sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sentinela - Milton Nascimento (1980)


"Sentinela" parece que veio ao mundo para celebrar a amizade. Sentinela, palavra feminina, é também o ato de preservar e de guardar - e tenho me dado conta cada vez mais que a música aperta o nó da amizade, preservando e guardando o vínculo aos que gosto. Uma onda amorosa que vai enlaçando suavemente um a um – sempre na melhor vibração.


Ganhei "Sentinela" ainda em vinil, quando terá sido isso? Sei lá, em 1984, 85? Já não me recordo mais... Mas me lembro de ter encontrado o LP na porta da frente da minha casa, encostadinho me esperando - e vinha com um bilhete escrito numa folha de caderno. Foi meu primeiro presente-musical vindo de um amigo.


Na época Caetano e Milton transitavam pelos meus ouvidos. Eram como duas ondas de rádios diferentes e elas conviviam muito bem dentro de mim. A música tem isso de nos transformar em mil – o tempo passa e cada vez mais novos canais vão se adicionando e se aninhando aos que já estão lá e todos se encaixam muito bem dentro da gente.


"Sentinela" é um disco que inspira sentimentos delicados. Com sua voz zen, Milton Nascimento vai virando as páginas do seu livro de estória musical e enreda a força da natureza com a força do homem, tentando entender esses dois mundos que se encontram inevitavelmente. Canta a solidão, a guerra, mas canta também o encontro, a comunhão. "Sentinela" aposta na irmandade, nos homens diários e nas suas minúsculas e imprenscidíveis lutas.


"Sentinela" zela pelo ser humano. É o otimismo sozinho na plataforma, esperando a fumaça e ouvindo o apito do trem.


"Sentinela" tem uma coisa única e por isso, especial: a cena musical leva minha imaginação para um lugar singelo, de poucas coisas, mas de muito sentir. É a magia da escassez.


Todas as músicas são como um sino de um mosteiro: te tocam fundo, duram dentro de você. E me lembro da surpresa que tive com a fala distante e inesperada de Leila Diniz dizendo:


"Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

o mar é das gaivotas

que nele sabem voar

Brigam Espanha e Holanda

pelos direitos do mar

Brigam Espanha e Holanda

porque não sabem que o mar

é de quem o sabe amar"


Sentinela: Ah! Sol e chuva na sua estrada. Mas não importa não faz mal. Você ainda pensa e é melhor do que nada. Tudo que você consegue ser ou nada.

[ANDRÉA]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Prefiro morrer de Vodka que morrer de tédio... (Essa tal de Gang 90 e Absurdettes, 1983)


Na época não dei bola. Só queria vestir minha cabeça dinossauro e invadir sua praia no passo do lui. Parece que é sempre assim, como aquela sua vizinha de óculos que de repente vira a Winnie Cooper... E o pior é que, dar essa bola que não foi dada há esses quase trinta anos atrás soa, e é, extremamente anacrônico. Da grande leva de novidades que assolou o roque tupiniquim na década de 80, este talvez seja um dos mais datados. Mas essa talvez seja até uma vantagem, pois escutar esse disco soa menos como flash-back do que os momentos clássicos daquela década.

Primeiro que as referências são demasiado óbvias: Blitz e B52’s. Uma ponte interessante entre os dois, menos teatral que o primeiro e mais pretensioso que o segundo, Essa tal de Gang 90 ainda pode ser uma audição bastante agradável, sem soar excessivamente nostálgica. O motivo é simples, basta olhar a lista de canções: são três hits memoráveis, Nosso Louco Amor, que foi tema de novela global, Telefone e Perdidos na Selva. Esta última aparece aqui em versão reggae, certamente bem menos conhecida que a original que participou de um daqueles festivais de MPB do início da década (de 80), fica devendo demais à original, mas ainda é um registro interessante.

Veja como a indústria nacional do disco vacila. Quase trinta anos depois, o disco é relançado em CD e custava nada ter Perdidos na Selva, na selva mesmo, não em nenhuma jamaican grass jungle, como faixa-bônus? O problema é de direitos autorais? Negociação com a Somlivre? Ou é má vontade mesmo? Depois a indústria fonográfica reclama dos downloads de graça...

