
Com tanta gente roubando ninguém vai me pegar
Não precisa nem explicar, né? Os gringos lançaram aquele livrão bacana, bom de deixar do lado do trono pra gente receber nossa dose diária de leitura musical. Essa é a versão nacional, feita por gente que entende, por uns que não entendem bulhufas, mas sem dúvida por gente que ama visceralmente a música. E aí, sabe como é, a gente fica inventando essas coisas só pra ter um motivo pra passar mais tempo curtindo um sonzinho bacana.

Tem pouca música instrumental por aqui, é um fato.
(Dão)

“o mundo muda você
os outros te mudam muito
você muda pra crescer
a música muda o mundo
a música ajuda a ser
bem melhor”
Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.
“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!
“eu sigo só na minha onda
cê não vai me acompanhar
eu sigo o sol, não quero sombra
nem ninguém para me assombrar”
São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.
No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.
E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.
“e tenho muito pouco tempo
e no meu tempo cabe sempre menos tempo
o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo
mas tenho meu tempo ocioso
para gastar do jeito que for mais gostoso
e posso ver televisão
deitado na cama , com o meu roupão
um roupão de senhor…
A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.
É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…
[ANDRÉA]


Álbum branco, preto e azul, amarelo, vermelho e verde...
Álbum branco às avessas, concebido pra cá das montanhas, longe do mar, inventa o cais, inventa o mar, inventa em nós: o sonhador. Milton canta o Cais, que não é cais do velho chico mas o impossível cais das minas sem mar.
E se o Cais apresenta Minas, a faixa de abertura apresenta o Clube: tudo o que você consegue ser... ou nada! Tudo o que você podia ser tem uma levada meio folk e meio sertão. Centrada no violão tocado por Lô Borges, e que Toninho Horta comenta discretamente na guitarra (e eis aqui seu grande mérito):
há sol e chuva na sua estrada/mas não importa, não faz mal/ você ainda pensa e é melhor do que nada...
Mas essa história de álbum branco pode ser melhor explicada... Pode? Não sei, talvez seja só viagem minha, sei lá, porque o álbum é duplo. Arrisco ir mais além, invento também um cais: como o dos Beatles, é um álbum de congraçamento entre músicos e canções, aqui com a vantagem de que parece haver uma unidade se formando e não se desintegrando. Eu sempre tenho essa viagem de que o som de Minas é meio ecumênico (bem, nessa geração pelo menos). O resultado é supremo, o disco é repleto de canções memoráveis... O Trem Azul de Lô Borges (e Ronaldo Bastos, a palavra de Minas) em que até Elis embarcou, Saídas e Bandeiras, Cravo e Canela, samba-folk aos tambores de minas, San Vicente, Paisagem na Janela, Um Gosto de Sol, Nada Será Como Antes...
Se você quiser eu danço com você no pó da estrada / pó poeira, ventania... /se você deixar o sol bater em seus cabelos verdes / sol, sereno, ouro e prata/.../ eu danço com você o que você dançar.../ Se você deixar o coração bater sem medo!
Trechos da linda fábula de amor chamada Nuvem Cigana, de Lô Borges que pontua a melodia na guitarra, acompanhando o vocal cristalino de Milton, perfeito para as palavras de (mais uma vez) Ronaldo Bastos.
A instrumentação do disco é sublime... Os arranjos concebidos com muito bom gosto e, isso fica transparente na audição: muita curtição dos músicos... E o time é de fazer inveja. Além de Milton e Lô Borges, Beto Guedes toca baixo e eventuais guitarras, ao vice-versa de Toninho Horta (além de Tavinho Moura, outro que se ocupa das cordas); pianos, órgãos e demais teclados estão predominante a cargo de Wagner Tiso, isso pra ficar só no óbvio...
Ouça o resultado rock’n’roll das alterosas que foi conseguido no Girassol da Cor de Seu Cabelo, uma das minhas favoritas desde sempre, onde o piano dita o ritmo (qualquer semelhança com o Queen é mera coincidência? A banda de Freddy só lançaria seu primeiro disco no ano seguinte...).
Ou o Clube da Esquina no. 2 que é ainda uma melodia sem texto. Mas cá pra nós, é divina... A música ganharia letra tempos depois, já nem lembro em que disco. Ou será que foi uma opção gravá-la despalavrada? Acho difícil porque a letra é tão bonita...
O samba Me Deixa em Paz traz o convite luxuoso a Alaíde Costa que assume os vocais, enquanto que Trem de Doido, com a guitarra fuzz de Beto Guedes me lembra o som psicodélico, summer of love, ainda que a canção seja um tanto sombria.
Alguém que vi de passagem/ numa cidade estrangeira /lembrou os sonhos que eu tinha e esqueci sobre a mesa/ como uma pera se esquece/dormindo numa fruteira/ como adormece o rio/sonhando na carne da pera/ o sol na sombra se esquece dormindo numa cadeira.
Mas nada se compara a Um Gosto de Sol. Um das música mais lindas do século XX, não deixo por menos. A orquestração final, arranjado por Eumir Deodato e regida por Paulo Moura, é de arrepiar, uma espécie de bachiana brasileira com gosto de goiabada cascão e queijo de colônia.
Eu já estou com o pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê
ensaia o tom de despedida em Nada Será Como Antes, penúltima faixa deste disco maravilhoso e único, despedida que se completa com Milton cantando Ao Que Vai Nascer:
Na franja dos dias esqueço o que é velho, o que é manco/ e é como te encontrar/corro a te encontrar...
Fisicamente, nunca existiu a sede do clube. E nem precisava. A sede do clube está registrada em disco. A sede do clube sou eu. A sede do clube é quem deixar o coração bater sem medo.
[M]

