sábado, 1 de dezembro de 2012
Jorge Ben - A Tábua de Esmeralda
(Esse é um dos 'clássicos', 'históricos' etc. Mas vou postar porque gosto muito, mesmo achando o som do violão - apontado como o ponto forte e original do Jorge - meia boca e em alguns momentos até incômodo na mixagem. Mas é uma viagem, no melhor dos sentidos, e um deleite musical)
Um grande álbum atenta a todos os detalhes, a começar pela capa. Esta aqui, belíssima, foi baseada 'nas figuras que Nicolas Flamel encontrou no Livro de Abrahão', sendo que toda a apresentação gráfica acompanha os motivos principais das músicas do disco.
A princípio, um álbum baseado em Alquimia não havia agradado à Phonogram, mas agradou ao gerente visionário André Midani. E ficava difícil e arriscado negar alguma coisa ao cara que havia inventado o samba-rock e era o maior destaque negro da música popular desde o lançamento de 'Samba esquema novo'.
E, ao mesmo tempo em que se baseia em conceitos abstratos como alquimia musical, agricultura celeste e quetais, ainda está lá o simples no conceito, como em 'Eu vou torcer', onde se canta a paz, a alegria, as moças bonitas, o verão, o inverno e, claro, o Mengão! Tudo bem a enorme derrapada que ele dá na afinação...
(Dizem que quando a Fernandinha Abreu regravou essa música ela disse que ia cantar vascão e o Jorge avisou que se ela fizesse isso ele não autorizaria. Muito bem, Salve Jorge!!!)
Outra que foi regravada é a 'Cinco minutos', pela Marisa Monte, por sinal muito bem e bem diferente. É a música que finaliza o disco, que descreve um encontro que não se deu porque ela não esperou 5 minutos,''pois você não sabe quanto vale 5 minutos na vida'', uma interpretação bem emocionada ainda que malabarista, emocionante.
Mas voltando ao começo...existe um pré-começo aqui, Jorge dando um clima de ao vivo no estúdio "Salve...não, não, senta, pra sair legal. Tem que dançar dançando"...Ao que entra naturalmente aquele violão conhecido e extremamente rítmico e bem tocado, tecladinho, vocais 'ô ô ô ô' e aí está: 'Os alquimistas estão chegando os alquimistas'! Alquimia musical, é melhor ouvir pra entender, de preferência acompanhado de frutos da agricultura celeste...Teve até clipe no Fantástico!
'O homem da gravata florida' homenageia Paracelso, um grande alquimista, sem esquecer a leveza, a alegria e o humor. Começam uns efeitos espaciais de reverb na voz, um meio solinho de violão no começo depois com uma violão ou guitarra com wah-wah...
Os efeitos continuam emendando em 'Errare humanum est', mais uma com o violão em destaque, cordas mais altas, bonito! Ecos e outras viagens, 'e pensar que eram os deuses astronautas/ e que se pode voar sozinho para as estrelas'. Foda (é, eu sou chato...) é a tropeçada gramatical ''e de pensar que não samos (sic) os primeiros seres terrestres, pois nós herdamos uma herança cósmica''...
O Jorge devia estar conversando muito com o Tim e sua viagem Racional...
“E que se pode voar sozinho até as estrelas-las-las-las-las/Ou antes dos tempos conhecidos/Vieram os deuses de outras galáxias-as-as-as-as-as/Em um planeta de possibilidades impossíveis…“
Uma ode poética à beleza brasileira "com malícia", vocais femininos lindos e uma piração meio rap no vocal no finalzinho, isso é 'Menina mulher da pele preta'.
'Magnólia' é daquelas meio melancólicas, mais uma em homenagem às mulheres, com cordas espaciais muito originais (será o Duprat?), um violão realmente sensacional e sussurros no fim.
"Já consultei os astros
Ela chega na primavera
Ela já se encontra a caminho"
Aqui terminava o Lado A.
Aqui começava o Lado B:
'Minha teimosia, uma arma pra te conquistar', bonitona, agora vocais masculinos (deve ter algum significado astrológico que me escapa no momento), essa eu até vejo o Fred 04 e o Chico Science ouvindo, essa é muito a cara do mundo livre s. a. (talvez seja por isso que o Fred também derrapa na afinação às vezes...).
