sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Caetano Veloso - Transa



Tem discos que são citados pela qualidade de suas músicas, outros por marcarem época e outros ainda por trazerem consigo lembranças muito marcantes. Uns poucos conseguem unir tudo isso, e para mim, o disco Transa, de Caetano Veloso, encontra-se nessa categoria.

Embora gravado em 71 em Londres (lançado em 72), confesso que me recordo dele no verão entre93/94, quando foi uma espécie de trilha sonora durante uma viagem ao sul da Bahia com grandes amigos. Recordo-me com imensa satisfação da chegada das noitadas naquela casa e das horas que passávamos madrugada adentro ao lado de um modesto aparelho de som degustando cada trecho das músicas como se fosse um gole da última cerveja gelada. Inebriávamo-nos com esse disco, procurando fazer a mesma viagem entre Londres e Bahia que Caetano tinha feito 21 anos antes. Chegávamos a parar e voltar as mesmas canções uma, duas, três...várias vezes, com receio de que algo, alguma mensagem, algum som, algum sentido passasse desapercebido por nós. Foram momentos memoráveis... e fico feliz em constatar que isso ocorreu com um disco desse calibre.

Gravado em seus últimos dias de exílio em Londres, o título soa como uma provocação sutil ao regime militar brasileiro, que segundo consta, tinha sugerido que ele gravasse algo enaltecendo a transamazônica, o “cartão postal” dos militares naquela época. Caetano simplesmente retirou a “amazônica” da referência.
Em apenas sete canções (três das quais com mais de 6 minutos, uma ousadia na época), das quais cinco de autoria própria, Caetano transita entre o inglês e o português para nos levar para o clima nostálgico que estava vivenciando pessoalmente, com a perspectiva de retorno ao Brasil naqueles anos de chumbo após três anos de exílio voluntário.

No auge de sua inspiração, Caetano foi vitorioso na sua empreitada de transmitir pelos sons e palavras aquele contexto. O inglês predominante na maioria de suas canções é quebrado de forma ao mesmo tempo suave e repentina com belos versos em português de forte influência de Caymmi (pelo menos sob a minha ótica), como em “You don’t know me” ou “It’s a long way”: A água com areia brinca na beira do mar... A água passa e a areia fica no lugar.

Impossível não se emocionar até mesmo com os trechos repetidos e acelerados de canções como “Neolithic Man”, “It’s a long way” ou ainda em “Mora na Filosofia”.

As canções em português também merecem destaque especial. “Triste Bahia” é um poema de Gregório de Matos musicado por Caetano que tem um resultado belíssimo, a começar com o som do berimbau, que para mim transmite fielmente a alma daquele momento: Triste Bahia, oh, quão dessemelhante…Estás e estou do nosso antigo estado...Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado...Rico te vejo eu, já tu a mim abundante.

Pra que rimar...amor e dor...Por fim (sem que seja a última do disco), Caetano resgata um velho samba de Monsueto Menezes, transformando-o em outra belíssima versão com um arranjo totalmente diferente e novamente enriquecida de nostalgia (não por acaso, nome da canção que encerra o disco, com letra em inglês novamente).

Enfim, optei por não descrever cada música já que não encontraria palavras para descrevê-las  da forma como merecem. O que recomendo é simplesmente repetir a experiência do verão de 93/94: peguem esse disco, escutem e simplesmente entrem no clima. Talvez assim a rima de amor e dor passe a fazer outro sentido.

Obs: menção especial a todos os amigos que participaram daquela viagem no verão de 93/94, como Léo Baiano (que levou o acervo do Caetano para aquela viagem), Digão, Zedu, Valdemar e Luiz Marcelo Baiano (que organizou a viagem), entre outros. 
[Paul]

Tribalistas



Há alguns meses, a revista Playboy, deu provas concretas da decadência que atinge todo o grupo Abril ao tentar, com críticos de própria editora, oriundos de publicações medíocres como a Veja ou Contigo, elaborar uma lista do que seriam os 10 piores discos nacionais, e citou, juntamente com artistas renomados, os Tribalistas. Certamente a intenção devia ser polemizar, mas certamente nem isso conseguiu diante da baixa qualidade dos textos e da falta de conhecimento dos seus “críticos”. Dentro de um cenário de axé music, sertanejo universitário e outros estilos que tocam por ai que não apareceram, citar como pior nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e o próprio Tribalistas soa como algo completamente ridículo.

