sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Paulo Miklos, Vou ser feliz e já volto
Prosseguindo a série discos solos, entramos no vasto território de integrantes e ex-integrantes dos Titãs, que inclui este aqui do Sr Paulo Roberto de Souza Miklos, a banda Kleiderman (nunca ouvi este, só um vídeo que passava na MTV) e os bem sucedidos solos Arnaldo Antunes e Nando Reis.
É um disco muito bonito, mais pro calmo do que pro rock raivoso. Com violões em todas as músicas.
Começa muito bem, com 'Vai acontecer de novo', guitarras bonitas cheias de espaço, com licks de ritmo espertos do guitarrista Émerson Villani (que acho que já acompanhou os Titãs), que deixariam o Keith orgulhoso, e isso é uma armadilha pro Mateus, que também gostaria muito da música... Ainda tem a voz luxuosa da Paula Lima na resposta.
"A noite é pra se divertir
Vou ser feliz e já volto
Eu não tenho medo que me achem um tolo
Se quem é feliz parece agir como um louco"
'Mamãe disse...papai disse' continua na calma, com uma parte mais rock no meio.
"Gente que nunca faz o que sempre sonha em fazer
É o pior que pode acontecer: acordar
sem ter lembrança
Nada do que foi o sonho
Papai disse meu filho...
Você parece cansado
Mas tem um brilho nos olhos, meu caro
Mamãe disse querido...
Você está mais magro
Mas tem um brilho nos olhos, o danado"
'Todo o tempo' é mais uma belíssima canção, lentinha, com guitarras viajantes e belas. Aqui temos mais um auxílio luxuoso: uma lap steel guitar a cargo do mestre Luiz Carlini.
Aí o disco dá uma animadinha, 'O que você me diz' é mais rapidinha, com mais uma guitarrinha comentando a música e um sax tenor discreto por Ed Côrtes.
'Hoje' mantém a animação, guitarras com mais peso, um drive leve, mas que faz a diferença no peso. Tem até um vídeo! Com aquele visual loiro da capa do cd e do personagem do excelente filme 'O invasor'.
'Por querer' é um pop gostoso, com sax tenor novamente, mais presente, legalzinha, poderia estar em um disco da banda original.
Volta a calma viajante, com 'Lâmina de vidro'. Guitarras bonitas e com timbres bonitos, com o bônus de um solo de baixo pelo Lee Marcucci, outro que eu acho que também acompanhou o Titãs numa época, além do histórico com o Tutti Frutti, antiga banda de apoio da titia Rita Lee.
'Orgia' é uma música sensacional, letra e música, pra mim o ponto alto do disco. Além de tudo tem a voz da Marina Lima, pra deleite do amigo Zeba, se é que ele vai ter paciência de ouvir...
O tema é recorrente, o querer, que inclui entre outras grandes músicas, 'O quereres', 'O que será que será' e 'Come as you are' (acho até que essa conexão merce um post no blog irmão, 1001 Canções).
"Não tenho nome
Eu tenho sede
Alimenta sua fantasia
Eu tenho fome
Eu tenho em mente
Uma grande orgia
Tudo o que eu mais quero
Você não tem
O que você tem
É só do que eu preciso
Tudo o que sempre quis
Eu não sou
Do que você precisa
É só o que eu sou
Não tenho rosto
Nada do que você possa
Se lembrar depois
Só o gosto
Por essas cenas
Que fazem você vibrar"
'Sem amor' é uma co-autoria do Paulo com o Arnaldo Antunes, mais uma belezurinha.
'Sinos entre os anjos' lembra muito o dedilhado da inédita música 'Desbalada', do meu amigo Mateus, será que ele já tinha ouvido? Música linda mesmo, pop romântico caprichado.
