segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Maquinarama, Skank (2000)

Um álbum mais recente, que esse blog tá cheirando a mofo...
Um disco de virada, no qual um grupo conhecido por uma sonoridade de festa, reggae e dancehall, música pra pular enfim, modifica os timbres, as composições e intenções, sem romper totalmente com o flerte com as massas, que afinal são o que mantém o leite de casa, né? Saem os metais, nada de trompete ou sax por aqui.
No começo, tudo parece mais do mesmo, claro que com a qualidade de sempre. ‘Água e fogo’ (co-autoria de Edgard Scandurra e o habitual Chico Amaral) é ótima pra animar uma pré-balada, um esquenta como se diz. E ‘Três lados’ é uma boa balada com aquele violão simpático. Mas não se engane, não é o que parece. ‘Ela desapareceu’ é uma excelente balada animada, mas começam a aparecer uns barulhinhos esquisitos e interessantes, e a letra é bem acima da média, além da citação de 'Like a rolling stone'. “Não há ninguém nos jardins/ Não há mais clareza, nem meios pra esses fins/ Escuridão na veia com mil disfarces úteis/ Tudo se resolveu na areia/ Onde fazem casa os avestruzes/ Ou quem/ Não pode admitir que tem motivos pra viver com alguém”.
Na seqüência vem clichê, como o próprio Samuel Rosa diz. ‘Balada do amor inabalável’, com co-autoria de Fausto Fawcett, começa com uma guitarrinha inesquecível, seguida por aquela canção redondinha com um vocoder (aquela som de voz robotizada) no refrão e vibrafone de Marcelo Lobato, tecladista e baterista do Rappa. Pop e original, até tocou na rádio!
Pra não abandonar o reggae, vem ‘Canção noturna’, com um clima meio western e praia, combina apesar de inesperado. Muitas vozes sobrepostas, bom de ouvir no fone.
‘Muçulmano’, boa canção pop, com refrão ganchudo e ‘tchururu’, com frases de slide discretos e de bom gosto. Só não entendo o porquê do nome.
Aí começa a virada: ‘Maquinarama’ é um drum’n’bass pesado, com bateria humana, percussão do nosso conhecido Ramiro Musotto (que aparece em várias músicas) e guitarras distorcidas. Significativo que seja a música título do álbum. O refrão dá uma acalmada pra ouvirmos melhor a letra: ‘Eu sei que essa vida contém cenas de perplexidade/ Esse filme, pensando bem é impróprio pra qualquer idade’. Excelente!
‘Rebelião’ começa com uma bateria discreta à qual se seguem as superguitarras do Samuel e de Andréa Kisser (Sepultura!), além da percussão do Musotto e baixo adicional do finado e saudoso Tom Capone, que divide a produção com Chico Neves, uma excelente idéia que não deixa o disco com cara de ninguém. Lá pelo meio aparece uma cítara muito legal. ‘E pronto pra queimar’, repete-se muitas vezes. Sempre é bom não esquecer que o nome da banda realmente se refere ao irmão geneticamente potencializado da Cannabis.
‘A última guerra’ acalma um pouco a onda, com belos pianos elétricos. Lô Borges, ídolo e parceiro, dá um upgrade por aqui, mostrando a referência eterna do Clube da Esquina. Ele, Lô, também gravou música do Skank. O disco seguinte deixa essa influência mais explícita, além de outras que serão comentadas na sua hora.
‘Fica’ é aquela típica canção Skank, animada, festeira, com uma bateria dancehall eletrônica no começo, boa de cantar na pista. “Pode parecer mentira/ pode parecer que não/ Eu te tenho bem na mira/ mas você me tem na mão”.
‘Ali’ é mais uma baladona com violão, que não deixa dúvidas da boa parceria com Nando Reis. Anda sempre bem acompanhado o Skank! Muitas vozes, alto astral, uma guitarra estranha parecida com cítara.E pra terminar um reggae doidão com uma percussão quase samba e que, no meio, dá uma virada pra música ‘quase eletrônica’, fechando com chave de ouro. ‘Preto Damião’!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bebadosamba, Paulinho da Viola (1996)


