quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cena Brasiliense: O Concreto Já rachou (Plebe Rude, 1985)




Brasília, capital da esperança. Brasília dos camelos, dos blocos e quadras, das zebrinhas e tesourinhas. Brasília, o eterno “autorama gigante”. Brasília das siglas. Brasília sem ruas, mas com esquinas. Brasília, fruto do traço do arquiteto. Brasília da seca e dos finais de tarde cinematográficos. Brasília dos centros comerciais, dos muitos porteiros e das pessoas normais.


A capital federal entrou para o mapa da música brasileira na década de oitenta, em meio à onda do rock brasileiro. Após o estouro das bandas do Rio de Janeiro e de São Paulo, foi a vez de Brasília apresentar-se ao mundo. Três bandas da cidade capitanearam o movimento: Legião Urbana (a mais cultuada), Capital Inicial (ainda em atividade) e Plebe Rube, a Suprema Trindade do rock candango. Todas as três formadas por uma garotada que sentia muito tédio na capital, mas era extremamente bem informado sobre música pop – em especial punk, pós-punk e new wave norteamericanos e britânicos.


A Plebe foi criada no início dos anos oitenta. Em sua formação original – eu chamaria de “clássica” – a banda tinha Phillippe Seabra (guitarra), Jander Bilaphra (guitarra), André X. (baixo) e Gutje (bateria). Foram esses quatro garotos que realizaram um dos discos seminais do rock nacional, O concreto já rachou.


Produzido por Herbert Vianna, O concreto... foi lançado em 1985, em pleno início da redemocratização do país. Trata-se, na verdade, de um mini-LP (sete canções em pouco mais de vinte minutos), algo pouco comum para o mercado brasileiro. A experiência deu certo, porém. Mais de duzentas mil cópias foram vendidas entre 1985 e 1986.


A primeira canção é “Até quando esperar”, hino de várias gerações. A música, um petardo, é um libelo contra as desigualdades econômicas e sociais e não perdeu a atualidade, mais de 25 anos depois de seu lançamento. “Até quando...” foi o carro-chefe do disco, tocou do Oiapoque a Jaú e colocou os meninos no miolo da cena musical brasileira, com direito aos Fantásticos e Faustões (que não existia àquela época) da vida. A seguir, “Proteção”, outra porrada de pouco mais de dois minutos. “Tropas de choque, PMs armados/mantém o povo no seu lugar”. Ecos de The Clash e Gang of four no cerrado.


A obra tem ainda as dispensáveis “Johnny vai à guerra” e “Seu jogo” e as fabulosas “Sexo e karatê” (acelerada em estilo ramoniano) e “Minha renda” (com a antológica frase “vou mudar meu nome para Herbert Vianna”). A última canção, porém, fecha o disco com chave de ouro.


“Brasília”, a música, sintetiza a vida na capital. “Brasília tem luz, Brasília tem carros/Asas e eixos do Brasil/Servidores públicos ali”. Duas guitarras toscas dialogam ao longo dos pouco mais de três minutos da canção. Para quem mora na cidade basta fechar os olhos e sentir-se em meio ao ambiente único do local.


Depois, veio a quase inevitável decadência. O álbum seguinte, Nunca fomos tão brasileiros, de 1987, pecou por certa grandiloqüência que não combinava com o punk dos rapazes. A Plebe ainda está em circulação, com nova formação (Clemente, ex-Inocentes, e Txotxa na bateria) mas com o velho pique.


Brasília, por sua vez, segue na velha rotina de muitos porteiros e pessoas normais.


Um rápido PS: a quem interessar possa, o livro O diário da turma 1976/1986 – a história do rock de Brasília, de Paulo Marchetti, conta em detalhes a história da Plebe & companhia.

[XAMPU]

terça-feira, 28 de junho de 2011

E se?... (tudoaomesmotempoagora - Titãs, 1991)




De certa forma, o passo dado no disco Titanomaquia era ensaiado aqui, Tudo ao Mesmo Tempo Agora. Os Titãs vinham de três discos de tirar o fôlego, que os deixaram enterrados a raízes profundas nos corações mentes dos homens e mulheres primatas, o pulso pulsando e a miséria musical para sempre extinta de uma geração que era chamada de coca-cola.


