
domingo, 9 de maio de 2010
Punk da periferia

segunda-feira, 3 de maio de 2010
Carlos, ERASMO... (1971)

Tudo isso culpa do Mateus.
Bem, o domingo passou e naquela noite eu fui ao concerto da Céu e no meio do show ela começa a cantar uma música do Tremendão - daquele jeito bonito dela de cantar. A música era linda, forte e eu não a conhecia: “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”.
E aí pensei: se essa música estiver no Carlos, Erasmo, tá decidido! Resenho total.
E aqui estamos, Baiano e eu nessa viagem. Porque ao ouvir Carlos, Erasmo a primeira reação é essa: que viagem! Sem dúvida ele estava embarcando total numa viagem única, experimentando aqui e ali. Um Erasmo on the road com muita química percorrendo suas veias…
Naquela época a Jovem Guarda fazia parte do passado, o que o havia relegado ao ostracismo, que veio acompanhado por um processo por porte de drogas. Mas no ano anterior “Sentado à Beira do Caminho” havia estourado na voz de seu parceiro, que estava assumindo de vez o papel de grande cantor romântico brasileiro. Por outro lado a Tropicália havia bagunçado a MPB, misturando rock com samba, hino religioso com hino de time de futebol, guitarra com bossa nova. E Erasmo, que nunca deixou de ser roqueiro, no sentido filosófico, ficou meio perdidão, ali, sem saber direito o que fazer. Tava difícil entender alguma coisa.
Mas precisava? Talvez não. Erasmo deu dois e fez um disco de alma tropicalista, onde coubesse tudo o que sentia e quisesse, sem obrigações, sem precisar assumir falsos papéis ou imagens que não eram a dele. Não queria provar nada a ninguém, apenas fazer um disco honesto, franco, despido (“Eu não nasci pra viver mentindo. Sorrir em troca e morrer fingindo”). E já começa pela capa, uma foto de chapéu, camiseta velha sem mangas, bem hippie, rompendo totalmente com o passado Jovem Guarda. A luz é avermelhada de pôr de sol escaldante, ele sério, inconformado?, preocupado?, perdido?, ou tudo isso? E o nome - Carlos, Erasmo (essa vírgula é um charme!) – daquela maneira acadêmica de citar uma obra, só reforça o lado autoral.
O disco é bem diversificado, com letras e temas incomuns. Tem um pouco de tudo: tem rock, tem soul, funk (Mundo Deserto), contestação (É Preciso dar um Jeito Meu Amigo), tema de novela (Ciça, Cecília - Tema de Cecília), Jorge Ben (Agora Ninguém Chora Mais), Caetano Veloso (De Noite na Cama), Marcos e Paulo Cesar Valle (26 Anos de Vida Normal), Taiguara (na riponga Dois Animais na Selva da Rua Suja), Roberto e Erasmo (Gente Aberta), feminismo (Não Te Quero Santa), apologia à maconha (Maria Joana) ao lado de uma religiosa e curiosamente ambas em parceria com Roberto (Sodoma e Gomorra). Parece que ele estava perdidão e jogou todas as suas contradições no disco.
Como era um momento pessoal, Erasmo se cercou de amigos, não só nas composições, que foram fundamentais pro resultado do disco. Lanny Gordin, guitarrista onipresente entre os Tropicalistas; os Mutantes Sergio Dias, Liminha e Dinho, se multiplicam nas guitarras em riffs pesados, batida pop até solos totalmente blues, da maneira mais triste que se pode ser. Nos arranjos de Rogério Duprat e Chiquinho de Moraes, dão riqueza e diversidade. E nessa onda muitas vezes a percussão fala mais alto que a guitarra e as letras falam mais alto que a música. Muito bom!
Começa com “De Noite Na Cama”, que seduz pela bagunça, pelo tom festivo e pela graça que Erasmo imprime à música – colocou berimbau, surdo, chamou a Narinha e até a Dedé! Malandraço, ele transforma a música num soul-samba-rock delicioso! Cheia de malícia, na melhor linha da pilantragem e que chega a ser mais suingada que a do próprio Simonal, o que, convenhamos, não é uma tarefa das mais fáceis. Sem falar que a letra é um baita convite…
“É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” tem a melhor vibe Roberto-Erasmo. Um deslumbre - a música, a letra, a voz, a viagem, a amizade, e também o inconformismo, a contestação:
“Mas estou envergonhado
Clama ele, convocando todo mundo. A liga rock-blues é escandalosa e me desculpe, aqui você não tem outra alternativa a não ser se tornar um escravo voluntário dessa trip.