Mas deixando as polêmicas de lado, ou até mesmo para reforçá-las, acho que esse disco merece sim aparecer em lista, mas certamente entre os melhores. Está certo que a superexposição de algumas canções na época do lançamento (incluídas em trilhas sonoras de novelas), acabou desgastando-as, mas nada que desmerecesse esse trabalho que, do meu modo de ver é, antes de tudo, resultado de uma sintonia natural entre três grandes artistas em um momento único da carreira de cada um.

Produzido pela própria Marisa Monte (que novamente caprichou no encarte, contemplando cifras) e contando ainda com participação Dadi Carvalho, Cézar Mendes e Margareth Menezes entre outros, o disco inicia com um sonoro Bom dia Comunidade na voz de Arnaldo Antunes em “Carnavália”, uma verdadeira canção abre-alas, na qual se sobressai o perfeito casamento vocal entre Marisa Monte e Arnaldo Antunes, levados por uma percussão de Carlinhos Brown que parece feita sob medida para o disco: Vamos pra avenida ...Desfilar a vida...Carnavalizar.

As duas canções seguintes (“Um a Um” e “Velha Infância”) são baladas que estouraram nas rádios na época do lançamento e de tanto tocarem, acabaram cansando um pouco. Mas isso não tira o mérito de serem boas canções de amor.

“Passe em casa” é uma das melhores em minha opinião: música leve, solta, com uma percussão bem original criada por Carlinhos Brown. É daquelas músicas que dá gosto em ouvir.

Em “O amor é Feio”, destaca-se o barítono Arnaldo Antunes em primeiro plano, com arranjo que dá a cara de música infantil, daquelas de boa qualidade que foram produzidas recentemente.

Depois das canções “É Você” e “Carnalismo”, que possuem a cara (além da voz) da Marisa Monte e poderiam facilmente ter saído de um de seus últimos discos (músicas que ultimamente não deixam muita saudade), “Mary Cristo” é praticamente uma doce canção de natal, ideal para ser ouvida nessa época do ano (dezembro).

...quem está falando é a fada madrinha. Iniciando com a fala de uma criança, neta de Chico Buarque, “Anjo da Guarda” é outra que parece música para criança, acompanhada por uma riqueza de sons e percussão bem criativa.  ‘La de longe” vai no mesmo ritmo, transmitindo aquela suavidade tão predominante na maior parte desse disco, assim como “Pecado é lhe deixar de molho”, a canção seguinte.

Eu sou de ninguém...eu sou de todo mundo... e todo mundo é meu também...: “Já sei namorar” é outra que teve como maior pecado a superexposição na época, com o consequente desgaste natural. Mas nada que uma quarentena não resolva. Depois de alguns anos, agora consigo voltar a escutar e, melhor ainda, curtir como ela deve ser. Sem pretensão e bastante original.

Pé em Deus...e Fé na Taba. O disco encerra com “Tribalistas”, praticamente uma canção manifesto que consegue transmitir em alto astral a ideia (e a naturalidade) de como o disco foi concebido. Um resultado de um encontro de três músicos que estavam em perfeita sintonia no exato momento: dois homens e uma mulher...Arnaldo, Carlinhos e Zé (apelido da Marisa, decorrente de Marisete).