Tudo ao Mesmo Tempo Agora talvez seja o depoimento de uma banda que não queria mais ser “ícone” de uma geração, ei! Estamos abandonando de vez a cola, ficamos só na coca! Acho o último grande álbum deles, uma missa de réquiem, ainda que nos álbuns seguintes, aqui e ali, colham-se alguns frutos saborosos. É o disco onde o compositor olha para dentro de si mesmo e explode seus conflitos internos e externos de maneira irreprimível e irrevogável.


A capa do disco já mostra isso, uma capa desagradável de se olhar, recortes de Atlas do corpo humano, as cores de açougue e as palavras grafadas no alfabeto grego, como quem avisa: este disco é só nosso e não vai ser fácil ouvi-lo, mais ainda gostá-lo. Pra quem queria mais do mesmo, uma decepção. Pra quem se dispõe a acompanhá-los como quem confia nas viagens de um grande amigo: vale a pena.


A lista de músicas não aparece na capa nem contra-capa, onde só consta, em letras miúdas, mais um aviso: composto arranjado e produzido por Titãs. Isso que pode parecer um enigma, na verdade se revela a pista mais evidente aqui.


As músicas de rádio deste disco não eram fáceis. Clitóris faz Igreja soar como canção natalina, e Saia de Mim é a canção sem-vergonha de ser humano, do ser-humano. O último disco com Arnaldo e talvez aquele que sugeria a Nando Reis a porta da rua. Algumas das canções são bem fracas, como Isso Para Mim é Perfume, uma forçada de barra para parecer mais agressivo do que se é. Mas é um disco mais centrado no som da banda, que está muito afiada, o núcleo guitarra(s), baixo e bateria dá as cartas aqui, então, aquela que era conhecida pelas letras e diversos vocalistas se revezando, troca de foco, e o sinal são canções com letras curtas, de conteúdo mínimo, hai-cais a la Titãs, roc-kais, como Obrigado, Cabeça, Se Você está Aqui, e faixa que dá nome ao disco e o encerra de maneira acachapante.


Em tom de depoimento, confessionário vem Eu Não Sei Fazer Música e Não é Por Não Falar, enquanto que em Filantrópico, Eu Vezes Eu e O Fácil é o Certo são os ‘velhos’ Titãs, dando o ‘toque’. Mas as minhas favoritas deste disco mesmo, que mostram a banda viajando em outras direções são e Agora. Essas duas são as melhores músicas de toda a discografia dos Titãs... Pra mim pelo menos. Música muitas vezes agente ouve e gosta mais pelo conforto de se encontrar em mares conhecidos, do que pelo espanto causado pelo novo. E os Titãs sempre foram a banda do espanto, e o espanto aqui vem nestas duas canções, com um som de banda magnífico que eles não tinham ainda alcançado em nenhum dos discos anteriores...


Já colocou todas as roupas na mala? Agora que agora é nunca

A sua casa já desmoronou no meio da sala? Agora posso recuar

você já tentou varrer a areia da praia? Agora a última resposta

Já dormiu sozinho num canto de rodoviária? Agora a língua em minha boca

Já dormiu com alguém por migalha? Agora é só meu corpo nu...


Outra pista é o fato de que, diferente do que acontece nos discos anteriores, a autoria das composições não é explicitada faixa a faixa, sinal de que, ou o processo de composição foi diferente, ou ela é menos importante aqui do que a execução, que se torna mais autoral até do que a própria fabricação... E a última pista talvez seja o Flat-Cemitério-Apartamento, música onde a chave é... E se ?


Pois é, neste disco os Titãs estão dizendo isso:

E se ?


