sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Curva da Cintura - Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra & Toumani Diabaté (2011)


“o mundo muda você

os outros te mudam muito

você muda pra crescer

a música muda o mundo

a música ajuda a ser

bem melhor”


Kaira é o nome dessa música, mas também foi um movimento político em 1960, no Mali. Um movimento de resistência à colonização francesa. A única arma usada foi o canto das pessoas. Na época não havia carros no país, os resistentes caminhavam pelas aldeias e a cada aldeia o coro ia se tornando mais plural, maior e mais bonito.


“A Curva na Cintura” chegou em minha casa com a força musical do movimento Kaira e me colonizou completamente! De cara o cd abre com som da Kora. Um som árabe-africano, vivo, alegre, esperto, misturado a uma aura feminina. Feminina no que a Kora tem de estridente. O som da Kora é marcante, se impõe e isso para mim é uma das grandes características do “Curva na Cintura”. A mescla de Brasil-África nessa experiência é muito especial. O cd se "passa" em Mali, onde a tradição musical não é a da canção e as letras são cantadas de improviso, aparecem ao sabor da Kora. Lá a viagem está na música, no som da Kora, o que vem depois é puro improviso. O encontro Brasil-África via Arnaldo Antunes-Scandurra-Toumani deu química, justamente porque tem um encontro do som-7 séculos da Kora de Toumani com a letra-cerebral da tradição do Arnaldo. As diferentes tradições viraram seiva no cd!


“eu sigo só na minha onda

cê não vai me acompanhar

eu sigo o sol, não quero sombra

nem ninguém para me assombrar”


São vários os encontros nessa curva. Em “Cê não vai me acompanhar” a Kora é tocada pelo filho de Toumani, Sidiki, de 20 anos. Nesse som ele usa o wawa e faz da Kora um instrumento de música eletrônica. É impressionante ver a Kora se transformar na mão das diferentes gerações. O Arnaldo e o Edgar não poderiam ter feito uma letra melhor! “Cê não vai me acompanhar” tem a sede da busca, a cor da solidão e a força da falta de medo.

No mesmo tom, com o mesmo som, o trio Sidiki-Arnaldo-Edgar fazem miséria com “Cara”. Edgar Scandurra mata a pau na guitarra. O Scandurra pertence àquela tradição dos guitarristas que estão em perfeita hamonia com o seu instrumento… Discreto na sua presença, indiscreto na sua criatividade, preciso quando entra e quando sai de um som e fundamentalmente, um músico viajante. Ele tá ali, concentrado na viagem, de olhos fechados, completamente possuído.

E ainda na mesma onda com Sidiki, da Kora-Rock, a música “Senhor” que a princípio parece meio fora de lugar, forma, junto com “Cê não vai me acompanhar” e “Cara”, a voz da modernidade. Não é à toa que Arnaldo e Edgar encontram em Sidiki o melhor parceiro para essas composições. As três músicas são velozes, flertam com uma tradição atual e ocidentalizada da música. As três letras falam do incômodo e do prazer do ser humano moderno. O “Cara” é o encontro consigo próprio. Quer coisa mais moderna que se dar conta que tem alguém dentro de você? “Senhor” traz a ambuiguidade entre ser o senhor e o preço de ser o senhor.


“e tenho muito pouco tempo

e no meu tempo cabe sempre menos tempo

o tempo de um senhor é sempre muito pouco tempo

mas tenho meu tempo ocioso

para gastar do jeito que for mais gostoso

e posso ver televisão

deitado na cama , com o meu roupão

um roupão de senhor…


A “Curva na Cintura” faz caminho sinuoso, arredondado e gracioso. A cintura é o meio do caminho do corpo. Divide nossos dois hemisférios – o sul e o norte. Esse cd tem um pouco desse desenho: do lado norte temos as músicas mais velozes e cerebrais. Ao sul temos as canções que te conectam em outra vibe, uma vibração mais tranquila, de sensações e que celebra a presença do outro da tua vida. É do lado sul do cd que temos a kora tocada por Toumani… “Que me continua” e “Grão dos Chãos” são exemplos desse movimento e tudo o que eu tentar falar sobre elas será excessivo, porque estas duas músicas são a medida certa para muitas coisas.

