terça-feira, 31 de maio de 2011

Krig-Ha Bandolo!, Raul Seixas



Toca Raul, né?! Só tinha um por aqui, falha lamentável. Por falar nesse único post, ele foi comentado por dois colaboradores, tomara que isto se repita com este aqui, sintam-se à vontade para agregar suas impressões e experiências ao clássico do nosso Maior Herói Cult Underground Alternativo e Maluco!

Na verdade isso seria muito legal, um disco com todos nossos colaboradores (inclusive aqueles que ainda não colaboraram...), qual seria o mais próximo da unanimidade? Porque o blog é sobre música, mas também é sobre nós mesmos.


'Krig-Ha Bandolo' parece uma invocação mágica, mas é uma expressão usada nos quadrinhos do Tarzan, um grito de guerra que significa 'cuidado com o inimigo'.


Este aqui é o primeirão solo, também o que inaugura a produtiva e criativa parceria com o compositor e Mago Paulo Coelho.


O disco começa estranhíssimo, com uma gravação de Raul aos 9 anos cantando o clássico do rock'n'roll 'Good rockin' tonight'.


E já emenda com um dos muitos clássicos eternos de nosso querido roqueiro baiano, 'Mosca na sopa', que mistura capoeira com rock'n'roll! Gêêênio!!!! Tudo que incomoda cabe aqui, e MUITA coisa incomoda, não é mesmo?!


Mais um clássico absoluto, 'Metamorfose ambulante', muito cantada e pouquíssimo praticada.

"Prefiro ser essa metamorfose ambulante

do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo"

Perfeita, redondinha, intro com vocais femininos inspirados, versos afiados, guitarra bonita, refrão no início de surpresa, depois de novo mais empolgado e uma melodia dificílima de manter afinada naquela modulação no meio...pegadinha antecipada para a praga dos karaokês...


'Dentadura postiça' é muito legal, só pouco conhecida porque o repertório do disco é muito foda mesmo. Country acelerado, rimas inteligentes, letra afiada. Raul.


'As minas do Rei Salomão' é mais um country, um pouco mais conhecida, em algumas rodas de violão pelas últimas gerrilhas hippies pelo Brasil adentro às vezes alguns cantam junto depois do indefectível bordão nacional: "TOCA RAUL". Sempre, sim, senhor. A versão mais recente, da última versão 'remasterizada', tem um efeito de modulação na voz que eu nunca tinha percebido.


'A hora do trem passar' é uma daquelas belas baladas quase bregas dele, mais uma desconhecida pela comparação. Pianão e um teremim(?).


'Al Capone' é a anima festa/show/bailão. Mas ainda é uma letra atemporal, pelo que têm de eterno seus personagens e situações históricas. Nada bobo o nosso herói metafórico. Mas talvez inteligente e pioneiro demais pra ser perigoso no seu tempo.


'How could I know', em ingrês mesmo, dizem que foi em homenagem a Elvis, mas a letra cita palavras de Dylan. Ou eu viajo também, vai saber...


'Rockxixe' é das minhas preferidas, metais bonitos, arranjo vigoroso, letra muito confiante pra um primeiro disco. Toca Raul, porra! Mas toca essa aqui!!

"o que eu quero eu vou conseguir

pois quando eu quero todos querem

quando eu quero

todo mundo pede bis"


'Cachorro urubu', baladão de estrada, quase uma vinheta. Legal.


E o disco termina literalmente com chave de ouro, 'Ouro de tolo', uma letra provocadora pra sacudir (mas que traz um mito erradíssimo, o tal 'que só usa 10% de sua cabeça, animal', o cérebro não é assim; pois é, Raul também erra; nem vou comentar sobre discos voadores pra evitar ser pára-raio de maluco, mas tem gente que acredita que o homem não foi a lua, não tem?), um vocal aparentemente desleixado que me incomodava muito. Mas o cara foi produtor, caprichosíssimo e atencioso em tudo, do geral aos detalhes. Ele queria que fosse assim. E é uma música louca e linda.