'O milagre do ladrão' (Leo Canhoto/Zilo) é uma daquelas músicas que conta uma looooonga história, no estilo 'Faroeste caboclo'. Aqui Paulo optou por um som bem country/blues, só com violão e dobro (by Luiz Carlini), maneiro! O original era sertanejo, que o Paulo descobriu no disco Clássicos sertanejos, de Chitãozinho e Xororó! Informação esta que eu descobri nesse bom artigo aqui:
http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/paulo-miklos-nem-sempre-se-pode-ser-feliz
O disco foi produzido pelo Dudu Marote, mais conhecido pelas suas produções mais eletrônicas (Skank e Pato Fu).
A banda também conta com o baterista James Muller.
(Dão)
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Maquinado - Lucio Maia
O Mateus não gostou muito...
Sua banda principal é a fodona Nação Zumbi, já resenhada algumas vezes por aqui. Não vou dizer que é a melhor (talvez se o Chico ainda estivesse por aqui...), porque não dá pra esquecer o Rappa, o Planet Hemp (que em breve também terá discos de membros solo por aqui e são vários), o Skank etc. Além disso também participou do disco de estréia do Soulfly (banda solo do Max Cavalera, ex-Sepultura, sob a cobertura de um pseudônimo, Jackson Bandeira, por razões contratuais de gravadoras) e do EP Tribe. Faz parte do grupo Seu Jorge e Almaz (faça esse post, Baiano!) e atualmente, para desgosto de alguns (não meu), toca na banda de apoio da Marisa Monte.Esse disco tem algumas conexões com a banda original, claro, pela sonoridade em algumas músicas (não todas) e participações dos caras da banda em algumas músicas também.
Ao disco então: a sonoridade é bem eletrônica, mesmo sem deixar de lado a guitarra, instrumento principal do Lúcio.
'Arrudeia' começa com barulhinhos e um baixo distorcido muito legal, mas a estrutura da canção lembra uma ciranda, se é que alguém presta atenção nisso... Tem uma voz processada com aquele efeito vocodermeio bizarro.
Na sequência 'Não queira se aproximar', um encontro hoje usual entre a música regional e a música eletrônica, com voz do Buia (??), samba e um sample sem crédito 'sai pra lá, peste'.
'Tranquilo' traz o finado Speedy (ex-Black Alien) na letra e voz, um som mais pesado e acelerado, um heavy rap, maneiro, que começa com uma declaração falada bandeirosa: “Aí, compadre, tá tranquilo, amigo? É, tô tranquilo também, tô aqui, tranquilão, cigarrão de skunk na mão, copão de domec na outra”...
'Alados' traz Siba (ex-Mestre Ambrósio) e, mesmo com uma bateria eletrônica, parece bastante com essa banda, tem mais cara de canção, com aquela típica estrutura circular.
'Sem concerto' é cantada pelo próprio Lúcio, com voz cheia de efeitos, diferente, mais batida e suingada mesmo sendo ainda eletrônica, guitarrinhas bonitas, assovios, cheia de detalhes, sempre ouvidos melhor num headphone, é bom lembrar...“qualquer um que fotografar os pesadelos de quem não volta a dormirvai andando, olhando pro céu,estará sempre a um passo de cair"
'Dia do julgamento' é uma instrumental (tem umas falas esparsas em inglês, acho) viajandona, do tipo que a Nação Zumbi inclui nos seus discos, aqui com um scratch do PG e uma guitarra muito maneira do nosso guitar hero!
'O som' também poderia estar num disco da Nação e tem o Jorge Du Peixe na voz e na letra, além de outros da banda.O convidado agora é Rodrigo Brandão, do Mamelo Sound System, no hip hop sombrio 'Eletrocutado', suingada e eletrônica, com uma guitarra palhetadinha e discreta, Lúcio é muito bom mas discreto, toca pra canção.
'Despeça dos argumentos' traz o chato e sempre cansado Felipe S, do chato Monbojó, fica aquela cara de canção arrastada e que demora demais pra terminar...dispensável.
'Vendi a alma' é meio bossa nova com uns barulhos incômodos e temática heavy metal, bizarra e interessante, tendo o convidado Basa (nord lead, o que será essa porra?? e arranjo).