Nem mesmo uma versão desprezível de Noite e Dia de Lobão com Júlio Barroso estraga o disco. Românticos a gô-gô, é o yin do Nome aos Bois dos titãs, lançada anos depois. Eu sei, mas eu não sei é total e deliciosamente bife com tutu, enquanto que Dada Globe Orixás e Mayacongo conferem unidade a um disco singular que marca a assimilação da Nova Onda em solo tropical, com pitadas de road movie e movimento beatnik...

A formação da banda para este disco clássico conta com a base clásssica, o vocalista Julio Barroso acompanhado de três meninas (Alice Pink Pank, May East e Lonita Renaux) ,mais o guitarrista Herman Torres que se entende muito bem com Wander Taffo (aqui não fica muito pra mim se este era da banda, ou um músico convidado que toca em mais da metade do disco) também na guitarra, as duas funcionando em contraponto, como se Richards e Wood tocassem new wave, o baterista Gigante Brasil, que viria a tocar depois com a Banda Isca de Polícia que acompanhou Itamar Assumpção, e no último disco da Céu, o tecladista Luis Paulo Simas, o baixista Otávio Fialho e o baixista tutti-frutti Lee Marcucci (provavelmente outro convidado, além de Guilherme Arantes que toca na infeliz música de Lobão). Ou seja, turma de respeito!

Como curiosidade (um tanto mórbida), em Convite ao Prazer, Julio Barroso canta:
Um sonho estranho nas paredes do prédio / Prefiro morrer de vodka do que de tédio / Acendo um cigarro e vou até a janela / Na rua umas sombras à luz do luar / Do luar, sombras à luz do luar.

Ironicamente morreria poucos anos mais tarde num acidente caindo desta mesma janela...
[M]

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pérolas ao poucos - Zé Miguel Wisnik (2003)


“Pérolas aos poucos” rouba a gente pelo feixe de Hiss: aquele delicado sistema elétrico do coração que nosso corpo utiliza de tomada, entre outras coisas, para nos plugar às coisas bonitas da vida. A conexão aqui é pelo coração e não pelo cérebro. É amor e não razão.


“Pérolas aos poucos” entra pela tua esquina, em frases cristalinas – efeito circular que te envolve na roda. São enlaces sonoros, a voz, o piano, as rimas, as não rimas, a dor, o tempo e a cura. E tudo termina numa concha de cor escura, onde o sol se despede.


Tudo é macio, suave, música que pede calma, que te toma pela mão. A cadência das frases, as palavras cantofaladas, as vírgulas, o canto é alegre, de alma viva. Se a gente pudesse ver o som, “Pérolas aos poucos” teria os olhos brilhantes e curiosos.


É também um cd em que cabe o mundo – que se estica entre o campo e a cidade. Há a magia da escuridão em “Anoitecer”, a hora de se a ver com a verdade, que parece estar lá fora, mas não, ela está lá dentro, dentro da gente. Dessa hora tenho medo.


Adoro a “Tempo sem Tempo”! Gosto porque celebra o encontro. O verdadeiro – com todos os ingredientes. Comemora o desejo, o pedido e o risco. O risco das feridas e das despedidas. Mas ora! Só há despedidas depois dos encontros…

Arco-íris que espalha cristais sexuais! Delícia total.


“Sem Receita” – Música de amor temperável e comestível, como mesmo deve ser o melhor amor. E a lembrança é aquela hora em que a gente lambe os lábios com saudades de tudo o que rolou. Porque amor não tem receita, é inédito a cada vez!


O “Pérolas aos poucos” é todo gracioso! Com uma malandragem aqui e outra ali, o disco é cheio de pequenos prazeres escondidos no tom da voz de Zé Miguel, nas parcerias, nas percussões e nas palmas. “Presente” é aquela que só é realmente sentida depois que teus pés entram no compasso e levam teu corpo inteiro ao movimento. Gozo sem fundo.


“Perólas aos poucos” é a certeza de que no amor não há nem nunca haverá culpado. Sem palavras.

[ANDRÉA]

sábado, 12 de junho de 2010

A Voz e o melhor Piano


Pô, isso aqui é um site de comentários, mas esse aqui é o disco mais 'sem comentário' da história.

