terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pequeno Cidadão (2009)


Pode-se até definir o Pequeno Cidadão como um disco para crianças. É, de fato, a maneira mais fácil de olhar as coisas, o caminho do óbvio, uma vez que alguns artistas consagrados juntam-se com seus filhos das mais variadas idades e gravam um cd com músicas que os misturam, seja nas composições, seja nas execuções.


Mas aqui proponho um novo orelhar sobre o projeto, não é um “disco para crianças”, ou, a máxima concessão que faço, é um disco para crianças de todas as idades. Arnaldo Antunes, que dispensa apresentações, mas, vá lá, andou pelos Titãs e tem sólida carreira solo e o saudável hábito de se reinventar de tempos em tempos; Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, aliás, mais que isso, idealizador, compositor e motor da banda e que andou arriscando a eletrônica como Benzina; Taciana Barros, que era da Gang 90 e as Absurdetes (eu e minha gata rolando na relva! Rolava de tudo! Confesso que não lembrava dela, tive que pesquisar...); e Antônio Pinto, músico compositor de trilhas sonoras (Central do Brasil, Cidade de Deus...) juntaram-se da maneira mais natural possível: os filhos estudam na mesma escola. (É claro que, Edgard toca na banda do Arnaldo e Taciana é sua ex-mulher, mas os pais que viram amigos dos pais de seus filhos é evento típico).


A referência básica é a Palavra Cantada (já postada aqui), turma com a qual tanto Edgard quanto (e principalmente) Arnaldo já colaboraram, mas vai além, ou melhor, vai a outra direção. Lá, as músicas eram cuidadosamente compostas e arranjadas para as crianças, as letras, o ritmo, a melodia, os timbres... Aqui, o universo infantil das crianças é misturado ao dos pais e em muitas músicas, não fosse a voz das crianças ou as letras em tom de brincadeira, teríamos um disco de rock’n’roll tupiniquim. Da melhor qualidade, diga-se de passagem, é comparável à da melhor safra do Ira! e dos Titãs...


A faixa-título que abre o cd é irresistível, e já virou até propaganda de automóvel. Lá em casa ninguém resiste ao seu balanço. O Sol e a Lua, a minha favorita, tem um refrão contagioso, pegajoso no melhor sentido da palavra, linda música de Antônio Pinto que, como se não bastasse, conta com a elegante guitarra de Edgard tornando-a ainda mais interessante.


E o disco é recheado de momentos inspiradíssimos... o rock’n’roll das antigas Sapo-Boi que é cantado por um dos filhotes, e cá pra nós, e menino se supera e manda ver, totalmente à vontade e muito bem-humorado. Larga a Lagartixa é o momento metal geralmente inconcebível em discos de crianças, mas cá pra nós, pedagogos que não nos ouçam, nem só de xilofones, móbiles e gelatina colorida é povoado o universo infantil. Mas o disco não se limite ao rock, algumas passagens meio eletrônicas como o Uirapuru e a Bonequinha do Papai dão uma quebrada no tom. Mas tem também um sambalada estilo Marcos Valle, composta e cantada por Daniel Scandurra (filho do Edgard com a Taciana, já criança grande, com 21 anos) chamado Futezinho na Escola é a preferida do meu Joãozinho, de sete. Leitinho é a música mais estilo palavra cantada, um xotezinho gostoso do Arnaldo, enquanto que o Um Carrinho por Trás é um pagode malandro, no estilo criança levada que se justifica: não foi na demais!... foi um carrinho por trás (eu falei pro juiz...).


Delicioso disco feito em família termina com uma faixa bônus composta (e cantada) por Ziraldo para seus filhos quando eram pequenos: um deles é justamente Antônio Pinto! E o disco feito em família é melhor ainda curtido em família. Tipo de som que todo mundo em casa curte, pai, mãe, irmão, irmã...


[M]

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Página do Relâmpago Elétrico, Beto Guedes (1977)


Ainda que fosse só pelo nome, A Página do Relâmpago Elétrico já mereceria menção. Claro que em 1977, o rock nacional já não era novidade, com Rita, Raul e os Secos e Molhados, além de outras expressões "menores". A novidade aqui talvez seja a página...