“Vendi minha alma ao Diaboposso falar mal dele e da alma tambéme da sombra tirei um retratovou pregar no muro e não mostrar a ninguém”
'Além do bem' vem pra fechar bem o disco, trip hop chapado, com umas vozes etéreas lindas da Verônia Ferriani.
(Dão)
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terça-feira, 4 de setembro de 2012
Amor pra recomeçar, Frejat
Mais um da série de discos solos de membros de bandas, no caso aqui uma exceção, pois a carreira solo do vocalista e guitarrista se tornou importante, fazendo com que divida seu tempo entre a banda original e a carreira solo, tendo inclusive se apresentado no último Rock in Rio 2011 (surpreendentemente no Rio!) como artista solo. A abordagem é levemente diferente do Barão, mais baladas e sons um pouco mais frequentemente acústicos, mas ainda naquela área pop rock.Os colegas de banda colaboram ativamente, sendo co-autores em várias faixas, principalmente o tecladista e co-produtor Maurício Barros, que atua junto com o saudoso e finado Tom Capone em quase todas as faixas.
Esse primeiro é pra mim o mais interessante, mas os três que eu tenho tem sempre alguma coisa bem legal.
Começa com uns sons meio eletrônicos, o que dá a falsa impressão de ser uma vibe 'Puro êxtase', o que não é real, apesar do uso desse tipo de sons.
Mas a canção 'Som e fúria' (cujo título vem de Shakespeare) é isso, uma canção, boa e forte, com guitarras legais, vozeirão e um refrão pra levantar a galera.
"E não adianta levar o mundo nas costas
a vida é cheia de som e fúria"
'Quando o amor era medo' é linda, letra confessional e bela, leve com slide bonito, bandolim e mais acústica.
"quando o amor era medo eu achava melhor acordar sozinho
quando o amor era medo a vida era andar por entre espinhos"
'Amor pra recomeçar' chegou a tocar nas rádios que ainda tocam pop rock, tem uma letra muito interessante (que tem partes que tenho impressão de que foram extraídas de um poema do Vinícius de Moraes, mas não deram crédito...), (mais) uma baladona pra platéia cantar junto.
"quando vc fica triste que seja por um dia e não um ano inteiro
e q vc descubra q rir é bom mas q rir de tudo é desespero
desejo que vc tenha a quem amar
e quando estiver bem cansado ainda exista amor pra recomeçar"
Belas guitarras e um teminha ganchudo.
'Segredos' teve um video fofinho, de animação meio desenho, mais uma balada bela sobre nossas amadas...
Tem até um solinho de slide bonito além da orquestra dulcíssima com arranjo de Jaques Moerelenbaum.
"e eu vou tratá-la bem
pra que ela não tenha medo
qdo começar a conhecer os meus segredos"
'Eu não sei dizer te amo' é mais uma balada, quase desanima...mas é bonita.
Ainda bem que vem 'Homem não chora', belíssima, cheia de detalhes sonoros, início com guitarrona com phaser (aquele efeito viajante de turbina de avião), alternando com partes de voz e piano e uma letra excelente. Termina com um dos solos mais bonitos do Frejat, muito legal ouvir a vávula fritando no final da música!!
"meu rosto vermelho e molhado
é só dos olhos pra fora
todo mundo sabe
que homem não chora"
A seguinte é bem diferente, um quase samba meio Luiz Melodia, 'Mão-de-obra ilegal', com participação e co-produção do Max de Castro, além do Dé (ex-Barão), Maurício Barros e Peninha.
"eu vi uma mina maneira
andando com um soldado
parecia estrangeira e
eu agora ando armado
o meuirmão morreu
meu primo se perdeu
a minha mãe pariu
e o meu pai sumiu
meu nome é Pimpolho
só conheço o caos
é olho por olho
aqui vencem os maus"
Parceria com Lenine e Arnaldo Antunes! Só pra irritar os amigos que subestimam o Lenine...
