quinta-feira, 26 de maio de 2011

Fullgás, Marina



Seguimos com mulheres cantoras, músicas, compositoras. Apesar dessa aqui não ser das preferidas do Mateus. Mas mesmo assim ele tem disco dela; gosta muito de música também o camarada e maior contribuidor do nosso blog!


Marina apareceu pro mundo da música através da Gal Costa, que gravou uma música sua, 'Meu doce amor', em 1977, que nem sei se foi regravada por ela mesma.

Tem como grande parceiro o irmão, poeta e filósofo (elogiado pelo Caê no livro 'Verdade tropical', mas isso também não garante nada), Antônio Cícero, neste disco com 4 músicas, uma versão e um poema declamado junto com a irmã.


Esse disco é o primeiro do qual eu me lembro, também algumas músicas tocaram bastante na rádio, que era pra mim um grande fonte de acesso, sem as facilidades (e suas conseqüências nem sempre positivas, como o pouco valor a um arquivo e a perda de sentido de um álbum como obra fechada) da nossa internet, paraíso do download 'de grátis'(sic).


Belo disco. Marina nos anos 90 começou a se chamar Marina Lima, mas esse aqui ainda é da Marina.


Começa com a faixa-título, pop delicioso, com a voz aveludada e aquele arranjo de época, muitos e muitos teclados, bateria eletrônica (mesmo tendo à disposição o excelente baterista - e compositor - Lobão, que toca em várias outras faixas do disco), baixo e produção do visionário Arnolpho Lima Filho, o Liminha, que inclusive comparece com um solaço de baixo virtuosístico e empolgante no fim da música, mas que infelizmente quase sempre era o momento 'vai abaixando o som' nas rádios e nos programas de auditório.

Meu único senão é a frase 'você me abre seus braços/ e a gente faz um país' que eu sempre preferia cantar, mesmo sem rimar, 'você me abre suas pernas/ e a gente faz um país', com muito mais sentido, antropo e biologicamente falando.


A segunda música é uma versão para 'Ordinary pain' do genial Stevie Wonder, aqui chamada 'Pé na tábua' (?), mais um pop gostoso que desce redondo.


'Pra sempre e mais um dia', além de título legal, é uma música legal também, sendo os destaques discretos as levadas nos pratos e contratempos do baterista Lobão, mesmo acompanhando a bateria eletrônica.


'Ensaios de amor', co-autoria com Ana Terra, traz mais uma dançante com uns efeitos percussivos de voz muito interessantes. Muitos teclados, alguns bem interessantes, cortesia do mestre Nico Rezende.


Aí vem uma versão pra uma música do Rei e do Tremendão, inusitada porque cantada por uma mulher, afinal a música fala sobre um homem pra chamar de seu, 'Mesmo que seja eu'. Mas gêneros são fluidos, a cada dia mais. Aqui finalmente não tem bateria eletrônica e traz a sempre ilustre presença do senhor Paulinho Guitarra que toca...ah, fala sério! Boa versão. Acho que quem cantava essa era o Erasmo, confere, fãs?


'Me chama' é uma música linda, já clássica, que 'sofreu' muitas versões, até mesmo do Mestre João Gilberto (que inclusive alterou a letra, pra desgosto do autor; se fosse comigo eu até parava de compor...), mas acho que essa aqui foi a primeira gravação, toda bonita, com um arranjo crescendo, guitarra bonita e uma levada de bateria muito esperta do compositor Lobão.

"Nem sempre se vê lágrimas no escuro,

nem sempre se vê mágica no absurdo,

nem sempre se vê,

cadê você?"


'Mesmo se o vento levou' é uma pérola desconhecida, com mais um arranjo caprichado e bela letra.


'Cícero e Marina' é um poema declamado pelos irmãos, cada um sobre si mesmo, recíprocos cobras nos paraísos alheios.


'Veneno' é uma versão de um música italiana que desconheço completamente. Nelson Motta comete essa aqui, depois ele repetiria a dose no álbum de estréia da Marisa Monte, com a hiper-saturada 'Bem que se quis'.


'Mais uma vez' é uma música da certeira parceria Nelson Motta/Lulu Santos, que aqui comparece com guitarra (com um ebow bem diferente, segura uma nota, um solo limpo e uma slide guitar discreta), bateria digital (com um efeito estéreo criativo, melhor ouvido em fones) e teclado korg lambada (?!).


