sábado, 20 de março de 2010

Ouvidos Uni-vos - Luiz Tatit (2005)


Há dias venho pensando em escrever uma resenha-homenagem-musical para o Glauco e para Ozetês. Queria que a música combinasse com o olhar do Glauco, com seu par de olhos serenos e redondos.
E hoje, ouvindo “Ouvidos Uni-vos”, o Luiz Tatit com aquele jeito dele de cantar claro, com sua poesia única, com sua voz que raspa o metálico e com seus sons delicados, me veio o Glauco.
E os fios entre o músico-poeta e o cartunista-músico se conectaram! Nas suas simplicidades, nas suas formas onde não cabem o resíduo, onde o mínimo é o máximo - o mínimo forte e indivisível.
Glauco economiza nos traços a nanquim, zanza pelos seus mil personagens e se reatualiza mantendo seu coração nos anos 60/70 e a cabeça no século XXI. Luiz Tatit zanza entre cantigas e baião e com seu sotaque paulistano, carrega tons vindos de uma escola musical mambembe, privilegiando a voz como instrumento.
“Ouvidos Uni-vos” é muito bonito! É um disco alegre, que rola numa espécie de galope. Um CD cheio de pequenas estórias: trata de coisinhas, como as asinhas de um pernilongo, trata de coisas grandiosas, como as dores da alma - dores que viajam da libido ao pomo-de-adão.
Luiz Tatit inventa um disco humano. Canta a gente de maneira espiral, com vida e morte.
E Glauco se foi nessa espiral.
[ANDRÉA]

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cantando na chuva, no chuveiro...


Janeiro de 1985. Cidade do Rock. Rio de Janeiro, Brasil. Nova República. Embarcamos na véspera na rodoviária de Campinas para acordar no dia seguinte na cidade maravilhosa. Esperamos deitados num banco de praça qualquer até que abrisse o primeiro McDonald’s para tomarmos o café da manhã. Na época era novidade, não tinha isso em Campinas...


Não lembro mais como nos foi permitido ir ao show, éramos dois de quinze, um de dezesseis e o caçula com catorze. Equipamento? A roupa do corpo, uma mochila com uns sanduíches e (talvez) água, e os ingressos. Eu queria ver o Queen, Deco (não época não existia o mito Darciley), o B52’s. Celo e Duda queriam ver o Queen, o B52’s, o corcovado, o pão-de-açúcar, o Mc... tudo!


A idéia era assistir a uma única noite de show, e voltar no próximo ônibus, assim não havia necessidade de pernoite. Nosso hotel seria o Cometa. Kid Abelha abriu de forma sofrível, tinham um único disco, com musiquetas fraquíssimas e a Paula Toller ainda não era o que a gente vê hoje. Foi perfeito pra gente dar uma banda pelo ambiente enlameado, comer alguma coisa, comprar um boné de recordação, banheiro...


Lulu Santos fez um show impecável, ainda que na época eu conhecesse muito pouco da sua música. Curioso é que ainda hoje, este foi o único show dele que eu fui. Na seção internacional, uma totalmente dispensável banda de mulheres chamada Gogo’s e depois o B52’s que fez um ótimo show também, mesmo que a gente só conhecesse Private Idaho e Legal Tender (O Deco que tinha o disco, cantou o show todo). Fechou a noite o Show do Queen, uma coisa inacreditável, com aquelas engrenagens gigantes e Freddie Mercury foi rei do Rio por uma noite... Durante muito tempo aquela foi a melhor noite da minha vida!


Mas o melhor da melhor noite da minha vida nem foi o show em si, mas foram os detalhes. A volta de Jacarepaguá para a rodoviária num ônibus lotadaço, onde dormimos literalmente em pé, uns apoiados nos outros (não havia a necessidade de se segurar). A roupa inteira cheia de barro, a gente na janela do ônibus de ida, fazendo chifrinho e gritando “Ozzy” pros carros que passavam nos ignorando solenemente na estrada. E 48 horas livres e soltos, deixando os pais preocupados na torcida de que seríamos capazes de ir e voltar (salvos. Sãos?).


