sexta-feira, 20 de abril de 2012

João voz e violão, João Gilberto



João é um gênio. Um dos últimos, ao lado de Hermeto, Naná e alguns poucos, ainda vivos.

Esse ano ele faz 80 anos, se não me engano (li numas biografias da net que ele é de 10/06 de 1931 ou de 1934, conforme o site...), mas o disco aqui vem porque é mais um dos muitos excelentes dele. E esse aqui ainda tem a Camila Pitanga na capa...

Com produção de Caetano Veloso (na verdade consta 'uma produção UNIVERSAL MUSIC dirigida por Caetano Veloso'), retoma os eternos clássicos da bossa nova, incluindo novidades, se é que se pode chamar assim, como 3 músicas da geração um pouco mais nova, a da Tropicália, que João torna, como sempre, músicas suas...

Como o título avisa, é só a voz (pequena) e o violão (tocado pelas mãos do Cara), mas isto é muito mais do que suficiente.


Desde que o samba é samba (Caetano Veloso) é uma música que provavelmente o Caê nunca mais tocou ou ouviu do mesmo jeito, é uma releitura torta e sensacional, sem acordes/compassos desnecessários. Foda.

Voltando ao repertório familiar, Você vai ver (Tom Jobim) traz uma voz íntima e em alguns momentos emocionada, linda e aparentemente lenta, mas vai tentar tocar junto...

Eclipse (Lecuona) é bem lentinha, respirada, degustada e sorvida com todo o gosto do mundo. Quase tem cheiro, ou pode ser sinestesia psicodélica.

Não vou pra casa (Antonio Almeida/ Roberto Roberti) é daqueles sambas auto-referentes, apologia à malandragem e boemia, gingado e malemolente.

Desafinado (Tom Jobim/ Newton Mendonça) é mais uma do repertório clássico, mais uma das dezenas de gravações, mais uma sempre esperada, mas mesmo assim soa renovada, sempre há alguma mudança no ritmo, nos acordes, na melodia vocal. Impressionante e inexplicável.

Eu vim da Bahia (Gilberto Gil) é um reconhecimento do talento dos tropicalistas, não que eles precisem disso, mas vindo do Mestre é sempre benvindo, né? Todos viemos da Bahia (o Brasil é baiano, nasceu na Bahia) e todos voltamos pra lá...

Coração vagabundo (Caetano Veloso) é uma das mais antigas do Caê, mas sempre parece nova e atual, ele mesmo gosta muito até hoje (ao contrário de 'Alegria alegria' por exemplo) e aqui João não inova tanto, dando tempo pra respirar e seguir a harmonia original. Linda, sensacional, genial. Tem até um lalaiá no final...

Da cor do pecado (Bororó) é tão familiar e íntima que realmente parece que ele está logo aqui cantando pra mim, viagem eu sei, mas um humano equilibrado é insano (sabedoria popular veiculada pelo Facebook, nosso oráculo do momento). Delícia. Tô meio baiano hoje, sou muito influenciável...

Segredo (Herivelto Martins/ Marino Pinto) tem até umas falhas (humanas) na respiração e articulação do canto, coragem é manter isso no disco em tempos de protools, autotunes e quetais. Canção triste e bela, com pitadas de ironia.

Pra terminar com o sempre presente gostinho de quero mais, Chega de saudade (Tom Jobim/ Vinícius de Moraes). Depois de iniciar o movimento da Bossa nova, foi regravada e diluída muitas e muitas vezes, mas aqui retorna pro seu legítimo dono, soando mais uma vez como deve ser, revolucionária, com acréscimos de acordes mais ricos com extensões novas (não vou entrar em detalhes harmônicos, pela chatice e porque meu ouvido não é absoluto). Harmonia perfeita e redonda, melodia surfista e João.

Porque melhor que o silêncio só João.

(Dão)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sexo!! , Ultraje a Rigor




Como a Andrea sugeriu, vamos botar fogo no blog!