"lá lá lá lá
lá lá lá lá lá lá lá lála"
'Zumbi' também tem muitas versões, sendo a minha preferida a do Soulfly, que é a mais pesada e, a meu ver, isso combina muito com o tema. Aqui a música original é bem delicada, quase lírica, com poucos instrumentos de cordas, mais roots.
"Eu quero ver o que vai acontecer quando Zumbi chegar
Zumbi é senhor das guerras, Zumbi é senhor das demandas,
Quando Zumbi chega é Zumbi quem manda"
Tão abusado o cara estava que gravou até em inglês: 'Brother', vocais espaciais poderosos, uma guitarrinha discreta mas muito legal, disco cheio de detalhes...
'O namorado da viúva' é um samba rock, gostoso e malandro, típico do Jorge Ben, maneiro e suingado.
A faixa central (e quase título) a meu ver é 'Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda', inspirada no lendário faraó sábio e possível alquimista, Hermes 'três vezes grande', cujos escritos foram encontrados pelos soldados de Alexandre da Macedônia na Pirâmide de Gizé, grifados com uma ponta de diamante numa tábua de esmeraldas, sacou? ;)
A música traz de volta os vocais femininos, narra sobre o Hermes e seus ensinamentos ("O que está em cima é como o que está embaixo" e outras viagens semelhantes).
O disco termina com 'Cinco minutos', já comentada acima.
Direção de produção por Paulinho Tapajós.
Fontes de consulta na rede:
Wikipedia
na mira do groove
Millarch
sacudinbenblog
(Dão)
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Bloco Vomit - Never mind the bossa nova
Prosseguindo na bizarrice...
Agora justificado pelo fator 'como', no caso a formação e sonoridade carnavalesca.
O Bloco Vomit é formado por punks escoceses que vieram estudar percussão brasileira e nesta roupagem gravaram esse álbum com músicas punk.
Que é de 1997 ou de 1998, dependendo da fonte...
Eu poderia dizer de qual banda é cada música, mas isso pode ser lido aqui (em inglês, of course, my horse):
http://www.blocovomit.com/record/songs1.php
Mais informação sobre o samba punk (!!!):
http://www.terra.com.br/istoegente/42/divearte/musica_vomit.htm
http://euovo.blogspot.com.br/2009/03/que-diabo-e-samba-punk.html
O maneiro é que as músicas não perderam a pressão punk, à qual foi adicionada uma pitada de maracatu e um naipe de metais/sopros (trompete e saxofone) típica de bandas de frevo ou blocos de carnaval.
Algumas músicas tem uma cara reggae, ou melhor samba reggae ao estilo Olodum, como é o caso de 'Police and thieves', que foi conhecida pela gravação do Clash, mas na verdade é originalmente reggae e cujo autor é Junior Murvin. 'Love lies limp' também entra nessa área, mas é bem zoneada confusa, até o solo de sax é outside...
Então aqui vão as músicas (sem comentários individuais, agora é sério, Baiano!!):
1. Do they owe us a living?
2. Jilted John
3. Teenage kicks
4. Police and thieves
5. Pretty vacant
6. Metal postcard (Mitageisen)
7. Oh bondage, up yours!
8. Love lies limp
9. Gambinda nova
10. Should I stay or should I go?
11. Roadrunner
12. D.T.'s in droichead (que é só uma batucadinha final)
O disco é dedicado a Chico Science. Daí o maracatu tradicional 'Gambinda nova' ter uma cara totalmente manguebeat.
Por hoje é só, pessoal, em breve retornamos com a saga de álbuns solo...
(Dão)
domingo, 25 de novembro de 2012
Cazuza - Burguesia, ou melhor, o último disco de nossas vidas
Se por um lado Sonífera Ilha, o primeiro disco dos Titãs,
teve como mérito o fato de que sua pouca inspiração não tenha sido suficiente
para que aquele ótimo grupo desistisse da carreira (como foi resenhado nesse
blog), de forma invertida, algo semelhante aplica-se ao último trabalho do
Cazuza: Burguesia, que se insere nessa lista não por sua excelência, mas por um contexto maior.
Com a voz notadamente debilitada, decorrente de sua luta contra os efeitos devastadores da AIDS, Cazuza fez questão de acelerar o processo de criação, gravando em ritmo cada vez maior. Como resultado dessa pressa em produzir, o artista optou por lançar um LP duplo de inéditas (algo raro na época para músicos nacionais), que terminou por ser seu último trabalho em 1989.
