quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O som do sim



Contundente.
Esse disco 'solo' do Herbert Vianna é anterior ao acidente que o deixou paraplégico.
Mas já tem um vigor contra a violência, que depois se mostraria mais presente nos discos dos Paralamas.
Ele convida vocalistas amigos pra dar um colorido muito legal e variado ao disco. Algumas sonoridades são bem diferentes das que estamos acostumados a ouvir com os Paralamas.

'O muro', com meu conterrâneo niteroense Black Alien (um dos artistas/poetas subestimados e menos citados por aí), começa muito bem, fugindo do som rap característico, mas com forte letra, sobre a violência cotidiana e banal, aparentemente mais visível no Rio de Janeiro.
'Será que quem puxa o gatilho
vê que são pais, irmãos e filhos
que já não sabem mais dizer
de que lado o mal está'.

'História de uma bala' continua nesse tema, com a voz sempre malandra da Fernandinha Abreu e um excelente e surpreendente solo de scratch, cortesia do mestre DJ Nuts.

'Vamos viver' traz Sandra de Sá e um clima mais positivo e cotidiano, orquestra discreta, produção de Liminha, um dos vários produtores presentes no disco, escolha inteligente que traz mais variedade à produção.
'Vamos consertar o mundo
vamos começar lavando os pratos
nos ajudar uns aos outros
me deixe amarrar os seus sapatos'

'Partir, andar' é linda. Um som mais leve, próximo do som típico da convidada Zélia Duncan. Quase uma bossa nova. Emocionante.

'Mr Scarecrow' traz a voz rasgada da Cassia Eller. Rock'n'roll!

'Hoje canções' é a mais atípica do álbum. Composta com Paulo Sérgio Valle, é uma típica bossa de beira praiana que, para coroar e ressaltar isso, traz a voz de Nana Caymmi. Ainda tem Marcos Valle no arranjo, regência, piano e vocais. Herbert só no violão e voz, provavelmente num banquinho.

'A mais', composta com Pedro Luís, traz a voz de Fernanda Takai, que é muito discreta, quase backing vocal quando canta junto com Herbert. Mistura uma base meio programada e uns slides maneiríssimos.

'Inbetween days', cover do Cure, conta com os charmosos vocais de Érica Martins. Ficou diferente, quase bossa, tipo aqueles discos rock in bossa...quem sabe não foi colaboração oculta do Emerson Nogueira...

'Eu não sei nada' é a minha preferida. Voz rouca e gaita de Luciana Pestano (quem é essa mulher? me ajude por favor), gravada e exposta até na respiração ofegante. Tecladinho Hammond e piano de Henrique Portugal (do Skank, o grupo). Letra genial. Riff criativo de Mr Vianna.

'Um truque', com Moreno Veloso acompanhado de integrantes do 'Mulheres que dizem sim' e percussão de Dado Villa-Lobos, é legalzinha, balançante e divertida.
'E o som do sim
é tudo que se ouvirá de mim'

'Une chaison triste' é dedicada a Renato Manfredini Júnior. Bem francesa e marítima, mais ainda com a voz etérea e processada de Daúde. Lembra trilhas de filmes, com uns belos sopros. Encerra o disco de modo bem leve e alto astral.

Diga Sim!

sábado, 11 de dezembro de 2010

O Canto do Cisne da Gal



Já indiquei aqui alguma coisa do Roberto Carlos, que tem como destaque em sua trajetória a sua acentuada decadência. Gênio autêntico em minha opinião, mas que imagino ter uma montanha de contas e compromissos a saldar. Só isso justifica continuar do jeito que anda.

O mesmo vale para o Titãs...e para a Gal.

Em algum momento tiveram uma chance de ouro para parar, jogar toalha e curtir seus netos ou bichinhos de estimação em paz. Comprar brinquedos pra sobrinhos ou jaquetinhas pra poodles era o que poderiam estar fazendo já há algum tempo.

Mas não! deram uma de Rocky Balboa e insistiram. Lástima.

Tudo isso para indicar o MINA D'ÁGUA DO MEU CANTO.

Diz uma antiga crença que o cisne-branco é mudo durante toda a sua vida, mas pode cantar uma bela e triste canção imediatamente antes de morrer.

Esse disco foi o canto do cisne da Gal. Naturalmente ninguém aqui tá matando a moça, por óbvio.