Comecei a fazer esse post e fui conferir, porra, será que não tem este álbum no blog, porraaaaa? Não tinha, mas é indispensável.




Claro que, em comparação com o primeiro, qualquer disco pareceria menor, mas este aqui é muito bom, diria excelente, e ainda tem 3 das melhores músicas nacionais dos anos 80!




Não acerta em todas, ou quase todas como o primeiro, dando umas derrapadas feias, mas o saldo é muito positivo.




Eu gosto de mulher é um maravilhoso início pra qualquer disco ou show, machista e divertida, mas não homofóbica, roqueira e festeira, animada e acelerada!




Dênis, o que você quer ser quando crescer? Pergunta de pai ou de professor, chata e geradora de ansiedade, principalmente para crianças ou jovens hiper-ativos, eu falo por exteriência própria...mas a música é legal, com muita guitarras legais e aquela letra sempre inteligente do Roger.




Em terceiro lugar, Terceiro, a música predileta do Zeba ou do Zedu, não tenho certeza. Mas um hino do espírito brazuca, ao lado de Inútil, Que país é esse, Até quando esperar, etc e tal. Por que se esforçar? Meritocracia não é pra latinos católicos, né, Weber, Xampu e Roger? Ou não? Voltemos à música, que é muito legal, com batida new wave tipo Rebelde sem causa, mas desacelerada, guitarras surf da melhor qualidade, refrão popular e até um solo de baixo no finalzinho, normalmente cortado pelas rádios fm da época...




Aí chega a primeira derrapada, A festa, uma música chata e arrastada, lenta e entediante, que nunca chega a lugar nenhum. Só salva um solo metal lá no meio, mas que soa meio deslocado na música meio Jovem Guarda (?). A letra é quase boa, sobre aquela onda adolescente de ensaiar o que fazer na festa, o que falar pra gatinha, essas coisas, que na prática nunca funcionam. FAIL...




E a segunda derrapada é logo na seqüência, Prisioneiro, o único heavy metal do grupo. É engraçado que se vc procurar resenhas por aí, principalmente em sites mais metal, tem pessoas que dizem que o grupo poderia ter ficado mais pesado, que o baixista Maurício Defendi (que canta essa música) saiu porque queria justamente isso e bla bla bla...mas a música é uma merda. E olha que gosto de metal, mas ainda bem que o Ultraje se manteve Ultraje.


Vá lá, a letra é inteligente e crítica e realista, mas isso é o mínimo pro Roger:


"Prisioneiro, prisioneiro, prisioneiro não


Se você me pegar eu vou chamar meu irmão
Com tanta gente roubando ninguém vai me pegar


Sigo tranqüilo no meio ninguém vai me dedar


Vivo bem com o tráfico e com a corrupção


Se o negócio sujar é só tomar um avião (...)


Duvido que um dia isso possa mudar


Tem prá todos ninguém irá tentar


Me tirar o apoio e a posição


Me colocar enfim numa prisão (...)”




Essa música e a anterior são as últimas participações do guitarrista solo Carlos Bartolini (Carlinhos) com a banda, tendo ele ido pra Califórnia eu acho, pra estudar produção musical e engenharia de som, se não me engano.


No seu lugar, ou melhor, no lado B, entrou o também excelente Sérgio Serra.


O Ultraje é, em grande parte, Roger Moreira, pelas letras e concepção do grupo, mas por outro lado, o excelente som de guitarras dos dois primeiros discos deve muito a esses dois guitarristas, era realmente muito superior a tudo que se ouvia de guitarra no Brock. Aliás, a tudo que se tinha gravado de guitarra antes. Com ressalvas para as guitarras limpas do Lulu e dos Paralamas.




Começando o lado B, Sexo, sensacional, crítica e ácida, divertida e inteligente, dinâmica com partes só com baixo e bateria, barulinhos de guitarra, backing vocais u u uuuu, letra genial, até solo de flauta do Roger tem! Solo de guitarra matador no final.