'Ela' é balada, claro, mas bem na ambientação 'Lenine', um violão dedilhado com cordas belas, dinâmica com um crescendo no refrão...ouça antes de falar, Baiano...
Um interlúdio carioca ixperto, 'Mais que perfeito', produzida pelo Max, mais suingadinha, com metais a la Tim Maia, guitarrinhas funky, pena que um pouco lentinha demais pro meu gosto.
'Você se parece com todo mundo' (Frejat-Cazuza), que tenho a impressão que já tinha sido gravada pelo Cazuza, é mais uma num clima acústico quase country, com slides e violões, letra amarga.
'No escuro e vendo' (Frejat/ Marisa Monte/ Arnaldo Antunes) é uma lentinha com o mais belo arranjo de cordas do disco por Jaques Moerelenbaum, linda canção, mas completamente diferente do repertório Barão.
'Voltar pra te buscar' é mais uma balada, esta mais rock, com banda (e que banda: Liminha no baixo, o Barão Fernando Magalhães na guitarra, João Barone na bateria e Maurício Barros), além das onipresentes cordas. Acho que o Frejat numa entrevista falou que era difícil resistir às cordas, eu entendo porque eu também sou assim, tenho muitos bancos de samples de cordas e sempre enfio... A música tem uma voz distorcida/processada e um bom solo de guitarra, coisa rara nesse disco.
Pra terminar pra cima, 'Sol de domingo' (Frejat/ Humberto Effe), um rock suingado com a cara do produtor da faixa, o Max de Castro, metais em brasa e mais um solinho de guitarra...
(Dão)
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quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Paula Toller
Inicio aqui uma série com cds de membros (opa!) de bandas que gravam e lançam cds solo.
Inicio pela nosa musa Paula Toller, a cada dia melhor, em todos os sentidos. Pena que não consigo adicionar aqui a capa do cd, com certeza um dos pontos altos do dito cujo... (Mas o amigo Paul rsolveu isso!)
Não que o álbum seja ruim, pelo contrário, a voz dela hoje é um veludo, como por exemplo cantando quase sussurando numa das melhores músicas daqui, a versão da música 'Fly me to the moon' (Bart Howard), consagrada na voz de Frank Sinatra. Na época do lançamento acho que foi usada numa propaganda de bombom, Sonho de valsa se não me engano.
Antes dessa doçura, o cd começa apimentado, com 'Derretendo satélites', uma letra sexual que, diz a lenda, era claramente pornográfica, mas ela não me confirmou...Enfim, uma legítima fuck music, que merece até um remix pra usar no ato. Depois eu peço pra ela, assim que alguém me der o telefone dela.
'Eu só quero um xodó' deve ter centenas de versões, como boa música de solidão consagrada e com apelo românticuzinho (ui), então essa aqui tem que ter algo que a diferencie, no caso uma roupagem dance eletrônoca quase drum'n'bass. No fim o meio termo faz com que ela não seja tocada nem em baladas bregas nem em nights dance... Ainda tem um uuuuhuhu no final que lembra a Marisa e seus amigos tribalistas quando plagiaram o Sly e sua família Stone.
'Oito anos' lida com um tema muito interessane, a Paulinha tem boas ideias!, sobre aquela curiosidade infantil voraz sobre quase tudo e principalmente sobre aquelas perguntas que demandam muito tempo/esforço além de outras que não tem respostas... 'Uel uel uel Gabriel'.
'Alguém me avisou' (Dona Ivonne Lara) começa com uma guitarra com um drive bonito, depois cai no clima dance alternando com aquela vibe meio 'Puro êxtase' do Barão; mas vale a versão curtinha, essa música é bem legal!
Mais uma extraída do samba, no caso '1800 colinas' (Cracia do Salgueiro), agora num clima bem romântico, bonito pra quem está bem acompanhado, desde que ela (ou ele, sei lá qual é a dos meus amigos e leitores) não preste atenção na letra. Essa letra tem a vibe parecida com a de 'I still haven't found what I'm looking for' (U2).