De certa forma, o Bebadosamba é a continuação da (minha) triste história de Pérola Negra e sua tentativa de ganhar uns beijinhos aqui e ali. Luis Melodia me havia ensinado que a trilha muitas vezes vem a reboque do roteiro e não vice-versa. Mas a roda do tempo gira e depois que a Marisa Monte decidiu gravar a Dança da Solidão no seu disco rosa, a música do Paulinho da Viola foi redescoberta por um público um pouco maior do que o que vinha sendo costumeiro seu nos anos 80 e 90.
E acompanhando os giros da roda do tempo, vinha o fato de que os vestidinhos na cantina do IEL eram mais coloridos e melhor recheados que os da cantina do IMECC, e então Jimmy Page continuava sendo uma fraqueza minha, mas confessada em ocasiões muito restritas...
Luiz Melodia não era mais o cara, o cara agora era o Paulinho da Viola, que aliás, diga-se de passagem que esse nome é meio estranho, porque a viola pra mim é aquela de 10 cordas da música caipira, mas como paulinho do cavaquinho é por demais óbvio e paulinho do violão tem um puta som esquisito, esse nome fica bem legal.
Paulinho da Viola aproveitou o vento favorável e caprichou neste samba bêbado, e o urso colimério aqui, flanando no espaço acabou dele bebendo, descobrindo e curtindo essa jóia, apesar de não ser, estritamente, um homem do samba. Sua volta foi em grande estilo, com capa e encarte cheios de desenhos de Elifas Andreatto, que havia sido seu parceiro de disco na sua fase áurea, uns 20 anos antes.
Musicalmente falando, o samba do Paulinho não é o da avenida, não é o samba heavy metal, é mais aquele samba de mesa de buteco, cujo único compromisso é ali, consigo mesmo, e com as ampolas douradas que dividem a mesinha. Daí que o nome Bebadosamba é baita de adequado. Em muitas das canções o tema é o próprio samba, em outros é a vida cotidiana, o amor, a Portela... Tudo delicadamente embalado pelos arranjos que incluem, ora, o piano inusitado de Cristóvão Bastos, ora a formação clássica do samba de mesa de buteco, ora um conjunto completo de choro. E de quebra, minha canção favorita na obra do Paulinho (mesmo considerado a pilha de clássicos dos anos 70): Timoneiro. Com letra de Hermínio Belo de Carvalho, a música começa com um balanço marcado no surdo, como o vai e vem das ondas:
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar...

[M]

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Acabou Chorare - Novos Baianos (1972)