É isso, a “Curva na Cintura” tem uma medida própria, tem o tamanho ideal de uma boca voraz que não se cansa de ansiar por mais…

[ANDRÉA]

quarta-feira, 7 de março de 2012

áudio-retrato, Leoni


Link que me trouxe boas informações e boas sacadas: http://www.screamyell.com.br/musicadois/leoni_retrato.htm

Eu tenho uma teoria, em parte desacreditada pela minha alegada 'tolerância elástica musical' (Bernardes, Mateus; início do novo milênio): por cantar sobre assuntos românticos e relações - no fundo o mesmo motivo pelo qual foram tidos como 'mais bobos', além de serem pop - o Kid Abelha e o Leoni perdurarão. Assim será, por mais tempo que seus colegas de geração.

Mas este disco não é sobre passado somente, mostra tb que o cara não perdeu a expressividade e criatividade, mostrando belíssimas novas canções, além de uma releitura minimalista (ui) ou 'econômica' de sua relevante obra.

Aliás, 'áudio-retrato' é um excelente título, né?

Começa um classicão dos 80, 'Exagerado', do Leoni, Cazuza e Ezequiel Neves! Outro dia ouvindo o cd no carro lembrei que cantávamos essa música pro meu colega botafoguense no ônibus escolar, o Zé Geraldo!! Lembrei até de como sacaneei ele naquela goleada de 6 a zero do Mengão...coitado. Tergiverso, tergiverso. Ou, como diagnosticado precisamente e à distância pelo meu amiguinho imaginário residente em terras britânicas, o Luiz Marcelo Videro Vieira Souto, ou melhor, Vieira Santos, o Baiano, efeito da minha, da nossa, dda, ou ainda, ddah...

'Educação sentimental', sucesso dos anos 80 pela voz da Paula Toller no Kid Abelha, mas na verdade composição de Leoni, vem numa versão que privilegia a voz, com acompanhamento discreto de violão e órgão. Inclusive a voz dá umas derrapadas na afinação, o que mostra que o autotune não esteve por aqui...Bom, vc conhece a música, provavelmente. Uma situação tipicamente adolescente, afinal como saber se comportar nesse início de vida social e sexual? Como seduzir e parecer experiente? Enfim, como fingir? A gente vacila muito mas, aprendendo com o 'artigo no jornal', 'ninguém vai resistir se eu usar os meus poderes para o mal'.

'Fixação' (Leoni/Paula Toller/Beni) é umas das mais gratas surpresas do cd. Reduzida a voz, violão e um belíssimo violoncelo, mostra que, ao contrário do que parecia, é uma música muito triste, depressiva e obcecada. Enfim, mais uma adolescente. Talvez por isso, um pouco atemporal, afinal sempre haverá adolescentes passando por isso e nós (alguns, talvez) podemos sempre lembrar e nos identificar com a situação. Menos aqueles pais burros que esqueceram que já foram adolescentes, né?

Um pouco de alegria e testosterona, misturada com um benvindo realismo sobre como homens/garotos são de verdade: 'Garotos II - o outro lado'. Pelo nome podia ser até uma canção gay, né? Mas não é. Uma batida meio bossa nova em violão com cordas de aço, voz frágil de Leoni acompanhada pelo Dinho Ouro-Preto numa letra deliciosa.
'Garotos perto de uma mulher são só garotos'...

Iniciando a fase solo do nosso retratado, 'Nosferatu' traz um retrato entediado de Sampa. Arranjo mais suingado, mesmo acústico. Cheio de guitarras, inteligentemente espalhadas.

Ainda da fase solo, na verdade do grupo Heróis da Resistência, vem uma bela canção, 'Esse outro mundo', acompanhado no órgão do Barão Vermelho Humberto Barros. Bom compositor esse tal de Leoni.