O outro detalhe veio depois do show do Lulu Santos (ou terá sido antes? não me lembro mais...). No palco um box completo com chuveiro toalha e tudo mais. Luzes anunciam que está para começar o show e... montado numa vespa Eduardo Dusek adentra freneticamente o palco para cantar no banheiro, berrar no chuveiro e mostrar que o Rock era in Rio!!! Artista único, é a cara do Rio de Janeiro (hoje vejo isso). Misto de Casseta e Planeta com novela das oito, maracanã com IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), preto com alemão, feijoada com sashimi, música, teatro, rock, samba, bolero e forró. Um anjo que havia caído do céu poucos anos antes num desses festivais da TV, Nostradamus anunciando que o mundo estava acabando, Dusek aproveitou o Rock in Rio para fazer uma retrospectiva de sua (então curta) carreira, onde o disco de destaque é este Cantando no Banheiro. Disco preparado com cuidado, conta com a participação especial dos Miquinhos Amestrados de João Penca que dão o clima Rock’n’roll das antigas, a faixa título conta o “drama” do moleque trancado no banheiro enquanto papai bate na porta/a maçaneta entorta/ eu não abro! Quem não se lembra? Confesso que eu mesmo não me lembro do disco todo... E, além desse Cantando no Banheiro, mais duas obras-primas encontramos aqui.


Barrados no Baile é muito feliz, as rimas são longe das óbvias (Mas foram barrados no baile/ tratados como maus-elementos/ lá dentro rolando Bob Marley!/ cá fora por favor documentos....) e impossíveis de serem cantadas sem aquele sotaque do riiiiioo... E o Rock da Cachorra é simplesmente genial (apesar de ser do Léo Jaime, ô disinfiliz): Troque seu cachorro por uma criança pobre/ sem parente sem carinho/ sem rango sem cobre.... Espetada na Classe Media Way of Life, é a versão do nascente rock brasileiro dos anos 80 para o Bolsa-família. E o Rock in Rio foi minha primeira inesquecível aventura adolescente.


[M]

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sudaka - Ramiro Musotto (2003)


Ramiro Musotto : argentino com sotaque brasileiro-bahia. Um desses fantásticos músicos percussionistas que inventam sons que a princípio geram uma sensação de... qué es esto? Mas que já na segunda escutada, no entanto, o estranhamento relaxa e se transforma num... no sé lo que es, pero me encanta!


Uma música que não dá trabalho de tão boa! É uma mescla muito bem temperada de tradição com viagem eletrônica e de novo estou aqui fascinada por essas gentes que viajam pelos tempos e pelas pessoas.


“Sudaka” é um cd curto, de músicas curtas e velozes, de pouca fala. É um conjunto de sons ricos que deixa para você a responsabilidade da viagem – “Sudaka” te arranca do conforto com sua atmosfera fliperama-indígena, de alguma forma te tira da tua paz, mas deixa pra você a escolha da dança e da graça dos movimentos.


Num emaranhado de vozes, berimbau, cajas, baixo, sax e delicada programação eletrônica, Ramiro Musotto conversa com o Cinema Novo em “Antônio das Mortes”, voa até a África com "Caminho" e "Ginga". É um cd que transita o tempo todo: tá na Bahia com o Glauber Rocha, mas corre até as Índias e acrescenta algo nessa Bahia-Argentina. Tá no Ilê Aiyê de Angola com conexão direta com o Brasil. “Botellero” é a minha favorita! Voz extraída das memórias das ruas – cheia de suas palavras locais numa sequência completamente poética e musicada de uma maneira ainda sem memória, de tão moderna.


O trabalho do Ramiro nesse cd é isso: um cd cheio de pequenas-grandes conversas. Um megafone, um amplificador da cultura miúda para o mundo.


Buena onda total!