Oriundo do Clube da Esquina, nesta página muito sua, Beto Guedes parece reinventar seu próprio clube, depois de tanto frequentar o clube dos "irmãos" mais velhos, Milton e Lô Borges. Com produção de Ronaldo Bastos e a participação de diversos músicos do antigo clube (Toninho Horta, Flávio Venturini, Vermelho), Beto Guedes acrescenta uma página elétrica ao som dos clubes mineiros de esquina, como num relâmpago. O disco, o som da banda e, principalmente, a voz de Beto Guedes, tem um pouco daquele ar de Minas Gerais, que, mesmo radicado em Belo Horizonte (Beto é de Montes Claros) faz tudo parecer meio de interior, de além das montanhas, de longe do mar. Seu timbre de voz é único, uma recriação tupiniquim de Bob Dylan ou Neil Young, mas com uma certa melancolia que lembra o mar distante, do outro lado da serra.

De certa forma, o clube da esquina e esta página elétrica seriam quase um... Novos Mineiros... Ao som de minas, agrega-se a guitarra fuzz de Beto sem que isso torne o relâmpago um disco de rock'n'roll, como disse, é uma página. E a página do relâmpago elétrico, faixa título que abre o lado A , é uma linda canção de amor na forma de raio, frases curtas e soltas que nunca caem no mesmo lugar, mas que são prenúncio de chuva forte.

Outra página da página é uma leve influência de rock progressivo em canções tanto quanto em faixas instrumentais (Chapéu de Sol) provavelmente devido a presença de Flávio eVenturini, que já tocava com o Terço e estava por formar o 14 bis. A presença de teclados é extensa, hora com Flávio, hora com Vermelho, horas com ambos. Mas a instrumentação não para aí: no mesmo formato do Clube, as seções de gravação incluíam muitos músicos e outro elemento importante é uma percussão variada que se agrega na receita do trovão. Trovão bem temperado, uma vez que com o excesso de sons, muitas vezes a textura da massa se sobrepõe ao sabor, o que não é o caso aqui: esta é uma página de canções.

Nascente, de Flávio Venturini e Murilo Antunes é primorosa. Em tom crescente, a manhã clareia, nasce, ilumina e esconde a clara estrela, revelando o corpo e a alma da mulher amada. O piano aqui é essencial e é executado por Novelli. Beto canta e toca bateria. Uma orquestração desenhada por Toninho Horta harmoniza o sol nascente e o crescente dos desejos ardentes que nascem junto com o astro rei. Impecável (Milton Nascimento gravaria esta mesma canção um ano após, no Clube de Esquina 2, bem, a voz de Milton é covardia, mas a originalidade do arranjo aqui é imbatível). Maria Solidária é outra grande canção (de Milton Nascimento!) e o disco todo tem uma unidade surpreendente, ainda mais considerando-se que as faixas são bem distintas uma da outra. Em Bandolim por exemplo, temos uma (das três) faixas instrumentais que dão oportunidade a Beto de tocar este instrumento.

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear até chegar Lumiar e depois deitar no sereno só pra poder dormir e sonhar pra passar a noite caçando sapo, contando caso, de como deve ser Lumiar

A música de Minas também se caracteriza pela presença de alguns elementos de cristianinsmo, muitas vezes sutis, o pão por exemplo (que também pode ter uma leitura mais... marxista?). Talvez deva-se ao fato de ser um estado onde o Catolicismo é forte, talvez o mais forte da nação. O outro elemento é a terra, a fonte de alimento, da vida. Nesta página elétrica Beto Guedes ainda está insinuando estas coisas, que ficariam mais explícitas em trabalhos posteriores, Amor de Índio, O Sal da Terra... Mas em Lumiar ele está extremamente relaxado (ao invés de engajado). Esta é, pra mim, sua melhor composição. Uma linda música de amor, a vida do cotidiano, do dia-a-dia. A música tem um riff de entrada executado no violão, acompanhada por uma percussão, e depois vai entrando o resto da banda, num crescente.

Estender o sol na varanda até queimar só pra não ter mais nada a perder pra perder o medo, mudar de céu, mudar de ar, clarear de vez Lumiar

O que é Lumiar eu não sei, mas pouco importa, o recado é bem dado. A tempestade passa, o tempo acalma, e a página final é o samba-choro Belo Horizonte, de autoria de seu pai, Godofredo Guedes, só pra mostrar que no clube do Relâmpago cabem várias páginas, elétricas ou não.

