sábado, 28 de novembro de 2009

Dois, Legião Urbana, 1986


Tem discos que além da sua qualidade, tem um valor subjetivo maior ainda por remeter à memória afetiva de cada um de nós. E certamente, no meu caso, o Dois do Legião Urbana cumpre esse papel. Lembro que eu já era fã (não perdia um show deles em Campinas entre 1984 e 1987 - foram uns cinco) e comprei o disco, mesmo sem conhecer as músicas. E me surpreendi positivamente pela qualidade. A explosão e as letras mais diretas do primeiro disco deram vez a metáforas mais ricas e a um olhar mais introspectivo.

A capa (arte de Fernanda Pacheco) era simples, cor de bronze, escrito apenas Legião Urbana com Dois em relevo, enquanto na contra-capa tinha o nome dos quatro integrantes e da produção de Mayrton Bahia. Sem nome de músicas, sem desenhos, fotos, etc. Enfim, simples...e de bom gosto. No encarte interno fotos, informações técnicas, a relação das músicas com suas longas letras e um aviso: “escute no volume máximo!”. Somente nesse volume, é possível identificar que “Daniel na Cova dos Leões” (música que abre o lado A) começa o som de um dial do rádio girando e passando pelo final de “Será” (sucesso do disco anterior) e pelo hino da Internacional Socialista.

Diferentemente da imensa maioria dos discos do recém-nascido rock nacional, Dois não apresenta refrões fáceis e repetidos (garantia de sucesso para as bandas), suas 12 músicas tinham títulos cuja identificação com a letra não era automática, foi lançado sem que houvesse uma música de trabalho específica, as letras eram de difícil memorização e, para completar, suas músicas tinham longa duração para os padrões das rádios na época (músicas com cerca de 5 minutos de duração). O projeto original era ainda para ser um álbum duplo, mas isso a gravadora vetou. E foi contrariando a fórmula do sucesso que esse disco surpreendeu a indústria fonográfica e emplacou, vendendo mais de 1,2 milhões de cópias. Sinal de que o público tinha bom gosto também.

Mantendo-se fiel à linguagem jovem da década de 1980, mas mostrando uma maior maturidade nas suas canções, Renato Russo e seus parceiros conseguem unir letras ricas e bem articuladas de um lado, com ótimos arranjos e sonoridade marcante de outro.

Depois da citada “Daniel na Cova dos Leões”, vem “Quase sem querer”, que acabou se tornando uma das mais tocadas. A terceira, “Acrilic On Canvas”, é uma verdadeira obra de arte: trabalhei você em luz e sombra. Depois continua com a história de “Eduardo e Monica” (grande sucesso na época), seguida pela instrumental “Central do Brasil” para fechar o lado A com “Tempo Perdido”: nem foi tempo perdido..somos tão jovens.

O lado B do vinil tem um som mais pesado, abrindo com “Metrópole”, com riff de guitarra marcante na introdução, para emendar com “Plantas debaixo do Aquário” (não deixe a guerra começar). Depois vem “Música Urbana 2” (Renato Russo ao melhor estilo Lou Reed) e “Andrea Doria” (referência a um navio italiano, que naufragou quando seguia para Nova York em 1956 após se chocar com uma outra embarcação, com um saldo de 51 mortos – a maioria sobreviveu - e o desaparecimento de algumas obras de arte italianas). O disco fecha com as politizadas “Fábrica” (quero tra-ba-lhar em paz... não é muito o que lhe peço) e “Índios” (nos deram espelhos..e vimos um mundo doente..tentei chorar..e não consegui).

