quinta-feira, 14 de abril de 2011

20 anos de rock brasil cd 3



Continuo o cd quádruplo com o número 3, que tem o subtítulo de 'Mudança de comportamento', nome também de uma música aqui presente e, se não me engano, um disco do Ira!.

O cd começa muito bem, com 'Exagerado', co-autoria de Cazuza com Ezequiel Neves e Leoni, uma música muito boa e a cara do cantor. Do primeiro disco solo de Cazuza, que ainda (ou já) trazia músicas com o sempre parceiro Frejat, uma das quais inclusive fecha o presente cd.

E volta o Lulu, com um quase ska abrasileirado e uma guitarra MUITO legal. 'Sincero' é uma das muitas pérolas do nosso maior hitmaker, e você ainda leva um solinho safado e hard com wahwah, com um saxofone querendo aparecer, do Leo Gandelman.

'Os outros' é mais uma pérola do subestimado Leoni, aqui quando ainda era do Kid Abelha, que inclusive na época ainda era K.A. e os Abóboras Selvagens. Do álbum 'Educação sentimental', já comentado por aqui. Informação nova: o release do disco era assinado por Caetano Veloso, o que confirma minha teoria: quem sempre chuta uma hora acerta no gol.

'Mudança de comportamento' é uma das duas músicas do Ira! nesse cd. Como já falei aqui, adoro o Scandurra mas a voz do Nasi não me agrada (o Zeba me achou injusto com o Nasi, mas nem é essa a questão, eu respeito seu trabalho e principalmente sua atitude, mas a verdade é que não gosto da voz). E a música nem é das melhores deles.

'Bete Balanço' é crássica, como diriam uns amigos aqui do blog. Balançada, tema de filme nacional teen soft porn, solinhos bonitos, voz carioquíssima (esses bem puxados, erres bem arrastados), guitarra pesada dialogando com a voz. Enfim, desafia o argumento do Baiano de que as bandas cariocas são 'mais fraquinhas'. De onde ele tirou isso??? Aguardo a tréplica, com exemplos.

Camisa de Vênus era chamada de banda punk na época, mas quando ouvimos 'Eu não matei Joana D'Arc' fica muito difícil entender isso. A música é muito legal e divertida, com uma bateria claramente new wave e um som rockabilly (os quais na verdade são filhotes do punk).

'Pelado', apesar de ter sido música de abertura de novela, nunca ficou chata. Deve ser porque a música é muito inteligente e de um humor sensacional, mas mesmo assim é surpreendente. E o solinho de poucas notas do Roger é genial. 'Indecente é vc ter que ficar despido de cultura' e 'Sem roupa, sem saúde, sem casa, tudo é tão imoral, a barriga pelada é que é a vergonha nacional' ainda são versos eternos.

Engenheiros da Hawaii, banda controversa, alguns adoram, muitos odeiam. Mas 'Infinita highway' é clássica, todo mundo canta ou já cantou junto, com sua letra que alterna entre o criativo e lírico e o ridículo e absurdo. Um sonzaço de baixo, claramente inspirado no ídolo Geddy Lee.

'Flores em você' é uma música atípica do Ira! e do rock brasil. Uma orquestra e um violão fazem o instrumental para a voz do Nasi. E mais uma que foi abertura de novela (por que os rocks de hoje não são mais utilizados? rock virou música de tiozinho? mas tiozinhos não vêem novela??). Diz a lenda que Liminha, produtor do segundo disco 'Vivendo e não aprendendo', em franca hostilidade com a banda durante a gravação, disse ao fim da gravação da base: 'Vcs estão vendo como é uma música afinada?'. hahahaha

Inocentes vêm dar um toque punk no cd: 'Pânico em SP', cujo EP já foi comentado por aqui. A música foi lançada 20 anos antes do fato realmente ocorrer, mas a música já era legal mesmo se fosse só ficção e não profecia.