Início de ano, voltando da praia, a ideia é falar sobre a Música Praieira Brasileira, conforme reportagem da Trip.
E o que vem à cabeça? Bahia!!! Ah, a Bahia, com mais de 1000 km de praias...
Quando pensei neste disco, foi pela relação óbvia, porém não explícita como em Caymmi, dos Novos Baianos com a praia. Nem me toquei que eles também levavam a referência explícita à Bahia. Além do fato do disco ser referência clássica (número 1 da lista da Rolling Stone dos 100 melhores álbuns nacionais!!), mesmo isso não sendo o mais importante, a verdade é que o disco é delicioso. E não só pra ouvir na praia.
Então como já temos uma página realmente boa na Wikipedia sobre o disco, com muitos detalhes, história, ficha técnica e referências (http://pt.wikipedia.org/wiki/Acabou_Chorare), vamos às impressões emocionais e pessoais...
'Brasil pandeiro' é a única que não é de autoria do grupo, sendo uma sugestão de João Gilberto de uma música composta por Assis Valente para Carmem Miranda. Resume o som do grupo: várias vozes, violão mais bandolim, Brasil mais rock, samba mais moderno...
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor (...)
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Brasil, esquentai vosso pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
'Preta pretinha' foi um dos maiores sucessos, extremamente simples e cativante, sempre cantada por qualquer plateia de qualquer idade. Solinho malandro de bandolim, violões bonitos, repetições vocais circulares ancestrais, a música dá impressão que nunca vai acabar.
Até que enfim chega a guitarra!!! 'Tinindo trincando' ainda não tem aquele sonzaço, mas tem muita pressão e mais ainda, dinâmica, vai-se de guitarra solando com muito drive a uma base leve que deixa a voz aparecer, o que podia se concluir que foi consequência de ser um casal, Pepeu e Baby. Tem no final um breque/break hard rock Led Zeppelin Whole lotta love!!
'Swing de Campo Grande' é bem sambão, com uma carga mística implícita, um rezador que aconselhou que, quando receberem mau-olhado, virarem 'toco e moita'.
'Acabou chorare', a faixa título é meio canção de ninar (vem de jeito de falar da Bebel Gilberto que, morando no México, misturava e criava línguas), muito influenciada pelo mestre e padrinho, quase bossa nova, mas sem ser. Representa também uma virada pra um som mais alto astral, em oposição ao excesso de lamento e tristeza da MPB da época.
'Mistério do planeta' é a minha preferida, sinuosa e perfeita, violão e letra casadinhos, dinâmica despertando atenção, começa voz e violão, depois entra banda cheia de elementos sonoros culminando com um solaço de guitarra, levada bonita que te leva junto.
Vou mostrando como sou
e vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
andando por todos os cantos
e pela lei natural dos encontros
eu deixo e recebo um tanto
e passo aos olhos nus
Vou vestido de luneta
Passado, presente
Participo sendo o mistério do planeta”
'A menina dança' foi regravada pela Marisa Monte numa versão quase tão boa, tem um vídeo dela até cantando junto com a Baby e quebrando tudo! Mais uma que começa pequena e cresce em riqueza musical... Sabiam tudo os hippies que passavam por terroristas...
“Besta é tu' vem de um exercício musical para iniciantes, mas também é uma representação do tal desbunde da época, e o pandeirinho cantando alto!
“Por que não viver nesse mundo se não há outro mundo?”
'Um bilhete para Didi' é uma instrumental empolgante, o tema passa do cavaquinho pra guitarra!! Ficou mais conhecida quando a incluíram na trilha do 'Surf adventures'... Tudo a ver com praia, como queríamos demonstrar.
Termina com uma reprise editada e menor de 'Preta pretinha' que a gravadora fez para as rádios, sendo que a versão maior é que foi mais tocada... Desde 1972 a indústria já demonstrava sua assustadora 'sabedoria'.
(Dão)


Desde que os 40 anos de Woodstock começaram a fazer sentido para mim, quase que instantaneamente “Acabou Chorare” ocupou minha imaginação como a versão brasileira para essa onda hippie de liberdade e de vivenciar as idéias que Woodstock haviam imprimido nas pessoas. Essa idéia de que eram frutos da mesma árvore, aos poucos foi crescendo e se espichando dentro de mim e aí advinha né? Os Novos Baianos se tornaram presença quase que diária em casa…

O grupo foi a tradução tropical do movimento hippie, da música e porque não do jeito de se relacionar com o outro?
“Acabou Chorare” nasceu junto com/e entre crianças numa experiência única e ao mesmo tempo comunitária em Jacarepaguá. No mesmo espaço onde se criavam os filhos, as músicas também eram criadas e imagino que nesse terreno fértil, muitos bons sentimentos, dúvidas e diferenças pintaram; e não consigo deixar de admirar profundamente a coragem e a disponibilidade interna de Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Dadi, Galvão, Jorginho, Baixinho, Bolacha e Baby nessa viagem tão singular.
“Acabou Chorare” é música para a vida e para o corpo todo. Ali não faltou delicadeza, ingenuidade, criatividade, talento e muita diversão. Foram únicos porque foram muitos, conectados pelo fio do mesmo sonho.
Tintas fortes de rock’n’roll, samba e percussão, letras peace & love, astral incrivelmente lúdico – a sensação é a de abrir uma janela que engole a tarde com um abraço e de presente, chega a lua na tua mão.
[ANDRÉA]
PS: Para o PQ

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Jorge Ben 1969 ou De como eu descobri quem era o anjo

A carreira de Jorge Ben é repleta de renascimentos. Parece que de tempos em tempos as pessoas enjoam dele e na seqüência uma nova geração o descobre e se torna irremediavelmente fã. E este disco marca justamente o primeiro reencontro com o sucesso. Marca também a transição e renascimento para o que seria o som do Ben nos anos 1970 e que mudaria irremediavelmente a música brasileira. Transição que, ao invés de gerar um disco esvaziado, tateante, nos deixou uma penca de sucessos, arranjos memoráveis e sementes para muita coisa boa que ainda viria.