Pessoalmente, esse disco (e particularmente seu vinil) remete a lembranças de uma época em que tão importante quanto viver intensamente, era fazermos nossa própria trilha sonora. E para isso, esse disco foi fundamental.
Não há mentiras nem verdades aqui, só há música urbana.
[Paul]

Para escutar:
http://www.4shared.com/get/100231916/8ee3a716/Legiao_Urbana_-__Dois.html

sábado, 21 de novembro de 2009

Chega de Saudade, João Gilberto, 1959


No final da década de 1950, a música brasileira era representada basicamente por vozeirões e vibratos que se sobrepunham a melodias mais 'quadradas', quando uma certa turminha da zona sul carioca começou a se encontrar em busca de um novo som, transformando o violão em protagonista e buscando um casamento perfeito entre o arranjo e o som com com uma voz que flutuasse mais harmoniosa. Isso era bossa nova, isso era muito natural.

E foi nesse contexto que o baiano João Gilberto, depois de anos batalhando, conseguiu finalmente gravar seu primeiro LP (antes já tinha gravado alguns discos de 78 rotações). Foi difícil, mas perfeccionista como só ele, portador de um ouvido privilegiado, e contando ainda com a direção musical de Tom Jobim, o resultado não poderia ter sido melhor.

Chega de Saudade foi gravado no início de 1959 e de saída já vendeu 35 mil cópias. Nesse LP, a música-título da parceria imortal de Tom e Vinícius encontrou, na voz e no violão de João Gilberto, a sua versão definitiva (já tinha sido gravada anteriormente pela Elizeth Cardoso - com João Gilberto ao violão - ou ainda em um 78 rotações dele próprio). A partir desse momento, versos melancólicos deram lugar a passagens que se tornariam imortais como “pois há menos peixinhos a nadar no mar...do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Se você disser que eu desafino amor... saiba que isso em mim.. provoca imensa dor...”. “Desafinado”, composta por Tom e Newton Mendonça (injustamente pouco lembrado), representa outro marco da bossa nova. Trazendo pela primeira vez o termo 'bossa nova' em uma letra (antes mesmo de esse estilo ser assim batizado), era uma espécie de brincadeira, já que sua interpretação é extremamente difícil para alguém cuja voz não seja muito afinada.

Só essas duas músicas já seriam suficientes para imortalizar qualquer disco, mas o LP apresentava preciosidades como “Lobo Bobo (de Carlinhos Lyra e Ronaldo Bôscoli que mostrava como Bôscoli se deixou fisgar pela jovem Nara Leão), “Brigas nunca mais”(mais uma de Tom e Vinícius), “Rosa Morena” (Caymmi), “Saudade fez um samba” (outra de Lyra e Bôscoli), “É luxo só” (Ary Barroso e Luís Peixoto), “Aos pés da cruz” (M. Pinto e Zé da Zilda), “Bim-bom” e Ho-ba-la-lá” (ambas de sua autoria, as primeiras que tocou quando conheceu a tal turminha).

Na capa imortal, a foto de Chico Pereira mostra João Gilberto portando um suéter de lã (emprestado por Bôscoli) em pleno verão carioca porque ele achava que sua melhor camisa não era suficientemente fotogênica. Na contra-capa, destaque para o texto de apresentação assinado por Antonio Carlos Jobim que assim começa: “João Gilberto é um baiano ‘bossa nova’, de 27 anos (...).

Enfim, se a bossa nova tivesse um RG, certamente o início de 1959 com a gravação de Chega de Saudade, seria sua data de nascimento e João Gilberto, com sua voz e jeito inovador de dedilhar o violão, o seu pai. O mundo agradeceu e, cinqüenta anos depois, continua escutando maravilhado. [Paul]


Para escutar: http://www.4shared.com/file/80911203/ba410309/Joo_Gilberto_-_Chega_de_Saudade_1959.html?s=1

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Inspirado. Psicodélico. Alucinante.


Este post deveria ser feito pelo meu amigo penavadia, mas ele não quis... Não sei se deu preguiça, ou foi falta de sintonia com o assunto, mas esse post, de alguma forma é dele. Dele e da minha musa inspiradora, mãe dos meus filhos, meu anjo salvador que um dia vendo a propaganda de mais uma nova coletânea de Belchior na TV se pronunciou num momento raro: ai, eu queria esse disco... Tem que ter uma sensibilidade diferente para curtir a voz quase fanhosa, o indisfarçável sotaque cearense, as letras que beiram o épico...