Tom Jobim, Frank Sinatra, Claus Ogerman nos arranjos e condução, um repertório impecável - incluindo algumas das melhores de Tom (difícil isso também: o que seria o pior do Tom???) mais 3 standards do chamado American Great Songbook, e o que mais? Não precisa de mais nada.

Seria perfeito se alguém tivesse dito ao Tom que NINGUÉM deveria cantar depois de Sinatra, sob risco do contraste avassalador.

Tom na verdade tocou violão ('imagem mais latina') e ficou dias esperando num hotel Frank voltar de Barbados devido a uma crise conjugal com Mia Farrow (momento Caras). Mas depois...como diz o lugar comum, o resto é história.

Gravado em 3 dias! Dizem que o cantor declarou só ter cantado tão baixo quando teve faringite...

'O disco do ano' (qualquer ano, acrescento) pela crítica americana, só perdeu em vendas no ano para o 'Sgt Peppers'.

Se é um disco brasileiro? É um disco de bossa nova, com o Maestro Soberano Tom Jobim. And The Voice. Contém todos os 'conceitos' do gênero, ouvindo você consegue imaginar perfeitamente um dia de sol em Copacabana, um chopp à beira mar ou uma água de côco com aquela maresia (do mar mesmo), moças e mulheres se bronzeando, o barulho das ondas. Ou eu viajei demais?

Mas não é cantado em português, exceto nos momentos infelizes em que Tom canta. E foi gravado nos EUA.

Além de tudo é um disco sobre amor, mesmo quando a ótica é a da insensatez, com culpa, perdão, orgulho e tudo o mais envolvido. As versões em inglês são excelentes, em alguns casos mudando sutilmente o sentido original, como em 'Insensatez' que, em sua english version, ao invés de culpar o coração do poeta pelo término do romance, lamenta sua frieza.

Olha aqui:
1- The girl from Ipanema (Garota de Ipanema)
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Norman Gimbel
2- Dindi
Antonio Carlos Jobim / Aloysio de Oliveira / Ray Gilbert
3- Change Partners
Irving Berlin
4- Quiet nights of quiet stars (Corcovado)
Antonio Carlos Jobim / Gene Lees
5- Meditation (Meditação)
Antonio Carlos Jobim / Newton Mendonça / Norman Gimbel
6- If you never come to me
Antonio Carlos Jobim / Aloysio de Oliveira / Ray Gilbert
7- How insensitive
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Norman Gimbel
8- I concentrate on you
Cole Porter
9- Baubles, bangles and beads
Wright / Forrest
10- Once I loved (O amor em paz)
Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes / Ray Gilbert


Ou melhor, não olha não.

Ouça.

Compre, baixe, pegue emprestado, copie, roube.

Mas ouça.
(Dão)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Transfiguração - Cordel do Fogo Encantado (2006)


Transfiguração: ato ou efeito de transfigurar-se; transformação; metamorfose.

Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir.

Transfiguração: Cordel do Fogo Encantado.


Transfiguração é um cenário musical único e exigente. A cadência da fala, a poesia, o sotaque, o timbre da voz, os instrumentos de alguma forma conspiram contra você. Seu ouvido e sua atenção se conectam fielmente ao som, que te agrada, que te perturba, mas que sobretudo, te magnetiza.

É um som-cênico. O Cordel do Fogo Encantado canta o facilmente imaginável, uma música-concreta, poesia-(en)cantada. Herança clara de um passado no palco.

Mas acho que além desse vínculo forte com o teatro, o Cordel tem também uma ligação, que é quase umbilical, com a literatura. A forma de cantar de Lirinha – palavra por palavra, como se ele estivesse sentindo o gosto das vogais, das consoantes - é mistura viva entre música e poesia, camaleônico labirinto. Na verdade é um rio: numa margem a poesia, na outra a música e no meio, no leito, corre a mistura inventiva do Cordel do Fogo Encantado. Fogo que nem água apaga.