Toca Raul sim, de novo, maluco.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ninguém, Arnaldo Antunes


Esse é o primeiro cd do Arnaldo que eu posto, acho que foi o primeiro que eu comprei dele, ainda bem que com o Scandurra, o que me traz o melhor do Ira! sem a voz do Nasi...
Falando agora sem provocações com o amigo Zeba (defensor do Nasi, o qual inclusive não estou atacando, eu só não gosto da voz dele...), gosto muito do som resultante da guitarra criativa do Edgard misturado com as pirações criativas e deliciosas do Arnaldo. Em outros discos como 'Um som', 'O silêncio' ou principalmente o 'Nomes', a piração às vezes extrapola o meu limite com a cabecice, mas aqui pra mim está tudo precisa e concisamente equilibrado.
O disco é agraciado com participações especiais do Paulo Tatit (do grupo Palavra Cantada e do projeto Pequeno Cidadão, acho que já postado por aqui) no violão de nylon, baixo, guitarra, vocais e composições, da Zaba Moreau, esposa (acho que é, confere?) nos teclados e vozes, e do mago Liminha que, além de produzir o álbum, também programa ritmo, toca guitarra e baixo na última faixa, 'Ninguém no carnaval'.

Nossa jornada musical começa com a faixa-título, próxima da poesia concreta musicada, mas mais próxima do trabalho com os Titãs ou Tribalistas, com elementos simples que fazem uma coisa mais complexa e multifacetada (papo USP, hein!_). Além da guitarra hard do Edgard Scandurra, que também é co-autor dessa e de outras músicas mais.

'Consciência', pela sonoridade e pela letra com pitadas de escatologia, poderia estar em algum disco dos Titãs. A separação tem a vantagem de manter o trabalho da banda de origem e mais os trabalhos solos dos membros desgarrados, principalmente no caso do Arnaldo, que continuou compondo para a antiga banda, ao contrário do Nando Reis, que só compõe agora pro Skank e pro Jota Quest... Aqui somos premiados por um solo marcante do nosso herói guitarrista Scandurra e uma declamação, felizmente curta, de poesia pelo Jorge Mautner.

'O nome disso' é divertidíssima, infantil e acelerada, com uma dinâmica que não deixa a letra simples ficar banal, além do diálogo vocal do Arnaldo com o Edgard.

'Nem tudo' é uma parceria do Toni Belloto com o Arnaldo (que além da voz, faz também 'sapato no assoalho'!!). Mais um solinho bacana!
"Nem tudo que se tem se usa
Nem tudo que se usa se tem"

Aí vem 'Alegria', uma das minhas preferidas, redondinha, com uma guitarra muito legal que inicia e prossegue fazendo uns barulinhos legais na faixa meio circense, o que inclusive faz um contraponto melancólico com a própria alegria da faixa.

'Budismo moderno' é feita sobre um poema do Augusto dos Anjos, parceria que arrisca ficar chata, o que felizmente não acontece, mesmo com a 'programação de serrote' (!) do Arnaldo... Tem uma sacação legal de 'silêncios surpresa' sincronizados com a letra.

'Fora de si', com a letra gramaticalmente incorreta porém mais expressiva do que todos os guardiões ortodoxos da língua, é um bom hard rock com mais um solinho criativo.

'Minha meu' é o limite da cabecice, e ainda bem que é uma só. Mais um rock acelerado.

'O seu olhar' é uma quase balada romântica, com a voz grave e estranha da Zaba acompanhando o Arnaldo. Também um violão exótico com alguma modulação bizarra a cargo do Paulo Tatit.

'Lugar comum' (João Donato/Gilberto Gil) é uma das ótimas escolhas para versões deste disco, ficando bem diferente da original e suas muitas 'covers' bossanovísticas. E mais uma vez, Edgard comparece dando o tom, com suas guitarras com ecos marítimos, além do solo mezzo oriental.
"Beira do mar
lugar comum
começo do caminhar
pra beira de outro lugar

à beira do mar
todo mar é um
começo do caminhar
pra dentro do fundo azul"

A outra versão é a surpreendente 'Judiaria' (Lupicínio Rodrigues), que aqui ganha uma cara bem rock'n'roll! Sensacional! Essa aqui meu atual chefe na banda 'Roni Rude e os Deselegantes' - ou Dezelegantes (em breve com disco na praça!) quer tocar ao vivo. Espero fazer uma guitarra à altura do nosso herói...

A parceria com Paulo Miklos, 'Tempo', também tangencia a erudição poética concreta, mas é bem legal, percussiva e com belas linhas de guitarra, além de uma voz sintetizada fantasmagórica ao fundo.

'Inspirado', parceria com Edvaldo Santana, não é das minha preferidas, mas acrescenta estranheza ao disco.