Disco de 1995 realmente bom. Somente com musicas de Chico e Caetano. E musicas escolhidas a dedo!

Só para ficar numa única indicação de cada um: Desalento e Milagres do Povo. As demais seguem o mesmo padrão.

Sempre acreditei que atingir o seu melhor tão cedo acaba se tornando uma maldição. Gal fez o seu "Gal Canta Caymmi - 1976" e "Gal Tropical - 1979". Ok, maravilhosos, indispensáveis mesmo. O problema é o "Gal a Todo Vapor - 1971". Simplesmente não dava para fazer coisa melhor! Já em 1971 a moça iniciou sua queda. Claro! quem não desejaria uma queda nestes termos...mas...

O "MINA D'ÁGUA DO MEU CANTO" apenas findou o processo de forma elegante. Depois dele deixei de me preocupar com a Gal.

ZEBA

domingo, 28 de novembro de 2010

Só se for a dois



Continuando nosso tenso blog, posto hoje o segundo álbum solo do Cazuza.
Vindo de um extremamente romântico e MPB, aqui Cazuza mostra também a face romântica e lírica, mas deixa entrever uma agressividade que começava a crescer.
Assim começa o disco, com a faixa título, dedicada a vários grupos de um modo poético e contundente, alternando gritos e partes mais calmas. Tem partes lindas:
‘As possibilidades de felicidade
São egoístas, meu amor
Viver a liberdade, amar de verdade
Só se for a dois’.

Em seguida ‘Ritual’, começa só com sua voz, logo acompanhada por um violão e depois entra a banda, excelente por sinal. Essa é a primeira parceria com o antigo amigo Roberto Frejat.
‘Pra que sonhar
A vida é tão desconhecida e mágica’

‘O nosso amor a gente inventa’ é uma das clássicas do disco, faz parte de qualquer boa coletânea de boa música brasileira. Dinâmica, começa leve, ganha um corpo com uma guitarra mais drive e tem até um belo solinho (com tapping!) daqueles assobiáveis e melodiosos.
‘Culpa de estimação’ é das desconhecidas, com gaitinha. Divertida e leve, com um clarinete sinuoso. Mais uma parceria com Frejat. Boa metáfora, a namorada é a culpa...
Aí vem uma das mais belas dele, ‘Solidão que nada’, parceria com o Kid Abelha George Israel e Nilo Romero.
‘Que meu novo nome é
Um estranho que me quer
Viver é bom
Nas curvas da estrada
Solidão, que nada
Viver é bom
Partida e chegada
Solidão, que nada’
Mais uma com um belo solo, cortesia de Rogério Meanda, que também é co-autor de ‘Nosso amor...’, ‘Só se for a dois’, ‘Completamente blue’ e ‘Vai à luta’.

‘Completamente blue’ é um pop rock goxxxtoso, como diria o carioca Agenor, inclusive em sua letra ‘Sou feliz em Ipanema, Encho a cara no Leblon
Tento ver na tua cara linda
O lado bom’.

‘Vai à luta’ é alto astral, começa com uns metais bonitos. Boas frases: ‘Passa toda deslumbrada sem um tostão pra me emprestar’ e lembra um importante fato da fama ‘os fãs de hoje são os linchadores de amanhã’.

‘Quarta-feira’ é um bluesão com sax e letra viajante, psicodélica e religiosa. Estranhíssima.
‘Porque eles sabem que amar é abanar o rabo, e as mulatas sonham com sheiks alemães’...

‘Heavy love’, apesar do nome e de ser parceria com Frejat, é um funk balançado, com uma baixão slap de dar gosto. ‘Acenda as luzes todas, perca a razão’.

‘Lombo mal da Ucrânia’ é mais heavy, mais rápida, mas nada demais, tirando o nome, claro.

E pra terminar, mais um blues, dessa vez delicado, só com voz e violão. Parceria com Oswald de Andrade (?). ‘Balada do Esplanada’, que deve ser um hotal, acredito.