Até aqui as bandas são conhecidas e quase todas ainda sobreviventes. As próximas duas ficaram conhecidas somente pelas músicas aqui presentes: 'Carta aos missionários' dos Uns e Outros e 'Camila, Camila' do Nenhum de Nós. As duas músicas são realmente muito interessantes e radiofônicas, pena que não conheço mais nada de nenhuma delas. O Nenhum de Nós acho que ainda sobrevive no Rio Grande do Sul com acústicos e quetais. A música deles ainda foi regavada pelo Biquini Cavadão e por um dueto entre Cazuza e Sandra de Sá (!!!).
É engraçado pra mim as duas bandas virem em seqüência. Uma vez eu estava num teatro no Rio vendo um show daqueles comemorativos de rádios, e na minha frente estava o pessoal do Casseta & Planeta, exalando maresia, ainda cult, fazendo piadas a rodo. Daqui a pouco, depois de uma dessas tocar, o Bussunda mandou 'enquanto nenhum de nós ganha porra nenhuma, uns e outros ficam ricos'...kkkkkkkkk.

Esse cd realmente é um dos melhores, não tem música ruim.

RPM foi uma banda pop de uma maneira que hoje ninguém imagina que seja possível, principalmente pelo fato que, talvez devido ao fato de vir do underground paulistano e também o sr Paulo Ricardo ter sido jornalista, a crítica era bem positiva e compreensiva com a atitude magalomaníca. Mesmo que hoje a letra e o som soem datados, 'Revoluções por minuto' é uma música pop-rock muito legal. Acho que ninguém vai postar o primeiro disco deles por aqui...mas merecia.

'Ideologia' (de Cazuza/Frejat) fecha o cd, na versão ao vivo, poderosa e raivosa, antecipando em um ano a queda do muro. Versos sensacionais.

Só falta o cd 4.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Flor atômica, Stress



O título aqui poderia ser também 'o imprevisto improvável que não deu em nada', mas 'não deu em nada' poderia ser injusto com algumas definições da expressão.

O Stress, grupo de heavy metal paraense (!!) de 1974 (!!!), gravou este disco no boom do rock brasileiro pós-rock in rio, quando a mídia descobriu os 'metaleiros', expressão horrível que infelizmente pegou.
Mais surpreendente foi ter sido lançado pela multinacional PolyGram, que provavelmente acreditava na viabilidade comercial do gênero depois do sucesso no citado festival.

Gravado no Rio, contou com o guitarrista Alex Magnum e o baixista J.Bosco, da banda Metal Pesado, de Niterói, RJ, já que os membros originais não puderam se deslocar de Belém para a gravação. O primeiro disco de 1982 (provavelmente o primeiro disco de heavy metal brasileiro) também foi gravado no Rio e na época a banda chegou a encher o Circo Voador, devido principalmente ao fato da música 'O oráculo de judas' tocar direto na saudosa rádio Fluminense.

O disco é muito bem gravado, com guitarras pesadas mas nítidas, vocais excelentes e uma bateria tipicamente barulhenta.
Claro que temos todos os clichês do Metal: gritinhos em falsete, refrões em coro, solos velozes etc etc etc.
As letras surpreendem com temas sociais e críticas ao sistema, levando inclusive a muitas censuras (maus tempos).

'Heavy metal' tem um letra quase caricatural, mas empolgante pros adeptos. Além de um riff muito legal que começa o disco empolgando.
'Não desista' mantém o pique, com velocidade e vocais agudos.
'Mate o réu' é mais hard rock, com uma guitarra menos distorcida e um ritmo mais cadenciado.
A faixa título começa com uma guitarra limpa e cresce com peso e um belo riff. Clássica.
'Esperando o messias' é das mais chatinhas, a voz começa a soar repetitiva.
'Forças do mal' começa com o típico grito agudo metal, mas depois se mostra uma instrumental de primeira, com muitas mudanaças de tempo e dinâmicas. Excelente pra bater a cabeça.
'Inferno nuclear' mantém o tema do disco, nada de mais.
'Sodoma e Gomorra' é meio estranha, começa com uns solos de bateria, tem uns vocais atípicos, quebrados. Legal e original.
'Tributo ao prazer' é mais rock'n'roll, mais festiva, destoa um pouco mas contribui.
E como reza (ops) a tradição, finalizamos a conhecida balada metal, 'Jennie', começando lenta com teclados e voz sutil, cresce com peso e tem um belo solo.