'Só pro meu prazer' dispensa apresentações, uma das minhas preferidas, aqui reduzida ao mínimo, voz frágil e oscilante do Leoni e um belo pianão por Eduardo Souto Neto. A letra é um primor, expondo como nós criamos e nos transformamos expostos a paixões, mas no fundo o que queremos é o nosso bem, é o espelho refletido, é o bem que nos faz:
"Eu te imagino, eu te conserto,
Eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
E eu te recriei
Só pro meu prazer"

E ainda tem o trechinho do Kid Abelha 'eu quero você, como eu quero' (tudo a ver...).


E por falar em Kid, a próxima música, 'Lágrimas e chuva' (George Israel/Leoni/Bruno Fortunato), é mais uma que surpreende pela diferença em relação ao arranjo original, mais pop e 'de banda'. Aqui, o violão lento é acompanhado pelas vozes de Leoni e Leo Jaime. Bonito. Um pouco de atenção à letra e percebemos que não é nada festiva...
"eu dou plantão dos meus problemas que eu quero esquecer
será que existe alguém ou algum motivo importante
que justifique a vida ou pelo menos esse instante?
eu vou contando as horas
e fico ouvindo passos
quem sabe o fim da história
de mil e uma noites de suspense no meu quarto?"

'Carro e grana(Beni/Leoni)/A fórmula do amor'(Leoni/Léo Jaime) formam um bom pot-pourri de músicas da fase solo e da parceria com o ícone do Brock anos 80. Alfinetadas, persistência, um pouco de rancor e mágoa por parte da fase 'adulta' e uma temática parecida com 'Educação sentimental' por parte da fase 'adolescente':
"ainda encontro a fórmula do amor
eu tenho a pose exata pra me fotografar
aprendi num vídeo pra um dia usar
um certo ar cruel, de quem sabe o que quer
tenho tudo ensaiado pra te conquistar"

Daqui pra frente, com exceção da próxima, as músicas são da produção recente (e relevante) do Leoni.

Começando bem com um sambinha, 'Falando de amor'! Um pouco surpreendente pra quem sempre esteve relacionado com a cena pop rock, mas o compositor acerta a mão, suingue, simplicidade, uma boa harmonia e uma excelente letra. Tem até um cavaquinho by Rodrigo Maranhão.
"Eu podia ser sua tara
a ferida que nunca sara
te humilhar, te dar na cara
mas eu tô falando de amor
eu tô falando de amor
e não da sua doença
eu tô falando de amor
e não do que você pensa"

'Doublé de corpo', gravada antes pela banda de Leoni Heróis da Resistência, é mais uma que tem guitarras, apesar do arranjo ser bem diferente do anterior. Bom resgate.

E aqui chega o ponto alto, uma música inédita, composta junto com o Herbert Vianna, que parece ser sobre a situação deste último pós acidente de ultraleve: 'Canção pra quando você voltar', linda e tocante.
Com co-autoria do Herbert Vianna e aparentemente feita sob forte influência do acidente de ultraleve dele, é uma das mais belas, com arranjo cheio de deliciosas sutilezas, delicadamente preenchida por cello e clarinete. De chorar! Sem vergonha.
"Quando o sol de cada dia entrar
Chamando por você
Querendo te acordar
Vai ter sempre alguém pra receber
Dizer pra esperar
Você já vai chegar
Alguém pra olhar a casa
E alguém que regue o seu jardim
Até você voltar
E como é normal acontecer
Se num entardecer
A dor te visitar
Vai ter sempre alguém pra socorrer
Fazer o seu jantar
Dormir no seu sofá
Enquanto a noite passa por mim
Eu rego o seu jardim
Você já vai voltar

Om mani padme hung Om mani padme hung Om mani padme hung"

(essa última linha é um mantra que estimula a compaixão e a cura, protege dos sofrimentos terrenos, purifica o karma ruim, os maus hábitos e as impurezas dos seres, recitada aqui pelo Lama Sonam)

Prosseguindo nas canções mais atuais, 'Temporada das flores' é mais um canção bonita com arranjo de banda, mais redondinho, mas ainda suave.

'Melhor pra mim' é a última do cd, também com arranjo de banda, sendo que esta foi extraída do cd 'Você sabe o que eu quero dizer'. Fecha bonito um álbum muito bonito.

(D)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Clube da Esquina: O álbum branco das Geraes (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972)


Álbum branco, preto e azul, amarelo, vermelho e verde...