[M]

domingo, 26 de junho de 2011

Kaya N'Gan Daya, Gilberto Gil


Neste dia 26 de junho aproveito pra postar um disco do aniversariante Gilberto Gil. Não por acaso, eu também faço aniversário hoje.
Porque provavelmente a coisa se deu assim: em 1970, Gil em Londres, acorda, breakfast, a galera acorda, parabéns!, rolêzinho sob o sol de verão, almoço, volta pra casa, acende um, papelzinho colorido na boca, o som começa a rolar, violões e percussão de leve pra não incomodar a vizinhança britânica.
Lá pelas tantas Gil, que estava curtindo e vendo shows do Pink Floyd e Led Zeppelin, pensa: "pô, queria um guitarrista aqui, mas um que achasse João Gilberto tão genial quanto Hendrix, que gostasse tanto de rock quanto de Tom, Chico e Caetano!". Neste exato momento, Apolo, Dionísio e as 9 Musas atenderam seu pedido: eu nasci.
Bem, talvez não tenha sido exatamente assim...
E, claro, ele não tinha como saber que eu gostaria muito de Gilberto Gil e também de Bob Marley, aliás Robert Nesta Marley.
Que são os co-autores do disco de hoje, onde nosso herói ítalo-baiano recria e interpreta sucessos e nem-tão-sucessos assim do nosso herói jamaicano.
Gil foi bastante fiel aos arranjos originais, mexendo um tiquinho aqui e ali, sempre com sua voz deixando as músicas com a sua cara. Ele inclusive faz no encarte um paralelo entre Bob e Luiz Gonzaga.
'Buffalo soldier' é fiel ao original com alguns metais fazendo a diferença. Também uns floreios de voz do Gilberto, uma modulação e um canto africano ao fim.
'One drop' traz as vozes das I-Three (Rita Marley, Marcia Griffiths & Judy Mowatt), trazendo uma cor tipicamente jamaicana à canção, que traz aqui como diferença um banjo a cargo de Setrgio Chiavazzoli.
"I know JAH'd never let us down"
'Waiting in vain' é mais uma bem fiel, com aquele tecladinho magrinho e tudo. Aqui o mesmo Sergio faz um cavaquinho discreto, principalmente no clima sambinha no final.
'Table tennis table', a única inédita original do disco, tem Liminha ao baixo, que na maioria das músicas traz Arthur Maia. Aqui também tem o Ramiro Mussoto na percussão, já resenhado aqui pela amiga Andréa.
'Three little birds' ficou bem íntima, com violãozinho de fogueira e triângulo surpreendendo na percussão. Aqui a sanfoninha deixa o clima mais forró.
'Não chore mais (no woman no cry)' já havia sido gravada por Gil, numa versão de sucesso e que, pelo menos pra mim, foi o rpimeiro contato com o Bob. Aqui a regravação é reverente, mas traz um arranjo de cordas na primeira parte acústica, ficando mais adocicada. No meio o arranjo muda e entra o reggae com tudo, tocado aqui pelos Paralamas do Sucesso com o Tom Capone. Maneiro. Com solo do Herbert Vianna.
'Positive vibrations' é sensacional, aqui com força e vigor, lembrando que positividade não tem nada de fraco. Tem até um guitarra cítara fazendo uns detalhes.
'Could you be loved' traz um arranjo bem fiel mas com músicos convidados de alto calibre: Sly Dunbar na batera, Robbie Shakespeare no baixo, Samuel Rosa e Henrique Portugal do Skank. No meio tem um trechinho bem curto e no final um pouco maior lembrando que estamos com Sly & Robbie, mestres do Dub drum'n'bass.
'Kaya N'Gan Daya (Kaya)' vem em versão em inglês/português com cara brazuca, já iniciada pelo berimbau chamando pra curtição. No meio se converte em português, com uma letra malandra sobre a erva conhecida:
"Eu posso ver
o sol aparecer
sobre a chuva que cai
tão bom rever
a tribo, o fumacê
do cachimbo da paz
(e muito mais)"
Pra quem não sabe o que é Kaya, sempre vale uma googlada.
Em outros tempos pré-lei proibindo o fumo em ambiente fechados, festas no Pampo em Itacoatiara/Niterói/RJ, sempre recomendavam "se for fumar kaya na praia"...
'Rebel Music' é mais uma das fiéis e reverentes ao mestre do reggae.
'Them belly full (but we hungry)' traz de novo a presença luxuosa dos Paralamas, agora com João Fera tb. Versão seca e precisa, como deve ser uma música sobre fome. Com abordagem positiva, sempre:
"We're gonna dance to JAH music, dance
Forget your troubles and dance
Forget your sorrow and dance
Forget your sickness and dance
Them belly full but we hungry
A hungry mob is an angry mob"
'Tempo só (time will tell)', uma das minhas preferidas, traz outra versão inglês/português, mais lírica, calminha, cheia de espaços e barulinhos. Engraçado o Gil ter uma música paralela ao tema, 'Tempo Rei'.
''Time alone, oh! time will tell
you think you're in heaven, but you're living in hell"
'Easy skankin'' tb é bem fiel, tranquila e easy. Tem uma guitarrinha com filtros, discreta, pelo meio da música.
'Turn your lights down low' traz aquele clima romântico bonito, excelente pra dançar juntinho, se é que isto ainda se pratica...Solinho de sanfona de Cícero Assis.
'Eleve-se alto ao céu (lively up yourself)' é cantada em português somente. Mais uma legal, disco acabando. Solinho de guitarra mais nervoso, talvez do Tom Capone.
'Lick samba' termina em alto astral transformando o que não era samba no próprio, característico do Recôncavo baiano, aqui com a voz especial de Rita Marley e percussões variadas.
Valeu Bob, valeu Gil.
Agora eu vou ali acender (ou apagar) minhas velinhas...