Um pouco de história, então. Após uma estréia arrebatadora, seus discos foram perdendo a força, a inspiração, ficando irregulares. Mas não foi só culpa dele. No final dos anos 1960 o Brasil estava bem diferente. E estranho. O clima zona sul carioca típico da bossa nova havia dado lugar à ditadura, aquartelada na seca e distante Brasília, e o típico maniqueísmo causado pelos regimes de exceção. Super sucintamente, a música de protesto tomou conta de um lado do ringue, enquanto a apolítica Jovem Guarda disputava com ela a atenção do público, que defendia seus preferidos nos festivais. No meio, o Tropicalismo surgiu misturando os dois lados e deixando muita gente confusa.

Se fosse pra classificar Jorge, que nunca foi muito chegado a política, a princípio seria junto a seus amigos de adolescência, Roberto e Erasmo. Mas não é tão simples, assim. Primeiro porque, embora andasse com uma turma que gostava de rock a onda dele sempre foi mais o samba. Depois porque seu jeito diferente de tocar não se enquadrava nem na bossa nova e nem no próprio samba, o que o levava a ser admirado, mas também criticado pelos puristas de ambos os grupos. Segue que ele também incorporaria cada vez mais influências da música negra americana, principalmente do funk, sem falar na percussão africana. Finalmente, os tropicalistas o adoravam e principalmente após esse disco, gravaram várias de suas músicas. Lógico que essas influências todas tiveram impacto em seu trabalho e esse disco é resultante dessa mistura.

O pé no passado fica claro nos arranjos de José Briamonte. Embora muito influenciados pelo que se fazia nos anos 1960, são inspiradíssimos e por si só já valeriam citar esse como um dos grandes discos já produzidos no Brasil. Dentre os meus preferidos estão os de Criola, Bebete Vãobora, País Tropical e Take it Easy my Brother Charles. Já o tropicalista Rogério Duprat introduz o que havia de novo na época e contribui com o clima psicodélico e bem mais experimental de Barbarella e Eu Descobri que sou um Anjo.


Por essa lista de sucessos já se percebe o quão inspirado estava o compositor Jorge, que parecia estar se dedicando bastante a suas musas. São seis ao todo. Começa com Criola; passa pelo amor possessivo em Domingas; o malandro enciumado em Cadê Teresa? e em “tenho uma Nega chamada Teresa”; a musa do sonhos, Jane Fonda, linda em Barbarella; e termina com Bebete.

Mas também há boa variedade temática. Suas contradições mostram a dificuldade inclusive dele próprio em se aliar a um ou outro grupo. País Tropical é uma celebração ufanista que poderia muito bem ser acusada de propaganda da ditadura. Por outro lado, Charles Anjo 45 é sobre o guerrilheiro Avellino Capitani, que na época vivia na clandestinidade. Além da psicodelia (Eu descobri que sou um anjo) e uma citação sutil ao movimento negro (Take it easy my brother Charles), onde ele faz um pedido que luta por direitos civis siga um caminho de paz.

Quanto ao seu violão, as mudanças na batida eram claras. E num arranjo cru, só percussão e violão, o disco termina lançando as bases para o que seria o samba rock. Gravado com o Trio Mocotó, que seriam parceiros constantes nos anos seguintes, Charles Anjo 45 é um show de simplicidade, força, ritmo e abre mil possibilidades que seriam exploradas por Jorge em seus discos seguintes e que nos dariam uma obra de riqueza poucas vezes igualada.