Muito boa também é “Dois Animais na Selva da Rua” – rockão! – Tem aí uma vontade de reinventar, começar do zero, numa espécie de instinto misturado com sonho, completamente na onda on the road, hippie mesmo. E a música é gostosa , contagiante e te carrega longe…
“Eu vou fazer de você
E tome mais contestação. Amigar, casar sem a benção da igreja ou autorização do Estado, pecadores ilegais. E daí?, perguntava ele, se na essência somos puro instinto.
E o disco vai rolando, e Carlos, Erasmo vai crescendo, tomando conta dos quatro cantos da casa. E agora tô na curtição do “Mundo Deserto”. Arraso gritado, visceral.
O disco tem potência, tem vigor, tem tesão.
Presente de 2010!
domingo, 2 de maio de 2010
A Letra A - Nando Reis (2003)

“Você pediu
Pra qu’eu fizesse
Um poema
Por você
Como é que eu vou saber
O que você quer me dizer?
Eu quero que você me conte”
Nando Reis. A LETRA A. Uma capa tatuada: a cor, o nome, as letras negras batidas à máquina.
E a vida deu um montão de volta e esse cd veio parar aqui na 22 Mountain Avenue, doce presente.
A letra A é um disco feito sob a minha medida: puro rock viajante, um rápido-lento delicioso, que pede o aconchego do ouvido e movimentos lentos dos ombros e da cabeça num balanço combinado e suave. A letra A captura tua atenção para as letras, para cada palavra, para poesia longa e embaraçada de prosa.
Sabe? É um disco de amor. Mais um disco de amor. É assim que o Nando parece estar confortável, e aí que é o legal! E tudo ele transforma em estória, num mini-cotidiano: o gramado, a casa, a bolsa a tiracolo, a cor do esmalte, os pés nus nas sandálias, as miçangas, os lábios e os olhos.
Nando Reis nesse disco é pontual, olha para um mundo que só os seus olhos alcançam, está à procura das coisas simples ao redor. Ele trata daquele pequeno que é grande. Grande porque está em todos nós.
“Apenas os automóveis
Sem penas se movem, inventam
Certeza é o chão de um imóvel
Prefiro as pernas que me movimentam”
[ANDRÉA]
sábado, 1 de maio de 2010
Café fresco e quentinho...
Pois é, um disco de chorinho pelo menos dentro de 1001... é o mínimo não? Este Café Brasil pode ser taxado de coletânea (o que na verdade não é), for export (o disco foi encomendado para ser lançado no mercado germânico/europeu) ou seja lá o quê. Pouco importa. Ou talvez até seja for export mesmo para ouvidos brasileiros mais acostumados à avalanche pop-rock que veio nos anos 80. Não entendo lhufas de chorinho e gosto muito pouco de música instrumental. Uma das poucas exceções é justamente o chorinho. O nome também parece não combinar com a música que sugere alegria ao invés de tristeza, talvez sejam os tons agudos do bandolim e do cavaquinho. (while my guitar gently weeps...). Chorinho que tem gosto de manhã ensolarada de domingo no coreto da praça. Acho mesmo o chorinho mais interessante que o samba e, infinitamente superior a tal da bossa nova. Se o samba fosse uma feijoada, o chorinho seria a couve.
Ah, o disco. A idéia é simples. Uma seleção de clássicos do choro (e não parece que qualquer chorinho é realmente clássico?) representado por seus maiores compositores, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Waldir Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola... E de quebra uma seleção de intérpretes que não deixa dúvidas, misturando a virtuose instrumental de Altamiro Carrilho na flauta, Henrique Cazes no cavaquinho, Joel do Nascimento no bandolim, Rildo Hora na harmônica, Maria Teresa Madeira ao piano e claro, e nem poderia deixar de ser diferente, o Conjunto Época de Ouro; artistas que vão se revezando entre as faixas e que são acompanhados aqui e ali por intérpretes que não são tipicamente ligados ao choro como Marisa Monte, Martinho da Vila, João Bosco, Leila Pinheiro e Sivuca.
