto Paschoal, que traz mais 4 músicas.

As músicas:

(Pau Brasil)
1. Cordilheira dos Andes, Tubofone, Sem Nome
2. Metrópole Tropical, Olho D'água, Bambuzal

(Hermeto Paschoal)
3. Harmonia sem cronologia
4. Viajando pelo Brasil
5. Mesclando
6. Rainha da Pedra Azul

Não são de audição fácil, principalmente pela longa duração, as músicas do Pau Brasil, mas valem a pena o esforço, não pela virtuosidade ou complexidade, mas pela beleza e naturalidade, fluência e criatividade dos músicos e improvisadores. Tem uma bela voz (Marlui Miranda) fazendo papel de instrumento também, bonito mesmo! Na época, além da Marlui, o grupo era formado por: Lelo Nazarino, Zé Eduardo Nazarino, Rodolfo Stroeter e Teco Cardoso.

Mais informações sobre o grupo aqui: http://www.grupopaubrasil.com/

Sobre o Hermeto é difícil falar...um enorme gênio, criativo ao extremo, improvisador excepcional (o que o torna um compositor muito produtivo), faltam adjetivos. Tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente em várias ocasiões em Curitiba e aeroportos, o cara além de tudo é acessível e sem arrogância nenhuma, hoje ele é casado com a Aline Moreno, com quem já fiz um curso de música para trilhas sonoras de cinema.
Multi-instrumentista, toca qualquer coisa (literalmente, não precisa ser instrumento musical, já vi um show dele onde ele começou a improvisar, às vezes regendo a plateia, sobre aqueles sinais sonoros que avisam que o espetáculo vai começar) que lhe caia às mãos, sempre de um modo natural, o que é outro elemento que lhe inspira muito, a Natureza e seus sons, inclusive animais...
As músicas são típicas das composições de jazz brasileiro: exposição do tema, em geral com Hermeto na flauta, e posteriores improvisos e desenvolvimentos etc. Sempre em ritmos brasileiros, como o xote, maracatu e elementos do chorinho, sempre também animadíssimos e às vezes bem acelerados.

Como ele termina o livro com 366 partituras, uma para cada aniversariante de cada dia do ano, chamado 'Calendário do Som', "Tudo de bom sempre''!!!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hermeto_Pascoal

(Dão)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Paulo Moura - Mistura e Manda (1984)



Naquele tempo o Léo dizia que iria comprar uma coletânea do The Who, e aí eu teria dois discos pra poder ouvir em casa (ou outro era o Dirty Work). Pudera, nesses tempos a trilha sonora da casa variava entre o jazzzzz e lançamentos recentes da MPB, “o novo do Caetano” (e este ‘aquele tempo’ era um tempo onde isso valia a pena), isqueiro ou fósforos de Djavan (coisa de acender), alguma coisa de rock nacional (Big Bang dos Paralamas tocou até furar) e este: Mistura e Manda.

Hoje o Léo tem uma menina linda e curte mesmo é um bom funk carioca, de tal forma que este post é dedicado a Helena, pra ela saber que o pai dela um dia já teve muito bom gosto.

Gosto mais do Chorinho que da Bossa-Nova e do que do Samba. Acho mais original e mais astral que um, e mais delicado e surpreendente que o outro. Ainda que neste caso, elementos típicos da gafieira comparecem em tempero preciso no disco, conferindo à definição “choro negro” seu exemplo perfeito.

Nascido no estopim da Revolução Constitucionalista em julho de 1932 no interior de SP (São José do Rio Preto), muda-se para o Rio em 1945 junto com a família de músicos.

Interrompi meus estudos na segunda série do "Ginásio Luiza de Castro", na Tijuca, para dedicar-me à música, com autorização de meus pais. Queria evitar a profissão de alfaiate que me fora imposta pelo José, meu irmão mais velho.” (http://www.paulomoura.com)

Clarinetista, saxofonista e maestro arranjador, Paulo Moura é sinônimo de música brasileira. Neste disco, lançado pela KUARUP (Produção Executiva e Direção Geral de Mario de Aratanha) o próprio artista assume a direção artística e a responsabilidade sobre os arranjos, tornando-o muito pessoal. O repertório é de muito bom gosto e inclui sete músicas, entre (não tão) clássicos e composições próprias:

Chorinho pra Você (Severino Araújo) / Chorinho pra Ele (Hermeto Pascoal) / Mistura e Manda (Nelson Alves) / Nunca (Lupicinio Rodrigues) / Tempos Felizes (Paulo Moura) / Caminhando (Nelson Cavaquinho e Nourival Bahia) / Ternurinha (K-Ximbinho)

Os músicos que tocaram no disco mostram um time seletíssimo (Rafael Rabello era então um menino de 22 anos...) e extremamente afinado com o projeto. Reparem que a presença de Zé da Velha no trombone e uma percussão “heavy metal” dão ar de gafieira em muitas das faixas:

Paulo Moura (clarineta); Zé da Velha (trombone); Rafael Rabello (violão de 7); Joel Nascimento (bandolim); Maurício Carrilho, César Faria e João Pedro Borges (violão); Jonas Pereira, Carlinhos do Cavaco, Mané do Cavaco (cavaquinhos); Jorginho (pandeiro); Neoci de Bonsucesso (tamtam); Joviniano (repique de mão e ganzá) e Gargalhada (caixa de fósforos).

Paulo Moura nos deixou recentemente em 2010, mas este disco acaba-lhe conferindo eternidade, graças a deus.

Que o maestro descanse em merecida paz, enquanto o redondinho vai girando incansável...

[M]