Como os próprios autores definem, esse disco foi resultado natural de um encontro sem pretensões na Bahia (para depois ser gravado no Rio). As músicas foram nascendo com naturalidade, sem pressões, decorrente de uma sintonia que já se fazia presente nos discos solos de cada um deles. Trata-se de um momento em que a carreira de cada um deles convergiu e o disco foi o filho de parto normal. Depois cada um continuou o seu caminho. Talvez até mesmo o sucesso do disco na época tenha surpreendido-os também (mais de 1,5 milhão de cópias vendidas em época já com internet).

Como a própria canção que encerra o disco previu, “o tribalismo é um antimovimento... que vai se desintegrar no próximo momento”. Percebe-se que, de cara, o disco era mesmo para ser mesmo um filho único desse encontro de parceiros musicais.

Quanto às críticas, também souberam responder com alto estilo no próprio disco, afinal os tribalistas já não querem ter razão...não querem ter certeza, não querem ter juízo nem religião.

[Paul]

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Celso Blues Boy - Som na guitarra


Essa semana vou postar alguns artistas que me deixam até culpado de não estarem por aqui, começando pelo saudoso e recentemente falecido Celsuba!
Por coincidência acabei de ler o post duplo sobre o 'Abre-te Sésamo' do Raul, onde o Mateus cita o Celso, que começou tocando com o Raulzito ('Liberdade' é co-autoria do Celso com Raul!) e Sá & Guarabira, eu acho.
Depois seguiu sua carreira solo, gravando Blues com a cara brazuca, sempre em português. Mesmo tendo escolhido seu nome artístico em homenagem ao B. B. King, com quem tocou e compôs.
Recordista em apresentações no Circo Voador, RJ (só competindo com a Orquestra Tabajara, cujo maestro também nos deixou esse ano), ir a um show dele no Circo era um tipo de iniciação nos anos adultos, sempre tinha um ou uma padrinho ou madrinha pra nos iniciar naquele ambiente divertido, liberal, exótico, engraçado e perigoso, principalmente se nossos pais soubessem como era liberal... Não lembro quantos shows vi dele, aliás, não tem dado pra confiar muito na minha memória ultimamente.
Nascido Celso Ricardo Furtado de Carvalho, conseguiu alguma projeção ao mandar um 'fita k7' (artefato analógico do século passado) para a Rádio Fluminense, que mesmo tendo um repertório mais voltado pro rock, tocava quase de tudo. Tempos diferentes, os Paralamas também tiveram 'Vital e sua moto' tocada assim, numa versão demo que até hoje não saiu em cd...
Mas tergiverso...

Esse é o primeiro álbum solo, e já é excelente, 'antológico' como disse bem o Jamari França, tendo músicas que permaneceram no repertório até o fim de sua vida, quando já morava em Joinville.
"Som na guitarra!!!!!" Começando pela clássica 'Aumenta que isso aí é rock'n'roll', o disco não tem como não agradar, Celso tem uma vibração rock mas raízes blues, e conseguiu fazer boas letras em português ao longo de sua carreira. Mas aqui é puro rock!
Para em seguida cair no puro blues 'Fumando na escuridão': aquele riff manjado roubado do Led/Muddy/John Lee Hooker, bom pra ouvir fumando, coisa que aliás levou ao câncer de garganta do nosso herói...
"não há ninguém nesse maldito vagão
eu continuo
fumando na escuridão"
'Tempos difíceis' é mais pop rock, com boas melodias e guitarras alternando entre o riff e a calma, com um belo solo.
"Porque chorar não vale mais a pena"
Aí vem um dos maiores clássicos underground do cara, 'Brilho da noite' (que já havia saído na coletânea 'Rock voador' da Warner), que eu não sei se é uma metáfora pra outro tipo de brilho (tenho impressão de ouvir uma fungada no meio da música)... Bluezão!! Piano bonito, melancolia e muito sentimento, tanto na voz quanto no solo chorado e cheio de reverb.
"Quando o dia amanhece
o brilho da noite se vai"
'Amor vazio' começava o lado B, acho. O disco inteiro desce redondo, agradável e animado apesar de blues, caprichado e natural.
"eu continuo aqui mesmo sozinho
sentindo calor
tremendo de frio"
'Rock fora da lei' é um blues rock quase americano em Memphis, Tenessee, legal, com um refrão do tipo que levanta a galera e solo cheio de drive.
'Filhos da bomba' é quase um hard rock, fruto da paranóia de medo da guerra nuclear (eu sonhava com a bomba nessa época, alguém mais?), tem até aquela sirene típica, música meio datada e diferente (tem até uma voz meio operística/metal), com solo mais virtuosístico com várias guitarras.
'Blues Motel' encerra o disco suavemente, com lirismo e beleza, apesar da guitarra bluesy gritando nos seus momentos de solo.
"marcas de batom
uísque na cama
e a emoção de uns
no coração do blues"