Finalmente, se não são suficientes todos esses argumentos, deixo alguns que pelo menos para mim são definitivos. Esse disco foi lançado no ano em que nasci e durante meus primeiros 5 anos era um dos preferidos. Uma época em que meus pais tentavam manter a coleção de vinis longe da minha pouca habilidade em manusear a agulha. Esforço inútil, porque eu empurrava uma cadeira para, escondido, alcançar a radiola e, assim, arranhar todos os discos que pude, principalmente meus prediletos, o que foi devidamente registrado numa foto que me flagrou com aquela capa colorida com um Jorge Ben psicodélico na mão. Não bastasse, o disco influenciou uma das minhas primeiras incursões literárias, quando aos 10 anos eu estava em dúvida entre ser cientista, astronauta ou escritor...

“O Anjo – 18.08.80
Nessa época eu deveria ter três anos. Todos os dias eu ouvia um disco de Jorge Ben, em que ele cantava: ‘Eu descobri que sou um anjo’. E toda manhãzinha eu ouvia essa música.
Um dia eu e minha mãe fomos à missa e eu vendo uma estátua, perguntei:
- Mainha, o que é aquilo?
- É um anjo, meu filho.
- Ah, já sei! É Jorge Ben, não é?“

Jorge Ben
Universal Music 1969
1. 03:30
Criola Letra Áudio
2. 03:35 Domingas Letra Áudio
3. 03:26 Cadê Tereza Letra Áudio
4. 03:19 Barbarella Letra Áudio
5. 04:16 País tropical Letra Áudio
6. 02:36 Take it easy My Brother Charles Letra Áudio
7. 04:05 Descobri que sou um anjo Letra Áudio
8. 02:38 Bebete vãobora Letra Áudio
9. 03:10 Quem foi que roubou a sopeira de porcelana chinesa que a vovó ganhou da baronesa? Letra Áudio
10. 03:05 Que pena Letra Áudio
11. 04:55 Charles Anjo 45 Letra Áudio

[Luiz Marcelo]

sábado, 25 de julho de 2009

Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat (1970)




A música brasileira é repleta de contribuição feminina ao longo do tempo. Desde Dolores Duran, passando por Elis Regina, Gal Costa, Rita Lee até chegar a nomes mais recentes como Marisa Monte e Cássia Eller, sempre tivemos grandes mulheres que se destacaram e influenciaram gerações. Entretanto, a imensa maioria é composta por intérpretes. Ainda que algumas delas fossem autoras de suas canções ou ainda tocavam algum instrumento para acompanhar, foi a voz o principal legado de cada uma delas.

Nesse universo de estrelas cintilantes, uma delas se diferencia das demais justamente por ser instrumentista e não cantora. Trata-se de Maria Rosa Canellas, ou simplesmente, Rosinha de Valença, como ficou conhecida essa pioneira da música brasileira em referência à sua cidade natal fluminense. Justamente por não ser uma cantora, eu mesmo demorei a conhecê-la e, mais importante ainda, reconhecê-la como grande estrela na música nacional. Lembro até hoje quando, meu bom e velho amigo Zé Edu, em Campinas, em algum ano do início desse século, me mostrou, entre suas últimas aquisições, o CD “Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”. Na hora em que ouvi os primeiros acordes, fiquei impressionado e pensando como pude demorar tanto tempo para conhecer aquela instrumentista. Trata-se de um disco ímpar e desde então entrou para o rol dos meus prediletos, daqueles que escolheria para salvar em caso de incêndio.

Após Rosinha de Valença passar grande parte da década de 1960 acompanhando nomes principais da música brasileira e mundial como Stan Getz e ter se apresentado em diversos países do mundo como URSS, Israel, Moçambique e Angola, ela optou por gravar esse disco instrumental em Johnnesburg, na África do Sul ao lado dos músicos Duncan MacKay (órgão), Hilton Leite (bateria) e Bernardo Bernstein (contrabaixo) numa época em que a África do Sul ainda vivia sob o isolamento da sua política da Apartheid. E o resultado foi uma verdadeira obra-prima experimental, fortemente recomendada a todos que admiram um som diferente e marcante, com ritmos e acordes que, embora datados, têm muito valor. Não vou me ater muito a detalhes das 10 canções do disco, mas destaco a versão de “Je T’aime moi non plus” (clássico erótico de Gainsbourg de 1968, famoso pela interpretação de Jane Birkin & Serge Gainsbourg), “A White Shade of Pale” (Keith Reid), que tanto marcou o final da década de 1960 na interpretação de Procol Harum, além de duas composições dela mesmo (“Rosinha’s Mood” e “Bossa na Praia”).