Álbum branco às avessas, concebido pra cá das montanhas, longe do mar, inventa o cais, inventa o mar, inventa em nós: o sonhador. Milton canta o Cais, que não é cais do velho chico mas o impossível cais das minas sem mar.


E se o Cais apresenta Minas, a faixa de abertura apresenta o Clube: tudo o que você consegue ser... ou nada! Tudo o que você podia ser tem uma levada meio folk e meio sertão. Centrada no violão tocado por Lô Borges, e que Toninho Horta comenta discretamente na guitarra (e eis aqui seu grande mérito):

há sol e chuva na sua estrada/mas não importa, não faz mal/ você ainda pensa e é melhor do que nada...


Mas essa história de álbum branco pode ser melhor explicada... Pode? Não sei, talvez seja só viagem minha, sei lá, porque o álbum é duplo. Arrisco ir mais além, invento também um cais: como o dos Beatles, é um álbum de congraçamento entre músicos e canções, aqui com a vantagem de que parece haver uma unidade se formando e não se desintegrando. Eu sempre tenho essa viagem de que o som de Minas é meio ecumênico (bem, nessa geração pelo menos). O resultado é supremo, o disco é repleto de canções memoráveis... O Trem Azul de Lô Borges (e Ronaldo Bastos, a palavra de Minas) em que até Elis embarcou, Saídas e Bandeiras, Cravo e Canela, samba-folk aos tambores de minas, San Vicente, Paisagem na Janela, Um Gosto de Sol, Nada Será Como Antes...


Se você quiser eu danço com você no pó da estrada / pó poeira, ventania... /se você deixar o sol bater em seus cabelos verdes / sol, sereno, ouro e prata/.../ eu danço com você o que você dançar.../ Se você deixar o coração bater sem medo!

Trechos da linda fábula de amor chamada Nuvem Cigana, de Lô Borges que pontua a melodia na guitarra, acompanhando o vocal cristalino de Milton, perfeito para as palavras de (mais uma vez) Ronaldo Bastos.


A instrumentação do disco é sublime... Os arranjos concebidos com muito bom gosto e, isso fica transparente na audição: muita curtição dos músicos... E o time é de fazer inveja. Além de Milton e Lô Borges, Beto Guedes toca baixo e eventuais guitarras, ao vice-versa de Toninho Horta (além de Tavinho Moura, outro que se ocupa das cordas); pianos, órgãos e demais teclados estão predominante a cargo de Wagner Tiso, isso pra ficar só no óbvio...


Ouça o resultado rock’n’roll das alterosas que foi conseguido no Girassol da Cor de Seu Cabelo, uma das minhas favoritas desde sempre, onde o piano dita o ritmo (qualquer semelhança com o Queen é mera coincidência? A banda de Freddy só lançaria seu primeiro disco no ano seguinte...).


Ou o Clube da Esquina no. 2 que é ainda uma melodia sem texto. Mas cá pra nós, é divina... A música ganharia letra tempos depois, já nem lembro em que disco. Ou será que foi uma opção gravá-la despalavrada? Acho difícil porque a letra é tão bonita...

O samba Me Deixa em Paz traz o convite luxuoso a Alaíde Costa que assume os vocais, enquanto que Trem de Doido, com a guitarra fuzz de Beto Guedes me lembra o som psicodélico, summer of love, ainda que a canção seja um tanto sombria.


Alguém que vi de passagem/ numa cidade estrangeira /lembrou os sonhos que eu tinha e esqueci sobre a mesa/ como uma pera se esquece/dormindo numa fruteira/ como adormece o rio/sonhando na carne da pera/ o sol na sombra se esquece dormindo numa cadeira.

Mas nada se compara a Um Gosto de Sol. Um das música mais lindas do século XX, não deixo por menos. A orquestração final, arranjado por Eumir Deodato e regida por Paulo Moura, é de arrepiar, uma espécie de bachiana brasileira com gosto de goiabada cascão e queijo de colônia.


Eu já estou com o pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê

ensaia o tom de despedida em Nada Será Como Antes, penúltima faixa deste disco maravilhoso e único, despedida que se completa com Milton cantando Ao Que Vai Nascer:

Na franja dos dias esqueço o que é velho, o que é manco/ e é como te encontrar/corro a te encontrar...