[M]

A Pedido do Clayton, segue a ficha técnica:

1) A Página do Relâmpago Elétrico (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio e Beto.
2) Maria Solidária (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Violão, guitarra e voz - Beto Guedes; Baixo e guitarra - Toninho Horta; Piano elétrico - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy.
3) Choveu (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Bandolim, violão e voz - Beto Guedes; Piano - Flávio Venturini; Piano elétrico e Órgão - Vermelho; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho; Flauta - Paulo Guimarães.
4) Chapéu de Sol (Beto Guedes/Flávio Venturini)
Moog e flauta doce - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Moog - Faraó; Baixo - Toninho Horta; Piano - Vermelho; Bateria - Holy.
5) Tanto (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Moog - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Bateria - Holy; Orquestração e regência - Toninho Horta.
6) Lumiar (Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Viola, baixo e voz - Beto Guedes; Guitarra- Zé Eduardo; Piano - Vermelho; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho.
7) Bandolim (Beto Guedes)
Bandolim, baixo e guitarra - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Beto; Piano - Flávio Venturini; Órgão - Vermelho; Guitarra - Toninho Horta; Bateria - Holy; Percussão - Robertinho e Toninho; Flauta - Paulo Guimarães.
8) Nascente (Ronaldo Bastos/Murilo Antunes)
Bateria e Voz - Beto Guedes; Órgão - Flávio Venturini; Piano - Novelli; Violão - Nelson Ângelo; Baixo - Toninho Horta; Orquestração e regência - Toninho Horta.
9) Salve Rainha (Zé Eduardo/Tavinho Moura)
Viola e Voz - Beto Guedes; Baixo - Toninho Horta; Bateria - Robertinho; Violão - Zé Eduardo; Órgão - Flávio Venturini; Percussão - Holy; Côro - Vermelho, Flávio, Zé Eduardo, Holy e Beto.
10) Belo Horizonte (Godofredo Guedes)
Bandolim, violão - Beto Guedes; Violões - Zé Eduardo e Toninho Horta; Percussão - Holy e Vermelho; Flauta - Paulo Guimarães; Clarinete - Abel Ferreira.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Legalize it!