'No fundo' traz uma voz mega-grave do Arnaldo, timbre mais utilizado em discos posteriores, mesmo porque com a idade a voz 'baixa' alguns tons no registro de notas, o que leva muitas bandas a abaixarem a afinação dos instrumentos com o passar do tempo. Aqui os violões dão um tom quase caipira na música, além de umas guitarras de fundo muito legais.

'Quero' é mais uma com letra de poesia concreta, aqui com voz distorcida, guitarras harmonizadas a la Iron Maiden (por essa você não esperava, hein, Mateus?!) e batida marcial, o que mais uma vez a faz escapar da chatice cabeçuda. Boa pra ouvir com fones.

'Ninguém no carnaval' é a parceria com o Liminha, uma boa escolha pra fechar o disco, com muitas vozes sobrepostas, um quase caos de guitarras do Edgard com o Liminha, além da programação esperta dos ritmos, que se não fosse assim creditada eu nunca adivinharia que era a máquina tocando.
"Ninguém no carnaval
ninguém é de ninguém
no meio do mundo
todo mundo é todo mundo".
Acho inclusive que essa letra depois foi reciclada pelos Tribalistas...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Yanomami's Blues, Wahari (1999)


Acho difícil escrever sobre um disco desconhecido da maioria, e tentar descrevê-lo... Os discos são afinal para ser ouvidos, muito mais que comentados, e às vezes a descrição acaba ficando um tanto enfadonha. Eu gosto muito deste disco apesar de escutar pouco (por preferir ouvir canções à música instrumental), ele é bonito e tem um variação de humores muito interessante.


Wahari é o som do vento entrando pelas frestas das ocas e significa (se é que é possível uma tradução) vento brando da noite na língua Yanomami. É também o nome de uma banda curitibana (não, eu não sou amigo, sequer conheço qualquer um destes músicos...) formada pelos irmãos Augusto e Gustavo Weber (que na verdade são de Capanema, Oeste do estado) responsáveis pelo núcleo melódico da banda, o primeiro concentrando-se na guitarra e cítara e o segundo nas violas. Completam a banda Frederico Ferraz e Nilton Rodrigues, responsáveis por percussões as mais diversas, incluindo pandeiro, bongô, berimbau, triângulo, o que dá um ar bem brasileiro ao som do vento aqui.


Vento noturno portanto é a música nome da banda e inicia no oriente, com cítara e tabla e vem vindo pro ocidente com elementos percussivos, violão, violoncelo e viola entrando aos poucos, sem deixar que estes são confundam e mantendo uma harmonia impressionante. Já em Yanomami’s Blues o caminho é outro: nasce bem blues com violão e slide e aos poucos vem navegando rumo ao sul na percussão cheio de elementos típicos da música brasileira-africana, berimbau e bongôs entre outros.


O disco segue girando e em Terra Aberta a locomotiva é a viola. Aqui são duas, a tradicional de 10 cordas (5 oitavadas) e o que aqui é chamado de viola de sete bocas (e que eu já vi por aí com o nome de viola dinâmica. É o similar ao dobro ou resonator guitar, só que nacional...). E logo os vagões são coloridamente preenchidos por flautas e percussão variada. Estas três músicas trazem a síntese do trabalho do grupo, a mistura de blues, moda de viola e música indiana, formando uma espécie de “introdução” ao conteúdo musical do grupo. Pode parecer meio pizza de feijoada com costela de carneiro, mas estes elementos tão distintos aqui aparecem em convivência pacífica e natural, sem forçação de barra.


Viajando ao Espaço, voltam com a instrumentação repleta de tons da índia e uma linda guitarra tocada limpa, limpinha. Junto com London Bossa, que é outra embalada pela guitarra de Augusto, estas duas dão um ar mais urbano e contemporâneo ao disco, assim como duas músicas que aparecem mais pro final, A Bela Chinesa e Rio Soul, com toques de jazz-blues fusion temperados por elementos tipicamente Wahari.


Capanema’s Way é centrada nas cordas dos convidados Maska (violino) e Alesandro Laroca (violoncelo) que levam a canção como uma viagem de trem pelo interior. No final entram suavemente vozes femininas em coro. Além das três primeiras, destaca-se o Raga Nordestino que faz belo o improvável, começa ooooohmmmmm no harmonium (de Plínio Silva) e cítara e depois deriva pra olê Mulé Rendeira na viola, violão e triângulo. Lindíssima. E gosto também da Catira, ritmo e dança rural típico de SP, MG, bem caipira, com um toque pessoal de muita classe sem deixar de respeitar a tradição original.