sábado, 25 de junho de 2011

Claridade, Clara Nunes (1975)



Esse blog está quase chegando ao nº 200 e me dei conta de que estávamos cometendo uma falha grave, com a ausência de uma das maiores cantoras brasileiras: a guerreira Clara Nunes. Nesse sentido, o presente post tem como missão primordial preencher essa lacuna. Dentre os 15 discos de estúdios, optei por Claridade, de 1975, porque, por um lado, conta com um repertório de primeira, aliado ainda ao sensacional bandolim de Joel Nascimento e excelentes arranjos; enquanto, por outro lado, me faz retornar à minha infância quando escutava essas canções na vitrola da minha mãe no Rio de Janeiro.


Demonstrando sua predileção por compositores da Portela, Claridade abre em grande estilo com “O Mar Serenou”, de Candeia. Trata-se de uma interpretação magnífica de uma canção que marcou um estilo, canção até hoje relembrada nas melhores rodas de samba. O mar serenou, quando ela pisou, na areia,...Quem samba na beira do mar, é sereia... Com seu vestido branco, Clara Nunes certamente é a melhor imagem dessa canção.


“O Sofrimento de quem Ama”, de Alberto Lonato, e “Tudo é ilusão”, de Éden Silva e Raul Moreno, (5ª canção do disco) demonstram que além de grande intérprete, Clara Nunes é rainha na arte de transmitir alegria e esperança com temas tristes.

Iansã cadê Ogum...foi pro mar... Sua influência de temas afro (esteve várias vezes na África) atinge o apogeu em “Deusa dos Orixás”, de Romildo e Toninho, uma maravilhosa canção em que se misturam elementos do samba e do candomblé. Para apreciar a verdadeira Deusa dos orixás, vale a pena ver essa apresentação: htAdicionar vídeotp://www.youtube.com/watch?v=82n6dZ74F3c (que ainda emenda na próxima música).


Pausa para respirar: com toda garra e afinação, Clara Nunes dá ao clássico da música brasileira "Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, a sua interpretação definitiva. É o juízo final, a história do bem e do mal...quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer... Música para arrepiar...


Se o lado A do vinil fecha em ritmo mais lento e triste com “Valsa de Realejo” , o lado B compensa abrindo com um samba de primeira de João Nogueira e Paulo César Pinheiro (seu marido a partir dessa época). Para de beber, compadre...Meu compadre deixa disso...Larga essa mulher de lado...Lembra do teu compromisso.


Candeia volta a ser cantado em “O Último Bloco”: E hoje volto cantando...me abraço ao violão...e marco o compasso junto do coração. Outra jóia rara desse disco.