O texto de apresentação da contra-capa, que leva a assinatura da própria autora, consegue transmitir fidedignamente a atmosfera da época. Pena que depois de passar 12 anos em coma, em 2004 perdemos essa excelente instrumentista. Mas felizmente deixou grandes obras, sejam pessoais como essa, seja ao lado de outros grandes nomes da música (por exemplo, participando do disco Álibe, de Maria Bethânia). Valeu Rosinha! [Paul]

Set list
“Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”
1 – Sitting
2 – Isole Natale
3 – Je t’aime moi non plus
4 - Mercy, Mercy
5 – Rosinha’s Mood
6 – A White Shade of Pale
7 – Sunshine Superman
8 – Bossa na Praia
9 - T Bone Steak
10 – Forever Yet Forever

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Grande Circo Místico - Chico Buarque e Edu Lobo (1993)


Todo mundo cresceu sob um som. Inevitável experiência familiar… Eu cresci ouvindo Chico Buarque. Aliás, continuo sob alguns signos dos Buarques, quando ao invés do som do Chico, às vezes vem a voz do velho Sérgio... Durante anos Chico Buarque foi a trilha sonora da família e eu gostava muito de tudo isso. Era o mundo que eu tinha.


“O Grande Circo Místico” pintou em casa e eu já estava nos meus 12 para13 anos. De cara achei um disco diferente… Aquela capa azul celeste com aquele cavalo de visual mambembe com pernas humanas carregando um circo era demais! E rapidinho já queria ser a bailarina da música! E sempre quando penso num cd do Chico penso nesse. Adoro a idéia de poder existir um circo que é místico! Adoro e acho tão singular a estória desse cd: ele foi todo inspirado num poema de Jorge de Lima e criado para o Ballet do Teatro Guaíra... É o único cd ilustrado que eu conheço: são músicas que podem ser transformadas numa estória em quadrinhos! É um cd repleto de personagens. Um obra de arte de Chico e Edu Lobo.


As vozes da introdução nos transportam para um templo, o som funciona como ópio – preparando o corpo, dando condições para a mente receber todo o mistério e alegria que um circo místico pode oferecer. E o som explode numa banda, com um bumbo e um prato estridente marcando fielmente cada vígula, com os metais graciosos, com um xilofone esperto e rápido. E o show não para!


A estória começa na voz pacífica de Milton, que lindamente canta Beatriz. Essa música é um formigueiro de emoções. O único companheiro para a voz de Milton é um piano. Não podia ter um companheiro melhor. Beatriz é a atriz. Beatriz atriz. “Sim, me leva para sempre, Beatriz/ Me ensina a não andar com os pés no chão/Para sempre é sempre por um triz/ Ai, diz quantos desastres tem na minha mão/Diz se é perigoso a gente ser feliz”. Essa música é a gente querendo descobrir quem está escondido atrás da maquiagem, o que há atrás da atriz. O que mora atrás do faz-de-conta nos incomoda... É assombrosa de tão linda.


O palhaço chega com voz feminina! Magnifíco! Jane Duboc é dona da “Valsa do Clowns”, na comédia mais triste do circo. Nem no Circo Místico o palhaço consegue esconder o farrapo humano que dança nas cores e no nariz vermelho de sua fantasia. “A nova atração/ Tem um jovem coração/ Que apertado por estreito laço/ Amanhece partido/ Dentro dele sai mais um palhaço/ Que é um palhaço com o olhar caído”.