Já que o Mateus veio até o presente, vamos voltar um pouquinho no tempo, mas continuar na vibe maconheira...a Céu, em entrevista à Rolling Stone de setembro, admite isso quanto ao disco Vagarosa!
Esse disco foi muito importante por muitas razões: 1. pra mim, porque eram pessoas da minha idade fazendo (bom) rock em português, numa época que era hype cantar em inglês; 2. trouxe pela primeira vez a discussão sobre legalização de drogas e comportamento anti-democrático ‘dos políça’ (sic); 3. era parte de um movimento não articulado, mas que tinha em comum fazer a mistura de rock com músicas brasileiras (forró no caso dos Raimundos, maracatu no caso de Chico Science etc).
Mas além disso tudo, o disco é bom, poderoso, pesado e dançante, bom pra festas (mas ainda não chegava à perfeição pra essa finalidade, que foi alcançada em Rappa Mundi, post em breve).
Começa lento, com ‘Não compre, plante’, uma idéia ainda válida, mas ainda ilegal...
‘Porcos fardados’ resvala no panfleto, mas tem seu sentido no público eterno adolescente.
‘Legalize já’!!! Musicaça, com guitarras suingadas e um refrão forte, ótimo pra ser cantado pela galera. E finaliza com um samplerzinho do Peter Tosh que dá nome ao post, 'Legalize it'.
‘Deisdazseis’ começa com alguém dizendo baixinho ‘tô doidão de bagulho’, parada de maconheiro pra maconheiro... Segue uma mistura de hiphop com discurso, ou como eles dizem ‘rap rock’n’roll psicodelia hardcore ragga, baixo lendário mesmo, bebendo cana, o grito vem da rua movido a marihuana’!
Na seqüência ‘Phunky buddha’, mania de títulos estranhos, hein? Alterna guitarras pesadas com partes suingadas, e o grito ‘chapado de maconha’. Seguindo com peso vem ‘Mary jane’, um hardcore rápido e cantado em inglês, só pra contrariar.
Depois da quase instrumental e rapidinha ‘Planet hemp’, vem mais uma das mais legais ‘Fazendo a cabeça’, no estilo ‘falo mal do Rio mas gosto’, além do discurso maconheiro habitual, que começa a dar sinais de desgaste. Mas eu tinha esquecido como o disco é legal...afinal maconha causa amnésia e outras coisas que eu não lembro mais...hahahaha.
‘Futuro do país’ aponta pro que viria a ser base da carreira (ops) do Marcelo D2, a mistura de hip hop com samba. Mas aqui fica bem pesado, até parecido com Ministry.
‘Mantenha o respeito’, A música do maconheiro moderno, ‘Dê dois mas mantenha o respeito’. Só pra esclarecer, não sei se tem o mesmo significado no Brasil inteiro, mas ‘dar dois’ significa fumar THC. Sinta o groove do ragga e o peso do refrão, tem até solinho de órgão.
‘Puta disfarçada’ é misógina, sem nada de novidade na seara do hip hop. E o Gabriel fez melhor com ‘Loira burra’... Dispensável.
Depois da vinheta instrumental ‘Speed funk’, vem mais uma pesada e cantada em inglês macarrônico ‘Muthafuckin racists’. Também não lembrava que o disco era tão longo...
‘Dig dig dig (Hempa)’ tem aquela bateria marcial e a cara do hip hop brazuca (e carioca, que o paulista tem a cara dos Racionais MCs). Um dia eles vão ver que a lei estava errada...em breve, se Jah ajudar.
‘Skunk’, ao contrário do que parece, é uma instrumental em homenagem a um integrante falecido do grupo. Tenho um amigo que tinha uma banda, Os Namorados, que sempre tocava essa nas jams que eu tive o prazer de participar.
‘A culpa é de quem’ tem uma bateria eletrônica e auto-samples. E a pergunta segue sem resposta.
‘Bala perdida’ é mais um hardcore na velocidade da luz, pra galera do skate, com aquele break manjado no meio e voz distorcida. Aí vem uns 6 minutos de silêncio dentro da faixa até entrar um instrumental metal tenebroso. Imagina a cena: o ouvinte chapado, com preguiça de trocar o cd deixa rolar e, na hora que cochila entra a sonzeira...hehehe.
Discaço, meio longo, mas inesquecível. Por falar nisso, que cheiro é esse no meu cd?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Vagarosamente... Céu (2009)

Diferente daquele disco azul, o paradisíaco Céu de 2004, ela agora vem em tons de vermelho, Vagarosa. As cores da capa parecem contradizer este título e a audição do disco comprova (bem) mais o segundo que as primeiras.


Diferente do que costumo fazer para este blogue, este texto se baseia em apenas duas audições do disco, e preferi assim, pra não ser tentado a esmiuçá-lo demais, deixando ainda um gostinho pra quem está lendo e perdendo seu tempo que ainda não foi correndo comprar ou baixar oVagarosa. Na primeira, ajudando na cozinha do sábado, com a atenção dividida entre três crianças, um playstation, pia, fogão e outras coisas do dia-a-dia, eu não entendi, nem gostei do disco.


Só na segunda entendi: a Céu quer a sua intimidade. Intimidade e comprometimento do ouvinte. Vagarosa não é disco de acompanhamento de outras atividades, e ontem à noite ele foi a minha atividade. E é assim que ela é melhor sorvida, vagarosa, Céu toma conta de você, na intimidade, essa é a grande novidade neste seu trabalho de 2009.


Alguma coisa do trabalho anterior ainda está aqui, a mistura da tradição, do cavaquinho, do samba, com os loops, scratches e muita coisa ligada na tomada. Mas ainda assim, o disco vai mais longe e mais fundo onde o anterior tinha apenas roçado. As letras são curtas, rápidas e diretas, com preguiça de se alongar no(s) assuntos(s), ela dá o recado com poucas palavras. De propósito o disco abre com som de agulha percorrendo os sulcos do vinil, que funciona quase como uma vinheta, separando as músicas. O que poderia sugerir uma referência ao antigo, muito antigo, logo é demolido da segunda faixa em diante: Fiz minha casa no teu cangote, ela judia de quem ousa procura-la ao redor do pescoço.