Pelado é toda genial! Solo marcante de poucas notas, rock'n'roll animado de poucos (e bons) acordes, vocaizinhos divertidos e harmonizados, mais um solo veloz no meio e aquele final só com baixo (by Liminha) e bateria pronto pro strip tease...


"Que legal nós dois pelados aqui


Que nem me conheceram o dia que eu nasci


Que nem no banho, por baixo da etiqueta


É sempre tudo igual, o curioso e a xerêta


Que gostoso, sem disfarce, sem frescura, sem fantasia


Que nem seu pai, sua mãe,seu avô,sua tia


Proibido pela censura, o decôro e a moral


Liberado e praticado pelo gosto geral


Pelado todo mundo gosta, todo mundo quer


A é? É


Pelado todo mundo fica, todo mundo é


Pelado, pelado, nú com a mão no bolso


Indecente é você ter que ficar despido de cultura


Dai não tem jeito quando a coisa fica dura


Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral


A barriga pelada é que é a vergonha nacional"




Ponto de ônibus é legalzinha, diminuída pela anteriores, bons vocais, com guitarras bem sacadas e arranjadas diferentemente.


"Ônibus? Nããããããããããooooo...


Quando eu tiver dinheiro eu prometo que eu só vou andar de táááááxi


O que que eu tô fazendo aqui?"






Maximillian Sheldon, é meio mistura de surf music, trilhas de filmes (com referência a Agente 86, acho que é o nome do cara) e guitarras reggae, inclusive com solo de bateria do João Barone, muito legal, backing vocais fantasmagóricos, letra mediana e meio nonsense, o Roger tem crédito sobrando...




A última, Will Robinson e seus robots é quase uma instrumental, só com umas falas referentes ao seriado Perdidos no espaço 'perigo perigo' e 'cuidaaado'. Diferente. Edgar Scandurra faz guitarra base e solo!




(Dão)

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Atenciosamente, Duofel

Tem pouca música instrumental por aqui, é um fato.

Decorrente do fato de que realmente há poucos discos de música instrumental interessantes. Há muito exibicionismo, muita encheção de lingüiça e pouca originalidade, além de pouca criatividade e raras composições legais.

Mas, e sempre tem um mas, temos excelentes discos.

E este aqui é um deles.


O Duofel é uma dupla de violonistas (Fernando Melo e Luiz Bueno), daí o nome: dupla formada por Fernando e Luiz.

A princípio em conjunto de baile, depois em bares e casas noturnas, a dupla tocava muito (em freqüência e habilidade), posteriormente passando a suporte da banda de Tetê Espíndola. Inclusive são responsáveis pelo arranjo de 'Escrito nas estrelas' (se isto é um mérito eu realmente não sei...).


Posteriormente passaram a um terreno mais especificamente instrumental, com fortes influências de Egberto Gismonti e do gênio Hermeto Pascoal.


Depois de uns 5 álbuns chegaram a este aqui, onde várias composições próprias homenageiam suas influências e poucas são releituras bem livres e diferentes das originais.


O disco tem 2 versões e as outras são inspiradas em artistas importantes para a dupla.


Procissão (Gilberto Gil) inicia bem, meio etérea com uns instrumentos com arco (acho que são os Zig Zum, seja lá o que for isso), com a melodia fiel, clima de festa meio marcial (como uma procissão, oras...), improvisos no meio, bem legal. Começo bem pra cima!


Os violonistas alternam violões de aço, de nylon e de 12 cordas conforme a música.

Além deles há outros excelentes músicos, como Nenê (bateria), Sylvio Mazzuca Jr (baixo), Michel Freidenson (teclado e piano), Caíto Marcondes (percussão) e Teco Cardoso (flauta e sax soprano).


A música seguinte, Subindo o Tapajós, homenageia Sebastião Tapajós, violonista da 'clássica escola européia e a própria escola brasileira de violão personificada'! Tema bonito, sutil, dinâmica, vc quase consegue ver os caras se olhando e os instrumentos dialogando, música viva, muito longe da chatice instrumental.