Com a voz notadamente debilitada, decorrente de sua luta contra os efeitos devastadores da AIDS, Cazuza fez questão de acelerar o processo de criação, gravando em ritmo cada vez maior. Como resultado dessa pressa em produzir, o artista optou por lançar um LP duplo de inéditas (algo raro na época para músicos nacionais), que terminou por ser seu último trabalho em 1989.
Fazendo uso do formato de LP duplo, Cazuza optou por separar
claramente os estilos. Enquanto no primeiro disco predomina o ritmo de rock
nacional, semelhantes aos seus primeiros trabalhos ainda como Barão Vermelho, no
segundo disco ele optou por um som que se aproximam mais da MPB ou da Bossa
Nova.
Logicamente, no afã de produzir muito em pouco tempo e com a
saúde abalada fortemente, há canções de qualidade discutível que não servem para
retratar a sua carreira, como, por exemplo, o single utilizado para divulgar o
disco, “Burguesia”, composta com versos pobres demais (A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica, enquanto houver
burguesia, não vai haver poesia....) para quem deixou como legado músicas
tão brilhantes.
Após abrir o disco com “Burguesia”, vem “Nabucodonosor”,
outra canção pouco representativa, mas que serviu para dar o tom biográfico bastante
presente ao longo do disco, como em “Tudo é Amor”, canção que eu
particularmente gosto mais nesse primeiro disco (Mesmo se for pra transformar...Num inferno um céu conformista...Mesmo
se for pra guerrear...Escolha as armas mais bonitas).
As músicas subsequentes “Garota de Bauru”, “Eu Agradeço”, “Eu
quero alguém” e “Baby Lonest” também não deixaram muitas saudades. Em “Como já
dizia Djavan” recuperou sua velha parceria com Frejat em um som com a cara do
Barão Vermelho: E as estrelas ainda vão nos
mostrar...Que o amor não é inviável..Num mundo inacreditável...Dois homens
apaixonados.
O primeiro LP finaliza com “Perto do Fogo”, um blues
selecionado especialmente para fazer a ponte com o segundo LP, com todo seu
inconformismo: “Quando tudo explodir... Mas
não vai explodir nada...Vão ficar os homens se olhando....Dizendo: ‘O momento
está chegando’...2000, é ano 2000...E não vai mudar nada”.
No segundo LP, as angústias vividas por Cazuza ficam mais
evidentes, inclusive nas canções que não são de sua autoria, mas que parecem
que foram feitas especialmente para esse último trabalho dele, como a ótima
versão de “Quase um Segundo” (de Hebert Vianna), “Esse Cara” (Caetano Velloso),
“Cartão Postal” (Rita Lee e Paulo Coelho) e “Preconceito” (Antonio Maria e
Fernando Lobo), uma espécie de tango que valoriza o lado intérprete do Cazuza: “Se as nossas vidas juntas vão ter sempre um
triste fim... Se existe um preconceito muito forte separando você de mim”.
O tom biográfico que já se fez presente no primeiro LP fica
mais enfático nesse segundo LP, principalmente em canções como as belas “Cobaias
de Deus” (Se você quer saber como eu me
sinto...Vá a um laboratório ou um labirinto...Seja atropelado por
esse trem da morte...), “Filho Único” (Estou na mais completa solidão...Do ser que é amado e não ama...Me
ajude a conhecer a verdade...).
A respeitar meus irmãos...E a amar quem me ama), e Manhatã (Agora eu vivo no dentista...Como um bom capitalista...Só tenho visto de turista...Mas sou tratado como artista...E até garçon me chama de sir...Oh! Baby, baby, só vendo pra crer).
A respeitar meus irmãos...E a amar quem me ama), e Manhatã (Agora eu vivo no dentista...Como um bom capitalista...Só tenho visto de turista...Mas sou tratado como artista...E até garçon me chama de sir...Oh! Baby, baby, só vendo pra crer).
O disco ainda conta com as sensíveis “Bruma” e “Azul e
Amarelo” (em co-autoria com Lobão e Cartola) para finalizar com “Quando eu
estiver cantando” (Porque o meu canto
redime o meu lado mau...Porque o meu canto é pra quem me ama).
