quarta-feira, 29 de agosto de 2012
Paula Toller
Inicio aqui uma série com cds de membros (opa!) de bandas que gravam e lançam cds solo.
Inicio pela nosa musa Paula Toller, a cada dia melhor, em todos os sentidos. Pena que não consigo adicionar aqui a capa do cd, com certeza um dos pontos altos do dito cujo... (Mas o amigo Paul rsolveu isso!)
Não que o álbum seja ruim, pelo contrário, a voz dela hoje é um veludo, como por exemplo cantando quase sussurando numa das melhores músicas daqui, a versão da música 'Fly me to the moon' (Bart Howard), consagrada na voz de Frank Sinatra. Na época do lançamento acho que foi usada numa propaganda de bombom, Sonho de valsa se não me engano.
Antes dessa doçura, o cd começa apimentado, com 'Derretendo satélites', uma letra sexual que, diz a lenda, era claramente pornográfica, mas ela não me confirmou...Enfim, uma legítima fuck music, que merece até um remix pra usar no ato. Depois eu peço pra ela, assim que alguém me der o telefone dela.
'Eu só quero um xodó' deve ter centenas de versões, como boa música de solidão consagrada e com apelo românticuzinho (ui), então essa aqui tem que ter algo que a diferencie, no caso uma roupagem dance eletrônoca quase drum'n'bass. No fim o meio termo faz com que ela não seja tocada nem em baladas bregas nem em nights dance... Ainda tem um uuuuhuhu no final que lembra a Marisa e seus amigos tribalistas quando plagiaram o Sly e sua família Stone.
'Oito anos' lida com um tema muito interessane, a Paulinha tem boas ideias!, sobre aquela curiosidade infantil voraz sobre quase tudo e principalmente sobre aquelas perguntas que demandam muito tempo/esforço além de outras que não tem respostas... 'Uel uel uel Gabriel'.
'Alguém me avisou' (Dona Ivonne Lara) começa com uma guitarra com um drive bonito, depois cai no clima dance alternando com aquela vibe meio 'Puro êxtase' do Barão; mas vale a versão curtinha, essa música é bem legal!
Mais uma extraída do samba, no caso '1800 colinas' (Cracia do Salgueiro), agora num clima bem romântico, bonito pra quem está bem acompanhado, desde que ela (ou ele, sei lá qual é a dos meus amigos e leitores) não preste atenção na letra. Essa letra tem a vibe parecida com a de 'I still haven't found what I'm looking for' (U2).
Aí vem o ponto alto, 'E o mundo não se acabou' (Assis Valente), uma letra genial sobre o fim do mundo que não aconteceu e o comportamento desesperado ou animal que o cantante adota diante do fim próximo. Esse arranjo é mais próximo do maxixe (será que é isso? com a palavra os universitários...) original, menos eletrônico.
"Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso
Minha gente lá de casa
Começou a rezar...
E até disseram que o sol
Ia nascer antes da madrugada
Por causa disso nessa noite
Lá no morro
Não se fez batucada...
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando
De aproveitar...
Beijei a bôca
De quem não devia
Peguei na mão
De quem não conhecia
Dancei um samba
Em traje de maiô
E o tal do mundo
Não se acabou..."
No caso nossa Paulinha safada dá uma atualizada na letra:
''peguei no pau de quem não conhecia
dancei pelada na televisão"
!!!
Mais uma com uns beats eletrônicos, 'Onde está a honestidade' (Noel Rosa, não se pode reclamar do repertório da bela cantora), apesar de eu não ser muito favorável à ideia de que toda fortuna é suspeita, se bem que a letra é muito mais complexa do que faço parecer...
A versão de 'Patience' (Guns'n'Roses, isso mesmo!) é uma boa surpresa, foge completamente da original violõezinhos e assobios, quase irreconhecível, bateria eletrônica vagabunda e um slide muito legal (até o amigo Mateus gostaria dessa...).
'Cantar' (Godofredo Guedes) é um samba clássico, e aqui ela não inventa, arranjo careta e belo, que fecha bem o disco.