Coletânea do Belchior é que nem festa de criança, da turma da escola: são sempre os mesmos convidados, só muda a ordem. Mas esta aqui é quase uma coletânea pois Belchior era apenas um rapaz latino-americano do Ceará quando em 1976 lançou este seu alucinação. É o disco onde ele gravou seus maiores clássicos: Apenas um Rapaz Latino-americano, Como Nossos Pais (imortalizado por Elis Regina), Velha Roupa Colorida (minha favorita) e A Palo Seco. Belchior tem um timbre de voz facilmente identificável e dificilmente digerível, mas as canções e os arranjos deste álbum colocam a esta questão em segundo plano. Completam o disco Sujeito de Sorte, Como o Diabo Gosta, Não Leve Flores, Fotografia 3x4, Antes do Fim e a faixa-título, Alucinação. É o seu melhor disco, sem dúvida, o mais inspirado.

E pra meu outro amigo, um baiano daquela cidedezinha que tem perto de Ilhéus, que sempre me foge o nome, ah sim, Itabuna!, não consigo privar esta pequena resenha de meu olhar rock'n'roll: O Belchior tá na fronteira do que era em '76 chamado MPB (Gil, Chico, Caetano) e rock. Suas indisfarçáveis alusões aos Beatles aparecem sempre, mas esse nem é o fator principal, o disco é rock'n'roll mesmo é no desespero, na alucinação e na vontade de abraçar o mundo.

Um último comentário quase-besta: a edição em cd que eu dei pra chefe do "fã-clube do Belchior lá de casa" merecia uma edição mais caprichada: uma remasterização (essas coisas que se fazem em estúdio pra comemorar o relançamento de um clássico no formato CD) e um encarte que fizesse justiça a esta alucinada coleção de canções.

[M]

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Noites do Norte ao vivo - Caetano Veloso (2001)


Pára de ondular, agora, cobra coral:

a fim de que eu copie as cores com que te adornas,

a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,

a fim de que tua beleza

teu langor

tua elegância

reinem sobre as cobras

não corais.


Caetano Veloso é fruta que perfuma com cor absoluta.


“Noites do Norte ao vivo” é mistura do velho com o novo - faz do velho o novo e o novo ainda mais novo. E celebra algo muito especial: música é um universo aberto onde se pode mexer, mudar, pôr e tirar - absorve transformação. A música pode ser um mar antes navegado, mas em que, a cada viagem, você pode descobrir uma parada nova. Isso é de uma liberdade incrível.


Na voz de Caetano muita gente aparece em “Noites do Norte”. Todos gente de primeira: Gil, Jorge Ben, Lulu Santos, Tom Jobim, Waly Salomão, Luiz Melodia, Carlinhos Brown. Aparecem também aquelas pedras preciosas perdidas: Alain Tavares e Gilson Babilônia.


É um disco sem rumo, vai parando em vários portos, enfrenta águas mais ou menos turbulentas, mas é um disco fundamentalmente brasileiro e tropicalista. “Noites do Norte” permite misturas, permite interferências: fala da gente, das nossas heranças, do nosso jeito de amar, do nosso jeito de ser e de fazer rock e da nossa língua.


Parte da África na procura de explicação com a linda “Zumbi”, “Noites do Norte” ou a rápida “Sugar cane fields forever”. Mas na procura a nau se perde nas águas profundas do amor com a obra-prima de quase todos os tempos “Nosso estranho amor”, com a doce e deliciosa, dessas de cair de paixão, “Mimar você”, com “Dom de Iludir” funkeada – Caetano aí é perfeito na mistura de águas – com “Caminhos Cruzados” e finalmente com “Magrelinha”, que naquele amontoado de palavras, torna a poesia puro ecstasy.


