
terça-feira, 31 de maio de 2011
Krig-Ha Bandolo!, Raul Seixas

segunda-feira, 30 de maio de 2011
Ninguém, Arnaldo Antunes
Esse é o primeiro cd do Arnaldo que eu posto, acho que foi o primeiro que eu comprei dele, ainda bem que com o Scandurra, o que me traz o melhor do Ira! sem a voz do Nasi...
Falando agora sem provocações com o amigo Zeba (defensor do Nasi, o qual inclusive não estou atacando, eu só não gosto da voz dele...), gosto muito do som resultante da guitarra criativa do Edgard misturado com as pirações criativas e deliciosas do Arnaldo. Em outros discos como 'Um som', 'O silêncio' ou principalmente o 'Nomes', a piração às vezes extrapola o meu limite com a cabecice, mas aqui pra mim está tudo precisa e concisamente equilibrado.
O disco é agraciado com participações especiais do Paulo Tatit (do grupo Palavra Cantada e do projeto Pequeno Cidadão, acho que já postado por aqui) no violão de nylon, baixo, guitarra, vocais e composições, da Zaba Moreau, esposa (acho que é, confere?) nos teclados e vozes, e do mago Liminha que, além de produzir o álbum, também programa ritmo, toca guitarra e baixo na última faixa, 'Ninguém no carnaval'.
Nossa jornada musical começa com a faixa-título, próxima da poesia concreta musicada, mas mais próxima do trabalho com os Titãs ou Tribalistas, com elementos simples que fazem uma coisa mais complexa e multifacetada (papo USP, hein!_). Além da guitarra hard do Edgard Scandurra, que também é co-autor dessa e de outras músicas mais.
'Consciência', pela sonoridade e pela letra com pitadas de escatologia, poderia estar em algum disco dos Titãs. A separação tem a vantagem de manter o trabalho da banda de origem e mais os trabalhos solos dos membros desgarrados, principalmente no caso do Arnaldo, que continuou compondo para a antiga banda, ao contrário do Nando Reis, que só compõe agora pro Skank e pro Jota Quest... Aqui somos premiados por um solo marcante do nosso herói guitarrista Scandurra e uma declamação, felizmente curta, de poesia pelo Jorge Mautner.
'O nome disso' é divertidíssima, infantil e acelerada, com uma dinâmica que não deixa a letra simples ficar banal, além do diálogo vocal do Arnaldo com o Edgard.
'Nem tudo' é uma parceria do Toni Belloto com o Arnaldo (que além da voz, faz também 'sapato no assoalho'!!). Mais um solinho bacana!
"Nem tudo que se tem se usa
Nem tudo que se usa se tem"
Aí vem 'Alegria', uma das minhas preferidas, redondinha, com uma guitarra muito legal que inicia e prossegue fazendo uns barulinhos legais na faixa meio circense, o que inclusive faz um contraponto melancólico com a própria alegria da faixa.
'Budismo moderno' é feita sobre um poema do Augusto dos Anjos, parceria que arrisca ficar chata, o que felizmente não acontece, mesmo com a 'programação de serrote' (!) do Arnaldo... Tem uma sacação legal de 'silêncios surpresa' sincronizados com a letra.
'Fora de si', com a letra gramaticalmente incorreta porém mais expressiva do que todos os guardiões ortodoxos da língua, é um bom hard rock com mais um solinho criativo.
'Minha meu' é o limite da cabecice, e ainda bem que é uma só. Mais um rock acelerado.
'O seu olhar' é uma quase balada romântica, com a voz grave e estranha da Zaba acompanhando o Arnaldo. Também um violão exótico com alguma modulação bizarra a cargo do Paulo Tatit.
'Lugar comum' (João Donato/Gilberto Gil) é uma das ótimas escolhas para versões deste disco, ficando bem diferente da original e suas muitas 'covers' bossanovísticas. E mais uma vez, Edgard comparece dando o tom, com suas guitarras com ecos marítimos, além do solo mezzo oriental.