Tetê Espíndola, cantora já citada, meio madrinha do duo, é a homenageada da música da vez, Floresta dos Elfos, já que ela havia sugerido o nome Duo Elfos. Gongos, sons de chuva, percussão discreta, tema límpido, bonito de ouvir.

Azul cor de manteiga homenageia o sensacional Hermeto Pascoal, que já trabalhou com os caras no disco 'Kids of Brazil'. Mais um belo tema. Mais caótica, meio pulante, com um pan bem legal, boa pra ouvir com fones ou caixas bem afastados.

Fax para Uakti é pro Uakti, óbvio...Se vc não conhece, deveria (e nós deveríamos botar um disco deles aqui, claro, quem sabe o 'I Ching'). Bem viajante, com uns sons psicodélicos de arco de rabeca, muito legal. Se o Syd Barret estivesse vivo...


Norwegian wood (this bird has flown) é dos Beatles (não conhece? Volte já pra Marte, porra!). Uma releitura ao mesmo tempo fiel e criativa, com improvisos viajantes mas sempre na estrutura consagrada.

O amigo da chuva tem um quê de música indiana, proncipalmente na percussão quase frenética, o que tem a ver com o homenageado Badal Roy, tablista indiano ligado ao free jazz norte americano.


É pra Jards homenageia o Jards Macalé, numa levada meio malandra, cheia de ginga e quebradas, ou melhor, breques.


Boissucanga é o nome de uma praia do litoral norte de São Paulo (muitos cariocas não sabem que há praias lindas por lá, azar o deles; azar não, ignorância), um trio de rock progressivo e o nome da música mais dinâmica por aqui, harmônicos saltitantes em afinações alternativas, um ping pong de violões desenfreados, bateria quebrando tudo e também tocando baixinho jazzy, quebradas e talz...O homenageado é o parceiro do trio de mesmo nome citado, Armando Sinkovitz.

Rock rural e instrumental! Surpresa é sair daquela simplicidade típica e do bucolismo, a música Atenção: lombada é bem animada, mesmo tendo 'só' dois violões de aço pilotados cheios de velocidade e sutileza. Zé Geraldo, o homenageado da vez, foi ajudado pela dupla como músicos e arranjadores no disco 'Caminhos de Minas', onde também tocaram guitarra e baixo.

Jazz à Vienne, nome de um dos maiores festivais de jazz da Europa, homenageia Michel Jules, violinista e compositor francês, que divulgou a dupla. Aqui a música é mais tranqüila, plácida, com um lindo sax soprano, cadências de acordes sofisticados.

Pra terminar um samba maluco, Garoando no Bixiga, com banda mais pesada, levada na frente que te faz mexer, tema insistente e incisivo. Aqui se homenageia a cidade de Sampa, 'muitas vezes quente e romântica, outras tantas caótica e agressiva, mas sempre se renovando', através de seu ilustre filho, a 'figura caricata de Adoniran Barbosa'.

(Dão)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Santorini Blues, Herbert Vianna






Vamos continuar com discos solos de músicos com outras bandas então.


Com muitas informações tiradas do excelente livro 'Os Paralamas do Sucesso - Vamo batê lata', do Jamari França.


Este aqui é um disco bem artesanal, feito 'só' pelo Herbert! Mas isto em nada prejudica a sonoridade do álbum, límpida e cristalina, mas bem suave pela ausência de bateria e baixo.



Quase todas as músicas tem sonoridade 'acústica' (termo que exige cautela depois da séria vitoriosa da MTV, que abrange até o disco mais pesado dos Paralamas, justamente o Acústico), mas com guitarras eventuais e ebows inteligentes (não sabe o que é vai no google).

Foi gravado em um dia e meio!, no estúdio O'Henry, LA.


Engraçado é o nome ser de um música que não está no disco, só no disco dos Paralamas 'Hey na na'.


O disco começa com uma das 3 músicas já gravadas pelos Paralamas: Dos Margaritas, uns violões bonitos, utilizando bem o estéreo, letra muito legal.