Num rock profundo com muita percussão, música que eu queria pra mim, Caetano volta do fundo com “Tigresa”, maravilhosa. “Tropicália” que contém a agressividade sonora do rock surge para provar que o velho continua novo e ainda repleto de sentido. E do fundo surge também a nova “Rock’n’Raul”. Essa eu adoro e dispensa qualquer comentário.

Na marola, “Menino do Rio” chega com mais balanço, “Gatas extraordinárias” malandraça total e “Menino Deus” que fecha “Noites do Norte” já na praia, com sensação de missão cumprida.


"Você provocou

Tempestades solares no meu coração

Com as mucosas venenosas de sua alma de mulher

Você faz o que quer

Você me exasperou

Você não sabe viver onde eu sou

Então adeus

Ou seja outra:

Alguém que aguente o sol"

[ANDRÉA]

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pequeno Cidadão (2009)


Pode-se até definir o Pequeno Cidadão como um disco para crianças. É, de fato, a maneira mais fácil de olhar as coisas, o caminho do óbvio, uma vez que alguns artistas consagrados juntam-se com seus filhos das mais variadas idades e gravam um cd com músicas que os misturam, seja nas composições, seja nas execuções.


Mas aqui proponho um novo orelhar sobre o projeto, não é um “disco para crianças”, ou, a máxima concessão que faço, é um disco para crianças de todas as idades. Arnaldo Antunes, que dispensa apresentações, mas, vá lá, andou pelos Titãs e tem sólida carreira solo e o saudável hábito de se reinventar de tempos em tempos; Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, aliás, mais que isso, idealizador, compositor e motor da banda e que andou arriscando a eletrônica como Benzina; Taciana Barros, que era da Gang 90 e as Absurdetes (eu e minha gata rolando na relva! Rolava de tudo! Confesso que não lembrava dela, tive que pesquisar...); e Antônio Pinto, músico compositor de trilhas sonoras (Central do Brasil, Cidade de Deus...) juntaram-se da maneira mais natural possível: os filhos estudam na mesma escola. (É claro que, Edgard toca na banda do Arnaldo e Taciana é sua ex-mulher, mas os pais que viram amigos dos pais de seus filhos é evento típico).


A referência básica é a Palavra Cantada (já postada aqui), turma com a qual tanto Edgard quanto (e principalmente) Arnaldo já colaboraram, mas vai além, ou melhor, vai a outra direção. Lá, as músicas eram cuidadosamente compostas e arranjadas para as crianças, as letras, o ritmo, a melodia, os timbres... Aqui, o universo infantil das crianças é misturado ao dos pais e em muitas músicas, não fosse a voz das crianças ou as letras em tom de brincadeira, teríamos um disco de rock’n’roll tupiniquim. Da melhor qualidade, diga-se de passagem, é comparável à da melhor safra do Ira! e dos Titãs...


A faixa-título que abre o cd é irresistível, e já virou até propaganda de automóvel. Lá em casa ninguém resiste ao seu balanço. O Sol e a Lua, a minha favorita, tem um refrão contagioso, pegajoso no melhor sentido da palavra, linda música de Antônio Pinto que, como se não bastasse, conta com a elegante guitarra de Edgard tornando-a ainda mais interessante.


E o disco é recheado de momentos inspiradíssimos... o rock’n’roll das antigas Sapo-Boi que é cantado por um dos filhotes, e cá pra nós, e menino se supera e manda ver, totalmente à vontade e muito bem-humorado. Larga a Lagartixa é o momento metal geralmente inconcebível em discos de crianças, mas cá pra nós, pedagogos que não nos ouçam, nem só de xilofones, móbiles e gelatina colorida é povoado o universo infantil. Mas o disco não se limite ao rock, algumas passagens meio eletrônicas como o Uirapuru e a Bonequinha do Papai dão uma quebrada no tom. Mas tem também um sambalada estilo Marcos Valle, composta e cantada por Daniel Scandurra (filho do Edgard com a Taciana, já criança grande, com 21 anos) chamado Futezinho na Escola é a preferida do meu Joãozinho, de sete. Leitinho é a música mais estilo palavra cantada, um xotezinho gostoso do Arnaldo, enquanto que o Um Carrinho por Trás é um pagode malandro, no estilo criança levada que se justifica: não foi na demais!... foi um carrinho por trás (eu falei pro juiz...).