"Cantar quase sempre nos faz recordar
Sem querer
Um beijo, um sorriso ou
uma outra aventura qualquer
Cantando aos acordes do meu violão
É que mando depressa ir-se embora
A saudade que mora no meu coração"
(Dão)
Marcadores:
1001Dão,
1998,
Paula Toller,
pop
terça-feira, 5 de junho de 2012
shhhhiu! : João Gilberto Live in Montreaux, 1987
Quando tinha mais ou menos a
idade que meus filhos têm hoje, a garota mais gostosa da escola, do bairro todo,
era a Claudinha Miss Brejão. Veja que este é o tipo da circunstância que deixa
marcas indeléveis nas referências estéticas do cidadão.
É claro que o tempo passa. Muitas
vezes conseguimos aprender coisas novas e até “melhorar” em certos aspectos,
mas como diz o nosso embaixador de Niterói, a pessoa pode sair de San Gonzalo,
mas San Gonzalo nunca sai da pessoa...
Dito isso, diagnóstico:
bossa-nova não é minha praia, nem minha montanha. Patos, lobos, barquinhos,
peixinhos e beijinhos e o céu azul e o mar azul não me ganham. Harmonias complicadas,
jazz e outras firulas não me ganham. Não que seja o mais rústico dos rústicos,
mas frescura tem limite e as minhas não são diferentes.
Então o baiano João Gilberto pra
mim não costuma passar de um evento semestral. E o melhor é que te pega
distraidamente, na surpresa, e quando você percebe já tá ouvindo e tamborilando
com o sonzinho daquela vozinha come-quieto e batida dindon... Vai ver ele é o
elo perdido entre a Bahia e as Geraes (vai ver que é isso!) e inda foi se
estender no calçadão das Ipanemas e Copacabanas, ô vidão tranquilo! E num disco
como este, ao vivo, só voz e violão, temos o João Gilberto (que eu imagino) típico,
sem aquela overdose de cordas que povoam, por exemplo, o clássico Amoroso, o baiano sem pressa, se estendendo nas areias (à sombra,
of course), mineiramente comendo quietinho...
Onde pudesse te molhar uma garoa
de monotonia pela maneira como o disco (duplo à época, são 68 minutos em CD!)
soa, din-don-din-din-don-don shhhhhhh, escuto um arco-íris brilhando ao sol do repertório
cuidadoso e de muito bom gosto: a economia na forma faz sobressair o conteúdo. Além
dos clássicos que costumam povoar apresentações ao vivo de qualquer cantor célebre
(aqui temos Garota de Ipanema, Aquarela do Brasil, Sandália de Prata, A
Felicidade), João traz surpresas neste disco gravado ao vivo no festival de Montreaux em 1985 com o Menino do Rio d’outro baiano Caetano; as minhas preferidas Sem Compromisso (que abre o disco) e Pra que Discutir com Madame; Retrato em Branco e Preto, Adeus América (todas no
disco 1, pra quem pensa no vinil, disco que acho mais surpreendente e mais bonito que o 2)...
Claro que João Gilberto confere
sempre uma unidade harmônica em seus trabalhos (pelo menos no pouco que eu
conheço) pelo simples motivo de que ele é esta unidade. Não importa o compositor,
se Tom Jobim, Vinícius, Chico, Ary Barroso, Caymmi, Caetano, tudo é joãogilbertisado como se autoral. João mostra que a música é de quem canta.
E apesar da Claudinha, de quem escuta.
[M]
Marcadores:
1001Mateus,
1987,
João Gilberto
quinta-feira, 31 de maio de 2012
A estréia: Titãs, 1984
Alguns poucos discos de estréia
são definitivos, daqueles que já mostram a que vieram: mostram bandas/artistas
cientes do que querem e seguros sobre como chegar lá e são o ponto alto da
carreira destes mesmos artistas.
Não é o caso do primeiro dos
Titãs. E, cá pra nós: ainda bem. Tinham acabado de abandonar o infeliz nome de
Titãs do Iê-iê-iê, mas não totalmente o som. O baterista ainda era André Jung (hoje no Ira!) e o baixo era dividido entre Paulo Miklos e Nando Reis.