"Beira do mar
lugar comum
começo do caminhar
pra beira de outro lugar
à beira do mar
todo mar é um
começo do caminhar
pra dentro do fundo azul"
A outra versão é a surpreendente 'Judiaria' (Lupicínio Rodrigues), que aqui ganha uma cara bem rock'n'roll! Sensacional! Essa aqui meu atual chefe na banda 'Roni Rude e os Deselegantes' - ou Dezelegantes (em breve com disco na praça!) quer tocar ao vivo. Espero fazer uma guitarra à altura do nosso herói...
A parceria com Paulo Miklos, 'Tempo', também tangencia a erudição poética concreta, mas é bem legal, percussiva e com belas linhas de guitarra, além de uma voz sintetizada fantasmagórica ao fundo.
'Inspirado', parceria com Edvaldo Santana, não é das minha preferidas, mas acrescenta estranheza ao disco.
'No fundo' traz uma voz mega-grave do Arnaldo, timbre mais utilizado em discos posteriores, mesmo porque com a idade a voz 'baixa' alguns tons no registro de notas, o que leva muitas bandas a abaixarem a afinação dos instrumentos com o passar do tempo. Aqui os violões dão um tom quase caipira na música, além de umas guitarras de fundo muito legais.
'Quero' é mais uma com letra de poesia concreta, aqui com voz distorcida, guitarras harmonizadas a la Iron Maiden (por essa você não esperava, hein, Mateus?!) e batida marcial, o que mais uma vez a faz escapar da chatice cabeçuda. Boa pra ouvir com fones.
'Ninguém no carnaval' é a parceria com o Liminha, uma boa escolha pra fechar o disco, com muitas vozes sobrepostas, um quase caos de guitarras do Edgard com o Liminha, além da programação esperta dos ritmos, que se não fosse assim creditada eu nunca adivinharia que era a máquina tocando.
"Ninguém no carnaval
ninguém é de ninguém
no meio do mundo
todo mundo é todo mundo".
Acho inclusive que essa letra depois foi reciclada pelos Tribalistas...
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Yanomami's Blues, Wahari (1999)

Acho difícil escrever sobre um disco desconhecido da maioria, e tentar descrevê-lo... Os discos são afinal para ser ouvidos, muito mais que comentados, e às vezes a descrição acaba ficando um tanto enfadonha. Eu gosto muito deste disco apesar de escutar pouco (por preferir ouvir canções à música instrumental), ele é bonito e tem um variação de humores muito interessante.
Wahari é o som do vento entrando pelas frestas das ocas e significa (se é que é possível uma tradução) vento brando da noite na língua Yanomami. É também o nome de uma banda curitibana (não, eu não sou amigo, sequer conheço qualquer um destes músicos...) formada pelos irmãos Augusto e Gustavo Weber (que na verdade são de Capanema, Oeste do estado) responsáveis pelo núcleo melódico da banda, o primeiro concentrando-se na guitarra e cítara e o segundo nas violas. Completam a banda Frederico Ferraz e Nilton Rodrigues, responsáveis por percussões as mais diversas, incluindo pandeiro, bongô, berimbau, triângulo, o que dá um ar bem brasileiro ao som do vento aqui.
Vento noturno portanto é a música nome da banda e inicia no oriente, com cítara e tabla e vem vindo pro ocidente com elementos percussivos, violão, violoncelo e viola entrando aos poucos, sem deixar que estes são confundam e mantendo uma harmonia impressionante. Já em Yanomami’s Blues o caminho é outro: nasce bem blues com violão e slide e aos poucos vem navegando rumo ao sul na percussão cheio de elementos típicos da música brasileira-africana, berimbau e bongôs entre outros.