[ANDRÉA]

sábado, 28 de novembro de 2009

Dois, Legião Urbana, 1986


Tem discos que além da sua qualidade, tem um valor subjetivo maior ainda por remeter à memória afetiva de cada um de nós. E certamente, no meu caso, o Dois do Legião Urbana cumpre esse papel. Lembro que eu já era fã (não perdia um show deles em Campinas entre 1984 e 1987 - foram uns cinco) e comprei o disco, mesmo sem conhecer as músicas. E me surpreendi positivamente pela qualidade. A explosão e as letras mais diretas do primeiro disco deram vez a metáforas mais ricas e a um olhar mais introspectivo.

A capa (arte de Fernanda Pacheco) era simples, cor de bronze, escrito apenas Legião Urbana com Dois em relevo, enquanto na contra-capa tinha o nome dos quatro integrantes e da produção de Mayrton Bahia. Sem nome de músicas, sem desenhos, fotos, etc. Enfim, simples...e de bom gosto. No encarte interno fotos, informações técnicas, a relação das músicas com suas longas letras e um aviso: “escute no volume máximo!”. Somente nesse volume, é possível identificar que “Daniel na Cova dos Leões” (música que abre o lado A) começa o som de um dial do rádio girando e passando pelo final de “Será” (sucesso do disco anterior) e pelo hino da Internacional Socialista.

Diferentemente da imensa maioria dos discos do recém-nascido rock nacional, Dois não apresenta refrões fáceis e repetidos (garantia de sucesso para as bandas), suas 12 músicas tinham títulos cuja identificação com a letra não era automática, foi lançado sem que houvesse uma música de trabalho específica, as letras eram de difícil memorização e, para completar, suas músicas tinham longa duração para os padrões das rádios na época (músicas com cerca de 5 minutos de duração). O projeto original era ainda para ser um álbum duplo, mas isso a gravadora vetou. E foi contrariando a fórmula do sucesso que esse disco surpreendeu a indústria fonográfica e emplacou, vendendo mais de 1,2 milhões de cópias. Sinal de que o público tinha bom gosto também.

Mantendo-se fiel à linguagem jovem da década de 1980, mas mostrando uma maior maturidade nas suas canções, Renato Russo e seus parceiros conseguem unir letras ricas e bem articuladas de um lado, com ótimos arranjos e sonoridade marcante de outro.

Depois da citada “Daniel na Cova dos Leões”, vem “Quase sem querer”, que acabou se tornando uma das mais tocadas. A terceira, “Acrilic On Canvas”, é uma verdadeira obra de arte: trabalhei você em luz e sombra. Depois continua com a história de “Eduardo e Monica” (grande sucesso na época), seguida pela instrumental “Central do Brasil” para fechar o lado A com “Tempo Perdido”: nem foi tempo perdido..somos tão jovens.

O lado B do vinil tem um som mais pesado, abrindo com “Metrópole”, com riff de guitarra marcante na introdução, para emendar com “Plantas debaixo do Aquário” (não deixe a guerra começar). Depois vem “Música Urbana 2” (Renato Russo ao melhor estilo Lou Reed) e “Andrea Doria” (referência a um navio italiano, que naufragou quando seguia para Nova York em 1956 após se chocar com uma outra embarcação, com um saldo de 51 mortos – a maioria sobreviveu - e o desaparecimento de algumas obras de arte italianas). O disco fecha com as politizadas “Fábrica” (quero tra-ba-lhar em paz... não é muito o que lhe peço) e “Índios” (nos deram espelhos..e vimos um mundo doente..tentei chorar..e não consegui).

Pessoalmente, esse disco (e particularmente seu vinil) remete a lembranças de uma época em que tão importante quanto viver intensamente, era fazermos nossa própria trilha sonora. E para isso, esse disco foi fundamental.
Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
[Paul]

Para escutar:
http://www.4shared.com/get/100231916/8ee3a716/Legiao_Urbana_-__Dois.html

sábado, 21 de novembro de 2009

Chega de Saudade, João Gilberto, 1959


No final da década de 1950, a música brasileira era representada basicamente por vozeirões e vibratos que se sobrepunham a melodias mais 'quadradas', quando uma certa turminha da zona sul carioca começou a se encontrar em busca de um novo som, transformando o violão em protagonista e buscando um casamento perfeito entre o arranjo e o som com com uma voz que flutuasse mais harmoniosa. Isso era bossa nova, isso era muito natural.