'Nosso estilo' fecha bem o disco, uma parceria dos irmãos com Lobão, com um baixão slap por Pedro Baldanza, guitarra pelo Toquato Mariano (produtor de sucesso hoje em dia) e aqueles 'ô ô ô' de fundo pelo Lobão (também melhor ouvidos com fone). Aqui os teclados tem um efeito mais criativo, alterando o pitch e criando um efeito tenso de trilha sonora.


"E esses caretas ficam mais e mais banais"

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abreugrafia (1997)

Liberadas as coletâneas, eis mais uma. Bem, na verdade esta não é exatamente uma coletânea, porque a cantora resolveu regravar novas versões de seus maiores sucessos e adicionou ainda, aqui e ali, canções (na sua voz) inéditas. Se os discos da Fernandinha eram um problema, pois muito irregulares, misturando poucas ótimas canções com alguns momentos simplesmente desprezíveis (bem, Veneno da Lata é acima da média. Da média dela), a solução veio melhor que a encomenda.

Abre com a faixa que dá nome ao disco, Raio X, uma introdução ao projeto musical, como abstract de um artigo científico. Gosto muito também de Aquarela Brasileira que vem em seguida, música que aparece disfarçada de colarzinho na capa do álbum. Em seguida Fernanda apresenta Jacksoul Lenine Brasileiro, convidado que rapidinho se tornaria maior que a anfitriã, grande canção do pernambucano, muito bem acompanhado da carioquíssima sangue bom.

E de olho em Pernambuco, a garota suingue traz Chico Science para o Rio 40 graus, onde ele se sente muitíssimo à vontade, e termina a melhor canção da Fernandinha entoando um único "sô carioca, pô!". Jorge da Capadócia é outra das minhas interpretações favoritas, mas a versão deste disco é muito inferior àquela lançada originalmente junto com Rio 40 Graus, em SLA 2 - Be Sample, disco de... 92? por aí...

Speed Racer não é uma grande canção. Passaria totalmente desapercebida se não fosse o arranjo primoroso e a guitarra limpa e precisa de Fernando Vidal. É o tipo do jantar em que o acompanhamento é melhor que o prato principal. Ponto alto também para Um Amor Um Lugar (do paralama colaborador e amigo Herbert), Veneno da Lata e Kátia Flávia a Godiva do Irajá, hit sem par do amigão e parceiro Fausto Fawcett que recebe aqui uma versão avassaladora.

Fechando o disco,
É Hoje o di-i-aaaa da alegri-i-a-aaaa e a tristeza, nem pode pensar em chegar!


Justo, para um disco tão festivo e inspirado, que representa o melhor de uma cantora que, se não tem aqueeeela voz, tem bom-gosto e sensibilidade suficiente para conceber esta obra-prima, uma das melhores dos anos 90.

Garota sangue quente, suingue, sangue bom!

[M]

domingo, 22 de maio de 2011

Vingança, Azul Limão


Voltamos à programação metal e, conseqüentemente, às capas toscas e bizarras...
Entre outras idiossincrasias, o heavy metal é criticado por uma temática de fantasia, castelos, dragões, satanismo etc.
Mas esse disco também traz letras mais contemporâneas e críticas, APESAR da capa acima.

Como cantava a torcida mais gay do Rio 'recordar é viver'.
Representante do metal carioca dos anos 80, esse disco foi gravado em condições 'precárias', mas mesmo assim traz um som razoável (para a época, claro), principalmente o instrumental típico, já que a voz tem uma sonoridade sofrível, principalmente nos momentos 'gritos a Rob Halford', justamente pela provável inexperiência do estúdio em gravar esse tipo de som, aliado ao fatos de que o vocalista (Rodrigo Esteves) não é o Rob Halford nem o Bruce Dickinson e ainda os vocais não terem sido 'dobrados', recurso freqüente que encorpa vozes, principalmente agudos sem punch.