Descanse em paz, Celsuba.

Mais fontes de informação:
Jamari França sobre a morte de Celso
ahtabom
Wikipedia

(Dão)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Candeia - sucessos + raridades

E pra encerrar a semana, um exemplar do 'puro' samba, se é que isso existe. Eu tendo a concordar com o Hermano Vianna no seu excelente 'A invenção do samba', reverberado explicitamente pelo Fred 04 num álbum que em breve será resenhado pelo amigo Mateus 'É tudo uma grande invenção'...
Em geral as coletâneas não são bem-vindas por aqui, mas esse tipo e-collection é bem legal porque traz sucessos e raridades. Tenho alguns em casa (Tom Jobim, Ultraje, Ed Motta, Kid Abelha, Barão, Titãs) e todos eles trazem coisas interessantes. Como esse é o único disco (pois é, eu ainda compro; quando eu morrer, provavelmente uns meses depois a indústria vai sentir um baque e mandar uma coroa de flores...) que eu tenho do Candeia, vai ser este mesmo.

Sambista, cantor e compositor, foi grande defensor das tradições afro-brasileiras, tendo até mesmo criado (diz a lenda) as Comissões de Frente das escolas de samba e também fundado a Escola de Samba Quilombo. Faz parte do panteão de grandes nomes da Portela.
História triste, levou um tiro na coluna que lhe tirou o movimento das pernas e o levou à aposentadoria, o que por sua vez, o permitiu se dedicar exclusivamente ao samba.

Obteve mais popularidade através de intérpretes, como Clara Nunes, que gravou 'O mar serenou' no LP de sucesso 'Claridade', ou Martinho da Vila, que gravou o pout-pourri 'Em memória de Candeia' (Dia de graçaFilosofia do sambaDe qualquer maneiraPeixeiro grã-fino e Não tem vencedor) no disco 'Tá delícia, tá gostoso'.

Eu, como quase ignorante do sambista, presto aqui a minha homenagem através desse álbum (que descobri que contém os álbuns 'Axé: gente amiga do samba' de 1978 e 'Luz da inspiração' de 1977, além de outras faixas), que contém as seguintes músicas:

Disco Sucessos:
1. Riquezas do Brasil (Brasil Poderoso)
2. Maria Madalena da Portela
3. Olha o samba Sinhá (samba de roda)
4. Vem menina moça
5. Nova escola
6. Já curei minha dor
7. Luz da inspiração
8. Me alucina
9. Falso poder
10. Era quase madrugada
11. Cabocla Jurema

Disco raridades:
1. Pelo nosso amor
2. Não vem (assim não dá)  [com Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros e Guilherme de Brito]
3. Sou mais o samba  [com Dona Yvonne Lara]
4. Expressão do seu olhar
5. Pintura sem arte
6. Ouro desça do seu trono
    Mil réis
7. Vivo isolado do mundo
    Amor não é brinquedo
8. Zé Tambozeiro
9. Dia de graça
10. Gamação
      Peixeiro granfino
      Ouço uma voz  [sobre texto de Nelson Amorim]
      Vem amenizar
11. O invocado
      Beberrão

Tenho impressão (não tenho o cd em mãos agora) que 'Vivo isolado do mundo' foi regravado no álbum, já resenhado aqui pelo Paulinho, 'Tudo azul', com a Velha Guarda da Portela, sob direção da Marisa Monte, fã do sambista e portelense. (errata: talvez haja outra música do Candeia nesse 'Tudo azul', essa aqui foi regravada pelo Vinícius Cantuária no disco 'Tucumã', se não me engano)

Mais fontes de informação:
Wikipedia
Só Candeia
Musparade (site gringo de compra de músicas)

(Dão)

Hoje o post é dedicado ao histórico e já saudoso Barney.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Virgulóides - Virgulóides?