Fisicamente, nunca existiu a sede do clube. E nem precisava. A sede do clube está registrada em disco. A sede do clube sou eu. A sede do clube é quem deixar o coração bater sem medo.


[M]

domingo, 8 de janeiro de 2012

Tropicália ou Panis et Circences (1968)


Após mais de 200 resenhas de discos no presente Blog, reparei que até o momento, não constava simplesmente um dos discos mais geniais: Tropicalia ou Panis et Cincences, de Caetano, Gil e toda trupe tropicalista. Talvez a razão pela demora esteja justamente no fato de ser tão fundamental na discografia brasileira e mundial (poderia ser hors concours em qualquer lista do gênero), que é uma grande responsabilidade resenha-lo aqui.


Impulsionados pelo impacto de suas músicas no festival da Record de 1967, Caetano, Gil, Mutantes e companhia (ilimitada nesse caso) resolveram tocar o projeto em frente e lançar um disco que se tornou uma espécie de Manifesto do Tropicalismo. Sintomaticamente, sua gravação iniciou-se justamente em maio de 1968, ao mesmo tempo em que o mundo explodia em protestos e revoluções. No caso particular desse disco, pode-se dizer que serviu para revolucionar a música brasileira, superando debates entre bossa nova e jovem guarda, e trazendo ideais da Semana de Arte Moderna de 1922 para a música brasileira.


Contando com arranjos vanguardistas do maestro Rogério Duprat (falecido em 2006), sem receio de misturar sons e influências diversas, o resultado não poderia ser melhor. Possivelmente, o lançamento de Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, também influenciou na concepção desse disco.


O disco abre com o som de órgão de igreja para ser interrompido por um sininho que lembra vendedores ambulantes de rua em “Miserere Nobis”, de Gilberto Gil e Capinan, interpretado pelo Gil. Nessa canção já dá para ter uma ideia da profusão de sons que constituirá o restante do álbum.


Em seguida, Caetano interpreta “Coração Materno”, uma velha seresta de Vicente Celestino que, curiosamente, faleceu em agosto de 1968, quando estava de saída para assistir a um show de Caetano e Gil. A minha tese é de que a inclusão de uma seresta de 1951 no disco foi uma espécie de provocação à Bossa Nova, cuja uma das bandeiras tinhas sido se contrapor ao jeito de cantar velhas serestas.


Curiosamente, a canção “Tropicália’, de Caetano, ficou fora do disco, mas certamente a outra que deu nome ao disco acabou sendo uma das mais marcantes: “Panis et Circenses”, de Gil e Caetano, outra que se tornou clássica na interpretação dos Mutantes. O interessante é que música está repleta de “brincadeiras”, como o som de vitrola desligando no meio da música para retomar em seguida, assim como a sonorização de uma verdadeira sala de jantar, com direito à voz de Manoel Barenbein (produtor do disco) pedindo para passar a salada tendo, ao fundo, o som de Danúbio Azul. Essa canção também fez parte do primeiro disco exclusivo dos Mutantes, lançado no mesmo ano.


No avesso do espelho...Mas desaparecida...Ela aparece na fotografia...Do outro lado da vida. A canção seguinte, “Lindonéia”, de Caetano e Gil, recebe a interpretação da ex-bossanovista Nara Leão, simbolizada na capa do disco com uma retrato enquadrado em preto e branco.


É somente requentar... E usar... porque é made, made, made, made in Brazil. Tempo para a crítica inteligente e satírica de Tom Zé em “Parque Industrial”, contando com a participação de praticamente toda a trupe tropicalista na interpretação. Outra canção marcante.


Depois de “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto), com a voz de Gil e sons de fanfarra reforçando o toque circense, vem “Baby” (de Caetano) na voz divina de Gal, acompanhada de leve por Caetano. Trata-se de outra canção marcante da música brasileira.


Nessa verdadeira salada geral do tropicalismo também tem espaço para o ritmo caribenho em “Tres Caravelas”, versão de João de Barro para “Las Tres Carabelas” originalmente gravada pelo The Shadows, que no presente disco foi interpretada por Caetano e Gil.