Depois de outro samba em alto astral com “Ninguém tem que achar ruim”, de Ismael Silva, Clara Nunes diminui o ritmo para lembrar que “Às Vezes Faz Bem Chorar”, de Ivor Lancelotti, e antecipa o clima de despedida com “Vai Amor” (Monarco/W.Rosa):

Não chore por favor...Porque um bom perdedor não chora Reconhece a derrota se dirige a porta...Abre, diz adeus e vai-se embora.


E para fechar no maior estilo e sem espaço para rancor, Clara emenda “Que Seja Bem Feliz” de Cartola: Que seja bem feliz...E leve-me na mente... Que cresçam suas glórias...E as minhas lágrimas contentes.


Nem sempre a qualidade combina com vendagem, mas até nisso esse disco surpreendeu, ultrapassando a marca de 600 mil cópias vendidas, numa “Clara” demonstração de que tem muita gente de bom gosto. Foi o primeiro de uma cantora – mulher – que ultrapassou essa marca.


Em 1983, após conplicações decorrentes da anastesia em uma aparentemente inofensiva cirurgia de varizes, Clara Nunes deixou esse mundo que conhecemos. Como diria a própria Clara Nunes em “Tudo é Ilusão”, nada dura eternamente...


Felizmente deixou obras como esse disco para que a voz dela continue ecoando nos nossos corações.


[Paul]

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Efêmera - Tulipa Ruiz (2010)


Voz quente e marcante, afinada e afiada, sonoridade lúdica: Tulipa Ruiz, a novidade que veio dar à praia.

Sua música traz elementos inusitados, temas cotidianos tratados de maneira diferente, arranjos improváveis. “Efêmera” está cheio de referências – umas reais e outras imaginadas por mim.

Um cd pra lá de inventivo, super gracioso, dando aquela impressão de que tá todo mundo curtindo estar lá, fazendo aquele som.


Sem dúvida o cd traz na mochila muita Tropicália, mas junto tem muito da Vangarda Paulistana também – tá no sangue, já que seu pai, Luis Chagas, foi guitarrista do Isca de Polícia…

Mas também tem psicodelia, tem a alma da Rita Lee e muito de Tulipa, que compõe quase todas as canções.


“Efêmera” abre com som rasgado e regado a sopros e delicadeza. Dicção precisa, sotaque paulistano e amigas ao redor: Tulipa Ruiz está muito bem acompanhada com as vozes de Céu e Thalma de Freitas.

“Do Amor” é sem pressa, como uma estória bem contada deve ser. E de repente uma surpresa! A música fica imensa, cheia de vida. Uma explosão. Uma tradução única do amor. E depois a música se recolhe e você volta à terra…

“Pedrinho” é safada. Começa como quem não quer nada e vira um sonzão cheio de malícia. Roquenroll com uma bateria e guitarra que me lembra muito “The Truth Is In The Dirty” de Karen Elson com Jack White.

Muito boas mesmo, as duas!


Em “A Ordem das Árvores”, Tulipa Ruiz swinguinifica Gil! Deita e rola em tudo que a Tropicália nos deixou de melhor. Descontraída, do avesso, a ordem das árvores não altera o passarinho!

Música deliciosa.

“Sushi” é linda. Músicafalada, estridente, certeira. Uma espiral de palavras e de sons que te embala numa viagem oriente.
“ Então, vem, chega mais perto

Devolve já meu coração

Que tal sair desse aperto

E decretarmos solidão a dois”


Um caso à parte – “Brocal Dourado” – psicoldelia e dancing days total. Artesanato musical. Astral e ritmo adequado para cabeças alteradas. História de amor bordado à mão e mix de sambinha, pedal valvulado.

“Da Menina” é Rita Lee nas suas viagens femininas. É toda uma estória: música-ritual que só a quase- mulher é capaz de decifar e reconhecer-se nela. Trilha sonora para as Marinas…

“Só Sei Dançar Com Você” é circular e envolvente. O som te teletransporta e te conta da parceria perfeita: a loucura conduzida suavemente e transformada num balé singular e a dois. “Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz”. Maravilhosa, um jogo de esconde-esconde.


“Efêmera” medita sobre as palavras e permanece para sempre: Anti-Efêmera.