Como ainda é a semana do samba (se não é, instituí agora!), vamos para mais misturas com o gênero.

Anteontem, quando estava comentando sobre o Marcelo D2, lembrei dessa outra mistura aqui, que também é interessante, mas por ser engraçadinha, não foi levada a sério, se é que deveríamos...

Aqui não é samba com rap, é samba com rock, e rock pesado. Com alguns momentos de metal, pagode e axé...

O nome vem da mistura de Virgulino (Lampião) com o saudoso desenho do Herculóides (homem-mola, multi-homem e homem-fluido, você lembra se tem mais de 40).
Como toda piada, mesma as boas, é engraçadíssimo na primeira vez que você ouve, mas nas seguintes vai perdendo a graça, até chegar no ponto da irritação. E isso se aplica à mais bem sucedida piada musical do Brasil, os Mamonas Assassinas (que merecem um post sim). Aqui há um humor fluente, e eles criam historinhas legais.
A produção é do sempre competente e criativo Carlos Eduardo Miranda, que também produziu os Raimundos, que por sua vez também participaram do disco seguinte dos Virgulóides, 'Só pra quem tem dinheiro?' (por que sempre tem uma interrogação???)

A banda é formada por Henrique Lima (voz, violão e guitarra), Beto Demoreaux (baixo e voz) e Paulinho Jiraya (bateria, percussão e cavaquinho), tendo como músicos de apoio Marcelo Fumaça (backing vocal, guitarra base e cavaquinho), Negreli (percussão e backing vocal) e Biroska (percussão).
É uma galera 'dafa' (como dizem meus amigos aqui do blog), se não de verdade pelo menos em aparência e atitude..São de Cidade Dutra, zona sul de sampa.

A primeira e mais conhecida música, 'Bagulho no bumba', foi MUITO tocada, então saturou mesmo, mas é legal, cavaquinho alternando com guitarra bem distorcida, vocais bem colocados.
"É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé"

Em seguida 'House da madame'.

As músicas são todas curtas e relativamente parecidas, alternando entre o samba e o rock, em alguns momentos até hardcore bem acelerado, como em 'Zoião de Sapo-boi'.
"ô meu filho, aonde é que você foi?
Só chega de madrugada,com os zoião de sapo-boi"

'Festa na Dona Teta' tem até uma slide guitar maneira e pesadona, além de um solo bem metal no meio. É um disco interessante e muito original, que funciona tanto num churrasco quanto numa audição solitária (totalmente!) sem preconceitos, com alguma tolerância... As letras, apesar de muito humor, também tem um pouco de sarcasmo, pouco percebido pela massa.

'Sebunda-feira' começa mais lenta, depois volta pra fórmula, meio samba, depois marcha de carnaval.

'Dum dum' (música tradicional sul-africana!) é meio (pra não dizer totalmente) sem sentido, mas vale pela diversão...e dá aquela manjada subida de tom no meio, pra animar!

'Salve o cabra-macho' já começa um pouco diferente, com uma guitarra suingada com wah-wah, que alterna com uma outra mais pesada, aquele canto arrastado e paulistano até a alma...legal, meio machista mas engraçada.
"salve, salve
o cabra-macho em extinção
pois do jeito que a coisa tá indo
só sobra viado e sapatão"

'Nego velho (o mano véio)' é daquelas adaptadas tipo 'esporrei na manivela'.