O disco segue girando e em Terra Aberta a locomotiva é a viola. Aqui são duas, a tradicional de 10 cordas (5 oitavadas) e o que aqui é chamado de viola de sete bocas (e que eu já vi por aí com o nome de viola dinâmica. É o similar ao dobro ou resonator guitar, só que nacional...). E logo os vagões são coloridamente preenchidos por flautas e percussão variada. Estas três músicas trazem a síntese do trabalho do grupo, a mistura de blues, moda de viola e música indiana, formando uma espécie de “introdução” ao conteúdo musical do grupo. Pode parecer meio pizza de feijoada com costela de carneiro, mas estes elementos tão distintos aqui aparecem em convivência pacífica e natural, sem forçação de barra.
Viajando ao Espaço, voltam com a instrumentação repleta de tons da índia e uma linda guitarra tocada limpa, limpinha. Junto com London Bossa, que é outra embalada pela guitarra de Augusto, estas duas dão um ar mais urbano e contemporâneo ao disco, assim como duas músicas que aparecem mais pro final, A Bela Chinesa e Rio Soul, com toques de jazz-blues fusion temperados por elementos tipicamente Wahari.
Já Capanema’s Way é centrada nas cordas dos convidados Maska (violino) e Alesandro Laroca (violoncelo) que levam a canção como uma viagem de trem pelo interior. No final entram suavemente vozes femininas em coro. Além das três primeiras, destaca-se o Raga Nordestino que faz belo o improvável, começa ooooohmmmmm no harmonium (de Plínio Silva) e cítara e depois deriva pra olê Mulé Rendeira na viola, violão e triângulo. Lindíssima. E gosto também da Catira, ritmo e dança rural típico de SP, MG, bem caipira, com um toque pessoal de muita classe sem deixar de respeitar a tradição original.
Fecha o álbum uma inusitada versão do supremo clássico de Ari Baroso, Aquarela do Brasil, bem à moda da banda: começa com a cítara embalada pela tabla de Kiko Pereira, entoando esta velha conhecida nossa. Aos poucos, a índia vai sendo sambada pela percussão bem brasileira. Nada mais apropriado.
[M]
ps: para conhcecer melhor : www.wahari.com.br/
O Cinema Transcendental de Caetano Zenloso (1979)

O que eu gosto neste disco é o equilíbrio suave e natural apresentado na lista de canções que se não inclui aqueles super-clássicos-quarentena do baiano, traz algumas das suas mais bonitas composições. Nunca me preocupei em elencar, nem mesmo em pensamento, as minhas músicas preferidas deste mestre absoluto, mas certamente, se o fizesse, não poderia deixar de incluir Trilhos Urbanos e Oração ao Tempo.
Neste disco, temos o Caetano Zen (desde a capa!), deixando sua música fluir como uma inevitável corredeira rio abaixo. Nada de musas híbridas e suas carapinhas cúpricas. O cinema transcendental inicia a sessão saudando a Lua de São Jorge, Lua soberana, nobre porcelana sobre a seda azul. Mais zen impossível, esta música parece uma colagem de hai-cais sobre a lua. E adiante aparece Beleza Pura, não me amarra dinheiro não (bem, isso foi bem antes da Paula Lavigne). Balanço irresistível, parece um reggae, mas te pega no engano quando ele entra a contar daquela preta que começa a tratar do cabelo com as conchas do mar, com toda delícia e toda minúcia, o reggaezinho deriva pra quase um soul à (e á!) baiana, ato de pura devoção.
O Menino do Rio ganha uma versão mais lenta e arrastada e menos urgente do que aquela que ficou célebre na voz de Baby (então Consuelo. Aliás, versão definitiva, diga-se de passagem...). Seguida de uma interpretação malandra do Vampiro de Jorge Mautner, mostra um Caetano antenado em interesses menos ortodoxos...
Elegia é um poema do poeta inglês do século XVII, John Donne, traduzido por Augusto de Campos e musicado por Péricles Cavalcanti. Ainda assim, a canção passa a milhas da academia e transborda erotismo, liberto-me ficando teu escravo, nada pode ser mais preciso...