O cd começa com o barulho de uma porta de prisão: som pesado, eco, palavras sombrias e sem fôlego. “Aqui” conversa com a literatura e com o cárcere: elementos quase irmãos de uma viagem solitária – mas a música transforma a literatura numa experiência quase corporal:


“vou riscar no meu braço

um pedaço de mar

que você me deixou

e criar outra recordação do primeiro lugar

que acordei pra te ver”


“O Sinal ficou Verde” é escandalosa. É uma invasão, uma coisa meio cangaço, uma conquista. Mas se olhar de perto, grudar teu ouvido, você vai perceber que é da melhor guerra que estão falando. É sobre o domínio do corpo amado.


E vai indo… Transfiguração canta estórias - estória de um homem que sobe numa árvore e que anda mil léguas sobre as folhas e beija sua mulher perto das nuvens…

“Preta” é uma das coisas mais cuidadosas e delicadas que eu já ouvi. A leveza da seda mesclada com o aconchego do xale e a chuva vem pequena, com o seu sonho de água, para lavar o que passou…

“Louco de Deus” . Deus como uma sensação que te faz bem – Transfiguração: mudança na maneira de proceder, de pensar, de sentir – Louco de algo que te faz bem sentir, uma coisa meio colorida, que dá barato.


“O sol rodando vermelho

O sol pregado no azul

O sol redondo no céu

O sol suspenso no ar”


Em “Trans-fi-gu-ra-ção” a gente escuta as palavras deixando os lábios do cantor. A palavra saindo ainda molhada, deixando calmamente a boca para explodir lá fora e ganhar um outro corpo. A paixão é estrada que dói. Metamorfose.

“Lamento das Águas Sagradas” trazendo a brincadeira da cabra-cega: as crianças, a percussão e as palmas. Misteriosa, confusa, linda e sedutora. A mais mangue-beat de todas!

“Morte e Vida Stanley” é um pedaço de cada um de nós: nossos recados sem voz, recôncavo do sol, garras do mundo sem guia.


Transfiguração é um universo desconhecido para mim: um mundo longe, agreste, árido, de sol cor de laranja, mas que estoura em flor e me conquista pelo seu lirismo em carne viva.

[ANDRÉA]

domingo, 9 de maio de 2010

Punk da periferia


Pois é, tem choro, tem rock, tem mpb, tem de tudo por aqui.

Hoje chegou o punk - se bem que já tinha Ratos do Porão. Da periferia, ou melhor das periferias, origem do movimento de massa, depois de devidamente 'criado' a partir de uma boutique inglesa...

O Gil cometeu poucos erros; que eu me lembre, essa música (Punk da periferia) é o pior: apesar da letra realista (mas excessivamente pedagógica), a música em si não tem nada a ver com qualquer tipo de sonoridade ligada ao multifacetado movimento punk.

Mas vamos parar de criticar e começar a celebrar um discão.

Inocentes!!! Até hoje na ativa, pioneiros e íntegros (palavra muito querida, ops, aos punks).

Como já dizia o Clemente (atualmente tocando tb com a Plebe Rude), guitarra/vocal/líder da banda: “Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer". Enfim, punk serve pra incomodar, entre outras coisas. Que o diga meu caro amigo Mateus...

Em 1982, saiu o primeiro registro do punk paulistano (tirando os Replicantes, gaúchos, o punk relevante é paulistano): 'Grito Suburbano', com Inocentes, Cólera e Olho Seco, tosco, primitivo, punk, depois relançado na Alemanha como 'Volks grito'.

Os Inocentes estiveram 2 documentários na época(1982): 'Garotos do subúrbio' de Fernando Meirelles e 'Pânico em SP' de Mário Dalcêndio Jr. Esse título foi utilizado depois (1986) pela banda no disco aqui resenhado.

Antes disso, lançou um disco, 'Miséria e fome', que teve dez de suas treze músicas censuradas e acabou saindo como compacto...

Depois de participar do média metragem 'Punks' de Sarah Yakni e Alberto Gieco, de tocar no antológico festival 'O começo do fim do mundo' (que virou disco coletânea e faz parte do documentário bem posterior do ex-vj Gastão Moreira), de invadir o Circo Voador-RJ com 7 bandas paulistas e mais Paralamas do Sucesso (!!!) e Coquetel Molotov, acabar e voltar com uma proposta de som mais pós-punk (junto com outras bandas do cenário rock Patife Band, Ira!, Mercenárias, Voluntários da Pátria etc), abrirem o primeiro show da Legião no Rio (sempre o Circo Voador, que inclusive passou muito tempo fechado pelo incidente de xingamento do Conde pelo Gordo do RxDxPx, depois da péssima ideia de algum estúpido assessor de comemorar a eleição num show punk), de tocar muito, finalmente em 1986, Branco Mello dos Titãs leva uma demo para a Warner. Ah, a eterna necessidade de padrinhos na música brasileira...