Em seguida uma gravada pela co-autora Fernanda Abreu, Speed Racer. Pandeirinho discretíssimo, uma harmonia legal, letra meio recitada, solinhos em contraponto. A versão da Fernanda tem o Fernando Vidal solando com muito drive, então nem vou comparar...


Round em round, cantada em inglês, é sobre maturidade, tema raro no rock em geral. Uns vocais espalhados no pan harmonizam belamente o refrão. Meio Beatles, esta tem guitarra.

Pólvora é mais uma dos PS, mas aqui ficou bem diferente, com bandolim e violões (até tem um que trasteja bastante, deve ser um ovation...que o Herbert gosta, apesar de meu amigo Duayer desaprovar). Mais uma letra excelente.

Tweety é instrumental, coisa que os PS não fazem há tempos. Tema bucólico, como disse o Jamari, violões rurais. Lembra muito a música, por enquanto instrumental, 'Desbalada', do amigo e colaborador Mateus.


Annie (Eric Clapton/Lambert/Lane, eu não conheço a original), segue no mesmo clima bucólico, com violões e guitarra slide. Uns backing vocals lindos...


O Rock argentino, pouquíssimo escutado no Brasil, chega com Por siete vidas (Caceria) do Fito Paez, violão tipicamente latino, citação de Pinball Wizard, falsetes incomuns do Herbert.


A palavra certa (Herbert/ George Israel/ Paula Toller, alguém já gravou essa?) tem uma letra linda. Arranjo bonito, piano, violões (sempre), uma guitarra ebow sensacional.
"Atravesso a noite com um verso
Que não se resolve
Na outra mão as flores
Como se flores bastassem
Eu espero
E espero
Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam
A chave que abre o céu
D´aonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça o mundo andar"


Mais uma dos Paralamas em seguida, Uns dias, uma música muita amarga com versos sensacionais. A versão aqui acústica deve utilizar uns violões com afinaçoes próprias, além de piano lindo na introdução. Depois esse arranjo foi adaptado pro 'Acústico', ficando bem pesadão.
"Eu nem te falei
Que te procurei
Pra me confessar
Eu chorava de amor
E não porque eu sofria
Mas você chegou já era dia
E não estava sozinha
Eu tive fora uns dias
Eu te odiei uns dias
Eu quis te matar "

Pra terminar, Luca homenageia o primogênito e o momento da descoberta da paternidade com versos belos. Uma guitarra gigante com drive leve inicia num clima meio espanho épico, depois retornando pro arranjo acústico com violões, bandolim e a guitarra no fundo com aquele reverb esperto.

"Abre os olhos pra ver o mundo
Tudo é novo para os teus olhos novos
Dá pra cada coisa um nome
Um nome novo e um sentido teu próprio
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo
Por um instante eu esqueço do que sou
Por um instante eu não lembro de ter medo
Fala as tuas palavras de vogais
E sorri quando já está dormindo
Filho, pai, mãe, orvalho da manhã
Tudo é novo para os meus olhos velhos
Eu te abro as cortinas da manhã
Eu te levo pros braços da tua mãe, cedo"


(Dão)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Curva da Cintura - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté (2011)


“o mundo muda você

os outros te mudam muito

você muda pra crescer

a música muda o mundo

a música ajuda a ser

bem melhor”


Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.


“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!


“eu sigo só na minha onda

cê não vai me acompanhar

eu sigo o sol, não quero sombra

nem ninguém para me assombrar”


São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.

No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.

E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.


“e tenho muito pouco tempo

e no meu tempo cabe sempre menos tempo

o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo

mas tenho meu tempo ocioso

para gastar do jeito que for mais gostoso

e posso ver televisão

deitado na cama , com o meu roupão

um roupão de senhor…


A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.