Lembro de vê-los tocar no arcaico Caverna II, 'templo do metal carioca' (depois honradamente substituído pelo Garage), que ficava ao lado do shopping Rio Sul próximo ao Canecão, no Rio de Janeiro, junto com outras bandas daquela época, tais como Calibre 38, Metalmorphose e Dorsal Atlântica (que em breve terá um disco postado aqui). Naquele solão de 40ºC e a galera toda de preto e coturnos...é, o metal não foi feito pro Rio, como desmonstram a ausência freqüente de shows que não mais passam por lá. Também tocavam no Circo Voador às vezes, dividindo inclusive o palco com Robertinho do Recife na sua fase metal e o lendário guitarrista, hoje habitante de Joinville, Celso Blues Boy (que também merece um disco por aqui). Tempos mais tolerantes.

Também lembro de demo-tapes que tocavam na rádio Fluminense FM, nos programas Guitarras e Rock Alive, quando eu e meu irmão Adolpho ficávamos com as fitas K7 a postos para gravar algo inédito e/ou interessante, não necessariamente ao mesmo tempo... O Azul emplacava às vezes 'Johnny voltou' e 'Não vou mais falar', depois regravada para este álbum aqui resenhado.

Antes, chegaram a gravar um compacto para o selo B.B. Records do Billy Bond, no estúdio da Polygram, mas não foi lançado por ser 'muito pesado' para as rádios rock da época, rendendo só uma versão bem gravada de 'Satã clama metal', tocada na programação da Maldita.

Trata-se de um disco curto (acreditem, já existiram discos com menos de 70 minutos, nos tempos do vinil!) e com letras ingênuas. Mas é original, com estilo e garra. E é METAL, porra!

Começa com uma 'Introdução' rápida e emenda em 'As portas da imaginação', que 'não são mais que ilusão'. Música que começa rápida e dá aquela quebrada no meio. Volta a acelerar e tem um belo solo com ótimo som (milagroso!) quase no fim.
'Satã clama metal' é legal, rápida e na adrenalina, mas é quase caricato com a letra típica.
'Sangue frio' é minha preferida, um blues heavy com aquela levada pesada e as convenções típicas. Além disso, a voz é menos gritada, e aí vemos que é bonita. E a letra também é bem melhor:
"Dias e noites passam
E eu sempre a procurar
Alguém que possa ver
Ou entender o que eu vou tocar
Às vezes me sinto só
Ao lado da hipocrisia
Virei um homem de metal
Perdia a noção de gostar
Somos o corte profundo
Luz do sol"
(Tá tudo bem, não é Caetano, mas nem é pra ser, né?)
Tem um solo bem bonito também, sem malabarismo e emocionante, com vocais coletivos fechando bem com os 'ô ô ôs'.
'Fora da lei' é mais um boa música, com intro metal e acelerada depois, e um baixão na cara. Mas a voz parece outra língua, totalmente incompreensível...exceto no refrão. Aqui um solo rápido e legal, mas mixado baixo. Urros e bateção de cabeça!
'Não vou mais falar' é uma das que tocava em rádios, boa música bem canata e tocada, com apelo quase pop e uma letra interessante:
"Não vou mais falar em amor
Pois o ódio se apossou
Não vou mais falar em estrelas
Pois o universo todo se apagou
Só este sonho permanece
Só essa vida me enlouquece
Estou perdido, perdido no espaço
Quero acabar com o meu cansaço
Tudo que eu tenho é rock’n’roll
Pois só ele me dominou
Não vou mais falar em paixão
Estou derrotado, caído no chão"
Ainda se cantava em português o metal nacional. Em inglês, tirando o Sepultura, eu nem ouço.
'O grito' é mais uma no clima blues metal, com um bom riff e mais uma vez a bela voz cantada. No meio tem uma guitarra limpa bonita que caiu muito bem na mixagem. E um solo magistral, dobrado com perfeição, depois espalhado e dialogando pelos canais direito e esquerdo (apesar dos elogios da Andréa, esses aspectos técnicos às vezes são entediantes pra quem não é músico, eu sei).
"Se num mar de estrelas
Nós vamos deitar
Com o mais lindo sonho
Nós vamos sonhar
Ver a liberdade fatigando a mente
Entrando num mundo que tudo é diferente"(sic)

'Você não faz nada' é a menos legal pra mim, mais uma rápida mas com uma letra ainda atual:
"Pra tanta violência basta indiferença de quem pode mudar, de quem pode gritar
E você não faz nada
E você não faz nada "

O disco termina bem, com a acelerada faixa título, onde se ouve melhor a voz e seus gritos em falsete, além do instrumental nítido e o solo de bateria no fim.