Fecha o álbum uma inusitada versão do supremo clássico de Ari Baroso, Aquarela do Brasil, bem à moda da banda: começa com a cítara embalada pela tabla de Kiko Pereira, entoando esta velha conhecida nossa. Aos poucos, a índia vai sendo sambada pela percussão bem brasileira. Nada mais apropriado.


[M]


ps: para conhcecer melhor : www.wahari.com.br/



O Cinema Transcendental de Caetano Zenloso (1979)


O que eu gosto neste disco é o equilíbrio suave e natural apresentado na lista de canções que se não inclui aqueles super-clássicos-quarentena do baiano, traz algumas das suas mais bonitas composições. Nunca me preocupei em elencar, nem mesmo em pensamento, as minhas músicas preferidas deste mestre absoluto, mas certamente, se o fizesse, não poderia deixar de incluir Trilhos Urbanos e Oração ao Tempo.


Neste disco, temos o Caetano Zen (desde a capa!), deixando sua música fluir como uma inevitável corredeira rio abaixo. Nada de musas híbridas e suas carapinhas cúpricas. O cinema transcendental inicia a sessão saudando a Lua de São Jorge, Lua soberana, nobre porcelana sobre a seda azul. Mais zen impossível, esta música parece uma colagem de hai-cais sobre a lua. E adiante aparece Beleza Pura, não me amarra dinheiro não (bem, isso foi bem antes da Paula Lavigne). Balanço irresistível, parece um reggae, mas te pega no engano quando ele entra a contar daquela preta que começa a tratar do cabelo com as conchas do mar, com toda delícia e toda minúcia, o reggaezinho deriva pra quase um soul à (e á!) baiana, ato de pura devoção.


O Menino do Rio ganha uma versão mais lenta e arrastada e menos urgente do que aquela que ficou célebre na voz de Baby (então Consuelo. Aliás, versão definitiva, diga-se de passagem...). Seguida de uma interpretação malandra do Vampiro de Jorge Mautner, mostra um Caetano antenado em interesses menos ortodoxos...


Elegia é um poema do poeta inglês do século XVII, John Donne, traduzido por Augusto de Campos e musicado por Péricles Cavalcanti. Ainda assim, a canção passa a milhas da academia e transborda erotismo, liberto-me ficando teu escravo, nada pode ser mais preciso...


Cajuína ficou célebre, um xotezinho de improviso, simples na forma, e que mostra um Caetano já mais experimental nas palavras enquanto que Louco Por Você é o justo desfile da sensacional A Outra Banda da Terra que o acompanha neste disco maravilhoso... Aracaju, Badauê e Os Meninos Dançam não destoam, mas fecham o disco quase sem ser notadas, e não era pra menos, pois as outras canções são muito acima da média.


Voltando aos Trilhos Urbanos, o melhor o tempo esconde, e aqui Caetano mostra, leve e solto, o mestre que é, cantando e assobiando em ritmo de passeio de bonde, ora acentuando a penúltima sílaba, ora caprichando no iiiiii...


Mas aquela canção de dar inveja mesmo, de querer cobrir o cara de porrada por ser tão filhadaputamente bom, é Oração ao Tempo. O toque de Midas aqui é a percussão em ritmo de tica-tac levemente descompassado, o suficiente pra transformar o relógio e o passar contínuo e monótono do tempo em música.


Obra de um gênio. Ave caetano


[M]


ps: o post é dedicado ao Zeba e ao Xampu...

O cair da tarde, Ney Matogrosso




Como tenho pegado pesado por aqui (e assim continuarei, amigos não metálicos), hoje vou dar uma breve aliviada, afinal, ninguém é de ferro, com exceção do Tony Stark, Lemmy & Ozzy & Keith...


Gosto muito de 'Olhos de farol', também do Ney, que postarei aqui se ninguém o fizer primeiro, mas esse disco aqui é belíssimo, desde a escolha do repertório (imbatível na música brasileira!), a interpretação sempre excelente, os arranjos, o grupo de músicos 'acompanhantes' e finalmente, o projeto gráfico de extremo bom gosto. Por isso, inclusive, incluí mais uma imagem além da capa. Também porque o Ney, além de importantíssimo pra música brasileira, é um homem lindo em muitos sentidos.