É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…

[ANDRÉA]

quarta-feira, 7 de março de 2012

áudio-retrato, Leoni


Link que me trouxe boas informações e boas sacadas: http://www.screamyell.com.br/musicadois/leoni_retrato.htm

Eu tenho uma teoria, em parte desacreditada pela minha alegada 'tolerância elástica musical' (Bernardes, Mateus; início do novo milênio): por cantar sobre assuntos românticos e relações - no fundo o mesmo motivo pelo qual foram tidos como 'mais bobos', além de serem pop - o Kid Abelha e o Leoni perdurarão. Assim será, por mais tempo que seus colegas de geração.

Mas este disco não é sobre passado somente, mostra tb que o cara não perdeu a expressividade e criatividade, mostrando belíssimas novas canções, além de uma releitura minimalista (ui) ou 'econômica' de sua relevante obra.

Aliás, 'áudio-retrato' é um excelente título, né?

Começa um classicão dos 80, 'Exagerado', do Leoni, Cazuza e Ezequiel Neves! Outro dia ouvindo o cd no carro lembrei que cantávamos essa música pro meu colega botafoguense no ônibus escolar, o Zé Geraldo!! Lembrei até de como sacaneei ele naquela goleada de 6 a zero do Mengão...coitado. Tergiverso, tergiverso. Ou, como diagnosticado precisamente e à distância pelo meu amiguinho imaginário residente em terras britânicas, o Luiz Marcelo Videro Vieira Souto, ou melhor, Vieira Santos, o Baiano, efeito da minha, da nossa, dda, ou ainda, ddah...

'Educação sentimental', sucesso dos anos 80 pela voz da Paula Toller no Kid Abelha, mas na verdade composição de Leoni, vem numa versão que privilegia a voz, com acompanhamento discreto de violão e órgão. Inclusive a voz dá umas derrapadas na afinação, o que mostra que o autotune não esteve por aqui...Bom, vc conhece a música, provavelmente. Uma situação tipicamente adolescente, afinal como saber se comportar nesse início de vida social e sexual? Como seduzir e parecer experiente? Enfim, como fingir? A gente vacila muito mas, aprendendo com o 'artigo no jornal', 'ninguém vai resistir se eu usar os meus poderes para o mal'.

'Fixação' (Leoni/Paula Toller/Beni) é umas das mais gratas surpresas do cd. Reduzida a voz, violão e um belíssimo violoncelo, mostra que, ao contrário do que parecia, é uma música muito triste, depressiva e obcecada. Enfim, mais uma adolescente. Talvez por isso, um pouco atemporal, afinal sempre haverá adolescentes passando por isso e nós (alguns, talvez) podemos sempre lembrar e nos identificar com a situação. Menos aqueles pais burros que esqueceram que já foram adolescentes, né?

Um pouco de alegria e testosterona, misturada com um benvindo realismo sobre como homens/garotos são de verdade: 'Garotos II - o outro lado'. Pelo nome podia ser até uma canção gay, né? Mas não é. Uma batida meio bossa nova em violão com cordas de aço, voz frágil de Leoni acompanhada pelo Dinho Ouro-Preto numa letra deliciosa.
'Garotos perto de uma mulher são só garotos'...

Iniciando a fase solo do nosso retratado, 'Nosferatu' traz um retrato entediado de Sampa. Arranjo mais suingado, mesmo acústico. Cheio de guitarras, inteligentemente espalhadas.

Ainda da fase solo, na verdade do grupo Heróis da Resistência, vem uma bela canção, 'Esse outro mundo', acompanhado no órgão do Barão Vermelho Humberto Barros. Bom compositor esse tal de Leoni.

'Só pro meu prazer' dispensa apresentações, uma das minhas preferidas, aqui reduzida ao mínimo, voz frágil e oscilante do Leoni e um belo pianão por Eduardo Souto Neto. A letra é um primor, expondo como nós criamos e nos transformamos expostos a paixões, mas no fundo o que queremos é o nosso bem, é o espelho refletido, é o bem que nos faz:
"Eu te imagino, eu te conserto,
Eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
E eu te recriei
Só pro meu prazer"

E ainda tem o trechinho do Kid Abelha 'eu quero você, como eu quero' (tudo a ver...).