A banda, além do vocal citado, tinha os seguintes músicos: Ricardo Martins (bateria), Vinícius Mathias (baixo) e Marcos Dantas (guitarra). Depois Rodrigo foi cantar ópera na Espanha(!!), o baixista também deixa a banda e rola um show de despedida em 1989, sendo que por duas vezes, em visitas do Rodrigo ao Brasil, a banda tocou no Garage. Marcos e André Chamon (baterista do Stress que chegou a tocar com o Azul numa reencarnação mista) formaram o X-Rated, banda de metal que chegou a ter alguma projeção local.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Tempos modernos, Lulu Santos



Bom, depois da longa e elaborada manufatura da postagem do Camelo (e sofrida, porque fui vendo que nunca ficaria Andréa style), vamos pra uma mais fluida e fácil, atendendo ao pedido do (quase fictício) amigo Baiano.


Primeiro assinado só pelo Lulu (antes, em 1981, tinha lançado em parceria com Nelson Mota 'Tesouros da juventude'), tem clássicos eternos, regravados e sempre re-arranjados, parecendo uma coletânea (ops).


Começa com tudo, a faixa título tem aquele riff fluido seguido de um comentário da slide guitar meio havaiana do nosso herói pop. A letra é muito boa, otimista sem ser piegas. Já foi gravada pela Marisa Monte numa versão muito legal no disco 'Barulinho bom'. "E não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir". E termina com aquelas cordas fake tão anos 80 a cargo do mago execrado Lincoln Olivetti.


Na seqüência mais uma clássica eterna, 'Tudo com você', com todo o pacote Lulu: letra romântica, guitarra bonita e marcante, refrão emocionante e ganchudo. Enfim, vocês conhecem. "Foi mais profundo com você, me fez chorar mas fez viver, não vá para Nova York, não, não vá".


'De repente California' também é sempre presente em shows e nas muitas coletâneas do Lulu. Surf music sem ser surf music. É uma parceria com Nelson Motta, um quase tango com guitarra slide quase havaiana de novo, aqui num solinho marcante e redondinho. Mais tarde, quando todos estavam fascinados pelo Buena Vista Social Clube, Lulu pôde dizer convicto "eu já tinha feito isso".


Aqui vem uma das menos conhecidas, autoria de Rita Lee pra Scarlet Moon (é esse o nome da música), mulher do guitarrista eclético e inventivo. Pop, cheio de 'uh uh uuuuuhs'. Solinho com drive, como não mais se vê.


'Sirigaita', balançada e simples, é uma das esquecidas no tempo. Fala sobre aquelas pessoas a quem você faz muito e recebe muito pouco. Mas como ele diz, "fui teu cão e gostei". Solinho tipo guitarra pica-pau, atípico.


'Palestina' não tem na minha 'versão' do disco...mais um que eu baixei e não tenho o disco. Na minha versão tem 'Bole-bole', com uma bateria eletrônica, uma música estranha.


'Areias escaldantes' é uma pérola do disco, às vezes ele toca ao vivo ou em acústicos. Guitarrona grande e limpíssima, letra sobre o deserto (ou sobre praia?), épica sem ser grandiloqüente.


Aí vem o calcanhar de Aquiles do disco (na verdade nem sei se tinha no disco original, sei que foi single antes do disco, em 1981): uma versão de 'Get back' do Beatles, aqui 'De leve', com uma letra sobre Chuchu, que saiu de Pelotas. Vale a chacota, né? Mas é divertida e tem um baixão bem legal, além de ser bem diferente do country original.


Quando saiu em cd, trazia também 'Tesouros da Juventude' e 'Fricção científica'.

(Dão)

Sou (ou nós), Marcelo Camelo



Atrevo-me agora a postar uma resenha em complemento à da nossa querida amiga e infelizmente única mulher a postar por aqui - resenha logo aí embaixo, do disco da Mallu. Não cairei em generalizações ou simplificações, tais como 'mulher é mais sensível', mas é fácil notar que as resenhas da Andréa são lindas e bem diferentes das nossas (homens; se bem que não ponho a mão no fogo por ninguém...). Melhores? Eu acho.