Algumas vezes fazem a disputa de quem seria o melhor, Cazuza ou Renato Russo. Cazuza é mais contemporâneo, mais cotidiano e local. Renato é mais lírico, artesão e universal. Mas não caia na armadilha, fique com os dois.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

"Confraria da Costa", 2010...para não ficar à deriva




Quase todo mundo tem algum amigo que faz parte de uma banda local. E é muito comum que, em nome da amizade, a gente acabe indo aos shows e até comprando (ou ganhando) discos, mas não é costume dar muita atenção. Há alguns anos conheci Marcello, um arquiteto-guitarrista que tinha uma banda chamada Gato Preto. Nunca tinha escutado antes, mas arrisquei a ir a um show em Curitiba. E devo confessar que me surpreendi positivamente com a banda e o show: um som vigoroso, diferente e sobretudo, original.

Desde então, além de amigo, virei fã do grupo que há cerca de um ano passou a se chama “Confraria da Costa” e gravou um CD excelente com o mesmo nome.

Misturando sons de guitarra, baixo e bateria com bandolins, violinos e flautas, o Confraria abre o disco com “Homo Tudo Sapiens”, cuja introdução puxada pela flauta lembra o som do Jethro Tull. Letra original, irônica, cheia de trocadilhos: não há nada que homo não sapiens responder.

O ritmo pirata que caracteriza tanto esse som intensifica-se nas faixas seguintes com “Coisas piores acontecem no mar” e “À Deriva”, em que o violino do Jan não só dá o ar de sua graça, como é responsável por uma introdução matadora: Quem te deixou neste mastro à deriva sabia nada de navegação.

Na 4ª faixa, “És Cadavérico”, destaca-se, junto com a voz rouca do Ivan, o bandolim do Marcello Stancatti. Trata-se de uma das canções mais marcantes que levanta o público cativo durante seus shows, principalmente em Curitiba, onde tive oportunidade de testemunhar.

Como a vida de pirata não é só alegria, momentos de isolamento também são retratados, como em “Confidencial”: tranque a porta da minha casa..depois preguem as janelas...por um tempo eu acho ... vou me ausentar. Tempo para respirar...

A seguir, o “Canto dos Piratas” reforça mais ainda o espírito dos marujos. Difícil desassociar esse som com o balançar de um copo de rum ao ritmo de uma nau: A vida é cruel, e foge veloz, Ela vem lentamente, cala nossa voz, Cega nossos olhos, não tem pena de nós, Ela quer que nós, juntos, fiquemos tão sós. Outro detalhe interessante dessa canção, muito bem reparado pela Carol (também conhecida como minha namorada), é que as estrofes do refrão alternam-se ao melhor estilo de Construção, de Chico Buarque. Genial!

Sempre há uma carta embaixo da mesa, sempre há uma carta fora do lugar. As apostas entorno dos jogos de cartas ou de um tabuleiro de xadrez também têm vez no ritmo dos marujos, assim como as trapaças que rodeiam esses jogos em “Embaixo da Mesa”.

A letra de “Certamente a mente mente” traz consigo, ao som encorpado que além dos por trombone, trumpete e saxofone, uma mensagem mais poética.

Em “caravela estelar”, o bandolin e o violino ocupam novamente lugar de destaque com uma sonoridade que nos faz viajar pelo mares negros.

O tom (waits) lamurioso e solitário de “Confidencial” volta com força em “Réquiem”. A influência do músico americano de voz rouca e composições intrigantes fica mais aguçada com o som de Trombone de Raule Alves. Só não perguntem quando eu vou voltar.

O disco fecha com outra canção que se tornou um clássico do Confraria da Costa desde o tempo em que se chamavam Gato Preto. “Não abra essa caixa com cobras” tem talvez o refrão mais conhecido e cantado por todos os fãs que acompanham os shows dessa banda. E a flauta ao melhor estilo Ian Anderson tornou-se uma das marcas dessa música.

Pela originalidade acompanhada de um som marcante, trata-se muito mais do que um daqueles grupo de amigos. Eu me arriscaria dizer que é uma espécie de gipsy-punk-rock, que mistura influências de Gogol Bordello, Jethro Tull e Tom Waits (não é a toa que sua imagem se faz presente na bela capa) com letras em português, em uma referência aos sons de piratas. Fui claro? Não?! Ainda bem... assim quem sabe levanta mais curiosidade a respeito. Basta abrir os ouvidos para o novo e certamente qualquer ouvinte de bom gosto também se tornará um fã.

Enfim... fazendo jus ao som pirata, o Confraria da Costa disponibiliza, oficialmente em seu site, o disco para baixar gratuitamente, sem frescuras: http://www.confrariadacosta.com.br. Acesse, baixe...e boa viagem.