E foi nesse contexto que o baiano João Gilberto, depois de anos batalhando, conseguiu finalmente gravar seu primeiro LP (antes já tinha gravado alguns discos de 78 rotações). Foi difícil, mas perfeccionista como só ele, portador de um ouvido privilegiado, e contando ainda com a direção musical de Tom Jobim, o resultado não poderia ter sido melhor.

Chega de Saudade foi gravado no início de 1959 e de saída já vendeu 35 mil cópias. Nesse LP, a música-título da parceria imortal de Tom e Vinícius encontrou, na voz e no violão de João Gilberto, a sua versão definitiva (já tinha sido gravada anteriormente pela Elizeth Cardoso - com João Gilberto ao violão - ou ainda em um 78 rotações dele próprio). A partir desse momento, versos melancólicos deram lugar a passagens que se tornariam imortais como “pois há menos peixinhos a nadar no mar...do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Se você disser que eu desafino amor... saiba que isso em mim.. provoca imensa dor...”. “Desafinado”, composta por Tom e Newton Mendonça (injustamente pouco lembrado), representa outro marco da bossa nova. Trazendo pela primeira vez o termo 'bossa nova' em uma letra (antes mesmo de esse estilo ser assim batizado), era uma espécie de brincadeira, já que sua interpretação é extremamente difícil para alguém cuja voz não seja muito afinada.

Só essas duas músicas já seriam suficientes para imortalizar qualquer disco, mas o LP apresentava preciosidades como “Lobo Bobo (de Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli que mostrava como Bôscoli se deixou fisgar pela jovem Nara Leão), “Brigas nunca mais”(mais uma de Tom e Vinícius), “Rosa Morena” (Caymmi), “Saudade fez um samba” (outra de Lyra e Bôscoli), “É luxo só” (Ary Barroso e Luís Peixoto), “Aos pés da cruz” (M. Pinto e Zé da Zilda), “Bim-bom” e Ho-ba-la-lá” (ambas de sua autoria, as primeiras que tocou quando conheceu a tal turminha).

Na capa imortal, a foto de Chico Pereira mostra João Gilberto portando um suéter de lã (emprestado por Bôscoli) em pleno verão carioca porque ele achava que sua melhor camisa não era suficientemente fotogênica. Na contra-capa, destaque para o texto de apresentação assinado por Antonio Carlos Jobim que assim começa: “João Gilberto é um baiano ‘bossa nova’, de 27 anos (...).

Enfim, se a bossa nova tivesse um RG, certamente o início de 1959 com a gravação de Chega de Saudade, seria sua data de nascimento e João Gilberto, com sua voz e jeito inovador de dedilhar o violão, o seu pai. O mundo agradeceu e, cinqüenta anos depois, continua escutando maravilhado. [Paul]


Para escutar: http://www.4shared.com/file/80911203/ba410309/Joo_Gilberto_-_Chega_de_Saudade_1959.html?s=1

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Inspirado. Psicodélico. Alucinante.


Este post deveria ser feito pelo meu amigo penavadia, mas ele não quis... Não sei se deu preguiça, ou foi falta de sintonia com o assunto, mas esse post, de alguma forma é dele. Dele e da minha musa inspiradora, mãe dos meus filhos, meu anjo salvador que um dia vendo a propaganda de mais uma nova coletânea de Belchior na TV se pronunciou num momento raro: ai, eu queria esse disco... Tem que ter uma sensibilidade diferente para curtir a voz quase fanhosa, o indisfarçável sotaque cearense, as letras que beiram o épico...