E por falar em Kid, a próxima música, 'Lágrimas e chuva' (George Israel/Leoni/Bruno Fortunato), é mais uma que surpreende pela diferença em relação ao arranjo original, mais pop e 'de banda'. Aqui, o violão lento é acompanhado pelas vozes de Leoni e Leo Jaime. Bonito. Um pouco de atenção à letra e percebemos que não é nada festiva...
"eu dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer
será que existe alguém ou algum motivo importante
que justifique a vida ou pelo menos esse instante?
eu vou contando as horas
e fico ouvindo passos
quem sabe o fim da história
de mil e uma noites de suspense no meu quarto?"

'Carro e grana(Beni/Leoni)/A fórmula do amor'(Leoni/Léo Jaime) formam um bom pot-pourri de músicas da fase solo e da parceria com o ícone do Brock anos 80. Alfinetadas, persistência, um pouco de rancor e mágoa por parte da fase 'adulta' e uma temática parecida com 'Educação sentimental' por parte da fase 'adolescente':
"ainda encontro a fórmula do amor
eu tenho a pose exata pra me fotografar
aprendi num vídeo pra um dia usar
um certo ar cruel, de quem sabe o que quer
tenho tudo ensaiado pra te conquistar"

Daqui pra frente, com exceção da próxima, as músicas são da produção recente (e relevante) do Leoni.

Começando bem com um sambinha, 'Falando de amor'! Um pouco surpreendente pra quem sempre esteve relacionado com a cena pop rock, mas o compositor acerta a mão, suingue, simplicidade, uma boa harmonia e uma excelente letra. Tem até um cavaquinho by Rodrigo Maranhão.
"Eu podia ser sua tara
a ferida que nunca sara
te humilhar, te dar na cara
mas eu tô falando de amor
eu tô falando de amor
e não da sua doença
eu tô falando de amor
e não do que você pensa"

'Doublé de corpo', gravada antes pela banda de Leoni Heróis da Resistência, é mais uma que tem guitarras, apesar do arranjo ser bem diferente do anterior. Bom resgate.

E aqui chega o ponto alto, uma música inédita, composta junto com o Herbert Vianna, que parece ser sobre a situação deste último pós acidente de ultraleve: 'Canção pra quando você voltar', linda e tocante.
Com co-autoria do Herbert Vianna e aparentemente feita sob forte influência do acidente de ultraleve dele, é uma das mais belas, com arranjo cheio de deliciosas sutilezas, delicadamente preenchida por cello e clarinete. De chorar! Sem vergonha.
"Quando o sol de cada dia entrar
Chamando por você
Querendo te acordar
Vai ter sempre alguém pra receber
Dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
Se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre alguém pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar

Om mani padme hung Om mani padme hung Om mani padme hung"

(essa última linha é um mantra que estimula a compaixão e a cura, protege dos sofrimentos terrenos, purifica o karma ruim, os maus hábitos e as impurezas dos seres, recitada aqui pelo Lama Sonam)

Prosseguindo nas canções mais atuais, 'Temporada das flores' é mais um canção bonita com arranjo de banda, mais redondinho, mas ainda suave.

'Melhor pra mim' é a última do cd, também com arranjo de banda, sendo que esta foi extraída do cd 'Você sabe o que eu quero dizer'. Fecha bonito um álbum muito bonito.

(D)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Clube da Esquina: O álbum branco das Geraes (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972)


Álbum branco, preto e azul, amarelo, vermelho e verde...


Álbum branco às avessas, concebido pra cá das montanhas, longe do mar, inventa o cais, inventa o mar, inventa em nós: o sonhador. Milton canta o Cais, que não é cais do velho chico mas o impossível cais das minas sem mar.


E se o Cais apresenta Minas, a faixa de abertura apresenta o Clube: tudo o que você consegue ser... ou nada! Tudo o que você podia ser tem uma levada meio folk e meio sertão. Centrada no violão tocado por Lô Borges, e que Toninho Horta comenta discretamente na guitarra (e eis aqui seu grande mérito):

há sol e chuva na sua estrada/mas não importa, não faz mal/ você ainda pensa e é melhor do que nada...