Cajuína ficou célebre, um xotezinho de improviso, simples na forma, e que mostra um Caetano já mais experimental nas palavras enquanto que Louco Por Você é o justo desfile da sensacional A Outra Banda da Terra que o acompanha neste disco maravilhoso... Aracaju, Badauê e Os Meninos Dançam não destoam, mas fecham o disco quase sem ser notadas, e não era pra menos, pois as outras canções são muito acima da média.
Voltando aos Trilhos Urbanos, o melhor o tempo esconde, e aqui Caetano mostra, leve e solto, o mestre que é, cantando e assobiando em ritmo de passeio de bonde, ora acentuando a penúltima sílaba, ora caprichando no iiiiii...
Mas aquela canção de dar inveja mesmo, de querer cobrir o cara de porrada por ser tão filhadaputamente bom, é Oração ao Tempo. O toque de Midas aqui é a percussão em ritmo de tica-tac levemente descompassado, o suficiente pra transformar o relógio e o passar contínuo e monótono do tempo em música.
Obra de um gênio. Ave caetano
[M]
ps: o post é dedicado ao Zeba e ao Xampu...
O cair da tarde, Ney Matogrosso

Vamos à obra então, que começa em alto nível com a faixa que dá nome ao disco, uma das 6 músicas do Maestro Heitor Villa-Lobos gravadas, aqui em parceria com Dora Vasconcellos. Piano lindo a cargo do também arranjador Leandro Braga, guitarra do craque Ricardo Silveira e colaboração do grupo 'experimental' Uakti, que comparece com tambor d´água e pios (!!!). Vocês, amigos colaboradores, deviam ver se aquele amigo bizarro tocador de vagem não foi recrutado pelo Uakti...
Fullgás, Marina

terça-feira, 24 de maio de 2011
Abreugrafia (1997)
Liberadas as coletâneas, eis mais uma. Bem, na verdade esta não é exatamente uma coletânea, porque a cantora resolveu regravar novas versões de seus maiores sucessos e adicionou ainda, aqui e ali, canções (na sua voz) inéditas. Se os discos da Fernandinha eram um problema, pois muito irregulares, misturando poucas ótimas canções com alguns momentos simplesmente desprezíveis (bem, Veneno da Lata é acima da média. Da média dela), a solução veio melhor que a encomenda.Abre com a faixa que dá nome ao disco, Raio X, uma introdução ao projeto musical, como abstract de um artigo científico. Gosto muito também de Aquarela Brasileira que vem em seguida, música que aparece disfarçada de colarzinho na capa do álbum. Em seguida Fernanda apresenta Jacksoul Lenine Brasileiro, convidado que rapidinho se tornaria maior que a anfitriã, grande canção do pernambucano, muito bem acompanhado da carioquíssima sangue bom.
E de olho em Pernambuco, a garota suingue traz Chico Science para o Rio 40 graus, onde ele se sente muitíssimo à vontade, e termina a melhor canção da Fernandinha entoando um único "sô carioca, pô!". Jorge da Capadócia é outra das minhas interpretações favoritas, mas a versão deste disco é muito inferior àquela lançada originalmente junto com Rio 40 Graus, em SLA 2 - Be Sample, disco de... 92? por aí...
Speed Racer não é uma grande canção. Passaria totalmente desapercebida se não fosse o arranjo primoroso e a guitarra limpa e precisa de Fernando Vidal. É o tipo do jantar em que o acompanhamento é melhor que o prato principal. Ponto alto também para Um Amor Um Lugar (do paralama colaborador e amigo Herbert), Veneno da Lata e Kátia Flávia a Godiva do Irajá, hit sem par do amigão e parceiro Fausto Fawcett que recebe aqui uma versão avassaladora.
É Hoje o di-i-aaaa da alegri-i-a-aaaa e a tristeza, nem pode pensar em chegar!
Justo, para um disco tão festivo e inspirado, que representa o melhor de uma cantora que, se não tem aqueeeela voz, tem bom-gosto e sensibilidade suficiente para conceber esta obra-prima, uma das melhores dos anos 90.
Garota sangue quente, suingue, sangue bom!
[M]