Aí vem o ponto alto, 'E o mundo não se acabou' (Assis Valente), uma letra genial sobre o fim do mundo que não aconteceu e o comportamento desesperado ou animal que o cantante adota diante do fim próximo. Esse arranjo é mais próximo do maxixe (será que é isso? com a palavra os universitários...) original, menos eletrônico.
"Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar...
Beijei a bôca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou..."
No caso nossa Paulinha safada dá uma atualizada na letra:
''peguei no pau de quem não conhecia
dancei pelada na televisão"
!!!
Mais uma com uns beats eletrônicos, 'Onde está a honestidade' (Noel Rosa, não se pode reclamar do repertório da bela cantora), apesar de eu não ser muito favorável à ideia de que toda fortuna é suspeita, se bem que a letra é muito mais complexa do que faço parecer...
A versão de 'Patience' (Guns'n'Roses, isso mesmo!) é uma boa surpresa, foge completamente da original violõezinhos e assobios, quase irreconhecível, bateria eletrônica vagabunda e um slide muito legal (até o amigo Mateus gostaria dessa...).
'Cantar' (Godofredo Guedes) é um samba clássico, e aqui ela não inventa, arranjo careta e belo, que fecha bem o disco.
"Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso ou
uma outra aventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
A saudade que mora no meu coração"
(Dão)
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terça-feira, 5 de junho de 2012
shhhhiu! : João Gilberto Live in Montreaux, 1987
Quando tinha mais ou menos a
idade que meus filhos têm hoje, a garota mais gostosa da escola, do bairro todo,
era a Claudinha Miss Brejão. Veja que este é o tipo da circunstância que deixa
marcas indeléveis nas referências estéticas do cidadão.
É claro que o tempo passa. Muitas
vezes conseguimos aprender coisas novas e até “melhorar” em certos aspectos,
mas como diz o nosso embaixador de Niterói, a pessoa pode sair de San Gonzalo,
mas San Gonzalo nunca sai da pessoa...
Dito isso, diagnóstico:
bossa-nova não é minha praia, nem minha montanha. Patos, lobos, barquinhos,
peixinhos e beijinhos e o céu azul e o mar azul não me ganham. Harmonias complicadas,
jazz e outras firulas não me ganham. Não que seja o mais rústico dos rústicos,
mas frescura tem limite e as minhas não são diferentes.
Então o baiano João Gilberto pra
mim não costuma passar de um evento semestral. E o melhor é que te pega
distraidamente, na surpresa, e quando você percebe já tá ouvindo e tamborilando
com o sonzinho daquela vozinha come-quieto e batida dindon... Vai ver ele é o
elo perdido entre a Bahia e as Geraes (vai ver que é isso!) e inda foi se
estender no calçadão das Ipanemas e Copacabanas, ô vidão tranquilo! E num disco
como este, ao vivo, só voz e violão, temos o João Gilberto (que eu imagino) típico,
sem aquela overdose de cordas que povoam, por exemplo, o clássico Amoroso, o baiano sem pressa, se estendendo nas areias (à sombra,
of course), mineiramente comendo quietinho...
Onde pudesse te molhar uma garoa
de monotonia pela maneira como o disco (duplo à época, são 68 minutos em CD!)
soa, din-don-din-din-don-don shhhhhhh, escuto um arco-íris brilhando ao sol do repertório
cuidadoso e de muito bom gosto: a economia na forma faz sobressair o conteúdo. Além
dos clássicos que costumam povoar apresentações ao vivo de qualquer cantor célebre
(aqui temos Garota de Ipanema, Aquarela do Brasil, Sandália de Prata, A
Felicidade), João traz surpresas neste disco gravado ao vivo no festival de Montreaux em 1985 com o Menino do Rio d’outro baiano Caetano; as minhas preferidas Sem Compromisso (que abre o disco) e Pra que Discutir com Madame; Retrato em Branco e Preto, Adeus América (todas no
disco 1, pra quem pensa no vinil, disco que acho mais surpreendente e mais bonito que o 2)...