Beto Villares é, de novo, parceiro de algumas composições, instrumentos e divide a produção com a própria, e mais dois cúmplices. E essa produção a oito mãos funciona bem demais! A instrumentação também está bem interessante, reúne uma pá de teclados vintage: mellotron, fender rhodes, moog... E ainda assim, o disco aponta para o futuro e não para o passado. Ás vezes parece que estamos diante de uma mistura da vanguarda paulistana (que foi vanguarda na década de 80) com massive attack e um sambinha de sombra de quintal... E muitas vezes, a impressão é que estamos diante dela, Céu, todinha ela, do jeito que quer e gosta.


O disco é todo maravilhoso, e tem participações pra lá de especiais, Luiz Melodia, Gigante Brasil (que tocou com Itamar Assumpção) e Los Sebozos Postizos (codinome de uma mistura entre pedaços da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A), que ajudam na levada (surpreendente) de Rosa Menina Rosa, de Jorge Ben, única composição revisitada aqui. Como num bom vinho tinto (essa deve ser a cor da capa!), Céu vem vagarosa e fica muito à vontade. A gente se espreguiça. E agradece.


[M]

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maquinarama, Skank (2000)

Um álbum mais recente, que esse blog tá cheirando a mofo...
Um disco de virada, no qual um grupo conhecido por uma sonoridade de festa, reggae e dancehall, música pra pular enfim, modifica os timbres, as composições e intenções, sem romper totalmente com o flerte com as massas, que afinal são o que mantém o leite de casa, né? Saem os metais, nada de trompete ou sax por aqui.
No começo, tudo parece mais do mesmo, claro que com a qualidade de sempre. ‘Água e fogo’ (co-autoria de Edgard Scandurra e o habitual Chico Amaral) é ótima pra animar uma pré-balada, um esquenta como se diz. E ‘Três lados’ é uma boa balada com aquele violão simpático. Mas não se engane, não é o que parece. ‘Ela desapareceu’ é uma excelente balada animada, mas começam a aparecer uns barulhinhos esquisitos e interessantes, e a letra é bem acima da média, além da citação de 'Like a rolling stone'. “Não há ninguém nos jardins/ Não há mais clareza, nem meios pra esses fins/ Escuridão na veia com mil disfarces úteis/ Tudo se resolveu na areia/ Onde fazem casa os avestruzes/ Ou quem/ Não pode admitir que tem motivos pra viver com alguém”.
Na seqüência vem clichê, como o próprio Samuel Rosa diz. ‘Balada do amor inabalável’, com co-autoria de Fausto Fawcett, começa com uma guitarrinha inesquecível, seguida por aquela canção redondinha com um vocoder (aquela som de voz robotizada) no refrão e vibrafone de Marcelo Lobato, tecladista e baterista do Rappa. Pop e original, até tocou na rádio!
Pra não abandonar o reggae, vem ‘Canção noturna’, com um clima meio western e praia, combina apesar de inesperado. Muitas vozes sobrepostas, bom de ouvir no fone.
‘Muçulmano’, boa canção pop, com refrão ganchudo e ‘tchururu’, com frases de slide discretos e de bom gosto. Só não entendo o porquê do nome.
Aí começa a virada: ‘Maquinarama’ é um drum’n’bass pesado, com bateria humana, percussão do nosso conhecido Ramiro Musotto (que aparece em várias músicas) e guitarras distorcidas. Significativo que seja a música título do álbum. O refrão dá uma acalmada pra ouvirmos melhor a letra: ‘Eu sei que essa vida contém cenas de perplexidade/ Esse filme, pensando bem é impróprio pra qualquer idade’. Excelente!
‘Rebelião’ começa com uma bateria discreta à qual se seguem as superguitarras do Samuel e de Andréa Kisser (Sepultura!), além da percussão do Musotto e baixo adicional do finado e saudoso Tom Capone, que divide a produção com Chico Neves, uma excelente idéia que não deixa o disco com cara de ninguém. Lá pelo meio aparece uma cítara muito legal. ‘E pronto pra queimar’, repete-se muitas vezes. Sempre é bom não esquecer que o nome da banda realmente se refere ao irmão geneticamente potencializado da Cannabis.
‘A última guerra’ acalma um pouco a onda, com belos pianos elétricos. Lô Borges, ídolo e parceiro, dá um upgrade por aqui, mostrando a referência eterna do Clube da Esquina. Ele, Lô, também gravou música do Skank. O disco seguinte deixa essa influência mais explícita, além de outras que serão comentadas na sua hora.
‘Fica’ é aquela típica canção Skank, animada, festeira, com uma bateria dancehall eletrônica no começo, boa de cantar na pista. “Pode parecer mentira/ pode parecer que não/ Eu te tenho bem na mira/ mas você me tem na mão”.
‘Ali’ é mais uma baladona com violão, que não deixa dúvidas da boa parceria com Nando Reis. Anda sempre bem acompanhado o Skank! Muitas vozes, alto astral, uma guitarra estranha parecida com cítara.E pra terminar um reggae doidão com uma percussão quase samba e que, no meio, dá uma virada pra música ‘quase eletrônica’, fechando com chave de ouro. ‘Preto Damião’!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bebadosamba, Paulinho da Viola (1996)