Enfim, esse disco merece ser lembrado não por sua qualidade
técnica ou momento de extrema inspiração, já que o resultado final, tecnicamente
falando, deixou a desejar. Mas certamente pode ser um disco-símbolo da luta contra
a AIDS, que teve o mérito de traduzir toda sua angústia, tristeza,
inconformismo e incertezas pessoais, e que certamente compunham o cenário vigente
no Brasil no final da década de 1980.
Eu mesmo confesso que me desiludi logo que comprei esse disco
naquela época, mas depois de um tempo percebi que o seu valor não devia ser
procurado simplesmente nas canções, mas sim sob outra ótica: um trabalho de um
artista que tinha pressa para produzir, para deixar um legado maior na sua luta
contra o tempo. E se errou com a canção de trabalho (Burguesia), certamente
acertou com outras, como a bela interpretação de “Cartão Postal”, afinal o adeus traz a esperança escondida
Pra que sofrer com despedida?
[Paul]
Pra que sofrer com despedida?
[Paul]
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Viola extrema - Moda de rock
Hoje, pra variar, um pingo de bizarrice e uma colherada de metal!
Esse projeto é muito legal, formado por dois violeiros, que já participavam do grupo Matuto Moderno, "uma banda que já toca o som caipira com uma pegada rocker: viola caipira com pedais de distorção, slide, teremim, o que puder ser utilizado para dar uma roupagem moderna e pessoal no som". Muita coisa estou copiando mesmo daqui:
http://www.modaderock.com.br
Antes uma discussão sempre produtiva, mais pela pergunta frequente do que pela impossibilidade de resposta definitiva: o que faz um disco ser brasileiro e, por consequência, poder ser postado aqui?
Em primeiro lugar, já aviso: vou postar aqui o que eu quiser. Isso aqui é para diversão, minha e de todos os colaboradores, principalmente. Se alguém gosta, ótimo; senão, foda-se.
Mas voltando à pergunta, já incluí aqui o do Tom com o Sinatra, e justifiquei pelo fator 'o que', tocavam música brasileira, bossa nova ou standards da música americana com arranjos próximos da bossa, o que os aproxima do fator 'como'.
Que também está presente aqui, afinal tocam viola. Mas também há o fator 'quem', os caras (Ricardo Vignini & Zé Helder) são brasileiros, o que justifica por exemplo todos os discos do Sepultura.
Esse fator 'como' será retomado em breve num dos discos mais bizarros que tenho em casa, e que, provavelmente, mesmo assim com muitas dúvidas, só agradará ao Mestre X, porque gosta de punk e ironia. Aguardem.
Outra coisa é que esse foi o primeiro disco virtual que comprei via itunes! Quase dez doletas...devia ter pesquisado e comprado o cd mesmo.
Então vamos ao disco, dessa vez sem comentar faixa por faixa pra não entediar o Baiano: trata-se de várias canções de rock, hard rock e heavy metal que fazem parte do histórico de quase todo metaleiro dos anos 80, interpretadas com muita fidelidade, mas pela sonoridade, ficam às vezes irreconhecíveis pra quem não é obcecado e conhece todas os riffs e frases:
1. Kashmir (Led Zeppelin): perfeita, o Jimmy Page até tem uma viola e uma craviola, ficou linda mesmo (acho que vou comentar faixa por faixa...);
2. Master of Puppets (Metallica): essa versão acho até que o Mateus vai gostar mais do que da original, detalhista ao extremo, foi a que me motivou a postar o cd hoje, ouvindo e viajando na beira da piscina ontem de manhã (é, não trabalho todo dia, graças a Deus...), ao mesmo tempo a levada é bem violeira mas as linhas de guitarra são iguais!!