Essa semana peguei o disco para ouvir no carro e entendi porque demorei pra postá-lo aqui, pois desde que o tenho, sempre o achei sensacional.

Mas a verdade é que é um disco melancólico, bem triste (o que, em se tratando do melhor repertório possível, talvez informe algo sobre a música e a alma, dentre as muitas possíveis, brasileiras). E aqui em Curitiba, principalmente nos meses frios (que são quase todos) e cinzentos (que são a maioria), ouvir música triste, mesmo que linda, não é aconselhável se você não planeja cortar os pulsos. Mas para aquela específica tarde pós tatuagem na barriga (não aconselho, dói MUITO), o bálsamo veio a calhar.

Vamos à obra então, que começa em alto nível com a faixa que dá nome ao disco, uma das 6 músicas do Maestro Heitor Villa-Lobos gravadas, aqui em parceria com Dora Vasconcellos. Piano lindo a cargo do também arranjador Leandro Braga, guitarra do craque Ricardo Silveira e colaboração do grupo 'experimental' Uakti, que comparece com tambor d´água e pios (!!!). Vocês, amigos colaboradores, deviam ver se aquele amigo bizarro tocador de vagem não foi recrutado pelo Uakti...


'Modinha' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) dá seqüência ao disco, com sua melancolia e beleza infinitas. Mais um arranjo delicadamente lindo.


'Veleiros', mais uma do Villa-Lobos, traz um pouco mais de cadência, um balanço de mar ao piano, uns sopros angelicais dividindo espaço com a voz do nosso intérprete garimpador. "Quanta tristeza/ ondas do mar/ nesse vai e vem/ sem me levar/ pois sempre eu fiz muita atenção/ em não pisar teu coração".


'Tema de amor de Gabriela' (que eu achava que era do Caymmi, mas é do Tom) continua trazendo doses de tristeza e requinte ao caldeirão. "A tua boca é meu doce, é meu sal/ mas quem sou nesta vida tão louca?/ mais um palhaço no teu carnaval/ Casa de sombra, vida de monge/ quanta cachaça na minha dor/ volta pra casa, fica comigo/ vem, que eu te espero tremendo de amor". Segura as pontas, ouvinte amigo, toma o lítio e não se mate!


Outra música chamada 'Modinha (serestas)', esta do Villa-Lobos com Manuel Bandeira, continua maltratando nossos corações e acariciando nossos ouvidos. "Na solidão da minha vida/ morrerei, querida/ do teu desamor/ muito embora me desprezes/ te amarei constante/ sem que a ti distante/ chegue a longe e triste voz do trovador".


'Sem você' (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) me faz pensar sobre o mito lingüístico de que a palavra saudade só existe em português. Porque é esse o sentimento predominante em grande parte do cancioneiro popular (e erudito/clássico, como esse disco demonstra), talvez a saudade lusitana tenha se somado ao banzo africano e à desilusão indígena.

"Meu amor/ meu amor/ nunca te ausentes de mim/ pra que eu viva em paz/ para que eu não sofra mais/ tanta mágoa assim/ no mundo sem você"


'Melodia sentimental', mais uma do Villa-Lobos/Dora Vasconcellos, é mais uma belezura, falando da lua, da noite, da sombra, da espera. Um pouco menos triste. Arranjo minimalista, quase inteiro só voz e piano, com uma discreta percussão.


'Canção em modo menor' (da dupla Tom/Vinícius) já me faz questionar sobre a influência dos tais modos menores (a saber: eólio, dórico, frígio e lócrio) em músicas mais tristes. Mas me falta conhecimento ou ouvido absoluto para emitir uma opinião técnica sobre as composições desse disco. Aqui só piano e voz. Triste, triste, triste. Bela, bela, bela. "Porque cada manhã me traz o mesmo sol sem resplendor/ e o dia é só um dia a mais/ e a noite é sempre a mesma dor/ porque o céu perdeu a cor/ e agora em cinza se desfaz"


'Prelúdio Nº 3 (Prelúdio da solidão)", de Villa-Lobos e Hermínio Bello de Carvalho dispensa explicação, mais do mesmo excelente vinho amargo. Meio etérea, quase flutuante.


Daqui pra frente o disco dá uma animada, primeiro adentrando no terreno do folclore, depois finalizando com o creme de la creme.


'Caicó (cantigas)' ainda é um pouco triste, mas o apelo popular e a familiaridade quase nos fazem sorrir.