[Paul]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um Zepelin de Minas Gerais, uai!


Recentemente morreu Zé Rodrix. Triste notícia que não teve muito destaque na mídia. Por um lado, uma injustiça. Por outro, uma coerência com um artista que nunca foi muito de mídia mesmo. Senão o primeiro, um dos primeiros registros da música de Zé Rodrix deve-se ao trio formado por ele, Luis Carlos Sá e Gutemberg Guarabira. Relançado recentemente pela EMI o álbum chamado simplesmente de Sá, Rodrix e Guarabira recebeu um tratamento pífio da gravadora que lançou aquela edição baratinha em digipack sem encarte nenhum. Tudo bem que você pode comprar o disco por uns 15,90 (ou esperar ele aparecer na gôndola de 9,90 das americanas). Mas pra ter a mais, só a capa, o nome das músicas e seus autores, fica realmente muito difícil simplesmente não baixar de graça. Eu pagava uns “déish pila” a mais tranquilamente para ter um disco (contextualizando: disco pra mim inclui o encarte, a arte gráfica, notas históricas no caso de um relançamento...) com o tratamento digno que esta coleção de canções merece. Mas, vamos a ela.

Este trio ficou famoso por ter criado o rock rural tupiniquim. Veja bem que hoje, em 2010, este termo fica totalmente desprovido de sentido. Lá nos 70, comunidades alternativas, os hippies, vá lá. E a impressão de que o termo rural fica deslocado se adensa porque a música de Zé Rodrix (e ele predomina aqui) tem um ar rebuscado que lembra muito mais a cidade que o campo (claro que a música caipira pode ter lá sua sofistificação também, mas não me parece o caso aqui...). Talvez em oposição a Rita Lee e os Mutantes, Secos e Molhados e o pessoal do progressivo nacional que começava a botar suas manguinhas de fora, só tenha sobrado este nicho para o trio (bem, tem aquela história “eu quero uma casa no campo...”, e na voz da Elis tudo vira muito facilmente a mais pura expressão da verdade).
Eles começam num passeio de Zepelin, divertidíssimo que tem um som de música de quermesse como o Mr. Kite dos Beatles. Ou seja, já na abertura eles dão o recado sobre suas referências. “Eu tô doidinho por uma viola...” canta o Zé em Hoje ainda é dia de Rock uma das melhores músicas do disco com seu baixão escorregadio e xubi daun daun... Cumpadre Meu já tem o arzinho de poeira da música que seria típica, anos depois quando Zé Rodrix saiu, deixando Sá e Guarabira tocando, agora: uma dupla. E aqui já emenda a Primeira Canção da Estrada, outro clássico de seu repertório: “eu tinha apenas dezessete anos, no dia em que saí de casa... e não fazem mais de quatro semanas que eu estou na estrada...”. Aos dezessete estas quatro semanas bem vividas podem dar uma noção mais real que o rei, sobre o que é o passado e o presente.

Seguem as canções no zepelin rural, alternando títulos como Blue Riviera, Pindurado no Vapor e Juriti Butterfly. Sem jamais perder as raízes no rock como em Os Anos 60, eles entram na melhor música do disco, quiçá a melhor de todo o repertório de Zé Rodrix: Mestre Jonas. A “música do Zeba” é pontuada pelo teclado alucinante de Zé Rodrix que cria um caleidoscópio sonoro absurdo para quem mora dentro de uma baleia, quase uma contradição, mas o resultado é sublime, um dos melhores rocks brasileiros de todos os tempos não só pela música em si, mas por mostrar outra possibilidades para a nossa música. A capa também desmistifica um pouco o rock nacional. O dirigível em chamas desenhado em preto e branco no primeiro disco da banda de Mr. Jimmy Page e cia, aqui aparece colorido em meio ao jardim, flanado tranquilamento rumo aonde o vento levasse...

Zé se foi, como inevitável é. Mas sua música já é eterna.

[M]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Rio Abaixo, Paulo Freire (1995)


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Não costumo ouvir música instrumental. É uma falta-de-hábito-quase-um-vício em ouvir a voz humana e o som das palavras (qualquer que seja a língua!) junto com a música. As exceções que me curam de vez quando se contam nos dedos. Miles Davis e sua música cheia de melodias belas e imediatas, Ravi Shankar e sua música além da percepção...