Delicioso disco feito em família termina com uma faixa bônus composta (e cantada) por Ziraldo para seus filhos quando eram pequenos: um deles é justamente Antônio Pinto! E o disco feito em família é melhor ainda curtido em família. Tipo de som que todo mundo em casa curte, pai, mãe, irmão, irmã...


[M]

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Página do Relâmpago Elétrico, Beto Guedes (1977)


Ainda que fosse só pelo nome, A Página do Relâmpago Elétrico já mereceria menção. Claro que em 1977, o rock nacional já não era novidade, com Rita, Raul e os Secos e Molhados, além de outras expressões "menores". A novidade aqui talvez seja a página...

Oriundo do Clube da Esquina, nesta página muito sua, Beto Guedes parece reinventar seu próprio clube, depois de tanto frequentar o clube dos "irmãos" mais velhos, Milton e Lô Borges. Com produção de Ronaldo Bastos e a participação de diversos músicos do antigo clube (Toninho Horta, Flávio Venturini, Vermelho), Beto Guedes acrescenta uma página elétrica ao som dos clubes mineiros de esquina, como num relâmpago. O disco, o som da banda e, principalmente, a voz de Beto Guedes, tem um pouco daquele ar de Minas Gerais, que, mesmo radicado em Belo Horizonte (Beto é de Montes Claros) faz tudo parecer meio de interior, de além das montanhas, de longe do mar. Seu timbre de voz é único, uma recriação tupiniquim de Bob Dylan ou Neil Young, mas com uma certa melancolia que lembra o mar distante, do outro lado da serra.

De certa forma, o clube da esquina e esta página elétrica seriam quase um... Novos Mineiros... Ao som de minas, agrega-se a guitarra fuzz de Beto sem que isso torne o relâmpago um disco de rock'n'roll, como disse, é uma página. E a página do relâmpago elétrico, faixa título que abre o lado A , é uma linda canção de amor na forma de raio, frases curtas e soltas que nunca caem no mesmo lugar, mas que são prenúncio de chuva forte.

Outra página da página é uma leve influência de rock progressivo em canções tanto quanto em faixas instrumentais (Chapéu de Sol) provavelmente devido a presença de Flávio eVenturini, que já tocava com o Terço e estava por formar o 14 bis. A presença de teclados é extensa, hora com Flávio, hora com Vermelho, horas com ambos. Mas a instrumentação não para aí: no mesmo formato do Clube, as seções de gravação incluíam muitos músicos e outro elemento importante é uma percussão variada que se agrega na receita do trovão. Trovão bem temperado, uma vez que com o excesso de sons, muitas vezes a textura da massa se sobrepõe ao sabor, o que não é o caso aqui: esta é uma página de canções.

Nascente, de Flávio Venturini e Murilo Antunes é primorosa. Em tom crescente, a manhã clareia, nasce, ilumina e esconde a clara estrela, revelando o corpo e a alma da mulher amada. O piano aqui é essencial e é executado por Novelli. Beto canta e toca bateria. Uma orquestração desenhada por Toninho Horta harmoniza o sol nascente e o crescente dos desejos ardentes que nascem junto com o astro rei. Impecável (Milton Nascimento gravaria esta mesma canção um ano após, no Clube de Esquina 2, bem, a voz de Milton é covardia, mas a originalidade do arranjo aqui é imbatível). Maria Solidária é outra grande canção (de Milton Nascimento!) e o disco todo tem uma unidade surpreendente, ainda mais considerando-se que as faixas são bem distintas uma da outra. Em Bandolim por exemplo, temos uma (das três) faixas instrumentais que dão oportunidade a Beto de tocar este instrumento.