Esse disco do Marcelo Camelo (pra quem acabou de chegar ao Brasil, vocalista e guitarrista da banda 'em suspensão temporária' Los Hermanos) é o primeiro solo dele. Como informação 'Caras', ele faz casal com a Mallu, com participações (e provavelmente influências) recíprocas nos discos uns dos outros.


A primeira curiosidade é o título, que oficialmente é 'Sou', mas olhando-se de ponta cabeça vira 'nós', como fica óbvio na capa. Surgiu de um poema visual do amigo Rodrigo Linhares.



Há um 'cantar baixo, quase sussurrado', como observou o irmão do Marcelo numa resenha aí pela net. Foi ajudado pelo grupo Hurtmold, com gravações ao vivo. Há também participações outras, como Dominguinhos, Clara Sverner, Mallu Magalhães e Domenico Lancelotti.

Há barulhos de mar e crianças entre as músicas e muito espaço nos arranjos, o que me sugere uma respiração mais tranquila, num ambiente praiano.

O disco se aproxima mais da MPB tradicional quase clássica, mas sem sê-lo na totalidade, não é a geração do Camelo, que, assim como eu, foi (ou é?) fã de Bon Jovi...

Foi lançado pelo selo do compositor, Zé Pereira, e distribuído pela Sony/BMG.


O disco começa com 'Teo e a gaivota', que originalmente tinha sido composta para um filme de um amigo. Introdução instrumental longa, Camelo só começa a cantar depois de mais de um minuto. Belo início. Não é um disco que você ache demais de primeira, demora pra perceber, digerir, ouvir detalhes e dinâmicas. No meio a música fica um pouco mais rock, mas depois retorna pra dinâmica mais tranquila. Como de costume, traz versos bonitos e melancólicos: "Todo amor encontra sempre a solidão".


'Tudo passa' quase cita uma música de bossa nova cujo nome esqueci ("eu, você ..."), mas é original e com muitas mudanças e boas ideias. "E até esse pra sempre / Tudo passa". Coincidência esa semana eu ter visto e compartilhado um video onde o fotógrafo fotografou as irmãs por 36 anos, o tempo passa, o que levou a piadinhas infames características, tais como tudo passa, até uva passa...hohoho.


'Passeando' traz um violão de nylon, instrumento não usado na banda antida do Marcelo, mais ligado a uma MPB clássica ou a música instrumental brasileira. Música curta com letra mínima "E lá vai deus sem sequer saber de nós/ saibamos pois / estamos sós".


'Doce solidão' conta com um assovio antes da voz cantando "posso estar só mas sou de todo mundo" (eco tribalista?), mais uma música tranquila e sossegada. E com um piano bonito.


'Janta' é a música que aproximou o casal, depois de Camelo ter 'assediado' (como ele disse) a cantora por emails. Fez a música e convenceu-a a cantar uma parte em inglês. Esta é bem a cara da Mallu, um quase folk com violões de aço e nylon dialogando, assim como os cantores, que alternam as partes no meio. "Pode ser cruel a eternidade".


'Mais tarde' já é um pouco diferente, começa com um tecladinho e o ritmo dá uma pequena levantada, quase rock, com uma guitarra invertida discretíssima no final.


'Menina bordada' continua o fictício lado B mais animado, numa levada com a bateria mais presente e suingada, sendo que no meio se mantém só com belos vocais. Parece feita pra Mallu: "menina bonita bordada de flor / eu vi primeiro / todo o encanto dessa moça / moça por favor / cuida bem de mim".


Dominguinhos aparece tocando a introdução da bela 'Liberdade', que respira e deixa entrar o violão e depois a voz, seguindo assim até o final. "De que vale ser aqui / onde a vida é de sonhar liberdade?". É uma música das mais antigas, que quase entrou no disco '4' dos Los Hermanos. Assim como 'Santa chuva', que já havia sido gravada pela Maria Rita.


'Saudade', 'Santa chuva' e as duas últimas, versões de 'Saudade' e 'Passeando' eu não posso comentar, pois não existe na minha 'versão' do disco (pois é, esse eu baixei e ainda não comprei...).