O disco segue ao som de clarins que remetem a bandas militares em “Enquanto seu lobo não vem”, mais uma canção com uma sutil e inteligente crítica ao momento político. Destaque ainda para o trecho da Internacional Comunista inserido logo após o verso: Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil...Vamos passear escondidos.


A brilhante voz da Gal Costa ressurge em “Mamãe Coragem”, de Caetano e Torquato Neto, uma espécie de manifesto feminista tropicalista, seguindo com os batuques de “Bat Macumba” de Gil e Caetano que se tornou clássico na voz do primeiro, contando ainda com a participação dos Mutantes (essa canção também fez parte do repertório do primeiro disco dos Mutantes, lançado também em 1968).


Para finalizar (e confundir ainda mais os ouvinte), “Hino do Senhor do Bonfim”, com a participação de quase todos tropicalistas, ao som de banda.


Importante citar também a genial capa do disco, que contou com todos os tropicalistas posando como se fosse uma tradicional família brasileira, com diversos detalhes interessantes, como as guitarras empunhadas pelos irmãos Baptista como se fossem armas revolucionárias (na época se debatia a pertinência das guitarras na música brasileira); ou ainda o penico nas mãos de Rogério Duprat como se fosse uma xícara de chá, além da já citada foto da Nara Leão.


A importância desse disco é tão grande que serviu de inspiração para importantes nomes da música internacional como David Byrne e Beck entre outros. 25 anos depois, Gil e Caetano fizeram uma versão 2 do Tropicália, já resenhado aqui também . De fato, Tropicália ou Panis et Cincencis abalou as estruturas da música brasileira ao romper com conceitos e preconceitos. Se a ideia era abalar as estruturas da música brasileira, os tropicalistas podem se vangloriar do pleno sucesso obtido na empreitada. Cabe à gente reverenciar eternamente esse manifesto em forma de disco.

[Paul]

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

(RE)Gil: o outro lado do lado de cá (Refavela - 1977)


Escuto o Refavela do Gil. Impossível o Refavela sem o Refazenda. Ou melhor: impossível não é. Mas um é melhor com o outro. Um é o lado B do outro lado A. Yin e Yang.


Gil assina um manifesto sobre o Refavela: o Zeca Total enquanto o Refazenda seria o Jeca Total. É uma pista.


Refavela vila/abrigo das migrações forçadas pela caravela.


Mas Gil vai além. Este disco tem uma sonoridade de volta. Tem um ar da costa oeste africana. A sensação de quem vê o sol nascendo atrás do morro e se pondo dentro d’água. Há certa solidão, um ar introspectivo que me lembra o embarque do Amyr Klink naquela mesma costa oeste.


África, lado A do Brasil, lado B da África.


Não posso avaliar o impacto deste disco à época do seu lançamento, já que, nessa época minhas preocupações não transcendiam muito o estrelão ou a garagem de matchboxes... Só conheci o disco muito depois. Sempre me impressionou. Não canso de ouvi-lo. Uma das vantagens deste é que raramente se encontram suas canções em coletâneas por aí. Nenhuma parte se desassocia do todo, nenhuma se sobressai, e parece que soltas, ficam com saudades, como se ouvir uma de canções traísse o resto do disco.


Refavela, a canção é ponto de partida. É a caravela fazendo a viagem de volta. Por quê? Porque se você soubesse o valor que preto tem, tu tomava banho de piche e virava preto também... canta em Ilê Ayê, de Paulinho Camafeu. E vamos rumo ao Norte da Saudade, que eu vou ver meu bem, aganjú, xangô, alapalá!


O melhor lugar do mundo é aqui. E agora. Zengil. Sua obra é bastante zen, e esta música é sua mais completa tradução. Aqui onde indefinido. Agora que é quase quando. Poesia pura. Música pura. Éter.


E como toda boa viagem, esta não poderia deixar de ser também em torno de si mesmo. É só balançar, que a corda me leva de volta pra ela, a torre no alto da montanha. Porque deus fez tão bonitas as Marias que aparecem na vida, sussurrando no ouvido, tomando chafé no hospício, laços de fita rosa choque e azul... E mais que ninguém Gil balança, e quem não balança com ele? Difícil escolher uma entre tantas músicas lindas neste disco maravilhoso, mas Sandra...