3. Norwegian wood (Beatles): mais uma que tem tudo a ver, começa com uma introdução meio livre e depois segue a original, sonoridade meio oriental, que também tem a ver com as violas;
4. In the flesh (Pink Floyd): essa acho a mais estranha, a eletricidade faz falta, mas de qualquer jeito ficou bonita;
5. Kaiowas (Sepultura): uma das poucas com mais improvisação em cima da base original, é a única com alguma percussão, por conta do 'palmeado e sapateado de catira' do Edson Pontes;
6. May this be love (Jimi Hendrix): essa ficou lírica, tem um arco (aquela paradinha que usam pra tocar instrumentos de corda eruditos, viola, violino etc) no comecinho, cheia de virtuosismo;
7. Aces high (Iron Maiden): mais uma extremamente fiel às linhas originais de guitarra, mas o mais legal são as levadas aceleradas de viola;
8. Mr Crowley (Ozzy Osbourne): lindona também, explicita as raízes clássicas do Randy Rhoads, guitarrista do Ozzy na época dos primeiros discos, mas a levada é bem típica de viola, mesmo os solos estarem extremamente fiéis ao original;
9. Smells like teen spirit (Nirvana): uma das menos fiéis, demora-se pra reconhecer, mas quando começa a melodia não tem como não cantar junto; o solo é mais improvisado também, provavelmente pra fugir do original, que repete a melodia;
10. Hangar 18 (Megadeth): ficou com cara nova, bem legal e fiel às dobras de guitarra e levadas rápidas alternando com partes lentas;
11. Aqualung (Jethro Tull): termina bem o álbum, também fiel às guitarras, com as violas fazendo até aquela virada de bateria do começo, maneiríssima.
O legal, entre outras coisas, é que o disco é em estéreo total, você ouve uma viola de cada lado!!! Zé Helder no canal esquerdo e Ricardo Vignini no direito, dobras no centro em Kashmir, com participação especial de Renato Caetano no centro em Aqualung.
Produzido pelo Ricardo e mixado no Abbey Road!
(Dão)
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quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Bebel Gilberto - Tanto tempo
Este cd é um dos que também comparece no livro original ( '1001 discos para ouvir antes de morrer', se você ainda não sabe...), fato plenamente justificável diante do apelo internacional da obra.
Na época original e muito bem sacado, misturando bossa nova, mpb e música eletrônica num clima lounge, hoje em dia parece diluído, mas sempre é bom lembrar que esta aparência se deve aos muitos imitadores, incluindo muitas coletâneas e clones. Aqui nesse disco se criou esse estilo, facilmente reconhecido hoje mundialmente, chame-se de bossa eletrônica, lounge acústico, new bossa ou whatever... Fácil dizer que ela se apropriou de estilos e 'só' misturou, como se a música popular não fosse exatamente isso. Além de tudo ela o fez com extremo bom gosto e capricho, o que resultou em um tremendo sucesso internacional de vendas (mais de 2,5 milhões de discos vendidos) e de exposição (participando de muitas trilhas de filmes - 'Closer', 'Next stop wonderland' entre outros - e séries de TV - 'Sex and the city', 'Six feet under', entre outros).
O disco é agradabilíssimo, e isto obviamente não é um defeito, as canções seguem fluindo num clima calmo e cool, sem maiores sobressaltos nem surpresas estilísticas.
Misturando composições próprias e clássicos, às vezes nem tão clássicos assim, da bossa nova, o disco tem a cara da sua criadora.
Então vamos às músicas:
Samba da benção é uma escolha arriscada, diante das muitas versões, inclusive a consagrada pelos próprios autores (Vinícius de Moraes/Baden Powell), mas a novidade vem pela programação e clima, já com todos os elementos que fizeram do disco um sucesso. E o que é clássico pela qualidade nunca deixa de ser novidade.
"É melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
(...)
Mas pra fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza"
August day song (Bebel/Nina Miranda/Chris Franck) não tem programação, sendo mais orgânica sem fugir do clima, mais uma bela. Os co-autores, cantora e músico são do grupo Smoke City, seguidores dessa new bossa.
Tanto tempo (Bebel Gilbert/Suba) começa lembrando muito a bossa nova clássica, com cordas e violão, bem lenta, contendo um sample de 'Amor de carnaval' (Gilberto Gil), poderia estar num disco do pai dela, João...
Sem contenção (Bebel/G Arling/R Cameron) traz o internacional Celso Fonseca no violão, além do percussionista João Parahyba, que aparecem em várias faixas além dessa. Belas vozes, mais agitadinha mesmo sem bateria, deve ter alguns remixes por aí, existe mesmo um 'Tanto tempo remixes'...
Mais feliz (Bebel/Dé/Cazuza) é das antigas, com os 'barões', mais uma linda, onde o próprio Dé toca violão e baixo, nem sei se já tinha sido gravada pelo Barão, alguém aí sabe?