Mas tem uma exceção especial, e é este Paulo Freire tocando sua viola brasileira rio abaixo. O violeiro saiu em busca do som do Grande Sertão Veredas, se aventurou pelo norte de Minas, foi parar na beirada do rio Urucuia num lugar chamado Porto de Manga. Aprendeu com seu Manelim os toques de viola com nomes de sapo, lagartixa e inhuma. Outro violeiro, seu Zé Costa, habitante do Jacu levou Paulo pela Folia de Reis noites do sertão adentro.

E a música de Paulo Freire segue rio abaixo. “Vai ouvindo”. Acompanhado de Swami Jr. no violão de 7 e de Adriano Busko que toca percussão variada e alguns convidados especiais (Mario Manga, sim, ele!, o do Premê, toca violoncelo na faixa mais bela do disco além de co-produzir o trabalho). Os títulos das músicas remetem direto sem escala para o sertão, o grande: Mosquitão, Seca, Inhuma da Taboca, Fumacinha da Manga, Suíte da Lagartixa entre tantos outros. Em geral, composições do próprio Paulo Freire, algumas poucas parcerias com Seu Manelim, outra com o Swami. Aqui e ali uma composição de Tavinho Moura e um tratamento violado para Seguidilla de Bizet.

E a descida do rio na viola de Paulo Freire é extremamente honesta consigo mesmo. E a gente agradece. São-paulino e morador do Guará, o rio de Paulo Freire segue seu curso e encontra a cidade com as angústias e prazeres que ali afloram. A percussão de Busko, hora é a roça mesmo, moda e viola total, hora é surda e suave como se acompanhasse um raga indiano, ou ainda flamenca em Bizet. Outros elementos sutilmente dão um toque pessoal. Um pedal de eco ligado na viola em Chianti e nos Lundus do Urucuia (esta, na verdade é a única canção no disco). O violoncelo que o Manga toca em Seca dá a atmosfera perfeita a esta bela música. Você vai ouvindo e fica até com sede! Wandi Doratiotto lê com maestria a Receita de Pacto que fecha o disco.

Mas a estrela aqui é a viola de Paulo Freire. Música instrumental como se não fosse porque o instrumento canta. “Vai ouvindo...

[M]

sábado, 9 de outubro de 2010

Lero Lero - Luísa Maita (2010)


misto de tédio e mistério

meio dia / meio termo

incerto ver nesse inverno

medo que a noite tem

que o dia acorde mais cedo

e seja eterno o amanhecer

(misto de tédio e mistério – leminski)


Luísa Maita era um mistério. Lero Lero chegou nas minhas mãos no agosto gelado de 40 anos. Misto de mistério sem tédio. Uma poesia que só fui desvendar no agosto quente da Mountain Avenue.


E o cd foi se revelando devagarinho, na paz, como toda música ouvida pela primeira vez merece ser tratada. Abrindo com a sossegada Lero Lero, com voz de algodão acompanhada de um violão de batida marcante, Luísa Maita à vontade canta as coisas invisíveis e indizíveis da amizade. Uma música cantada em códigos. Códigos do olhar, da rua, da intimidade.


E assim segue, o cd todo desliza como se estivesse numa corda bamba. Os passos são lentos, mas a leveza e a graça são essenciais na travessia. É assim que eu escuto Lero Lero – a aspereza tratada com fragilidade.


O repertório é cheio de fatos cotidianos – amor, motoboys, uma pessoa andando de bici, o mar. É a simplicidade transformada em poesia do dia-a-dia: e tem um samba ali, uma música eletrônica aqui, uma cuíca lá e uma viola do outro lado. Luísa Maita em Lero Lero coloca notas musicais na rotina de São Paulo. As cores aparecem, mesmo na aparente ausência de cor. O caos gris flutua e se transforma numa viagem.


O som parece artesanal, saído de um ateliê. Lero Lero é cheio de conversas paralelas, de velocidade, de alegria, de rastros jamaicanos. “Onde é que aquilo ia dar/ E o medo vinha devagar/ Mas o desejo de sonhar tomava conta lugar”.


Lero Lero é um pedido de água, de trégua. É a poesia extraída de uma constelação nova. Supernova.

[ANDRÉA]