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear até chegar Lumiar e depois deitar no sereno só pra poder dormir e sonhar pra passar a noite caçando sapo, contando caso, de como deve ser Lumiar

A música de Minas também se caracteriza pela presença de alguns elementos de cristianinsmo, muitas vezes sutis, o pão por exemplo (que também pode ter uma leitura mais... marxista?). Talvez deva-se ao fato de ser um estado onde o Catolicismo é forte, talvez o mais forte da nação. O outro elemento é a terra, a fonte de alimento, da vida. Nesta página elétrica Beto Guedes ainda está insinuando estas coisas, que ficariam mais explícitas em trabalhos posteriores, Amor de Índio, O Sal da Terra... Mas em Lumiar ele está extremamente relaxado (ao invés de engajado). Esta é, pra mim, sua melhor composição. Uma linda música de amor, a vida do cotidiano, do dia-a-dia. A música tem um riff de entrada executado no violão, acompanhada por uma percussão, e depois vai entrando o resto da banda, num crescente.

Estender o sol na varanda até queimar só pra não ter mais nada a perder pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar, clarear de vez Lumiar

O que é Lumiar eu não sei, mas pouco importa, o recado é bem dado. A tempestade passa, o tempo acalma, e a página final é o samba-choro Belo Horizonte, de autoria de seu pai, Godofredo Guedes, só pra mostrar que no clube do Relâmpago cabem várias páginas, elétricas ou não.

[M]

A Pedido do Clayton, segue a ficha técnica:

1) A Página do Relâmpago Elétrico (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio e Beto.
2) Maria Solidária (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Violão, guitarra e voz - Beto Guedes; Baixo e guitarra - Toninho Horta; Piano elétrico - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy.
3) Choveu (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Piano - Flávio Venturini; Piano elétrico e Órgão - Vermelho; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho; Flauta - Paulo Guimarães.
4) Chapéu de Sol (Beto Guedes/Flávio Venturini)
Moog e flauta doce - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Moog - Faraó; Baixo - Toninho Horta; Piano - Vermelho; Bateria - Holy.
5) Tanto (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Moog - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy; Orquestração e regência - Toninho Horta.
6) Lumiar (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Guitarra- Zé Eduardo; Piano - Vermelho; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho.
7) Bandolim (Beto Guedes)
Bandolim, baixo e guitarra - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Beto; Piano - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Guitarra - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho e Toninho; Flauta - Paulo Guimarães.
8) Nascente (Ronaldo Bastos/Murilo Antunes)
Bateria e Voz - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Piano - Novelli; Violão - Nelson Ângelo; Baixo - Toninho Horta; Orquestração e regência - Toninho Horta.
9) Salve Rainha (Zé Eduardo/Tavinho Moura)
Viola e Voz - Beto Guedes; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Violão - Zé Eduardo; Órgão - Flávio Venturini; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio, Zé Eduardo, Holy e Beto.
10) Belo Horizonte (Godofredo Guedes)
Bandolim, violão - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Toninho Horta; Percussão - Holy e Vermelho; Flauta - Paulo Guimarães; Clarinete - Abel Ferreira.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Legalize it!