Claro que João Gilberto confere
sempre uma unidade harmônica em seus trabalhos (pelo menos no pouco que eu
conheço) pelo simples motivo de que ele é esta unidade. Não importa o compositor,
se Tom Jobim, Vinícius, Chico, Ary Barroso, Caymmi, Caetano, tudo é joãogilbertisado como se autoral. João mostra que a música é de quem canta.
E apesar da Claudinha, de quem escuta.
[M]
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quinta-feira, 31 de maio de 2012
A estréia: Titãs, 1984
Alguns poucos discos de estréia
são definitivos, daqueles que já mostram a que vieram: mostram bandas/artistas
cientes do que querem e seguros sobre como chegar lá e são o ponto alto da
carreira destes mesmos artistas.
Não é o caso do primeiro dos
Titãs. E, cá pra nós: ainda bem. Tinham acabado de abandonar o infeliz nome de
Titãs do Iê-iê-iê, mas não totalmente o som. O baterista ainda era André Jung (hoje no Ira!) e o baixo era dividido entre Paulo Miklos e Nando Reis.
E o que temos aqui? Pelo menos
metade do disco não chamaria a atenção de qualquer um que tenha vivido a época.
Babi Índio, Pule, Mulher Robot, Demais, e Seu Interesse são canções que dificilmente a banda tocaria ao vivo
poucos anos mais tarde, depois de realmente estourar. E dificilmente vão
aparecer em alguma coletânea do gênero “O Melhor de”. Outras receberam um dose
de desfribilador, com versões ao vivo: Marvin
e Querem Meu Sangue (que também deve
um pouco de sua popularidade à versão do Cidade Negra em 1990-e-poucos).
Outras são mania de fãs da banda,
A Balada para John e Yoko por exemplo
eu acho muito boa, uma feliz adaptação para o português feita por Sérgio Britto
desta canção de “segunda” dos Beatles (não, não tô depreciando! Quanta gente
por aí que em 40, 50 anos de carreira não consegue chegar nem perto de uma
canção de “segunda” dos Beatles). Tá certo que a versão original ficou
(inteligentemente) quase intocada, mas tem um arzinho new wave tupiniquim.
O que foi pro rádio e pro
inconsciente coletivo foi Go Back, Toda Cor (essa, juro!, eu sempre esqueço
e, depois que ouço, sempre me lembro de novo...) e a magnífica Sonífera Ilha, que nos enganou a todos
até Cabeça Dinossauro, quando o produtor Liminha conseguiu sabe-se lá como (esta é a impressão que fica a partir desta estréia) desenterrar o potencial agressivo da banda.
O maior mérito deste álbum de
estréia é que eles não desistiram. Fizeram um segundo disco desprezível, onde
se salvava apenas a (ótima! Fantástica!) Televisão
e não desistiram. O primeiro dos Titãs
é um retrato fiel de onde eles estavam na época, um disco honesto. Ouve-se uma
banda experimentando caminhos, Nando Reis
e o reggae (que depois ele abandonaria quando abraçou a carreira solo... ou
estará em período de latência?), parceiros de fora (o ex-membro da banda Ciro Pessoa e Barmack em Sonífera Ilha, Babi Índio e Toda Cor;
Torquato Neto em Go Back), versões em
português (Marvin, Querem Meu Sangue e a já citada Balada). Além do som, o visual e o astral da banda eram outros, sugiro conferir o excelente documentário de Branco Melo, A Vida até PArece uma Festa. A oportunidade de conferir os estreantes nos palcos de Bolinha, Chacrinha, Raul Gil, Fausto Silva (ainda um Perdido na Noite) e Sílvio Santos é impagável.
[M]
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terça-feira, 1 de maio de 2012
Criolo - Nó na Orelha
Depois de resenhar um disco de 1965, resgatando a importância
histórica do Sergio Mendes, resolvi dar um salto de quase 50 anos e escrever sobre um
trabalho muito mais recente, mas que certamente também será bem lembrado daqui
a meio século.