'Raimunda' nem precisa dizer sobre o que é...
"ô Raimunda
joga essa bunda pa gente"

Pra terminar uma marchinha com sopros meio malucos, 'Qué picá'.

Fontes de mais informação:
Saqueando a cidade
Wikipedia

(Dão)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Marcelo D2 canta Bezerra da Silva


Depois do dia do samba, 02 de dezembro, fazemos a nossa singela homenagem a esse gênero que agoniza mas não morre, principalmente a recriações como a do próprio D2, que o misturou ao rap (ou mesmo ao som mais pesado, como no primeiro disco do Planet Hemp).
Aqui ele é bem reverente ao Mestre da Malandragem, Bezerra da Silva, não misturando nada e mudando bem pouco as letras.
A capa é uma adaptação de uma do próprio Bezerra, do disco 'Eu não sou santo'...em vez de revólveres, como no original, aqui D2 usa microfones.
Não tem muito o que comentar sobre as músicas, são do repertório do Mestre Bezerra, que na verdade pouco compunha, garimpando as pérolas que gravava nos subúrbios, onde encontrava excelente compositores.

Começa muito bem, 'Se não fosse o samba'. Eu ainda prefiro nesse caso o original, que começa só com o vozeirão do Bezerra, mas vale muito a homenagem.
"E se não fosse o samba
quem sabe hoje em dia eu seria do bicho.
Não deixou a elite me fazer marginal
E em seguida me jogar no lixo"
(esclarecendo, 'do bicho' no dialeto carioca não quer dizer necessariamente ligado ao jogo do bicho, e sim ser marginal, do crime etc)

Seguindo vem muitas outras boas (claro que sinto falta de algumas geniais, como 'Bebeu demais' e 'Tem coca aí na geladeira'): 'Partideiro sem nó na garganta' e a genial 'A semente'.
"Meu vizinho jogou
Uma semente no seu quintal
De repente brotou
Um tremendo matagal (Meu vizinho jogou...)
Quando alguém lhe perguntava
Que mato é esse que eu nunca vi?
Ele só respondia
Não sei, não conheço isso nasceu ai
Mas foi pintando sujeira
O patamo estava sempre na jogada
Porque o cheiro era bom
E ali sempre estava uma rapaziada
Os homens desconfiaram
Ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito
E levaram todos eles para averiguação e daí...
Na hora do sapeca-ia-ia o safado gritou:
Não precisa me bater, que eu dou de bandeja tudo pro senhor
Olha aí eu conheço aquele mato, chefia
E também sei quem plantou
Quando os federais grampearam
E levaram o vizinho inocente
Na delegacia ele disse
Doutor não sou agricultor, desconheço a semente"

(dialeto do Bezerra: patamo é aquela van antiga da polícia, o 'veraneio vascaína')

Mais na sequência: 'A necessidade' (cantada com alguém que não consegui descobrir no encarte, acho que é o  Leandro Sapucahy) e 'Bicho feroz', que um amigo insensato ou provocador já cantou (como músico contratado!!) numa festa de policiais...
"Você com revólver na mão é um bicho feroz
Sem ele anda rebolando e até muda de voz
( Isso aqui...cá pra nós )"

'Quem usa antena é televisão', 'Meu bom juiz' e 'Malandro rife' mantém a bola no alto, Bezerra merece.


'Pega eu' é um bordão muito usado 'nas internas' entre nós colaboradores do blog como provocação, mas a música é sobre um ladrão que se arrepende ao entrar num barraco de alguém muito pobre e aqui vem ela sorridente e quase igual à original.
"Eu não tenho nada de luxo
Que possa agradar um ladrão
É só uma cadeira quebrada
Um jornal que é meu colchão
Eu tenho uma panela de barro
E dois tijolos como um fogão
O ladrão ficou maluco
De vê tanta miséria
Em cima de um cristão
Que saiu gritando pela rua
Pega eu que eu sou ladrão!"