'Copacabana' é uma marcha-frevo, uma singela homenagem ao bairro, uma música alegre, ou pelo menos tanto quanto um 'quase samba' pode ser, com seus metais típicos.


'Vida doce' é mais uma que começa com violão, mais alegre e com a bateria e vocais bonitos. "Onde você for ó vida me leva / todo sentimento me carrega".


Um belo disco, tranquilo e original. Mas tenho a impressão que quem deveria ter postado esse disco se chama Andréa.

(Dão)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Mallu Magalhães (2009)


Mallu Magalhães sempre me chamou atenção. Daqui de longe ouvia falar de seu nome, de toda a estória do MySpace, das suas composições, da sua adolescência que se misturava com sua habilidade em consertar seus próprios instrumentos musicais.


Ao fim tive contato com sua voz infantil, meio amanteigada – que ao invés de entrar pelos nossos ouvidos, escorrega, devagarinho. E confesso que achei o máximo!


Quando pinta um único olho de azul nos seus shows, Mallu me faz lembrar Rita Lee – garotamutantes com seus coraçõezinhos no rosto na sua fase Tropicália. Mas Mallu me lembra também Bethânia, que aos 16 anos subiu no palco do Teatro Opinião.

Essas intervenções feitas por criaturas tão jovens são de uma ternura incrível, porque o limite entre a brincadeira e a coisa séria, entre o medo e coragem, são muito tênues.


Seu disco é muito delicado, gostoso mesmo de ouvir. Muitas das músicas parecem ter sido compostas com alto teor de amor no sangue. “My home is my man” é roquenrrol retrô, forte, guitarra presente em volume alto. Tudo rapidinho e aos poucos o som vai desbotando. “Shine Yellow” é outra de que gosto muito! Meio reggae, com sopros e percussões.


Esse segundo disco parece um tanto autobiográfico e “Make it easy” deixa claro isso. A música bastante blues começa com um assovio, como um calmante para a alma na hora de enfrentar a mãe. Aqui já estamos falando da “era” Marcelo Camelo...

Essa é a minha favorita! Música de uma paz incrível e a ideia de transformar em canção essa angústia feminina na hora de encarar o tamanho do amor, é maravilhosa.

E o vocal masculino é do namorado…

Make it easy!


“Bee on the grass” me lembra um tanto o som dos Beatles, slow, cheio de sopros, vozes abafadas e borbulhentas, como se drogas psicodélicas estivessem navegando pelas superfícies líquidas dos nossos canais.

Outra muito boa, country total é “ You ain’t gonna loose me”.


O disco acaba com “O herói, o marginal”. Sua canção mais forte, linda, com um arranjo definitivo. E aí Mallu Magalhães quase deixa seu tom de menina e entra fortalecida, viajando na sua própria voz, cresce e termina. E outra vez, Tropicália!


“She was a day tripper

One way ticket, yeah

It took me so long to find out

And I find out”


[ANDRÉA]

ps: essa resenha é para um certo Eduardo, de uma certa Ruberlei. Quando ouvi esse som pela primeira vez estávamos juntos e o Eduardo ficou altamente incomodado quando descobriu que a cantora era brasileira, apesar de cantar quase todo o cd em inglês…

sábado, 14 de maio de 2011

e depois do Sepultura...

Soulfly, Prophecy

...veio o Soulfly, banda do dissidente Max Cavalera, vocal e guitarra base da antiga banda.

Na verdade, esse nem é o primeiro álbum, é o quarto, mas como é o meu preferido, será o primeiro por aqui.

O trabalho de Max pós-Sepultura foi muito mais experimental, utilizando mais percussão e se misturando com muitos outros tipos de música, tais como rap, música eletrônica, mpb, metal industrial, world music (eufemismo para músicas de países 'estranhos'), música instrumental e, no caso específico desse álbum, reggae e música sérvia. Essa referência já aparece na capa, com referência ao Leão de Judá e também nos agradecimentos, onde Bob Marley aparece.
Aqui também há um misticismo que junta Rastafáris, deuses gregos, umbanda, Antigo Testamento e cristianismo.

A mistureba quase esquizofrênica aparece em quase todas as músicas e entre elas também, que diferem muito entre si mas, inesperadamente, o disco tem uma unidade na figura de Max, que também toca cítara, berimbau e é o produtor.