Os destaques são muitos. Onde sopra Altamiro Carrilho a felicidade é plena, e aqui ele toca em duas faixas. Especialmente em 1 x 0, choro do velho Pixinga, o dueto com o sax de Carlos Malta é de tirar o fôlego. Sarau para Radamés, choro de Paulinho com o próprio no cavaco e Rildo Hora na harmônica; Onde Andarás, de Caetano Veloso e Ferreira Gullar traz Marisa Monte fazendo o que sabe melhor: cantar. Mas o que ficou o chantilly deste café (se a vó fizesse chantilly pra pôr no café) é Sivuca sanfonando
[M]
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Roquenrrou!!!!

Pra quem conhece a fase psicodélica do Ronnie Von e também do Tremendão (e o baiano tem que postar este disco, que é maravilhoso!) é um alívio tê-lo de volta. Em grande estilo, ele trouxe Liminha para produzir o disco que trouxe Dadi (o time que fez o Hein? da Ana Cañas que gostaríamos de ver em breve por aqui, postado pela musa do blogue), com quem divide guitarras e baixo (entre alguns convidados eventuais) e o baterista das antigas Cesinha. Os timbres são todos setentistas, a escolha dos instrumentos, amplificação e ambientação foi cuidadosa e o resultado é ótimo. Erasmo divide as composições com diversos parceiros, entre eles o próprio Liminha, Nelson Motta, Chico Amaral (do Skank e não “o prefeito ideal”) e Nando Reis (uma música boa e outra decepcionante).
O fato é que você não vai encontrar aqui canções que possam aparecer no especial de final de ano do outro Carlos, o Roberto. Dentro da medida do possível, até mesmo as baladas são um pouco mais agressivas do que o que se espera do Grande Tremendo, e predomina no disco, de fato, Rock. A música brasileira costuma ser muito apoiada nas letras, mas, se você relevar este fato e gostar do bom (e velho, bem velho) rock and roll... [M]
ps: o disco foi dica do Dão, o rei da tolerância elástica...
sábado, 20 de março de 2010
Ouvidos Uni-vos - Luiz Tatit (2005)

Há dias venho pensando em escrever uma resenha-homenagem-musical para o Glauco e para Ozetês. Queria que a música combinasse com o olhar do Glauco, com seu par de olhos serenos e redondos.
E hoje, ouvindo “Ouvidos Uni-vos”, o Luiz Tatit com aquele jeito dele de cantar claro, com sua poesia única, com sua voz que raspa o metálico e com seus sons delicados, me veio o Glauco.
E os fios entre o músico-poeta e o cartunista-músico se conectaram! Nas suas simplicidades, nas suas formas onde não cabem o resíduo, onde o mínimo é o máximo - o mínimo forte e indivisível.
Glauco economiza nos traços a nanquim, zanza pelos seus mil personagens e se reatualiza mantendo seu coração nos anos 60/70 e a cabeça no século XXI. Luiz Tatit zanza entre cantigas e baião e com seu sotaque paulistano, carrega tons vindos de uma escola musical mambembe, privilegiando a voz como instrumento.
“Ouvidos Uni-vos” é muito bonito! É um disco alegre, que rola numa espécie de galope. Um CD cheio de pequenas estórias: trata de coisinhas, como as asinhas de um pernilongo, trata de coisas grandiosas, como as dores da alma - dores que viajam da libido ao pomo-de-adão.
Luiz Tatit inventa um disco humano. Canta a gente de maneira espiral, com vida e morte.
E Glauco se foi nessa espiral.
[ANDRÉA]
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Cantando na chuva, no chuveiro...
Janeiro de 1985. Cidade do Rock. Rio de Janeiro, Brasil. Nova República. Embarcamos na véspera na rodoviária de Campinas para acordar no dia seguinte na cidade maravilhosa. Esperamos deitados num banco de praça qualquer até que abrisse o primeiro McDonald’s para tomarmos o café da manhã. Na época era novidade, não tinha isso em Campinas...