Já que o Mateus veio até o presente, vamos voltar um pouquinho no tempo, mas continuar na vibe maconheira...a Céu, em entrevista à Rolling Stone de setembro, admite isso quanto ao disco Vagarosa!
Esse disco foi muito importante por muitas razões: 1. pra mim, porque eram pessoas da minha idade fazendo (bom) rock em português, numa época que era hype cantar em inglês; 2. trouxe pela primeira vez a discussão sobre legalização de drogas e comportamento anti-democrático ‘dos políça’ (sic); 3. era parte de um movimento não articulado, mas que tinha em comum fazer a mistura de rock com músicas brasileiras (forró no caso dos Raimundos, maracatu no caso de Chico Science etc).
Mas além disso tudo, o disco é bom, poderoso, pesado e dançante, bom pra festas (mas ainda não chegava à perfeição pra essa finalidade, que foi alcançada em Rappa Mundi, post em breve).
Começa lento, com ‘Não compre, plante’, uma idéia ainda válida, mas ainda ilegal...
‘Porcos fardados’ resvala no panfleto, mas tem seu sentido no público eterno adolescente.
‘Legalize já’!!! Musicaça, com guitarras suingadas e um refrão forte, ótimo pra ser cantado pela galera. E finaliza com um samplerzinho do Peter Tosh que dá nome ao post, 'Legalize it'.
‘Deisdazseis’ começa com alguém dizendo baixinho ‘tô doidão de bagulho’, parada de maconheiro pra maconheiro... Segue uma mistura de hiphop com discurso, ou como eles dizem ‘rap rock’n’roll psicodelia hardcore ragga, baixo lendário mesmo, bebendo cana, o grito vem da rua movido a marihuana’!
Na seqüência ‘Phunky buddha’, mania de títulos estranhos, hein? Alterna guitarras pesadas com partes suingadas, e o grito ‘chapado de maconha’. Seguindo com peso vem ‘Mary jane’, um hardcore rápido e cantado em inglês, só pra contrariar.
Depois da quase instrumental e rapidinha ‘Planet hemp’, vem mais uma das mais legais ‘Fazendo a cabeça’, no estilo ‘falo mal do Rio mas gosto’, além do discurso maconheiro habitual, que começa a dar sinais de desgaste. Mas eu tinha esquecido como o disco é legal...afinal maconha causa amnésia e outras coisas que eu não lembro mais...hahahaha.
‘Futuro do país’ aponta pro que viria a ser base da carreira (ops) do Marcelo D2, a mistura de hip hop com samba. Mas aqui fica bem pesado, até parecido com Ministry.
‘Mantenha o respeito’, A música do maconheiro moderno, ‘Dê dois mas mantenha o respeito’. Só pra esclarecer, não sei se tem o mesmo significado no Brasil inteiro, mas ‘dar dois’ significa fumar THC. Sinta o groove do ragga e o peso do refrão, tem até solinho de órgão.
‘Puta disfarçada’ é misógina, sem nada de novidade na seara do hip hop. E o Gabriel fez melhor com ‘Loira burra’... Dispensável.
Depois da vinheta instrumental ‘Speed funk’, vem mais uma pesada e cantada em inglês macarrônico ‘Muthafuckin racists’. Também não lembrava que o disco era tão longo...
‘Dig dig dig (Hempa)’ tem aquela bateria marcial e a cara do hip hop brazuca (e carioca, que o paulista tem a cara dos Racionais MCs). Um dia eles vão ver que a lei estava errada...em breve, se Jah ajudar.
‘Skunk’, ao contrário do que parece, é uma instrumental em homenagem a um integrante falecido do grupo. Tenho um amigo que tinha uma banda, Os Namorados, que sempre tocava essa nas jams que eu tive o prazer de participar.
‘A culpa é de quem’ tem uma bateria eletrônica e auto-samples. E a pergunta segue sem resposta.
‘Bala perdida’ é mais um hardcore na velocidade da luz, pra galera do skate, com aquele break manjado no meio e voz distorcida. Aí vem uns 6 minutos de silêncio dentro da faixa até entrar um instrumental metal tenebroso. Imagina a cena: o ouvinte chapado, com preguiça de trocar o cd deixa rolar e, na hora que cochila entra a sonzeira...hehehe.
Discaço, meio longo, mas inesquecível. Por falar nisso, que cheiro é esse no meu cd?