E o que temos aqui? Pelo menos
metade do disco não chamaria a atenção de qualquer um que tenha vivido a época.
Babi Índio, Pule, Mulher Robot, Demais, e Seu Interesse são canções que dificilmente a banda tocaria ao vivo
poucos anos mais tarde, depois de realmente estourar. E dificilmente vão
aparecer em alguma coletânea do gênero “O Melhor de”. Outras receberam um dose
de desfribilador, com versões ao vivo: Marvin
e Querem Meu Sangue (que também deve
um pouco de sua popularidade à versão do Cidade Negra em 1990-e-poucos).
Outras são mania de fãs da banda,
A Balada para John e Yoko por exemplo
eu acho muito boa, uma feliz adaptação para o português feita por Sérgio Britto
desta canção de “segunda” dos Beatles (não, não tô depreciando! Quanta gente
por aí que em 40, 50 anos de carreira não consegue chegar nem perto de uma
canção de “segunda” dos Beatles). Tá certo que a versão original ficou
(inteligentemente) quase intocada, mas tem um arzinho new wave tupiniquim.
O que foi pro rádio e pro
inconsciente coletivo foi Go Back, Toda Cor (essa, juro!, eu sempre esqueço
e, depois que ouço, sempre me lembro de novo...) e a magnífica Sonífera Ilha, que nos enganou a todos
até Cabeça Dinossauro, quando o produtor Liminha conseguiu sabe-se lá como (esta é a impressão que fica a partir desta estréia) desenterrar o potencial agressivo da banda.
O maior mérito deste álbum de
estréia é que eles não desistiram. Fizeram um segundo disco desprezível, onde
se salvava apenas a (ótima! Fantástica!) Televisão
e não desistiram. O primeiro dos Titãs
é um retrato fiel de onde eles estavam na época, um disco honesto. Ouve-se uma
banda experimentando caminhos, Nando Reis
e o reggae (que depois ele abandonaria quando abraçou a carreira solo... ou
estará em período de latência?), parceiros de fora (o ex-membro da banda Ciro Pessoa e Barmack em Sonífera Ilha, Babi Índio e Toda Cor;
Torquato Neto em Go Back), versões em
português (Marvin, Querem Meu Sangue e a já citada Balada). Além do som, o visual e o astral da banda eram outros, sugiro conferir o excelente documentário de Branco Melo, A Vida até PArece uma Festa. A oportunidade de conferir os estreantes nos palcos de Bolinha, Chacrinha, Raul Gil, Fausto Silva (ainda um Perdido na Noite) e Sílvio Santos é impagável.
[M]
Marcadores:
1001Mateus,
1984,
Titãs
terça-feira, 1 de maio de 2012
Criolo - Nó na Orelha
Depois de resenhar um disco de 1965, resgatando a importância
histórica do Sergio Mendes, resolvi dar um salto de quase 50 anos e escrever sobre um
trabalho muito mais recente, mas que certamente também será bem lembrado daqui
a meio século.
Para começo de conversa, Criolo (que até pouco tempo era
Criolo Doido) disponibiliza em seu site oficial o disco para baixar
gratuitamente (www.criolo.net). Ponto positivo, que demonstra que além de estar conectado, sabe –
talvez melhor do que muita gente por ai – que nos tempos atuais mais do que
tentar inutilmente criar mecanismos para dificultar o download de suas músicas,
o mais importante é utilizar de forma positiva as mídias atuais para divulgar o
trabalho. E funciona, além de demonstrar, mais uma vez, uma postura simpática
perante o público. Só que obviamente o fato de ter respostas inteligentes e
postura simpática perante o público não seria suficiente para ser incluído
nesse blog se tivesse algum disco realmente digno de nota.
Com a carreira mais fortemente fixada no rap desde 1989,
nesse seu último disco (o segundo de estúdio) ele optou por misturar gêneros,
estilos e instrumentos de forma muito inteligente e, certamente, isso
contribuiu para que tivesse maior reconhecimento.