''o nosso amor não vai parar de rolar
de fugir e seguir como um rio
(...)
o nosso amor não vai olhar para trás,
desencantar nem ser tema de livro
(..)
rimas fáceis, calafrios,
fura o dedo, faz um pacto comigo
num segundo, teu, no meu,
por um segundo mais feliz"
Alguém (Bebel/Suba/Béco Dranoff) é mais uma calminha e bonitinha. Com participação especiailíssima de mestre Marcos Suzano na percussão.
So nice (Summer samba) já é das mais tocadas, tanto na versão original quanto nessa aqui, mais 'muderna', mas ainda fiel à original. De autoria dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle com Norman Gimbel (talvez responsável pela tradução), é daquelas típicas da bossa nova, calma, plácida, remetendo àquele ambiente praiano. Ambiência é tudo por aqui...
Lonely (Bebel/Roberto Garza) foi a primeira que eu ouvi, através do saudoso emule, achei muito legal, calma sem ser chata, leve sem ser sem graça, teclados e vozes bem colocadas, tem até percussão de Carlinhos Brown! Produção by Thievery Corporation & Bebel Gilberto.
Por falar em produção, ela é bem variada, incluindo Amon Tobin, Suba (principal produtor), Chris Franck & Nina Miranda (Smoke City), Mario Caldato Jr e até o João Donato, que co-produz a próxima, Bananeira (João Donato/Gilberto Gil).
Essa música minha filha adorava ouvir, então eu tive que ouvir obsessivamente 'de novo, de novo, de novo', quem tem filho entende...É uma versão da música do João Donato, que não é tão legal. Aliás, por falar nele, ninguém vai postar 'A Bad Donato'????
Aqui no disco da Bebel ele é responsável pelo arranjo e pelo Fender Rhodes, um piano elétrico. Além dele a equipe é luxuosa: Robertinho Silva (bateria e percussão), Jorge Helder (baixo), Vitor Santos (trombone), Ricardo Pontes (sax alto), Jessé Sadock (trompete) e Henrique Band (sax barítono).
Samba e amor (Chico Buarque de Holanda) é uma excelente surpresa, minimalista, só voz e violão pelo Celso Fonseca. Linda, mas acho que ela imitou meu arranjo de 1998...
Close your eyes é a última, uma das poucas de autoria do Suba, junto com Patricia Ermel/Dinho Ouro Preto/Bebel Gilberto/ Béco Dranoff, uma das que ouvi primeiro via emule (que saudade!). Arranjo mais cheio, muita percussão, sopros bonitos, é um disco de extremo bom gosto e delicadeza(ui).
E esta é a nota final triste desse disco: o produtor, compositor e músico sérvio radicado no Brasil Suba, na verdade Mitar Subotic, morreu durante a produção do disco, por causa de um incêndio no estúdio de seu apartamento, onde ao tentar recuperar parte do material gravado, inalou muita fumaça. Literalmente, deu a vida pela arte.
Além deste canto do cisne, produziu Edgar Scandurra (Benzina, que em breve aparecerá por aqui), Mestre Ambrósio, Marina Lima, Arnaldo Antunes, Dinho Ouro Preto e Edson Cordeiro.
Descanse em Paz.
Lembro aqui que este não é o primeiro disco da Bebel, ela, além de participação nos discos 'Pirlimpimpim' e 'Saltimbancos', em 1986 lançou um EP (extended play) auto-intitulado, que continha 'Preciso dizer que te amo', parceria com Cazuza, que infelizmente ela ainda não gravou nessa nova fase.
(Dão)
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sábado, 17 de novembro de 2012
Otto - Samba pra burro
Esse aqui não deixa de ser um álbum solo também porque antes o Otto era percussionista da banda mundo livre s. a., mas ele ficou realmente conhecido como artista solo.
Excepcionalmente, farei um post minimalista, até porque o cd permite isso...
Há duas grandes músicas no disco, as duas primeiras: 'Bob' e 'Low'.
A primeira (que tem um video muito legal 'filmado ao contrário', se não viu procure no youtube) começa lentinha, com uns tecladinhos maneiros, depois vai crescendo, com os elementos entrando em camadas (recurso trazido da música eletrônica): bateria a princípio leve, baixo sintetizado, vozes, etc, uma música com muita dinâmica, como todo grande música. Além disso tem a participação da Bebel Gilberto, coincidentemente o outro cd que trouxe para talvez postar hoje, numa voz etérea e linda.