Gil não viaja sozinho. Gosto dos teclados do disco. Gosto muito dos elementos percussivos, menos pro samba, mais pra mãe África. Gosto muito do violão que tá diferente aqui. Gosto do sopros transitando entre o reggae o soul e a gafieira. Sobretudo gosto muito da guitarra de Perinho Santana. Seja nos pequenos comentários, seja nos solos esparsos, ele é elemento chave no disco, o toque de um artista que se entende com o grande mestre, Perinho mistura Hendrix e a Cor do Som. Perfeita companhia pro nosso Gilberto.


Gil volta, não na caravela mas no (Samba do) Avião. Só que, diferente do vôo original do maestro que retornava dos esteites, da grande maçã e seus carneggie hall, Gil volta da África. Seu vôo é multicor, festivo. Note a intro da música: baixo, teclado, tamborim, chocalho e a guitarra vão embarcando suavemente... E vem vindo sopros, voz, violão... Pura psicodelia gilbertiana... Pronto, mais uma favorita...


Quem volta de viagem, morrendo de saudades, chega com a bagagem repleta de novidades e aprendizados, e Gil chega com a mensagem de uma Era Nova, e incluso nas descobertas dalém mar, o Balafon.


E como quem tá de volta, cheio de banzo: eu quero é moqueca! Gil celebra sua volta e (auto)reencontro com a Patuscada de Gandhi.


Refavela, o Expresso 2222 e Realce são meus discos favoritos, do meu artista favorito. La crème de la crème...


[M, a um amor que conheceu a costa leste e seu índico oceano]


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O paradeiro de Arnaldo Antunes em 2001

Comprei este disco no embalo dos anteriores do Arnaldo, principalmente Um Som (1998) do qual eu sempre gostei muito. Foi uma decepção. Na época, tentei escutar umas três ou quatro vezes e o disco não desceu, não rolou aquele conhaque Dreher... Engavetei. Anos mais tarde, ouvi uma de suas músicas (nem lembro qual) no rádio do carro. Achei muito boa! Cheguei em casa pensando: Eu tenho o disco com essa música em casa, tenho não? Coloquei o paradeiro pra rodar. E ele não parou...


Agradável surpresa, taí um disco que envelheceu bem... Fui ouvindo e degustando faixa por faixa. O problema (meu) com o disco talvez tenha sido porque o Arnaldo resolveu escapar da sonoridade que ele vinha polindo desde que saiu dos Titãs e que culminou em Um Som. De repente, quando o negócio tava bacana, ele resolveu, em vez de trazer mais do mesmo, (de leve) se reinventar e "andar à beira do precipício"...


Começa pela produção: Carlinhos Brown. Arnaldo desmontou a banda com a qual trabalhava (desmontou em termos porque Scandurra aparece ainda bastante, enquanto que Paulo Tatit e Zaba Moreau, aqui e ali) e juntou-se ao baiano para a empreitada. Na época ele já circulava bastante com ele e a Marisa Monte.


Provavelmente por conta da presença do Marrom, o disco traz uma sonoridade nova no catálogo do Arnaldo. Mais percussivo, mais sons, mais timbres... Sem descaracterizar o som típico da sua voz grave centralizada, enquanto os pequenos detalhes vão orbitando em volta.


Essa Mulher seria a música perfeita se a letra não fosse um lixo. Música é o reino do implícito, do não dito, do sugerido e ele opta por fechar este buraco com a letra. Talvez a sacada foi colocar num formato pop esta letra que beira o panfleto.


A faixa que dá nome ao disco, Paradeiro, é a (minha) melhor música do Arnaldo Antunes solo. Bem, nem tão só, a autoria é dividida com os tribalistas Carlinhos Brown e Marisa Monte. Ela que o acompanha de maneira brilhantemente apropriada nos vocais.


Haverá paradeiro para o nosso desejo dentro ou fora de um vício

Uns preferem dinheiro outros querem um passeio perto do precipício...