Enfim, vale pela história, pela originalidade e pioneirismo. Difícil é achar, acho que nem saiu em cd...
E a banda, depois de interromper as atividades em 1987, retornou em 1996, lançando cd e dvd!
Eu ouvi que eles abririam pro Iron Maiden em Belém, mas não sei se realmente rolou.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chamando o Síndico (Tim Maia, 1973)


ok, nosso primeiro tim, vamos e venhamos: demorô pacas! Mas veja bem caro leitor, o Dão esqueceu, o Zeba postaria um disco do Tim pra falar sobre o Cassiano e o Baiano, bem, este, depois que o ônibus atropelou-lhe o celular, vamos ter que esperar aquelas 8 resenhas que já estavam prontas pra depois da copa do mundo. Da Rússia, claro.


Tim Maia não tava nem aí para a ditadura ou movimento hippie ou tropicália. Só queria cantar suas verdades (e mentiras), e isso ele fez como ninguém. É o cara que durante anos só absorveu, e depois começou a absolver. Graças a deus (ou não, depois do último post por aqui, eu ando até com medo...)!


O disco de 73 é menos um desfile de canções clássicas que faz os dois anteriores parecerem volumes de uma (excelente) coletânea, mas além de fechar uma trilogia (bem, essa mania é típica, eleger trilogias, ainda que, duvido que tenha sido eu a eleger esta), porque depois deste, o síndico embarcaria na viagem racional.


Mesmo assim, em relação aos anteriores, algo aqui me parece que vai mais além, os arranjos me parecem mas cuidadosos e mais focados no soul (bem este último não chega a ser ir mais além, aliás em certo sentido, é exatamente o contrário), e se ele não tinha uma excelente coleção de canções, soube com maestria cuidar para que a parte instrumental desse conta do recado. Algumas canções beiram o esquecimento imediato, como Música no Ar, A paz do Meu Mundo é Você e Preciso ser Amado (que conta com o raro episódio de se ouvir tim, voz e violão), muita coisa em inglês (3 de 12 músicas), mas de quebra, Encontramos aqui duas lindas canções de amor, Gostava Tanto de Você e a minha favorita de todas, Réu Confesso. Oxalá todo final de romance rendesse uma música como esta, seria o melhor de dois mundos...


Das músicas em inglês, destaque para Over Again, onde apesar da letra, a música é Brasil a toda, muito balanço, é o síndico single malt! O disco fecha com a belíssima instrumental Amores, que me faz lembrar Baby Huey, e além do que, justíssimo, pois o ponto forte deste terceiro disco é realmente o instrumental.


[M]


ps: Acho que me enganei... Primeiro Tim?