A faixa título começa com um barulho que remete à música eletrônica em loop, mas deve ter sido feita com um whammy ou outro oitavador em cima de uma nota da guitarra. Quando entra a banda é como se os portões do inferno se abrissem. Não é heavy metal típico, pois tem o tempo todo uma percussão tribal, por conta de Joe Nunez e Meia Noite, que dá uma cara mais original a todo o álbum. No meio ocorrem muitas mudanças, inclusive um break com cítara sobre uma base de guitarras pesadas e uma parte bem mais acelerada. O final tem uns vocais fantasmagóricos que já emendam com a segunda música, 'Living sacrifice', mais metal e reta, mantendo o peso e os vocais rasgados, mas trazendo um refrão mais quebrado. Mas o break do meio da música é um dos mais legais da história da música pesada, com várias guitarras se cruzando de um jeito muito interessante. Ainda tem uma outra passagem, mais percussiva (num ritmo de baião) e com 'atmosfera' e vocais falados, emendando num final pesado. Diferente, mas sem ser chato. Quer dizer, meus amigos aqui não são muito fãs de metal, fazer o quê? E os que gostam de metal, acharão o disco estranhíssimo.

Respira um pouco e segue com a porradaria 'Execution style', alternando momentos mais rápidos com passagens mais tipicamente metal, além de um solo cheio de tappings e outros malabarismos guitarrísticos.

'Defeat u' é thrash metal típico do estilo Max, curta e grossa.

'Mars' é uma das melhores, pela letra sobre o deus da guerra, pelo refrão sensacional, pela percussão mais uma vez além do metal.
"I am Mars, the God of war,
you bow to me like you did before"
Então o clima muda totalmente, entram violões de nylon e barulhinhos atmosféricos, a música se transforma num som quase acústico e mais pro fim num reggae inesperado e herege (pros bitolados do metal, que até hoje esperam a volta do Max pra antiga banda). Como diria o colaborador sumido Xampu 'Gêêênio'...

'I believe' inicia com uma guitarra limpa e cheia de efeitos, pra depois emendar na típica porradaria esperada. No meio aquelas mudanças extremas, com sons mais calmos, vozes corais de fundo e a voz falada de Max. Muita dinâmica, às vezes demais. Não é som para fracos de coração nem portadores de ouvidos frágeis.

'Moses' muda a dinâmica, começando bem lenta com metais latinos típicos de ska e vocais de dub-reggae, alternando com passagens mais pesadas e gritadas, desembocando num refrão quase reggae-pop com bateria quase new wave (!!) e retornando ao clima reggae com sopros. Parece estranho, mas funciona, o trabalho de arranjo e mixagem deve ter sido insano. Aqui há a participação dos Eyesburn, que acho que deve ser uma banda de reggae/dub.

Falando em participações especiais, o disco traz Danny Marianino em 'Defeat U', Asha Rabouin em 'I believe' e 'Wings', além de 5 faixas com o excelente ex-baixista do Megadeth David Ellefson.

'Born again anarchist' podia ser um típico punk hardcore, mas como tem aquela percussão atípica foge ao esperado, além de mais uma mudança radical com sons percussivos e teclados ambientes.

'Porrada' não é cover dos Titãs (o Sepultura gravou 'Polícia'), começando com uma vinheta com violões de nylon e depois começando - agora sim - um hardcore na velocidade de luz e uma letra em português totalmente dispensável. Tem uma passagem no meio estranha, quebrada com uma voz falando umas coisas incompreensíveis, e termina com uma batucada de samba.

Um cover do Helmet, banda de metal industrial, 'In the meantime' é uma grata surpresa, principalmente pelo fato de ter ficado bem legal, apesar de toda quebradeira da música.

Como se tornou tradição nos discos do Soulfly, o disco traz uma instrumental calminha, 'Soulfly IV', muito bonita, que é seguida por uma também bela música inteirinha calma(!), 'Wings', com vocais femininos da já citada Asha Rabouin.
E termina com uma vinheta sem nome que parece música de circo!

Um disco variadíssimo, muito legal, que, claro, foi muito malhado pela imprensa metal... Tolerância elástica minha, dirão os detratores.
(Dão)