Produzido (muito bem inclusive, gerando como sempre reações dos mais tradicionais punks paulistanos) pelo próprio Branco e Pena Schmidt, sai em 86 'Pânico em SP', na forma de mini-LP, com 6 excelentes músicas. Aliás por que esse formato foi extinto? A Plebe tb lançou 'O concreto já rachou' em EP. Mas o preço era de Lp, claro...

Enfim as músicas:

1. Rotina: começa bem, num crássico q tocam até hoje, riff de guitarra muito legal, 'até quando ele vai aguentar?', tem até um solinho de guitarra no final, heresia punk;

2. Ele disse não: sonoridade bem rock paulista anos 80, fora a 'pronuiincia' de Clemente, sonzaço, tb com solinho;

3. Não acordem a cidade: mais frenética, meio ska, descritiva da noite e de suas criaturas que 'tem vida curta, não importa o que façam, sonhando com Deus e tudo mais', mais uma com solo de guitarra!

4. Salvem El Salvador: não sei se eles ouviram Sandinista do Clash, mas é bem provável, né? Panfletária a música, começa meio climática, depois fica mais rápida, mais um libelo anti-guerra, anti-eua e pró-américa latina. Vcs já ouviram isso antes. Genial é um riff no meio da música simulando uma metralhadora!

5. Expresso oriente: com um riff oriental (dãããã), convida ao passeio pelo oriente. Sem um hummer nem colete eu não vou! A Palestina estava em guerra.

6. Pânico em SP: crássico absoluto, começa com aquele drum'n'bass tipicamente punk fazendo a cama pra guitarra entrar mordendo, o tema antecipa o caos que pode acontecer a qualquer momento (e acabou por acontecer recentemente). 'Pânico em SP', até hoje cantamos a plenos pulmões, 'ô ô ô ô'!!!

Discaço, causou na mídia, como se diria hoje. A banda excursionou bem pelo Brasil, mas as vendas não foram as esperadas pela gravadora. Se alguém quiser, mando pro 4shared!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Carlos, ERASMO... (1971)