terça-feira, 29 de março de 2011

O estranho, o bizarro, o extra-ordinário


Gangrena Gasosa,

666 EP


Como se tratam afinal de 1001 cds que postaremos aqui (assim todos esperamos), posso me dar ao luxo (palavra inadequada ao presente registro) de postar esse EP da banda carioca Gangrena Gasosa, adepta do humor escrachado dentro do estilo criado pelos próprios, o Saravá Metal, que mistura o acelerado, pesado e gutural death/black metal com uma temática ligada à Umbanda. Esporro e deboche, detonação geral da cena metal, mistura de pontos de macumba, atabaques e berimbau. ‘Se Deus é 10 Satanás é 666’ inicia com uns barulhos de vocais invertidos (mensagens subliminares?) e ruídos de guitarras metal, seguindo com atabaques e riffs from hell. A letra conta uma descrição do inferno e um som infernal, mas bem legal pra quem gosta de um metal/hardcore mais sujo e rápido. Pérolas líricas: “Lá no inferno Você é bem vindo Só tem festa, ninguém te aluga No céu tá cheio de crente Enchendo saco e oferecendo ajuda Tem sempre uma velha gorda Tocando pandeiro do teu lado Uma porrada de anjinho De saia que nem viado” ‘Chuta que é macumba’ começa mais suingada e aborda o medo que membros de outras religiões, mesmo não acreditando, tem de despachos. E faz uma crítica bem agressiva aos crentes. Mais pérolas: “PODE SER CATÓLICO, CRENTE OU JUDEU MUÇULMANO, HARE KRISHNA, BUDISTA E ATÉ ATEU QUEM TEM CÚ TEM MEDO, AS PREGUINHAS FICAM TENSAS QUANDO PASSA POR DESPACHO SEMPRE PEDE UMA LICENÇA” Aí chega a parte pra desagradar os metaleiros modernos: ‘Quem gosta de Iron Maiden também gosta do KLB’, onde eles zoam com as figuras modernas do new metal: Korn, Limp Bizkit, Linkin Park, Slipknot, Coal Chamber, Soulfly, Marilyn Manson, Evanescence “e esse monte de bichice”, comparando-os com os classic metal, principalmente os mais pesados, tipo Slayer, Venom e Sepultura. “Hoje em dia os metaleiros são uma puta pleiboyzada”. Sensacional! ‘Eu não entendi Matrix’ é engraçadíssima, com uma descrição bem tosca da estória e um som muito pesado. “Uma gostosa que andava na parede E despiroca pelo telhado Ela sumiu no telefone Isso me-me-me-me-me deixou bolado Um pleibói vai preso na parada Na federal a dura é uma pica Os cana arranca a boca do cara (e faz o quê?) Ainda lhe botam um bisôro na barriga Ele toma uma pírula Vira espelho e sai careca Com um monte de fio nas costas Numa bacia de uma bacia de meleca Ele luta caratê E vai na tia do biscoito Onde tem um di menorque empena um garfo só cum olho EU NÃO ENTENDI(3X) MATRIX!” ‘Minha sinceridade é humanitária’ também esculacha músicos ‘mudernos’, que posam de ecologistas, intelectuais e quetais, mas não tem talento nem culhões. Assim eles tocam a real, como se diz no Rio, e ainda se justificam. “Isso agrédi a natureza e não podemos incentivar Alguém escuta leva a sério e pode até querer lançar Quantas árvores o planeta ainda vai ter que perder? Quantas vão virar papel pra fazer capa de cd?” ‘Emboiolada’ claro, sacaneia a onda metrosexual, com um pezinho na homofobia, mas com humor, porque a última coisa que eles desejam também é serem politicamente corretos. Pérola derradeira: “TOME VERGONHA NA CARA NÃO DESPETALE O BOTÃO DESGOSTO ASSIM PRA FAMÍLIA SÓ QUANDO O CABRA É LADRÃO SE TU NÃO SABE SE É MACHO PROVAVELMENTE NÉ NÃO É BICHA QUASE FORMADA SÓ FALTA DAR O CAGÃO VAI EMBOIOLAR (4X) METROSSEXUAL / PANSSEXUAL HEMOSSEXUAL / RUSSOSSEXUAL” Eles ainda têm outros discos (com títulos bizarros e engraçados tipo ‘welcome to terreiro’ – este lançado pela Rock it do Dado Villa-Lobos do Legião Umabnda como eles sacaneiam - e ‘smells like tenda espírita’ - título genial!), além de versões tipo ‘Matou a galinha e foi ao cinema’, assim que eu ouvir/baixar e se valer a pena, eu posto aqui. Enquanto isso, desenvolva sua tolerância acústica abrangente e divirta-se!