O disco inicia-se com “Bogotá”, uma inteligente letra com um
estilo de dificílima definição, levada ao som de trompete e saxes. Gosto disso.
“Subirusdoistiozin", a seguinte, tem uma pegada mais próxima às suas
raízes e já tinha sido lançada anteriormente como single, sendo uma das mais
conhecidas, pelo menos para mim.
Pausa para uma balada triste em “Não existe amor em SP”, um
retrato belo da sua própria cidade, paradoxalmente dona de uma efervescência
cultural e triste impessoalidade, retratada tão bem na letra dessa canção.
A mudança de ritmos e estilos continua em “Mariô”, com uma
pegada que lembra sons de umbanda com uma crítica social. Me perdoem os que
conhecem aspectos de umbanda se falei besteira aqui, mas foi apenas uma
referência sem nenhum rigor científico implícito nessa definição.
“Freguês da meia-noite” é quase um tango com todo o drama
inerente ao estilo, que tem a cidade de São Paulo como palco. Como se não
bastasse ser uma bela canção, tem um clipe excelente, muito bem feito (com
qualidade HD) que vale a pena ver e ouvir no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=cAT8lM0gVQk.
Nova reviravolta com “Grajauex”, som em que suas raízes do
rap retornam com toda força. Até mesmo eu que não sou muito desse estilo,
gostei dessa. Já o histórico de letras engajadas que combatem as desigualdades
está bem presente nas duas seguintes: “Samba Sambei” e “Sucrilhos”.
E se fosse pra ter medo dessa estrada... Eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada...
Artista independente leva no peito a responsa, tiozão... E não vem dizer que não
A penúltima música começa com um som de violino e viola para
entrar com uma letra forte e autobiográfica. A mistura de estilos ao longo do
disco se faz presente em uma só canção em “Lion Man”, um rap que conta com uma
sonoridade ímpar, sem perder a seu engajamento. Sensacional.
O nó da tua orelha ainda dói em mim... E Cebolinha
mandou avisar... Quando a "fleguesa" chegar...Muitos
pãezinhos há de degustar...O disco finaliza com um samba muito bem humorado e
inteligente em “Linha de Frente”, trazendo a turma da Monica (aquela mesmo, do
Maurício do Souza) para a rotina da periferia de São Paulo. Sensacional.
Enfim, confesso que demorei para conhecer o trabalho do
Criolo, já que o rap não é muito a minha praia (apesar de respeitar o estilo).
Só resolvi parar e dar atenção ao seu som quando vi, em rede social, trecho de
uma entrevista dele em que dá uma resposta excelente a uma brincadeira infeliz
de fundo homofóbico do apresentador de um programa(que prefiro nem citar porque
o objetivo aqui não é criar polêmica). Então, deixei o preconceito com o rap de
lado, escutei suas músicas e gostei tanto que virei fã. Como diria o Criolo, “Não precisa morrer pra ver Deus... Não
precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você”.
Paul
Paul
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Brazil tipo exportação
Novamente resolvo escrever um resenha motivado pela percepção
de que estava faltando algum trabalho de um dos músicos que mais contribuíram
para divulgar a boa música brasileira no exterior: Sérgio Mendes.
O disco escolhido, In Person at El Matador! Sérgio Mendes
and Brasil’65, foi gravado em uma espécie de piano-bar em São Francisco (El
Matador), palco de apresentações do Sérgio Mendes assim que fixou residência
nos Estados Unidos nos anos 1960.
Acompanhado de gente da melhor qualidade como Rosinha de
Valença (já resenhada nesse blog) ao violão, Sebastião Neto no baixo, Chico
Batera na bateria (obviamente) e com a voz de Wanda de Sah, o disco começa com
o belo som do piano de Sérgio Mendes em Reza, canção instrumental de autoria de
Edu Lobo e Rui Guerra para seguir com “O Morro”, de Carlos Lyra e Guarnieri: “(...)
ama, o morro ama Um amor aflito, um amor
bonito Que pede outra história”.
Com repertório bossanovístico tão bem selecionado, obviamente
não poderia faltar contribuição da parceria de Vinícius de Moraes e Baden
Powell com “Samba de Astronauta”, com o inspiradíssimo violão de Rosinha de
Valença.