A vida fora lona é contada em coro em “Ópera do Casamento”. As rimas são as melhores, os metais os mais sintonizados e para um ouvinte desapercebido, a estória dura passa batido. Essa música mostra o lado conservador da vida “on the road”. As manchas no lençol, o guri que nasce apressado… Espaço para o imprevisto na vida circense parece que é só em cena…


E agora chegou a minha predileta! Num jazz que ganha um assanhamento perfeito na voz de Gal… Essa música me desmonta com sua malícia, com seu gozo…“Ele me comia/ Com aqueles olhos/ De comer fotografia/ E eu disse cheese/ E de close em close/ Fui perdendo a pose/ E até sorri, feliz”. Se estivesse no circo, essa seria minha música! Queria ser essa personagem… Que massa: ao 13 queria ser a bailarina, hoje, na boca dos 40 quero ser a estória de Lily Braun, a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado. Demais! Som delicioso. Nunca mais drink no dancing…


E após um canto gregoriano, “Meu Namorado” surge em meio de uma nuvem de incenso, como num presságio. É assim que funcionam os namorados… As palavras são cantadas uma a uma delicadamente, como devem ser os namorados. A melodia é tranquila, tudo sem pressa, com precisão e langor. Ah! Como são bons os namorados! “Vejo meu bem com seus olhos/ E é com os meus olhos que o meu bem me vê”. Entrosamento total. Astral.


É porque sempre é a perfeita do circo. Lembro que foi essa explicação que obtive do meu pai ao ficar encasquetada com a canção. Perfeição quase plástica, movimentos certeiros e gestos inequívocos que fazem riscos imaginários no ar. Acho um abuso ser bailarina! Um abuso de lindeza e ousadia. “Ciranda da Bailarina” mexe mesmo com o imaginário infantil feminino – música interpretada por crianças – sacada incrível. Ou será vice-versa?!


"I really want to see you/ I really want to be with you/ I really want to see you..." Estamos no Circo Místico e “Sobre Todas as Coisas” é o mantra. Mantra entoado por Gil, o mais cândido de todos. É o encontro da luz com a sombra: misto de religião com misticismo, do macho com a fêmea, do leite com o mel. Sobre essa música eu não quero falar. Te convido a ouví-la… E vá livre - sobre todas as coisas.


“Tatuador” vem para apaziguar ainda mais a nossa alma depois do mantra. Vem leve, com cores suaves e picadas encantadas. Num grande alívio de formas belas e sons calmantes.


Pé ante pé, sorrateira, “A Bela e a Fera” rasga o picadeiro com o nosso querido poeta-soul Tim Maia. Sua voz ardente crava entre sopros e poesias. “Tórax de Superman/ Tórax de Superman/ Coração de Poeta”. “A Bela e a Fera” é uma música de amor crua, feita com palavras triviais. Música onde letras de macarrão fazem poemas concretos e onde os canaviais esperam docemente pelo encontro dos corpos. Ah! O que falar disso tudo? “Abre teu coração/ Ou eu arrombo a janela”.


“Negro refletor/ Flores de organdi/ E o grito do homem voador/ Ao cair em si”. Uma voz melancólica e distante canta o “Circo Místico”. E a voz segue tranquila, descrevendo a magia desse planeta onde chove flor. "Duas meninas num imenso dragão". Pura fantasia. Misteriosa música de ninar.

Rapidinho e super alegre é o jeito que Chico Buarque e Edu Lobo juntam a lona e apagam as luzes do circo. “Mais um dia/ Mais uma cidade para se apaixonar”. Deixar a cidade escondido, como um amante, antes do dia clarear. E é esse o espírito de “O Grande Circo Místico”, que num rompante de felicidade vai arrancando sorrisos e deixando o bem querer.

E o que é um circo senão um sopro de surpresa em tempos de delicadeza?

[ANDRÉA]

terça-feira, 7 de julho de 2009

Na Pressão - Lenine (1999)


Lenine é um garimpeiro. Eu fico de boca aberta com a graça com que ele transita pela língua portuguesa e pinça suas palavras. Palavras que só podiam mesmo estar ali pela sua beleza, precisão, efeito, sutileza e agudeza.

E aí, depois do garimpo, Lenine põe essas palavras para dançarem, num encontro perfeito entre frases, estrofes, vozes e instrumentos. O encontro é magnético, atraindo vários dos meus sentidos, um de cada vez.