Tem coisa na vida que a gente não entende, mas pelo menos a gente pode tomar como um sinal: domingo de manhã acordei com um email super legal do Baiano pra gente dividir uma resenha do Carlos, Erasmo.
Tudo isso culpa do Mateus.
Bem, o domingo passou e naquela noite eu fui ao concerto da Céu e no meio do show ela começa a cantar uma música do Tremendão - daquele jeito bonito dela de cantar. A música era linda, forte e eu não a conhecia: “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”.
E aí pensei: se essa música estiver no Carlos, Erasmo, tá decidido! Resenho total.
E aqui estamos, Baiano e eu nessa viagem. Porque ao ouvir Carlos, Erasmo a primeira reação é essa: que viagem! Sem dúvida ele estava embarcando total numa viagem única, experimentando aqui e ali. Um Erasmo on the road com muita química percorrendo suas veias…
Naquela época a Jovem Guarda fazia parte do passado, o que o havia relegado ao ostracismo, que veio acompanhado por um processo por porte de drogas. Mas no ano anterior “Sentado à Beira do Caminho” havia estourado na voz de seu parceiro, que estava assumindo de vez o papel de grande cantor romântico brasileiro. Por outro lado a Tropicália havia bagunçado a MPB, misturando rock com samba, hino religioso com hino de time de futebol, guitarra com bossa nova. E Erasmo, que nunca deixou de ser roqueiro, no sentido filosófico, ficou meio perdidão, ali, sem saber direito o que fazer. Tava difícil entender alguma coisa.
Mas precisava? Talvez não. Erasmo deu dois e fez um disco de alma tropicalista, onde coubesse tudo o que sentia e quisesse, sem obrigações, sem precisar assumir falsos papéis ou imagens que não eram a dele. Não queria provar nada a ninguém, apenas fazer um disco honesto, franco, despido (“Eu não nasci pra viver mentindo. Sorrir em troca e morrer fingindo”). E já começa pela capa, uma foto de chapéu, camiseta velha sem mangas, bem hippie, rompendo totalmente com o passado Jovem Guarda. A luz é avermelhada de pôr de sol escaldante, ele sério, inconformado?, preocupado?, perdido?, ou tudo isso? E o nome - Carlos, Erasmo (essa vírgula é um charme!) – daquela maneira acadêmica de citar uma obra, só reforça o lado autoral.
O disco é bem diversificado, com letras e temas incomuns. Tem um pouco de tudo: tem rock, tem soul, funk (Mundo Deserto), contestação (É Preciso dar um Jeito Meu Amigo), tema de novela (Ciça, Cecília - Tema de Cecília), Jorge Ben (Agora Ninguém Chora Mais), Caetano Veloso (De Noite na Cama), Marcos e Paulo Cesar Valle (26 Anos de Vida Normal), Taiguara (na riponga Dois Animais na Selva da Rua Suja), Roberto e Erasmo (Gente Aberta), feminismo (Não Te Quero Santa), apologia à maconha (Maria Joana) ao lado de uma religiosa e curiosamente ambas em parceria com Roberto (Sodoma e Gomorra). Parece que ele estava perdidão e jogou todas as suas contradições no disco.
Como era um momento pessoal, Erasmo se cercou de amigos, não só nas composições, que foram fundamentais pro resultado do disco. Lanny Gordin, guitarrista onipresente entre os Tropicalistas; os Mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho, se multiplicam nas guitarras em riffs pesados, batida pop até solos totalmente blues, da maneira mais triste que se pode ser. Nos arranjos de Rogério Duprat e Chiquinho de Moraes, dão riqueza e diversidade. E nessa onda muitas vezes a percussão fala mais alto que a guitarra e as letras falam mais alto que a música. Muito bom!
Começa com “De Noite Na Cama”, que seduz pela bagunça, pelo tom festivo e pela graça que Erasmo imprime à música – colocou berimbau, surdo, chamou a Narinha e até a Dedé! Malandraço, ele transforma a música num soul-samba-rock delicioso! Cheia de malícia, na melhor linha da pilantragem e que chega a ser mais suingada que a do próprio Simonal, o que, convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis. Sem falar que a letra é um baita convite…
“É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” tem a melhor vibe Roberto-Erasmo. Um deslumbre - a música, a letra, a voz, a viagem, a amizade, e também o inconformismo, a contestação:
“Mas estou envergonhado

Com as coisas que eu vi.

Mas não vou ficar calado

No conforto acomodado,

Como tantos por ai.

Descansar não adianta.

Quando a gente se levanta,

Tanta coisa aconteceu.

É preciso dar um jeito meu amigo”.
Clama ele, convocando todo mundo. A liga rock-blues é escandalosa e me desculpe, aqui você não tem outra alternativa a não ser se tornar um escravo voluntário dessa trip.
Muito boa também é “Dois Animais na Selva da Rua” – rockão! – Tem aí uma vontade de reinventar, começar do zero, numa espécie de instinto misturado com sonho, completamente na onda on the road, hippie mesmo. E a música é gostosa , contagiante e te carrega longe…
“Eu vou fazer de você

A ponte erguida pro outro lado da vida.

Eu vou fazer de você

Clareira aberta na selva suja da rua.

Eu não nasci pra viver mentindo,

Sorrir em troca e morrer fugindo.

Por isso somos iguais,

Nós somos dois animais que se aninham, que se amigam...”
E tome mais contestação. Amigar, casar sem a benção da igreja ou autorização do Estado, pecadores ilegais. E daí?, perguntava ele, se na essência somos puro instinto.
E o disco vai rolando, e Carlos, Erasmo vai crescendo, tomando conta dos quatro cantos da casa. E agora tô na curtição do “Mundo Deserto”. Arraso gritado, visceral.
O disco tem potência, tem vigor, tem tesão.
Presente de 2010!

[Marcelo, LUIZ e Melloni, ANDRÉA]