quinta-feira, 17 de março de 2011

20 anos de rock brasil cd 2


Continuamos a apreciação de mais um cd dessa coleção de 4.
O cd2 inicia bem, com a zen-surfista 'Como uma onda' do hitmaker supremo Lulu Santos, em parceria com o onipresente Nelson Motta. Belíssima e cheia de boas sacadas e timbres caprichados.
'Pro dia nascer feliz' foi mais uma música de sucesso do Barão Vermelho, a princípio gravada pelo catador de pérolas Ney Matogrosso. Rock'n'roll visceral e carioca, ponto alto de shows até hoje.
'Uniforme' é uma música fraca do Kid Abelha, que poderia estar melhor representado nesse cd, mas não fui eu que fiz a seleção...
O Ultraje a Rigor aparece com um clássico da new wave brasileira, só que com bateria de verdade. Mais uma letra genial do Roger, música pra dançar nas danceterias (como se dizia nos idos dos anos 80), solinho preguiçoso e interessante. 'Rebelde sem causa': "como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?".
'Música urbana', se não me engano - e eu me engano bastante, é uma música do Aborto Elétrico, banda primitiva do trovador Renato Russo, mas aqui vem embalada pela superprodução com metais synth quase cafonas, pianos suingados e aqueles conhecidos 'ô ô ôs' do Dinho. Gosto muito! 'E essa aqui eu dedico ao amigo distante Xampu, ilustre e feliz morador da nossa capital, onde as ruas têm o cheiro de gasolina'. E onde não têm?
Aí chega o Ira!, com uma clássica deles, 'Núcleo base'. Adoro o Scandurra, mas sinceramente nunca gostei da voz do Nasi, então sou suspeito em dizer que pulo essa música.
'Tédio' é uma música interessante e, como muitas da época (como 'Lágrimas e chuva' ou 'Fixação', por exemplo), é uma letra depressiva/obsessiva que devido ao som de festa(?) passa batida. O grande sucesso(??) do Biquini Cavadão!
'Até quando esperar' é das minhas preferidas. Desde o início inusitado com violoncelo passando pelas belas guitarras e aquele riff surpreendente de baixo. Mas acho a letra panfletária e quase chata. E continuo esperando a resenha de 'O concreto já rachou', promessa do Xampu...
'Beat acelerado II' nos lembra da figura deliciosa à frente da brazilian one hit band Metrô, da qual eu infelizmente não lembro o nome.
O grupo feminino e feminista libertário Sempre Livre (ótimo nome; o absorvente é anterior ao grupo? será que elas receberam royalties pela ideia??) aparece com a divertidíssima 'Eu sou free', seu grande sucesso(?), regravada por mais alguém de quem eu não lembro o nome. Se não me engano a Dulce Quental saiu daqui. O interessante é que a música é de co-autoria da global Patrícia Travassos (acho que é isso).
'Só pro meu prazer' é uma das Muitas excelentes músicas do grande compositor Leoni (a já citada 'Uniforme' é dele e do Léo Jaime - olha ele aqui de novo, Mateus), com seu grupo pós-kid Abelha Heróis da Resistência. Poesia musicada ('é tudo real nas minhas mentiras' etc), piano bonito com violão bonito, bateria real emulando bateria eletrônica, guitarra de fundo com ebow, caprichada.
O Zero foi uma das muitas bandas injustiçadas que ficaram pelo caminho, com um bom disco e algumas boas composições esquecidas. Era uma das poucas com um bom vocalista que realmente sabia cantar (além de tocar saxofone!). Além de um guitarrista com sonzaço. 'Agora eu sei' foi bem executada nas rádios pops e rocks, alavancada pela participação especial do pop star Paulo Ricardo. Bela música.
'Tempos modernos' é mais um dos hits do Lulu Santos. Clássico absoluto, foi regravado pela Marisa Monte no disco 'Barulinho bom'.
E pra finalizar o cd duplo vem a banda multi platinada dos grandes tempos de venda de discos, RPM, com uma música do seu segundo disco ('ao vivo'!!), 'Alvorada voraz', com a letra datada e pseudo rebelde. Teria sido melhor se eles tivessem caído de avião, não é verdade? Mas o apelo pop e o sonzaço são inegáveis.
Depois completo com os cds 3 e 4.
(Dão)

terça-feira, 1 de março de 2011

Veneno AntiMonotonia - Cássia Eller (1997)



"Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção de um surdo
Falar com os olho e as mãos
Como fazem os mudos"
(Diário de Cazuza – 1978)


Veneno AntiMonotonia.
É claro que Cássia vestia muito bem os versos de Cazuza. Os dois tinham a mesma gana de morder a vida, a mesma intensidade. Falavam a mesma língua.