Após mais de 200 resenhas de discos no presente Blog, reparei que até o momento, não constava simplesmente um dos discos mais geniais: Tropicalia ou Panis et Cincences, de Caetano, Gil e toda trupe tropicalista. Talvez a razão pela demora esteja justamente no fato de ser tão fundamental na discografia brasileira e mundial (poderia ser hors concours em qualquer lista do gênero), que é uma grande responsabilidade resenha-lo aqui.
Impulsionados pelo impacto de suas músicas no festival da Record de 1967, Caetano, Gil, Mutantes e companhia (ilimitada nesse caso) resolveram tocar o projeto em frente e lançar um disco que se tornou uma espécie de Manifesto do Tropicalismo. Sintomaticamente, sua gravação iniciou-se justamente em maio de 1968, ao mesmo tempo em que o mundo explodia em protestos e revoluções. No caso particular desse disco, pode-se dizer que serviu para revolucionar a música brasileira, superando debates entre bossa nova e jovem guarda, e trazendo ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 para a música brasileira.
Contando com arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat (falecido em 2006), sem receio de misturar sons e influências diversas, o resultado não poderia ser melhor. Possivelmente, o lançamento de Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, também influenciou na concepção desse disco.
O disco abre com o som de órgão de igreja para ser interrompido por um sininho que lembra vendedores ambulantes de rua em “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil e Capinan, interpretado pelo Gil. Nessa canção já dá para ter uma ideia da profusão de sons que constituirá o restante do álbum.
Em seguida, Caetano interpreta “Coração Materno”, uma velha seresta de Vicente Celestino que, curiosamente, faleceu em agosto de 1968, quando estava de saída para assistir a um show de Caetano e Gil. A minha tese é de que a inclusão de uma seresta de 1951 no disco foi uma espécie de provocação à Bossa Nova, cuja uma das bandeiras tinhas sido se contrapor ao jeito de cantar velhas serestas.
Curiosamente, a canção “Tropicália’, de Caetano, ficou fora do disco, mas certamente a outra que deu nome ao disco acabou sendo uma das mais marcantes: “Panis et Circenses”, de Gil e Caetano, outra que se tornou clássica na interpretação dos Mutantes. O interessante é que música está repleta de “brincadeiras”, como o som de vitrola desligando no meio da música para retomar em seguida, assim como a sonorização de uma verdadeira sala de jantar, com direito à voz de Manoel Barenbein (produtor do disco) pedindo para passar a salada tendo, ao fundo, o som de Danúbio Azul. Essa canção também fez parte do primeiro disco exclusivo dos Mutantes, lançado no mesmo ano.
No avesso do espelho...Mas desaparecida...Ela aparece na fotografia...Do outro lado da vida. A canção seguinte, “Lindonéia”, de Caetano e Gil, recebe a interpretação da ex-bossanovista Nara Leão, simbolizada na capa do disco com uma retrato enquadrado em preto e branco.
É somente requentar... E usar... porque é made, made, made, made in Brazil. Tempo para a crítica inteligente e satírica de Tom Zé em “Parque Industrial”, contando com a participação de praticamente toda a trupe tropicalista na interpretação. Outra canção marcante.
Depois de “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto), com a voz de Gil e sons de fanfarra reforçando o toque circense, vem “Baby” (de Caetano) na voz divina de Gal, acompanhada de leve por Caetano. Trata-se de outra canção marcante da música brasileira.
Nessa verdadeira salada geral do tropicalismo também tem espaço para o ritmo caribenho em “Tres Caravelas”, versão de João de Barro para “Las Tres Carabelas” originalmente gravada pelo The Shadows, que no presente disco foi interpretada por Caetano e Gil.
O disco segue ao som de clarins que remetem a bandas militares em “Enquanto seu lobo não vem”, mais uma canção com uma sutil e inteligente crítica ao momento político. Destaque ainda para o trecho da Internacional Comunista inserido logo após o verso: Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil...Vamos passear escondidos.
A brilhante voz da Gal Costa ressurge em “Mamãe Coragem”, de Caetano e Torquato Neto, uma espécie de manifesto feminista tropicalista, seguindo com os batuques de “Bat Macumba” de Gil e Caetano que se tornou clássico na voz do primeiro, contando ainda com a participação dos Mutantes (essa canção também fez parte do repertório do primeiro disco dos Mutantes, lançado também em 1968).
Para finalizar (e confundir ainda mais os ouvinte), “Hino do Senhor do Bonfim”, com a participação de quase todos tropicalistas, ao som de banda.
Importante citar também a genial capa do disco, que contou com todos os tropicalistas posando como se fosse uma tradicional família brasileira, com diversos detalhes interessantes, como as guitarras empunhadas pelos irmãos Baptista como se fossem armas revolucionárias (na época se debatia a pertinência das guitarras na música brasileira); ou ainda o penico nas mãos de Rogério Duprat como se fosse uma xícara de chá, além da já citada foto da Nara Leão.
A importância desse disco é tão grande que serviu de inspiração para importantes nomes da música internacional como David Byrne e Beck entre outros. 25 anos depois, Gil e Caetano fizeram uma versão 2 do Tropicália, já resenhado aqui também . De fato, Tropicália ou Panis et Cincencis abalou as estruturas da música brasileira ao romper com conceitos e preconceitos. Se a ideia era abalar as estruturas da música brasileira, os tropicalistas podem se vangloriar do pleno sucesso obtido na empreitada. Cabe à gente reverenciar eternamente esse manifesto em forma de disco.
[Paul]