De certa forma, o Bebadosamba é a continuação da (minha) triste história de Pérola Negra e sua tentativa de ganhar uns beijinhos aqui e ali. Luis Melodia me havia ensinado que a trilha muitas vezes vem a reboque do roteiro e não vice-versa. Mas a roda do tempo gira e depois que a Marisa Monte decidiu gravar a Dança da Solidão no seu disco rosa, a música do Paulinho da Viola foi redescoberta por um público um pouco maior do que o que vinha sendo costumeiro seu nos anos 80 e 90.
E acompanhando os giros da roda do tempo, vinha o fato de que os vestidinhos na cantina do IEL eram mais coloridos e melhor recheados que os da cantina do IMECC, e então Jimmy Page continuava sendo uma fraqueza minha, mas confessada em ocasiões muito restritas...
Luiz Melodia não era mais o cara, o cara agora era o Paulinho da Viola, que aliás, diga-se de passagem que esse nome é meio estranho, porque a viola pra mim é aquela de 10 cordas da música caipira, mas como paulinho do cavaquinho é por demais óbvio e paulinho do violão tem um puta som esquisito, esse nome fica bem legal.
Paulinho da Viola aproveitou o vento favorável e caprichou neste samba bêbado, e o urso colimério aqui, flanando no espaço acabou dele bebendo, descobrindo e curtindo essa jóia, apesar de não ser, estritamente, um homem do samba. Sua volta foi em grande estilo, com capa e encarte cheios de desenhos de Elifas Andreatto, que havia sido seu parceiro de disco na sua fase áurea, uns 20 anos antes.
Musicalmente falando, o samba do Paulinho não é o da avenida, não é o samba heavy metal, é mais aquele samba de mesa de buteco, cujo único compromisso é ali, consigo mesmo, e com as ampolas douradas que dividem a mesinha. Daí que o nome Bebadosamba é baita de adequado. Em muitas das canções o tema é o próprio samba, em outros é a vida cotidiana, o amor, a Portela... Tudo delicadamente embalado pelos arranjos que incluem, ora, o piano inusitado de Cristóvão Bastos, ora a formação clássica do samba de mesa de buteco, ora um conjunto completo de choro. E de quebra, minha canção favorita na obra do Paulinho (mesmo considerado a pilha de clássicos dos anos 70): Timoneiro. Com letra de Hermínio Belo de Carvalho, a música começa com um balanço marcado no surdo, como o vai e vem das ondas:
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar...

[M]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Acabou Chorare - Novos Baianos (1972)