Não lembro mais como nos foi permitido ir ao show, éramos dois de quinze, um de dezesseis e o caçula com catorze. Equipamento? A roupa do corpo, uma mochila com uns sanduíches e (talvez) água, e os ingressos. Eu queria ver o Queen, Deco (não época não existia o mito Darciley), o B52’s. Celo e Duda queriam ver o Queen, o B52’s, o corcovado, o pão-de-açúcar, o Mc... tudo!
A idéia era assistir a uma única noite de show, e voltar no próximo ônibus, assim não havia necessidade de pernoite. Nosso hotel seria o Cometa. Kid Abelha abriu de forma sofrível, tinham um único disco, com musiquetas fraquíssimas e a Paula Toller ainda não era o que a gente vê hoje. Foi perfeito pra gente dar uma banda pelo ambiente enlameado, comer alguma coisa, comprar um boné de recordação, banheiro...
Lulu Santos fez um show impecável, ainda que na época eu conhecesse muito pouco da sua música. Curioso é que ainda hoje, este foi o único show dele que eu fui. Na seção internacional, uma totalmente dispensável banda de mulheres chamada Gogo’s e depois o B52’s que fez um ótimo show também, mesmo que a gente só conhecesse Private Idaho e Legal Tender (O Deco que tinha o disco, cantou o show todo). Fechou a noite o Show do Queen, uma coisa inacreditável, com aquelas engrenagens gigantes e Freddie Mercury foi rei do Rio por uma noite... Durante muito tempo aquela foi a melhor noite da minha vida!
Mas o melhor da melhor noite da minha vida nem foi o show em si, mas foram os detalhes. A volta de Jacarepaguá para a rodoviária num ônibus lotadaço, onde dormimos literalmente em pé, uns apoiados nos outros (não havia a necessidade de se segurar). A roupa inteira cheia de barro, a gente na janela do ônibus de ida, fazendo chifrinho e gritando “Ozzy” pros carros que passavam nos ignorando solenemente na estrada. E 48 horas livres e soltos, deixando os pais preocupados na torcida de que seríamos capazes de ir e voltar (salvos. Sãos?).
O outro detalhe veio depois do show do Lulu Santos (ou terá sido antes? não me lembro mais...). No palco um box completo com chuveiro toalha e tudo mais. Luzes anunciam que está para começar o show e... montado numa vespa Eduardo Dusek adentra freneticamente o palco para cantar no banheiro, berrar no chuveiro e mostrar que o Rock era in Rio!!! Artista único, é a cara do Rio de Janeiro (hoje vejo isso). Misto de Casseta e Planeta com novela das oito, maracanã com IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), preto com alemão, feijoada com sashimi, música, teatro, rock, samba, bolero e forró. Um anjo que havia caído do céu poucos anos antes num desses festivais da TV, Nostradamus anunciando que o mundo estava acabando, Dusek aproveitou o Rock in Rio para fazer uma retrospectiva de sua (então curta) carreira, onde o disco de destaque é este Cantando no Banheiro. Disco preparado com cuidado, conta com a participação especial dos Miquinhos Amestrados de João Penca que dão o clima Rock’n’roll das antigas, a faixa título conta o “drama” do moleque trancado no banheiro enquanto papai bate na porta/a maçaneta entorta/ eu não abro! Quem não se lembra? Confesso que eu mesmo não me lembro do disco todo... E, além desse Cantando no Banheiro, mais duas obras-primas encontramos aqui.
Barrados no Baile é muito feliz, as rimas são longe das óbvias (Mas foram barrados no baile/ tratados como maus-elementos/ lá dentro rolando Bob Marley!/ cá fora por favor documentos....) e impossíveis de serem cantadas sem aquele sotaque do riiiiioo... E o Rock da Cachorra é simplesmente genial (apesar de ser do Léo Jaime, ô disinfiliz): Troque seu cachorro por uma criança pobre/ sem parente sem carinho/ sem rango sem cobre.... Espetada na Classe Media Way of Life, é a versão do nascente rock brasileiro dos anos 80 para o Bolsa-família. E o Rock in Rio foi minha primeira inesquecível aventura adolescente.
[M]