Pra completar a manjada 'Malandragem dá um tempo' ("vou apertar mas não vou acender agora", você conhece...), 'Minha sogra parece sapatão' (engraçadíssima, menos pras sogras), 'Na aba' ("na aba do meu chapéu você não pode ficar, meu chapéu tem aba curta, você vai cair e vai se machucar", sobre os pidões e folgados), 'Saudação às favelas' e 'Pai véio 171'.
Pra finalizar vem uma dedicatória do Marcelo ao Bezerra, um ídolo que se tornou um amigo e figura paterna, só com uma batucada ao fundo, expondo sua saudade e como está o mundo desde que ele se foi, em 2005. Ao final, parece que D2 realmente se emociona. Tocante.

Em homenagem aos compositores quase desconhecidos que o Bezerra e o Marcelo cantaram, segue a lista das músicas com seus autores:
"Se Não Fosse o Samba" (Carlinhos Russo/ Zezinho Vale)
"Partideiro Sem Nó na Garganta" (Franco Teixeira/ Adelzonilton/ Evaldo Gouveia)
"A Semente" (Felipão/ Roxinho/ Tião Miranda)
"A Necessidade" (Jorge García)
"Bicho Feroz" (Claudio Inspiração/ Tonho)
"Quem Usa Antena É Televisão" (Celsinho Funda da Barra/ Pinga)
"Meu Bom Juiz" (Beto Sem Braço/ Serginho Meriti)
"Malandro Rife" (Ary do Cavaco/ Otacilio da Mangueira)
"Pega Eu" (o Supra Sumo da Honestidade) (Criolo Doido)
"Malandragem Dá um Tempo" (Popular P./ Adelzonilton/ Moacyr Bombeiro)
"Minha Sogra Parece Sapatão" (Roxinho/ Tião Miranda/ 1000tinho)
"Na Aba" (Trambique/ Paulinho Correa/ Ney Silva)
"Saudação as Favelas" (Pedro Butina/ Sergio Fernandes)
"Pai Veio" (Luiz Moreno/ Geraldo Gomes)
"Caro Amigo Bezerra" (Marcelo D2)   

Produção de Leandro Sapucahy

Fontes de informação:
Discoteca nacional
Revista Época

(Dão)                                                                                                                                                 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Jorge Ben - A Tábua de Esmeralda


(Esse é um dos 'clássicos', 'históricos' etc. Mas vou postar porque gosto muito, mesmo achando o som do violão - apontado como o ponto forte e original do Jorge - meia boca e em alguns momentos até incômodo na mixagem. Mas é uma viagem, no melhor dos sentidos, e um deleite musical)

Um grande álbum atenta a todos os detalhes, a começar pela capa. Esta aqui, belíssima, foi baseada 'nas figuras que Nicolas Flamel encontrou no Livro de Abrahão', sendo que toda a apresentação gráfica acompanha os motivos principais das músicas do disco.
A princípio, um álbum baseado em Alquimia não havia agradado à Phonogram, mas agradou ao gerente visionário André Midani. E ficava difícil e arriscado negar alguma coisa ao cara que havia inventado o samba-rock e era o maior destaque negro da música popular desde o lançamento de 'Samba esquema novo'.

E, ao mesmo tempo em que se baseia em conceitos abstratos como alquimia musical, agricultura celeste e quetais, ainda está lá o simples no conceito, como em 'Eu vou torcer', onde se canta a paz, a alegria, as moças bonitas, o verão, o inverno e, claro, o Mengão! Tudo bem a enorme derrapada que ele dá na afinação...
(Dizem que quando a Fernandinha Abreu regravou essa música ela disse que ia cantar vascão e o Jorge avisou que se ela fizesse isso ele não autorizaria. Muito bem, Salve Jorge!!!)

Outra que foi regravada é a 'Cinco minutos', pela Marisa Monte, por sinal muito bem e bem diferente. É a música que finaliza o disco, que descreve um encontro que não se deu porque ela não esperou 5 minutos,''pois você não sabe quanto vale 5 minutos na vida'', uma interpretação bem emocionada ainda que malabarista, emocionante.