Coletânea do Belchior é que nem festa de criança, da turma da escola: são sempre os mesmos convidados, só muda a ordem. Mas esta aqui é quase uma coletânea pois Belchior era apenas um rapaz latino-americano do Ceará quando em 1976 lançou este seu alucinação. É o disco onde ele gravou seus maiores clássicos: Apenas um Rapaz Latino-americano, Como Nossos Pais (imortalizado por Elis Regina), Velha Roupa Colorida (minha favorita) e A Palo Seco. Belchior tem um timbre de voz facilmente identificável e dificilmente digerível, mas as canções e os arranjos deste álbum colocam a esta questão em segundo plano. Completam o disco Sujeito de Sorte, Como o Diabo Gosta, Não Leve Flores, Fotografia 3x4, Antes do Fim e a faixa-título, Alucinação. É o seu melhor disco, sem dúvida, o mais inspirado.

E pra meu outro amigo, um baiano daquela cidedezinha que tem perto de Ilhéus, que sempre me foge o nome, ah sim, Itabuna!, não consigo privar esta pequena resenha de meu olhar rock'n'roll: O Belchior tá na fronteira do que era em '76 chamado MPB (Gil, Chico, Caetano) e rock. Suas indisfarçáveis alusões aos Beatles aparecem sempre, mas esse nem é o fator principal, o disco é rock'n'roll mesmo é no desespero, na alucinação e na vontade de abraçar o mundo.

Um último comentário quase-besta: a edição em cd que eu dei pra chefe do "fã-clube do Belchior lá de casa" merecia uma edição mais caprichada: uma remasterização (essas coisas que se fazem em estúdio pra comemorar o relançamento de um clássico no formato CD) e um encarte que fizesse justiça a esta alucinada coleção de canções.

[M]

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noites do Norte ao vivo - Caetano Veloso (2001)


Pára de ondular, agora, cobra coral:

a fim de que eu copie as cores com que te adornas,

a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,

a fim de que tua beleza

teu langor

tua elegância

reinem sobre as cobras

não corais.


Caetano Veloso é fruta que perfuma com cor absoluta.


“Noites do Norte ao vivo” é mistura do velho com o novo - faz do velho o novo e o novo ainda mais novo. E celebra algo muito especial: música é um universo aberto onde se pode mexer, mudar, pôr e tirar - absorve transformação. A música pode ser um mar antes navegado, mas em que, a cada viagem, você pode descobrir uma parada nova. Isso é de uma liberdade incrível.


Na voz de Caetano muita gente aparece em “Noites do Norte”. Todos gente de primeira: Gil, Jorge Ben, Lulu Santos, Tom Jobim, Waly Salomão, Luiz Melodia, Carlinhos Brown. Aparecem também aquelas pedras preciosas perdidas: Alain Tavares e Gilson Babilônia.


É um disco sem rumo, vai parando em vários portos, enfrenta águas mais ou menos turbulentas, mas é um disco fundamentalmente brasileiro e tropicalista. “Noites do Norte” permite misturas, permite interferências: fala da gente, das nossas heranças, do nosso jeito de amar, do nosso jeito de ser e de fazer rock e da nossa língua.


Parte da África na procura de explicação com a linda “Zumbi”, “Noites do Norte” ou a rápida “Sugar cane fields forever”. Mas na procura a nau se perde nas águas profundas do amor com a obra-prima de quase todos os tempos “Nosso estranho amor”, com a doce e deliciosa, dessas de cair de paixão, “Mimar você”, com “Dom de Iludir” funkeada – Caetano aí é perfeito na mistura de águas – com “Caminhos Cruzados” e finalmente com “Magrelinha”, que naquele amontoado de palavras, torna a poesia puro ecstasy.


Num rock profundo com muita percussão, música que eu queria pra mim, Caetano volta do fundo com “Tigresa”, maravilhosa. “Tropicália” que contém a agressividade sonora do rock surge para provar que o velho continua novo e ainda repleto de sentido. E do fundo surge também a nova “Rock’n’Raul”. Essa eu adoro e dispensa qualquer comentário.

Na marola, “Menino do Rio” chega com mais balanço, “Gatas extraordinárias” malandraça total e “Menino Deus” que fecha “Noites do Norte” já na praia, com sensação de missão cumprida.


"Você provocou

Tempestades solares no meu coração

Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher

Você faz o que quer

Você me exasperou

Você não sabe viver onde eu sou

Então adeus

Ou seja outra:

Alguém que aguente o sol"

[ANDRÉA]