Em Veneno AntiMonotonia Cássia dá o seu tom para as músicas de Cazuza – a eleição das canções, o jeito único e explosivo de cantar deixando claro a força dele sobre ela. As releituras têm isso de fascinante, porque estamos falando de amor, de escolha e de identificação com o outro.
CÁSSIACAZUZACÁSSIA

O som do cd é cheio, encorpado, roque’enrou gritado do tipo que beira o desespero. Cássia tem isso: ela é capaz de habitar o volume dez angustiado com a mesma potência que habita tranquilamente as canções mais doces de Nando Reis.
Ela é mestra, sabe viajar no outro, incorpora a fantasia e dá uma cor própria na interpretação.

Veneno AntiMonotonia é raivoso. É que não é fácil mesmo se desvencilhar da monotonia-cola que conhecemos bastante bem. Nessa onda “Blues da Piedade”, com um dos seus versos de que mais gosto, chega dilacerando:
“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como inseto em volta da lâmpada”

Em “Obrigado” Cássia continua envenenada com a pequenez e as dores do amor. E a música ganha ou perde velocidade, como se tivesse lendo o funcionamento do amor dentro da gente.

A opção nesse cd foi pela escuridão, pela madrugada,. É música de rua. Tudo muito à la Cazuza. Adoro a “Billy Negão” com seus sopros, meio blues, azul escuro. Estória de sangue para acabar com a monotonia.

“Todo Amor que Houver Nessa Vida” não podia faltar. É o fôlego, o encontro do náufrago com o resto de madeira em alto mar. Do mesmo jeito a charmosa “ Preciso Dizer que te Amo”, que vem se arrastando, já cansada. É o grito já sem voz.
Mas a vala tá ali com “Mal Nenhum”. Nem todo o amor é antidoto para a dor e para realidade. “Me deixem bicho acuado/ Por inimigo imaginário”…
A escolha de Cássia é por um Cazuza rasgado, nublado e nada mais natural que o cd tenha sido produzido por Wally Salomão, que como ninguém soube fazer e ver poesia a partir dos restos.
E os restos me interessam.
[ANDRÉA]

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Refazenda - Gilberto Gil (1975)


Hoje acordei com o canto de um passarinho estilhaçando meu sono! O inverno é marcante pela ausência do som da natureza. A neve cai silenciosamente – é linda, mas é silenciosa e branca. O som do passarinho inaugura algo novo: renascimento, refazenda,rouxinol.

Refazenda trilha o caminho da natureza: vasculha o nosso sertão e o nosso mar. É um conjunto musical que procura o simples, a beleza do natural, a necessidade de reconexão do corpo com algo mais, da saudade com o encontro.

O caminho musical-natural acontece amplo:
Em “Ela”: quando ela te faz um navegador, a musa única nas ilhas do amor. É aquela viagem de olhos fechados.
Em “Essa é pra Tocar no Rádio”: quando o desejo da melhor onda sonora se materializa através da música chegando como uma maré alta, invadindo os ouvidos do chofer de táxi, do querido ouvinte do interior e que finalmente chega para vencer o tédio, quando ele pintar.

O arco natural de Gil é móvel, transita entre o campo e a cidade e o Jeca Tatu se transforma em “Jeca Total”, aquele doente curado, representante da gente, defronte da televisão, assistindo Gabriela viver tantas cores dores da emancipação.
Com Gil não dá pra falar de “Refazenda” sem falar em movimento e novidade: "Re-cidade".
Faz parte do arco, os deslocamentos e as descobertas. Faz parte falar da saudade do que ficou, do que a gente já foi e do que a gente se tornou. E aí, o poeta em "Lamento Sertanejo" transforma dor em mel e traduz o intraduzível.

“Eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou como res desgarrada
nessa multidão boiada
caminhando a esmo"

Mas o recolhimento gera frutos, e às vezes; passarinhos! O Rouxinol com sua asa tratada começa a piar um rock diferente, dizendo que era um rock do oriente pra mim.
E voou deixando um cheiro de jasmim…
[ANDRÉA]

ps:O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.
(& - Eudoro Augusto)