Mas essa história de álbum branco pode ser melhor explicada... Pode? Não sei, talvez seja só viagem minha, sei lá, porque o álbum é duplo. Arrisco ir mais além, invento também um cais: como o dos Beatles, é um álbum de congraçamento entre músicos e canções, aqui com a vantagem de que parece haver uma unidade se formando e não se desintegrando. Eu sempre tenho essa viagem de que o som de Minas é meio ecumênico (bem, nessa geração pelo menos). O resultado é supremo, o disco é repleto de canções memoráveis... O Trem Azul de Lô Borges (e Ronaldo Bastos, a palavra de Minas) em que até Elis embarcou, Saídas e Bandeiras, Cravo e Canela, samba-folk aos tambores de minas, San Vicente, Paisagem na Janela, Um Gosto de Sol, Nada Será Como Antes...


Se você quiser eu danço com você no pó da estrada / pó poeira, ventania... /se você deixar o sol bater em seus cabelos verdes / sol, sereno, ouro e prata/.../ eu danço com você o que você dançar.../ Se você deixar o coração bater sem medo!

Trechos da linda fábula de amor chamada Nuvem Cigana, de Lô Borges que pontua a melodia na guitarra, acompanhando o vocal cristalino de Milton, perfeito para as palavras de (mais uma vez) Ronaldo Bastos.


A instrumentação do disco é sublime... Os arranjos concebidos com muito bom gosto e, isso fica transparente na audição: muita curtição dos músicos... E o time é de fazer inveja. Além de Milton e Lô Borges, Beto Guedes toca baixo e eventuais guitarras, ao vice-versa de Toninho Horta (além de Tavinho Moura, outro que se ocupa das cordas); pianos, órgãos e demais teclados estão predominante a cargo de Wagner Tiso, isso pra ficar só no óbvio...


Ouça o resultado rock’n’roll das alterosas que foi conseguido no Girassol da Cor de Seu Cabelo, uma das minhas favoritas desde sempre, onde o piano dita o ritmo (qualquer semelhança com o Queen é mera coincidência? A banda de Freddy só lançaria seu primeiro disco no ano seguinte...).


Ou o Clube da Esquina no. 2 que é ainda uma melodia sem texto. Mas cá pra nós, é divina... A música ganharia letra tempos depois, já nem lembro em que disco. Ou será que foi uma opção gravá-la despalavrada? Acho difícil porque a letra é tão bonita...

O samba Me Deixa em Paz traz o convite luxuoso a Alaíde Costa que assume os vocais, enquanto que Trem de Doido, com a guitarra fuzz de Beto Guedes me lembra o som psicodélico, summer of love, ainda que a canção seja um tanto sombria.


Alguém que vi de passagem/ numa cidade estrangeira /lembrou os sonhos que eu tinha e esqueci sobre a mesa/ como uma pera se esquece/dormindo numa fruteira/ como adormece o rio/sonhando na carne da pera/ o sol na sombra se esquece dormindo numa cadeira.

Mas nada se compara a Um Gosto de Sol. Um das música mais lindas do século XX, não deixo por menos. A orquestração final, arranjado por Eumir Deodato e regida por Paulo Moura, é de arrepiar, uma espécie de bachiana brasileira com gosto de goiabada cascão e queijo de colônia.


Eu já estou com o pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê

ensaia o tom de despedida em Nada Será Como Antes, penúltima faixa deste disco maravilhoso e único, despedida que se completa com Milton cantando Ao Que Vai Nascer:

Na franja dos dias esqueço o que é velho, o que é manco/ e é como te encontrar/corro a te encontrar...


Fisicamente, nunca existiu a sede do clube. E nem precisava. A sede do clube está registrada em disco. A sede do clube sou eu. A sede do clube é quem deixar o coração bater sem medo.


[M]