[ANDRÉA]

New Wave à brasileira (Magazine, 1984)



Em qualquer compêndio ou boa enciclopédia de rock/pop, ao pesquisar o verbete “Magazine” você encontrará: “banda formada por Howard Devoto logo após sua saída dos Buzzcocks, em 1976. O primeiro trabalho do conjunto é o LP Real life”. Sobre o Magazine brazuca, nada. No máximo, alguma nota de rodapé.


O relativo esquecimento do “nosso” Magazine é uma injustiça que poderia (deveria) ser reparada. A banda, capitaneada pelo DJ/VJ/agitador cultural multiuso Kid Vinil, é importante representante da chamada “new wave” brasileira. Em comum com o xará britânico, nosso Magazine também é oriundo de uma conceituada banda punk, o Verminose. O quarteto (além de Vinil, Ted Gaz na guitarra, Lu Stopa no baixo e Trinkão na bateria) fez sua estréia oficial em 1983, na cena paulistana.


Magazine, o álbum de estréia do grupo (1984), é um primor. Tosco, rude, bruto, de uma simplicidade franciscana. A partir da capa (uma homenagem bem-humorada ao movimento new wave, no auge da moda no Brasil naquele momento), o recado é claro: rock simples, sem grandes concessões ou pretensões. Poucos acordes e muita alegria. Simples assim.


O disco abre com “Adivinhão”, um rockabilly à brasileira de pouco mais de três minutos de duração. “Você anda namorando a minha filha com segunda intenção/você anda namorando a minha filha pra poder botar a mão/o teu negócio é andar de lambreta, quando fala em casamento você faz careta”. Hilário.


O disco segue com “Pau na marginal” (rachas num fim-de-semana qualquer em Sampa), “Não” (popzinho inspirado em Paul Anka), “Meu bem Lollipop” (mais um som cinquentista), “Tô sabendo” (“eu sei que você sabe que eu não sei que você sabe que eu sei”, alucinante) e por aí vai.


O grande momento, claro, é o hit da banda. “Sou boy” foi das faixas mais tocadas na época e rendeu bons “fruto$” para o grupo – chegou a ser usada em comercial da GM. A canção, hino dos boys de todas as gerações, narra as aventuras/desventuras durante um dia na vida de um office-boy:


Acordo 7 Horas tomo o ônibus Lotado
Entro 8 e meia, eu chego sempre atrasado
sou boy, eu sou boy, sou boy
boy, sou boy

Atento 8 e Meia eu tenho que bater cartão
Mal piso na firma tem serviço de montão
eu sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Ando pela rua pago conta pego fila
Vou tirar xerox e batalho algumas pila
sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy

E logo chega a tarde estou com pressa de ir embora
Meus pés estão doendo e meus calos estão pra fora
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
boy, eu sou boy

Bate 5 e meia a Sé tem filas infinitas
ônibus lotado e cai da mala minha marmita
Sou boy,eu sou boy, eu sou boy...
boy, eu sou boy

Na hora do almoço a minha fome é de Leão
Abro a marmita, e o que vejo? Feijão!
Chega o fim do mês com toda aquela euforia
Todos ganham bem e eu aquela micharia
Sou boy, eu sou boy, eu sou boy
eu sou boy”


O sucesso foi imediato e fugaz. O Magazine apareceu em todos os grandes programas de auditório, tocou no Fantástico, deu shows de Norte a Sul, fez abertura de novela global (“Comeu”, versão de uma canção menor de Caetano Veloso) e, depois, sumiu. A fórmula estava esgotada (ou ultrapassada, talvez). A marca do Magazine, porém, estava assegurada.


Kid Vinil continuou na cena cultural brasileira, teve programa na MTV e volta e meia aparece em algum evento rock´n´roll. Em meados dos anos noventa, trombei com ele na entrada de um show dos Ramones em São Paulo (“Kid, você pode arranjar para a gente uns ingressos do show?”). Mas essa é outra história...