“Não faz assim... Tem
dó de mim... Não posso mais chorar... Não vê que o amor é mais...
É muito mais do que sonhar”... Em “Tem Dó de Mim”, de Carlos Lyra, novamente
o piano de Sérgio Mendes ganha a companhia da voz macia de Wanda de Sah. Depois
de outra bela instrumental (“Jodel”, de João Donato), o disco segue com outro
destaque do violão de Rosinha de Valença em “Samba de José”.
A sétima canção é a instrumental “Noa Noa”, de autoria do
próprio Sérgio Mendes. Para acompanhar o belo solo de piano, a levada de Chico
Batera, algo que, segundo Ruy Castro em Chega de Saudade, poderia soar como heresia para puristas da bossa nova.
Confesso que não sabia o nome dessa canção até escutar o disco atentamente, mas
a impressão que tenho que já escutei como música de fundo em algum restaurante
no Rio de Janeiro.
O ponto alto do disco inicia-se com o medley de Black Orpheus que reúne, em uma mesma
faixa “Manhã de carnaval”, “Batuque de Orfeu” e “Samba de Orfeu”. Trata-se de
canções que contaram com composições de Luis Bonfá e Antonio Maria para a
trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, de Marcel Camus rodado em 1959 no Rio de
Janeiro. Foi uma adaptação da peça “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes
que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1959. Esse medley é finalizado de forma
magnífica com “A Felicidade”, de Tom Jobim, na voz de Wanda de Sá.
Para completar o ponto alto do disco, “Arrastão”, clássico da
música brasileira de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, imortalizado na voz de Elis
Regina, mas que ficou muito bem nessa versão de Sergio Mendes com Wanda de Sah.
Depois o disco finaliza com outra versão instrumental: “Caminho de Casa”, de
João Donato.
Esse disco até pouco tempo era difícil de ser encontrado, mas
graças à excelente iniciativa do Charles Gavin (sempre ele) e da Livraria
Cultura, recentemente foi relançado na série denominada “Coleção Cultura” e eu
pude adquiri-lo em formato de CD. A capa, inclusive, contém uma pintura de
autoria de Wesley Duke Lee dedicada ao Sergio Mendes.
No fundo, Sergio Mendes e companhia fazem parte daqueles músicos
brasileiros que tanto tem contribuído para divulgar a boa música brasileira no
exterior, fato que pude constatar recentemente ao me deparar com suas canções
em restaurantes e lojas de disco em países como Áustria ou Hungria. Ou seja, não
é só modismos passageiros que exportamos por aí como muitos podem pensar...
Paul
Marcadores:
1001Paul,
1965,
Rosinha de Valença,
Sergio Mendes,
Wanda de Sah
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Secos e Molhados II, 1974
Antes de tudo, uma luz sobre a cansada controvérsia sobre o Kiss ter copiado nossos heróis brasileiros...
http://whiplash.net/materias/curiosidades/068863-kiss.html
Eu ia postar o primeiro deles, aí fui pesquisar e o caríssimo e distante amigo Xampu já o fizera...
Mas vamos a segundo e também essencial, o último com a formação clássica: João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad, além dos músicos de apoio Willy Verdaguer, John Flavin, Triana Romero, Rosadas, Emilio Carrero, Norival e Jorge Omar.
Diferentemente do primeiro, com um pé no rock progressivo e no rock'n'roll underground, este aqui é mais acústico e menos ousado.
Tercer Mundo, apesar de ser em espanhol, é de autoria própria (João Ricardo e Julio Cortazar), bem levada latina, típica e bela, pré rótulo world music.
Único sucesso do disco, Flores astrais traz um slide muito legal, esperto e bem legal. Eu conheci a música naquele conhecido ao vivo do RPM...
Não: não digas nada tem uma curiosidade: é co-autoria entre João Ricardo e Fernando Pessoa, provavelmente uma poesia musicada pelo João. Música plácida, violão, voz e flauta.