O pout pourri 'Cirandas' traz músicas que todos cantamos ou ouvimos nas nossas infâncias: 'Se essa rua fosse minha', 'Terezinha de Jesus', 'Condessa', 'O cravo brigou com a rosa (instrumental)', 'A maré encheu' e 'Passa, passa, gavião (instrumental)'. O arranjo privilegia o som do Uakti, com percussões melódicas com sons exóticos, além dos belos sopros fazendo elementos de passagem.


E aí, se sobrevivemos a tanta beleza triste, somos premiados com três das melhores músicas já escritas nesse belo planeta azul, bem mais felizes (talvez as tonalidades sejam maiores por aqui, impressão minha), principalmente em relação ao repertório anterior: 'Trenzinho do caipira' (Heitor Villa-Lobos com poema de Ferreira Gullar!) , 'Águas de março' e 'Pato preto' (essa com um instrumento meio oriental e um solinho de viola!) , você sabe de quem, ou deveria saber!


Enfim, ouça, curta, se emocione, mas escolha um dia feliz, ensolarado e em boa companhia, sacou? Ou tome rivotril, prozac ou outro psicoativo eufórico.


E pra terminar uma sacada do grande frasista Tom Jobim, nosso maestro soberano, transcrita aqui no disco: "O Villa-Lobos é asim meu pai, é meu tudo. Estou com vontade de botar uma música do Villa-Lobos no meu disco. É mais do que uma homenagem, é pro disco ficar mais bonito. Pra eu sentir que tinha alguém que gostava mais de música do que eu".

Fullgás, Marina



Seguimos com mulheres cantoras, músicas, compositoras. Apesar dessa aqui não ser das preferidas do Mateus. Mas mesmo assim ele tem disco dela; gosta muito de música também o camarada e maior contribuidor do nosso blog!


Marina apareceu pro mundo da música através da Gal Costa, que gravou uma música sua, 'Meu doce amor', em 1977, que nem sei se foi regravada por ela mesma.

Tem como grande parceiro o irmão, poeta e filósofo (elogiado pelo Caê no livro 'Verdade tropical', mas isso também não garante nada), Antônio Cícero, neste disco com 4 músicas, uma versão e um poema declamado junto com a irmã.


Esse disco é o primeiro do qual eu me lembro, também algumas músicas tocaram bastante na rádio, que era pra mim um grande fonte de acesso, sem as facilidades (e suas conseqüências nem sempre positivas, como o pouco valor a um arquivo e a perda de sentido de um álbum como obra fechada) da nossa internet, paraíso do download 'de grátis'(sic).


Belo disco. Marina nos anos 90 começou a se chamar Marina Lima, mas esse aqui ainda é da Marina.


Começa com a faixa-título, pop delicioso, com a voz aveludada e aquele arranjo de época, muitos e muitos teclados, bateria eletrônica (mesmo tendo à disposição o excelente baterista - e compositor - Lobão, que toca em várias outras faixas do disco), baixo e produção do visionário Arnolpho Lima Filho, o Liminha, que inclusive comparece com um solaço de baixo virtuosístico e empolgante no fim da música, mas que infelizmente quase sempre era o momento 'vai abaixando o som' nas rádios e nos programas de auditório.

Meu único senão é a frase 'você me abre seus braços/ e a gente faz um país' que eu sempre preferia cantar, mesmo sem rimar, 'você me abre suas pernas/ e a gente faz um país', com muito mais sentido, antropo e biologicamente falando.


A segunda música é uma versão para 'Ordinary pain' do genial Stevie Wonder, aqui chamada 'Pé na tábua' (?), mais um pop gostoso que desce redondo.


'Pra sempre e mais um dia', além de título legal, é uma música legal também, sendo os destaques discretos as levadas nos pratos e contratempos do baterista Lobão, mesmo acompanhando a bateria eletrônica.


'Ensaios de amor', co-autoria com Ana Terra, traz mais uma dançante com uns efeitos percussivos de voz muito interessantes. Muitos teclados, alguns bem interessantes, cortesia do mestre Nico Rezende.


Aí vem uma versão pra uma música do Rei e do Tremendão, inusitada porque cantada por uma mulher, afinal a música fala sobre um homem pra chamar de seu, 'Mesmo que seja eu'. Mas gêneros são fluidos, a cada dia mais. Aqui finalmente não tem bateria eletrônica e traz a sempre ilustre presença do senhor Paulinho Guitarra que toca...ah, fala sério! Boa versão. Acho que quem cantava essa era o Erasmo, confere, fãs?