Para começo de conversa, Criolo (que até pouco tempo era
Criolo Doido) disponibiliza em seu site oficial o disco para baixar
gratuitamente (www.criolo.net). Ponto positivo, que demonstra que além de estar conectado, sabe –
talvez melhor do que muita gente por ai – que nos tempos atuais mais do que
tentar inutilmente criar mecanismos para dificultar o download de suas músicas,
o mais importante é utilizar de forma positiva as mídias atuais para divulgar o
trabalho. E funciona, além de demonstrar, mais uma vez, uma postura simpática
perante o público. Só que obviamente o fato de ter respostas inteligentes e
postura simpática perante o público não seria suficiente para ser incluído
nesse blog se tivesse algum disco realmente digno de nota.
Com a carreira mais fortemente fixada no rap desde 1989,
nesse seu último disco (o segundo de estúdio) ele optou por misturar gêneros,
estilos e instrumentos de forma muito inteligente e, certamente, isso
contribuiu para que tivesse maior reconhecimento.
O disco inicia-se com “Bogotá”, uma inteligente letra com um
estilo de dificílima definição, levada ao som de trompete e saxes. Gosto disso.
“Subirusdoistiozin", a seguinte, tem uma pegada mais próxima às suas
raízes e já tinha sido lançada anteriormente como single, sendo uma das mais
conhecidas, pelo menos para mim.
Pausa para uma balada triste em “Não existe amor em SP”, um
retrato belo da sua própria cidade, paradoxalmente dona de uma efervescência
cultural e triste impessoalidade, retratada tão bem na letra dessa canção.
A mudança de ritmos e estilos continua em “Mariô”, com uma
pegada que lembra sons de umbanda com uma crítica social. Me perdoem os que
conhecem aspectos de umbanda se falei besteira aqui, mas foi apenas uma
referência sem nenhum rigor científico implícito nessa definição.
“Freguês da meia-noite” é quase um tango com todo o drama
inerente ao estilo, que tem a cidade de São Paulo como palco. Como se não
bastasse ser uma bela canção, tem um clipe excelente, muito bem feito (com
qualidade HD) que vale a pena ver e ouvir no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=cAT8lM0gVQk.
Nova reviravolta com “Grajauex”, som em que suas raízes do
rap retornam com toda força. Até mesmo eu que não sou muito desse estilo,
gostei dessa. Já o histórico de letras engajadas que combatem as desigualdades
está bem presente nas duas seguintes: “Samba Sambei” e “Sucrilhos”.
E se fosse pra ter medo dessa estrada... Eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada...
Artista independente leva no peito a responsa, tiozão... E não vem dizer que não
A penúltima música começa com um som de violino e viola para
entrar com uma letra forte e autobiográfica. A mistura de estilos ao longo do
disco se faz presente em uma só canção em “Lion Man”, um rap que conta com uma
sonoridade ímpar, sem perder a seu engajamento. Sensacional.
O nó da tua orelha ainda dói em mim... E Cebolinha
mandou avisar... Quando a "fleguesa" chegar...Muitos
pãezinhos há de degustar...O disco finaliza com um samba muito bem humorado e
inteligente em “Linha de Frente”, trazendo a turma da Monica (aquela mesmo, do
Maurício do Souza) para a rotina da periferia de São Paulo. Sensacional.
Enfim, confesso que demorei para conhecer o trabalho do
Criolo, já que o rap não é muito a minha praia (apesar de respeitar o estilo).
Só resolvi parar e dar atenção ao seu som quando vi, em rede social, trecho de
uma entrevista dele em que dá uma resposta excelente a uma brincadeira infeliz
de fundo homofóbico do apresentador de um programa(que prefiro nem citar porque
o objetivo aqui não é criar polêmica). Então, deixei o preconceito com o rap de
lado, escutei suas músicas e gostei tanto que virei fã. Como diria o Criolo, “Não precisa morrer pra ver Deus... Não
precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você”.
Paul
Paul
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