Medo mulato inicia meio vaudeville com um pianinho, depois acompanhado de ruídos, voz do Ney, flautas, teclados e uma bateria meio percussiva e pontual. Bonita, bem diferente, retomando o tema meio sobrenatural Saramandaia (novela mutcho louca dos anos 70) do Vira.
Oh! Mulher infiel é um tema ousado pros anos 70 (um tempo onde não havia divórcio, acreditem), mas o arranjo é bem tranquilo criando um contraste inusitado.
Vôo já traz um som mais rock com um phaser ou flanger em estéreo bem diferente do som careta do disco...uma gaita complementa a viagem. Muitas vozes harmonizadas.
Angústia é das minhas preferidas, violão marcando o tempo, um clima meio drum'n'bass (cabe até um remix daquele comecinho), vocais dinâmicos, piano suingado, muito muito à frente do seu tempo! Só peca aquele som de guitarra dos anos setenta, fuzz magrinho e espetado, ninguém sabia gravar guitarra distorcida até o Ultraje aparecer...O pan das guitarras é até legal, mas o som é ruim.
O Hierofante (sacerdote supremo dos mistérios antigos do Egito e da Grécia, 1001br tb é cultura!) é uma das mais rock'n'roll daqui, guitarras na cara, é mais uma de co-autoria poéticas (João Ricardo e Oswald de Andrade), vocais divertidos e múltiplos em estéreo (aconselho ouvir com fone, viagem pura).
Caixinha de música do João é uma instrumental surpresa calminha com vocalizes do Ney, meio new age, fantasmagórica, curta e bela.
O doce e o amargo tem um som meio português, depois vira uma bela canção triste e melancólica, voltando à placidez acústica.
Preto velho podia ter uns tambores, mas é mais uma calminha com a letra nonsense e vocais harmonizados.
Delírio começa meio rock'n'roll com pianinho, entra uma guitarra suja, dá uma delirada meio diminuta no piano quadrado, solinho fuzz com um som quase bom...legal!
Toada & rock & mambo & tango & etc tem um nome sensacional...guitarra suingada, vocais sussurrados muito legais, Ney é foda etc, mudança no meio prum lance meio disco (?!!!).
Discaço quase esquecido e felizmente recuperado na coleção Dois Momentos com a compilação e masterização by Charles Gavin.
(Dão)
Marcadores:
1001Dão,
1974,
Ney Matogrosso,
rock,
rock progressivo,
Secos e Molhados
terça-feira, 24 de abril de 2012
Rita Lee - Build Up, 1970
Dia desses estava viajando numa muita improvável de conversar
com Mick Jagger (já que ele gosta
tanto do Brasil e de seus prazeres, thanx Zé pelo fantástico clipe em Paraty, She’s the Boss...) e é óbvio que para
manter a atenção de um popstar dessa
envergadura eu teria que fazer uma pergunta inteligente, e bem, eu pensei em
algo como “lá por volta de 65, quando vocês fizeram Satisfaction vocês tinham ideia exata de para onde estavam indo, isto
é, imaginavam que pouco depois estariam gravando coisas como JJFlash, Gimme Shelter, Honky Tonk,
ou estavam simplesmente na estrada, curtindo a paisagem e sem muita preocupação
sobre aonde ela ia dar?”
Ok, fim de papo, perdi a chance de conversar com um ídolo
(tem uma história do meu sobrinho que encontrou Jimmy Page no Rio, bem, é um tanto desastrada e longa e fica pra
próxima), ele pede licença e vai atender o telefone. E o que tem isso a ver com
a Rita Lee? Bem, ela já deve ter tido
o mesmo dilema, não? E o pior: deve ter alguma vez, de fato, conversado com
ele. E eu sonhei com a Rita Lee esses
dias também. Ela faria um show aqui em Curitiba, perto de São José dos Pinhais,
acho que no banhado onde resolveram fazer o Lupaluna. E no meu sonho eu
conversava com ela. E ela me perguntava o que eu queria ouvir no show, e eu fui
um desastre porque eu pedi Cowboy Fora da
Lei. Bem, pelo menos ela me deu um beijo na boca. E o melhor é que a Rita que
me beijou foi a loira desta capa aí, de 1970, e não aquela ruiva que armou
barraco na Alagoas.