Mas voltando ao começo...existe um pré-começo aqui, Jorge dando um clima de ao vivo no estúdio "Salve...não, não, senta, pra sair legal. Tem que dançar dançando"...Ao que entra naturalmente aquele violão conhecido e extremamente rítmico e bem tocado, tecladinho, vocais 'ô ô ô ô' e aí está: 'Os alquimistas estão chegando os alquimistas'! Alquimia musical, é melhor ouvir pra entender, de preferência acompanhado de frutos da agricultura celeste...Teve até clipe no Fantástico!

'O homem da gravata florida' homenageia Paracelso, um grande alquimista, sem esquecer a leveza, a alegria e o humor. Começam uns efeitos espaciais de reverb na voz, um meio solinho de violão no começo depois com uma violão ou guitarra com wah-wah...

Os efeitos continuam emendando em 'Errare humanum est', mais uma com o violão em destaque, cordas mais altas, bonito! Ecos e outras viagens, 'e pensar que eram os deuses astronautas/ e que se pode voar sozinho para as estrelas'. Foda (é, eu sou chato...) é a tropeçada gramatical ''e de pensar que não samos (sic) os primeiros seres terrestres, pois nós herdamos uma herança cósmica''...
O Jorge devia estar conversando muito com o Tim e sua viagem Racional...
E que se pode voar sozinho até as estrelas-las-las-las-las/Ou antes dos tempos conhecidos/Vieram os deuses de outras galáxias-as-as-as-as-as/Em um planeta de possibilidades impossíveis…

Uma ode poética à beleza brasileira "com malícia", vocais femininos lindos e uma piração meio rap no vocal no finalzinho, isso é 'Menina mulher da pele preta'.

'Magnólia' é daquelas meio melancólicas, mais uma em homenagem às mulheres, com cordas espaciais muito originais (será o Duprat?), um violão realmente sensacional e sussurros no fim.
"Já consultei os astros
Ela chega na primavera
Ela já se encontra a caminho"
Aqui terminava o Lado A.

Aqui começava o Lado B:
'Minha teimosia, uma arma pra te conquistar', bonitona, agora vocais masculinos (deve ter algum significado astrológico que me escapa no momento), essa eu até vejo o Fred 04 e o Chico Science ouvindo, essa é muito a cara do mundo livre s. a. (talvez seja por isso que o Fred também derrapa na afinação às vezes...).
"lá lá lá lá
lá lá lá lá lá lá lá lála"

'Zumbi' também tem muitas versões, sendo a minha preferida a do Soulfly, que é a mais pesada e, a meu ver, isso combina muito com o tema. Aqui a música original é bem delicada, quase lírica, com poucos instrumentos de cordas, mais roots.
"Eu quero ver o que vai acontecer quando Zumbi chegar
Zumbi é senhor das guerras, Zumbi é senhor das demandas,
Quando Zumbi chega é Zumbi quem manda"

Tão abusado o cara estava que gravou até em inglês: 'Brother', vocais espaciais poderosos, uma guitarrinha discreta mas muito legal, disco cheio de detalhes...

'O namorado da viúva' é um samba rock, gostoso e malandro, típico do Jorge Ben, maneiro e suingado.

A faixa central (e quase título) a meu ver é 'Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda', inspirada no lendário faraó sábio e possível alquimista, Hermes 'três vezes grande', cujos escritos foram encontrados pelos soldados de Alexandre da Macedônia na Pirâmide de Gizé, grifados com uma ponta de diamante numa tábua de esmeraldas, sacou? ;)
A música traz de volta os vocais femininos, narra sobre o Hermes e seus ensinamentos ("O que está em cima é como o que está embaixo" e outras viagens semelhantes).

O disco termina com 'Cinco minutos', já comentada acima.

Direção de produção por Paulinho Tapajós.

Fontes de consulta na rede:
Wikipedia
na mira do groove
Millarch
sacudinbenblog

(Dão)