“Na Pressão” não poderia ganhar melhor nome. O embrulho anuncia a potência da bomba: na capa do encarte um carro em chamas.


A bomba visual explode estilhaçando meus ouvidos com “Jack Sou Brasileiro”. Jack tem sotaque e balanço. “Jack Sou Brasileiro” está para o Brasil assim como “Rio 40 graus” está para o Rio. Aritmética musical, sambal, cocal, funk-rockal.

Lenine aparece plastificado – só mesmo um plástico colado no corpo poderia conter tudo o que significa ser brasileiro – sua dor e sua delícia. Batida incrível. Palavras musicais.


“Na Pressão” - a barriga da grávida é de arrepiar. A pele está no limite da tensão, tornando-a lisa, de um redondo quase plano.

“Dinamite é o feijão/ Dentro do molho dela.”.

A barriga e a música estão no limite da tensão. A barriga como metáfora para a surpresa, para o inesperado. Ali dentro corre o mundo – barriga branca, mandinga negra. Lenine branco, Naná Vasconcelos negro. Dois continentes.

E se a surpresa falhar, o caldo entorna, a garrafada de serpente se transforma em saliva da besta fera, guerrilha na fronteira perseguindo a feiticeira.


“Enquanto o tempo acelera/ E pede pressa/ Eu me recuso, faço hora/ Vou na valsa/ A vida é tão rara”.

“Paciência” é exigente. É lenta e sábia. É linda e forte. Música que me deixa em carne viva.


“Meu Amanhã” é a música que eu queria para mim! Música de amor com teor e nuance. Exagero, realidade, contradição, sonho, vontade e limite.

A viagem é inevitável. Caminho sem volta. O título é inspiradissímo – Meu Amanhã lança um olhar lá na frente, desejo de ficar junto para sempre. “Ela é minha sina/ O meu cinema/ A tela da minha cena/ A cerca do meu quintal”.

O som é todo sensual, eletrônico, uma anunciação com as melhores palavras. Não dá para não tripiar! E sempre me pego dançando.

Essa música tem um detalhe muito especial: a matemática mágica - dois vira o infinito, o amor com a lente na sua abertura máxima. Viagem sideral.


“A Rede” é uma outra favorita. Adoro o barulho do gancho da rede. O que falar desse som? Que é uma coisa? Que é um delírio? E eu caio na rede e não tem quem não caia…

A foto dos músculos másculos é outra baita rede. Sensacional.

Essa música faz parte do time daquelas que é gostoso de ouvir com a cabeça feita, canais abertos – assim todos os sons serão percebidos…
“Barulho do mar/ Pipoco de onda/ Ribombo de espuma e sal”.


“Medida da Paixão” é linda mas é muito triste… Como um amor pode escapar da gente assim e a gente não perceber? “É como se a gente pressentisse/ Tudo o que o amor não disse/ Diz agora essa aflição”.


Rua da Passagem” começa completamente Pernambuco, com direito a Siba na rabeca e banda de Pífanos de Caruaru. Gosto da mistura dos sons regionais, quase rurais com o tema que de tão urbano, cheira a concreto. Texto a quarto mãos, Arnaldo Antunes e Lenine. E aqui eu não sei o que é de quem. Mistura sem fases.

Começa som Lenine, passa Pedro Luis e a Parede e termina som Arnaldo.

Maravilhosa.


“Relampiando” dorme tranquilo na foto. O acordeom de Dominguinhos dá a leveza para a canção tão crua. A poesia do Lenine tem algo de João Cabral: a beleza do áspero, a flor do cactus. Me gusta.


A que vem agora é demais… “Eu sou meu Guia”. A levada é gostosa, e a letra é de uma esperança sem igual. Tem hora que eu acho que essa música é o Lenine lembrando dele quando criança - com os olhos no dilúvio, os dedos no violão e onde o resto de estrela da noite clareia a manhã.


“Na Pressão” faz um movimento circular: abre grande, corre o mundo, fala de tudo um pouco e fecha no pequeno, na pessoa, na unidade. E é justamente na unidade que a pressão acontece.

Tiro meu chapéu.

Come together, right now

Over me.

[ANDRÉA]