[XAMPU]

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Todos os olhos para Tom Zé


Nos antigos discos de vinil, uma das vantagens era que as capas assumiam um papel muito mais importante do que nos práticos CDs, a ponto de algumas terem se tornado verdadeiras obras de arte. O problema era quando a capa acabava adquirindo uma importância maior do que a obra musical em si, como ocorreu em Todos os Seus Olhos, disco do Tom Zé de 1973. Nesse caso a polêmica levantada pela capa que seria uma foto de uma bolinha de gude em um ânus em pleno regime militar acabou relegando às canções um papel secundário, mesmo quando tinham todos os elementos para serem protagonistas. Desse modo, o presente post tem como objetivo recolocar as coisas no seu devido lugar.

Confesso que só vim a conhecer efetivamente esse disco há cerca de 10 anos, quando Charles Gavin, baterista do Titãs e também grande estudioso da música brasileira, passou a relançar clássicos de vinil em formato CD, inclusive juntando duas obras de cada músico (esse disco foi relançado juntamente com o também memorável Se o Caso é Chorar, em 2000).

Contando com um texto de apresentação do poeta concretista Augusto de Campos (dando pistas da trilha a ser seguida por Tom Zé), o disco abre (e termina) com “Complexo de Épico”, uma nítida resposta provocativa à canção “Épico”, do ex-companheiro do movimento tropicalista Caetano Veloso, que naquela época seguia rumo completamente distinto.

Todo compositor brasileiro é um complexado...

Porque então essa mania danada,

Essa preocupação de falar tão sério,

De parecer tão sério...

O recado estava muito explícito nessa canção em que Tom Zé exagera na tintura “cabeça” (digamos que não é daquelas de fácil audição).

Em seguida, uma releitura de “A Noite do Meu Bem”, de Dolores Duran (única canção que não é de sua autoria no disco), introduzindo alterações no ritmo da clássica canção. Dois anos depois, em Estudando o Samba, ele repetiu a mesma experiência na canção “Felicidade” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. O resultado surpreende em ambos os casos.

Depois de “Cademar” (parceira com Augusto de Campos), em “Todos os Olhos” Tom Zé aproveita para negar o papel de “herói” que muitos esperavam dele: (...) Mas eu sou inocente, eu sou inocente, eu sou inocente. O disco segue com um criativo diálogo musical com Odair Cabeça de Poeta em “Dodó e Zezé” e um animado forrozinho “Quando eu era sem ninguém”, para adotar um Tom completamente melancólico em “Brigitte Bardot”, que nos dias de hoje poderia facilmente ser adaptada a tantas outras musas de outrora.

A Brigitte Bardot está ficando velha

Envelheceu antes dos nossos sonhos(...)

E os nossos sonhos querem pedir divórcio(...)

A seguir, as ruas de São Paulo adquirem vida própria na “Augusta, Angélica e Consolação”, uma linda homenagem desse baiano à cidade que ele havia adotado. Além de original, a letra finaliza com uma bela passagem:

Eu fui morar na Estação da Luz

Porque estava tudo escuro

Dentro do meu coração.

No seu disco anterior (Se o Caso é Chorar) já havia utilizado do mesmo subterfúgio na excelente “A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel”, quando as personagens eram prédios invejosos da capital paulista, que continua com vida própria na canção seguinte, “Botaram Tanta Fumaça”, uma espécie de xote que fala das doenças que a cidade estava enfrentando com tanto lixo e fumaça. Lembre-se que estamos falando do início dos anos 1970, quando qualquer preocupação ambiental mal existia e a tônica vigente era de que as indústrias traziam “progresso”.

A fase concretista de Tom Zé volta com força total em “O riso e a faca” . Antes de finalizar novamente com “Complexo de Épico”, o cantor brinca com sons, tempos e contratempos na música “Um oh! E um ah!”.

Enfim, nessa obra Tom Zé desfilou criatividade e originalidade, alterando os estilos, com canções que conseguiam ser ao mesmo tempo poéticas e provocativas.

Quanto à capa, recentemente o fotógrafo Reinaldo de Moraes, autor da foto, revelou que a idéia de Décio Pignatari era, de fato, retratar um ânus, mas que depois de muitas tentativas infrutíferas com uma namorada de ocasião anônima, acabaram mesmo tirando foto da bolinha de gude na boca dela. Nessa, até o Tom Zé foi enganado, e se divertiu com isso, como revelou posteriormente.

[Paul]