Início de ano, voltando da praia, a ideia é falar sobre a Música Praieira Brasileira, conforme reportagem da Trip.
E o que vem à cabeça? Bahia!!! Ah, a Bahia, com mais de 1000 km de praias...
Quando pensei neste disco, foi pela relação óbvia, porém não explícita como em Caymmi, dos Novos Baianos com a praia. Nem me toquei que eles também levavam a referência explícita à Bahia. Além do fato do disco ser referência clássica (número 1 da lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns nacionais!!), mesmo isso não sendo o mais importante, a verdade é que o disco é delicioso. E não só pra ouvir na praia.
Então como já temos uma página realmente boa na Wikipedia sobre o disco, com muitos detalhes, história, ficha técnica e referências (http://pt.wikipedia.org/wiki/Acabou_Chorare), vamos às impressões emocionais e pessoais...
'Brasil pandeiro' é a única que não é de autoria do grupo, sendo uma sugestão de João Gilberto de uma música composta por Assis Valente para Carmem Miranda. Resume o som do grupo: várias vozes, violão mais bandolim, Brasil mais rock, samba mais moderno...
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor (...)
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Brasil, esquentai vosso pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
'Preta pretinha' foi um dos maiores sucessos, extremamente simples e cativante, sempre cantada por qualquer plateia de qualquer idade. Solinho malandro de bandolim, violões bonitos, repetições vocais circulares ancestrais, a música dá impressão que nunca vai acabar.
Até que enfim chega a guitarra!!! 'Tinindo trincando' ainda não tem aquele sonzaço, mas tem muita pressão e mais ainda, dinâmica, vai-se de guitarra solando com muito drive a uma base leve que deixa a voz aparecer, o que podia se concluir que foi consequência de ser um casal, Pepeu e Baby. Tem no final um breque/break hard rock Led Zeppelin Whole lotta love!!
'Swing de Campo Grande' é bem sambão, com uma carga mística implícita, um rezador que aconselhou que, quando receberem mau-olhado, virarem 'toco e moita'.
'Acabou chorare', a faixa título é meio canção de ninar (vem de jeito de falar da Bebel Gilberto que, morando no México, misturava e criava línguas), muito influenciada pelo mestre e padrinho, quase bossa nova, mas sem ser. Representa também uma virada pra um som mais alto astral, em oposição ao excesso de lamento e tristeza da MPB da época.
'Mistério do planeta' é a minha preferida, sinuosa e perfeita, violão e letra casadinhos, dinâmica despertando atenção, começa voz e violão, depois entra banda cheia de elementos sonoros culminando com um solaço de guitarra, levada bonita que te leva junto.
Vou mostrando como sou
e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
andando por todos os cantos
e pela lei natural dos encontros
eu deixo e recebo um tanto
e passo aos olhos nus
Vou vestido de luneta
Passado, presente
Participo sendo o mistério do planeta”
'A menina dança' foi regravada pela Marisa Monte numa versão quase tão boa, tem um vídeo dela até cantando junto com a Baby e quebrando tudo! Mais uma que começa pequena e cresce em riqueza musical... Sabiam tudo os hippies que passavam por terroristas...
“Besta é tu' vem de um exercício musical para iniciantes, mas também é uma representação do tal desbunde da época, e o pandeirinho cantando alto!
“Por que não viver nesse mundo se não há outro mundo?”
'Um bilhete para Didi' é uma instrumental empolgante, o tema passa do cavaquinho pra guitarra!! Ficou mais conhecida quando a incluíram na trilha do 'Surf adventures'... Tudo a ver com praia, como queríamos demonstrar.
Termina com uma reprise editada e menor de 'Preta pretinha' que a gravadora fez para as rádios, sendo que a versão maior é que foi mais tocada... Desde 1972 a indústria já demonstrava sua assustadora 'sabedoria'.
(Dão)


Desde que os 40 anos de Woodstock começaram a fazer sentido para mim, quase que instantaneamente “Acabou Chorare” ocupou minha imaginação como a versão brasileira para essa onda hippie de liberdade e de vivenciar as idéias que Woodstock haviam imprimido nas pessoas. Essa idéia de que eram frutos da mesma árvore, aos poucos foi crescendo e se espichando dentro de mim e aí advinha né? Os Novos Baianos se tornaram presença quase que diária em casa…

O grupo foi a tradução tropical do movimento hippie, da música e porque não do jeito de se relacionar com o outro?
“Acabou Chorare” nasceu junto com/e entre crianças numa experiência única e ao mesmo tempo comunitária em Jacarepaguá. No mesmo espaço onde se criavam os filhos, as músicas também eram criadas e imagino que nesse terreno fértil, muitos bons sentimentos, dúvidas e diferenças pintaram; e não consigo deixar de admirar profundamente a coragem e a disponibilidade interna de Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Dadi, Galvão, Jorginho, Baixinho, Bolacha e Baby nessa viagem tão singular.
“Acabou Chorare” é música para a vida e para o corpo todo. Ali não faltou delicadeza, ingenuidade, criatividade, talento e muita diversão. Foram únicos porque foram muitos, conectados pelo fio do mesmo sonho.
Tintas fortes de rock’n’roll, samba e percussão, letras peace & love, astral incrivelmente lúdico – a sensação é a de abrir uma janela que engole a tarde com um abraço e de presente, chega a lua na tua mão.
[ANDRÉA]
PS: Para o PQ