Uns vão de paraquedas outros juntam moedas antes do prejuízo


A vida é curta. Curta a vida enquanto ela se encomprida. Sou fã de carteirinha dessa letra. Não lembro na música brasileira de ninguém ter dado esse recado de maneira mais bela, e por incrível que pareça, mais (in)direta...


Se tudo pode acontecer, se pode acontecer qualquer coisa, um deserto florescer, uma vuvem cheia não chover... pode alguém aparecer e acontecer de ser você...


Linda balada, canção delicada... com uma guitarra reversa do mestre Edgard, um belo solo de sax de Roninho Scott, percussão na medida com Mr. Brown e a participação especialíssima de Guga Stroeter no vibrafone.


E já que o paulistoca andava se abaianando, Na Massa é fruto de uma feliz parceria com Davi Moraes (a música já aparecia em seu Papo Macaco). Lembra o pré-axé da Cor-do-som temperada com as guitarras maneiríssimas do Scanda, fazendo contraponto à levada rítmica do próprio Davi...


Debaixo d’água é a música com som disso mesmo. Brincadeira divertida com os nosso paraísos utópicos, debaixo d’água tudo é maravilhoso, mas... tinha que respirar! Seu contraponto é o rap-candomblé Cidade. De novo mostra o Arnaldo quase experimental, falando da cidade, dura realidade.


Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor, despedaçado sob o néon amanhecido, ruído de motor...


Mas não tinha que respirar, né? Pelo menos não tem que ter esta preocupação (ainda): respirar é involuntário em meio a este caos... E ainda na trilha da invenção, temos O Mosquito. Um trip-hop semi-acústico. Gosto do som. Desentendo completamente a letra


Parceria de Arnaldo com Paulo Tatit e Sandra Peres, Do Vento já havia sido gravada pela Palavra Cantada num disco parceiro com as histórias de Ruth Rocha. A intenção é (era?) o público infantil, mas essa música é uma obra-prima... Linda melodia, uma letra que é um autêntico poema e o arranjo que canta uma música que já tem tudo, sem acrescentar demais e sem roubar a ênfase no essencial. Comentário embelezante, este é outro ponto alto do disco. Essa música é aquela que eu queria ter feito. E poderia morrer feliz.


Ainda canta Luzes de Paulo Leminski que ficou muito legal numa levada multi-violões... Essa noite vai ter sol é o comentário poético sem juízo de valor sobre a intervenção do homem na natureza na forma de noite. Aliás, depois do vento e da água, reparo que neste disco, Arnaldo trata dos assuntos da natureza de uma maneira não-dogmática, daí a parceria com Carlinhos ter sido extremamente feliz: a banda que ficou no disco anterior tinha uma sonoridade mais urbana, mais rock.


Atenção: essa vida contém cenas explícitas de tédio no intervalo da emoção... Arnaldo adverte já na abertura do disco, em poema musicado de Alice Ruiz. E este disco, quase que um retrato da vida, não poderia ser diferente. Nem tudo é legal (aliás, uma tônica do trabalho do Arnaldo, que gosta de misturar e, enfim, o resultado nem sempre agrada à todos, não é?), temos aqui uns intervalos de tédio...


Escurissíssimo é a música do disco a ser pulada. Hora de pegar uma na geladeira, tempo de ir ao banheiro e deschavear o que tiver chaveado demais... Santa também pode ser pulada, que não fará falta. O disco fecha com Lembrança Vó, que é uma vinheta totalmente Carlinhos Brown. Ficou interessante. No máximo.


Também me decepciona um pouco a versão bossa-nova do super Exagerado mais querido de todos (Cazuza), voz quase que só falada e violão, num formato que Arnaldo Antunes ainda viria a explorar em trabalhos posteriores, e que, cá pra nós, não é seu forte. Uma pena, porque a música é sensacional e merecia mais. De qualquer forma, mostra o cantor trilhando outros caminhos, arriscando à beira do abismo. Fazer o que? O disco é dele, pô!


Com tudo isso, Paradeiro é mais que um disco, é quase um emblema do Arnaldo Antunes. Honesto, livre e vivo.


[M]