'Me chama' é uma música linda, já clássica, que 'sofreu' muitas versões, até mesmo do Mestre João Gilberto (que inclusive alterou a letra, pra desgosto do autor; se fosse comigo eu até parava de compor...), mas acho que essa aqui foi a primeira gravação, toda bonita, com um arranjo crescendo, guitarra bonita e uma levada de bateria muito esperta do compositor Lobão.

"Nem sempre se vê lágrimas no escuro,

nem sempre se vê mágica no absurdo,

nem sempre se vê,

cadê você?"


'Mesmo se o vento levou' é uma pérola desconhecida, com mais um arranjo caprichado e bela letra.


'Cícero e Marina' é um poema declamado pelos irmãos, cada um sobre si mesmo, recíprocos cobras nos paraísos alheios.


'Veneno' é uma versão de um música italiana que desconheço completamente. Nelson Motta comete essa aqui, depois ele repetiria a dose no álbum de estréia da Marisa Monte, com a hiper-saturada 'Bem que se quis'.


'Mais uma vez' é uma música da certeira parceria Nelson Motta/Lulu Santos, que aqui comparece com guitarra (com um ebow bem diferente, segura uma nota, um solo limpo e uma slide guitar discreta), bateria digital (com um efeito estéreo criativo, melhor ouvido em fones) e teclado korg lambada (?!).


'Nosso estilo' fecha bem o disco, uma parceria dos irmãos com Lobão, com um baixão slap por Pedro Baldanza, guitarra pelo Toquato Mariano (produtor de sucesso hoje em dia) e aqueles 'ô ô ô' de fundo pelo Lobão (também melhor ouvidos com fone). Aqui os teclados tem um efeito mais criativo, alterando o pitch e criando um efeito tenso de trilha sonora.


"E esses caretas ficam mais e mais banais"

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abreugrafia (1997)

Liberadas as coletâneas, eis mais uma. Bem, na verdade esta não é exatamente uma coletânea, porque a cantora resolveu regravar novas versões de seus maiores sucessos e adicionou ainda, aqui e ali, canções (na sua voz) inéditas. Se os discos da Fernandinha eram um problema, pois muito irregulares, misturando poucas ótimas canções com alguns momentos simplesmente desprezíveis (bem, Veneno da Lata é acima da média. Da média dela), a solução veio melhor que a encomenda.

Abre com a faixa que dá nome ao disco, Raio X, uma introdução ao projeto musical, como abstract de um artigo científico. Gosto muito também de Aquarela Brasileira que vem em seguida, música que aparece disfarçada de colarzinho na capa do álbum. Em seguida Fernanda apresenta Jacksoul Lenine Brasileiro, convidado que rapidinho se tornaria maior que a anfitriã, grande canção do pernambucano, muito bem acompanhado da carioquíssima sangue bom.

E de olho em Pernambuco, a garota suingue traz Chico Science para o Rio 40 graus, onde ele se sente muitíssimo à vontade, e termina a melhor canção da Fernandinha entoando um único "sô carioca, pô!". Jorge da Capadócia é outra das minhas interpretações favoritas, mas a versão deste disco é muito inferior àquela lançada originalmente junto com Rio 40 Graus, em SLA 2 - Be Sample, disco de... 92? por aí...

Speed Racer não é uma grande canção. Passaria totalmente desapercebida se não fosse o arranjo primoroso e a guitarra limpa e precisa de Fernando Vidal. É o tipo do jantar em que o acompanhamento é melhor que o prato principal. Ponto alto também para Um Amor Um Lugar (do paralama colaborador e amigo Herbert), Veneno da Lata e Kátia Flávia a Godiva do Irajá, hit sem par do amigão e parceiro Fausto Fawcett que recebe aqui uma versão avassaladora.

Fechando o disco,
É Hoje o di-i-aaaa da alegri-i-a-aaaa e a tristeza, nem pode pensar em chegar!


Justo, para um disco tão festivo e inspirado, que representa o melhor de uma cantora que, se não tem aqueeeela voz, tem bom-gosto e sensibilidade suficiente para conceber esta obra-prima, uma das melhores dos anos 90.

Garota sangue quente, suingue, sangue bom!

[M]