Ah sim: o disco. Tô enrolando porque o disco é fraco. Apesar
do capricho nos arranjos, a coleção de canções deixa muito a desejar. Se não
fosse da Rita Lee, seria um disco
destinado ao total esquecimento, seu valor é meramente histórico (talvez esteja
exagerando, depois veremos, mas, pô, é Rita
Lee, hoje a gente sabe que ela pode mais...). Na teoria é o primeiro disco
da nossa rainha. Na prática é um disco de férias dos Mutantes. Ao que parece estavam testando o potencial comercial do
nome, da marca Rita Lee. Ainda
insistiriam anos mais tarde com Hoje é o
Primeiro Dia do Resto de Sua Vida, até que finalmente saiu um dia aquele
que é, de fato, o primeiro disco solo da Rita, livre dos Mutantes e com a
semente do Tutti-Frutti (que é o
primeiro lançado, porque o primeiro gravado foi o Cilibrinas do Éden, disco que nunca saiu, bem, isso é outra
história e eu pra variar me desvio, me desvio...).
É tão de férias que Sérgio
Dias Batista não se interessou pelo projeto e sai de férias pra valer. Na
falta de Serginho quem chamaram para assumir a guitarra? Lanny Gordin! Puta que o pariu, que luxo... E o fato é que talvez a
presença deste constrangeu um pouco os outros a ponto de levarem o projeto mais
a sério do que talvez o fosse com o irmão/cunhado. E o que Lanny traz pro disco
é de primeiríssima linha. Seus fraseados salvam, por exemplo, a fraquíssima Tempo Nublado. Os destaques do disco são
2, ou talvez 2 1/2 músicas... José é
uma versão de Nara Leão para une chanson
française (Joseph de Georges Moustaki),
que ficou interessante. Um tango chamado Prisioneira
do Amor talvez em outro contexto ficasse mais agradável, e a faixa de
abertura adverte: Sucesso Aqui Vou Eu
(demorou quase 10 anos, mas foi), assim como a derradeira, um gospel-rock com ares de jam session: Eu Vou Me Salvar!
Mas onde o disco é bom, ele é muito bom, ele é sensacional:
Hulla-Hulla é uma canção havaiana que
poderia ser a continuação da história daquele astronauta libertado de volta ao
planeta azul. O trabalho instrumental aqui é fundamental, nem consigo me fixar
na letra (pode trocar essa letra pel’O
Pato e nem assim se estraga a música), principalmente o trabalho de Lanny
numa havaianíssima slide guitar, que
não deforma, não tem cheiro e nem solta as tiras, nunca ouvi um lap steel na música brasileira tocada
com tanta maestria...
Aha! Mas espere: não é tudo. Em seguida entra uma versão
avassaladora e definitiva de And I Love
Her (Him) de John e Paul (aqueles lá),
e olhe que pra melhorar uma música dos Beatles
não é pra qualquer um! A versão começa com um movimento rápido de teclado
tocado duas vezes, intervalado pela marcação ritmada do chimbal. Quando Rita entra
cantando o acompanhamento é o piano (e banda ao fundo). Lanny só vai entrar pra
quebrar tudo depois do refrão. Seguindo uma preparação apoteótica a la Mutantes,
ele entra arrastando e abafando as cordas com wah-wah, como naqueles seriados policiais dos anos 70, um som
típico de negão, coisa pouco frequente no repertório dos Mutantes. São só 15 segundos e eu posso ver Steve Austin “correndo” acompanhado por esta guitarra.
Certamente Rita Lee não sabia para onde estava indo quando
fez este disco. E sem dúvida este foi um de seus maiores méritos, e o que
permitiu voos tão ecléticos e experimentais que nos deixaram um legado digno de
admiração e até uma pontinha de inveja.
Rita Lee, um beijo
[M]
Marcadores:
1001Mateus,
1970,
Lanny Gordin,
Mutantes,
Rita Lee
Assinar:
Postagens (Atom)