Já 'Low' tem um groove sensacional, tecladinhos vintage, um baixão forte, boas vozes e uma percussão muito muito legal, juntando tudo com uma letra em francês (o cara morou em Paris por dois anos) resulta numa ótima surpresa.
As minhas expectativas depois de ouvir esse começo eram altas, claro, mas infelizmente as outras não correspondem...
Não que sejam ruins, mas ficam longe das ótimas iniciais, merecendo citação 'Tv a cabo/ o que dá na lama' (com o verso "acabo de compra um tv a cabo/ acabo de entra pra solidão, acabo") e 'Distraída pra morte' com uns sopros bem legais (fluegelhorn e trumpete a cargo do Walmir Gil).
O disco tem aquela cara de mistura experimental com percussões, rap com repente e forró, drum'n'bass e outros estilos de música eletrônica, até cantigas de roda entram, acertando às vezes, às vezes errando feio.
Mesmo 'O celular de Naná', que traz como música incidental 'O chapéu tá no alto do céu' de Naná Vasconcelos (que incrivelmente ainda não tem nenhum disco por aqui), é meio frouxa e o Otto dá umas derrapadas na afinação.
Mas é um disco que merece estar aqui, simplesmente porque as duas músicas iniciais são MUITO boas mesmo, excepcionais eu diria.
Há muitas participações especiais, incluindo membros da Nação Zumbi (Gilmar Bola 8, Pupilo, Dengue e Lúcio Maia), Fred 04, Skowa, Zé Gonzales, entre muitos, até mesmo Carlos Eduardo Miranda, citado como tocando 'porta' (????) na música 'Café preto'...
A produção é de Apollo 9 com participação do DJ Soul Slinger em duas músicas.
(Dão)
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segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Altamiro Carrilho - Chorinhos didáticos para flauta
Bom, no geral, este blog está em falta com a música instrumental brasileira, e eu particularmente me sinto em falta com o agora finado Altamiro Carrilho e com o também finado Celso Blues Boy (que terá minha próxima resenha assim que conseguir achar ouvir 'Som na guitarra'). Fui até coagido gentilmente pelos meus amigos a abortar a saga dos álbuns solo por causa do Celso...
Altamiro Carrilho além de tudo é de Santo Antonio de Pádua, cidadezinha do norte fluminense próxima a Cambuci, cidade do meu pai biológico.
Sem esse virtuoso flautista, nos sobram hoje em dia no Brasil somente dois dos Grandes: Hermeto Pascoal e João Gilberto.
Esse disco específico é um dos dois que tenho dele, além de uma coletânea de choros onde ele interpreta Flamengo!
Além das músicas excelentes que, excepcionalmente, não serão comentadas uma a uma, o cd vem com as partituras e cifras dos choros!! Melhor ainda pra quem as lê fluentemente, o que não é o meu caso, mas com paciência chego lá. A crítica, não ao autor, é que, por força do tamanho diminuto dos encartes de cds, fica difícil ler, ainda mais depois dos 40 anos, obviamente o caso de todos nossos antigos colaboradores (com exceção da sempre genial Andreia, que deve ter uns vinte e poucos, com certeza). Mas nada que uma boa ampliação não resolva...
Você, mesmo que nunca tenha ouvido nenhum disco dele, possivelmente já o ouviu, talvez na introdução de uma música do Rei cujo nome não lembro agora (Detalhes, viva o google) e também no choro Meu caro amigo (Chico Buarque). No youtube tem uma participação num especial de 1976 do Roberto Carlos onde ele toca O calhambeque e Eu sou terrível.
Dá uma olhada aqui que tem muita coisa boa:
https://www.google.com.br/webhp?source=search_app#q=altamiro+carrilho+roberto+carlos&hl=pt-BR&prmd=imvnso&source=lnms&tbm=vid&sa=X&ei=jvOXUIjLF8ji0gGpzIGQAg&ved=0CAkQ_AUoAw&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.r_qf.&fp=5bd70720fe26254d&bpcl=37189454&biw=1440&bih=742
O disco traz 12 chorinhos (sem nome, só identificados por números) em duas versões, com e sem a flauta, para que você possa tocar ou improvisar a melodia. Além de legal, didático, com todas as músicas compostas pelo mestre flautista 'especialmente para um aprendizado correto e facilitado'.
Produzido por Jorge Gambier.
(Dão)
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