sábado, 25 de julho de 2009

Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat (1970)




A música brasileira é repleta de contribuição feminina ao longo do tempo. Desde Dolores Duran, passando por Elis Regina, Gal Costa, Rita Lee até chegar a nomes mais recentes como Marisa Monte e Cássia Eller, sempre tivemos grandes mulheres que se destacaram e influenciaram gerações. Entretanto, a imensa maioria é composta por intérpretes. Ainda que algumas delas fossem autoras de suas canções ou ainda tocavam algum instrumento para acompanhar, foi a voz o principal legado de cada uma delas.

Nesse universo de estrelas cintilantes, uma delas se diferencia das demais justamente por ser instrumentista e não cantora. Trata-se de Maria Rosa Canellas, ou simplesmente, Rosinha de Valença, como ficou conhecida essa pioneira da música brasileira em referência à sua cidade natal fluminense. Justamente por não ser uma cantora, eu mesmo demorei a conhecê-la e, mais importante ainda, reconhecê-la como grande estrela na música nacional. Lembro até hoje quando, meu bom e velho amigo Zé Edu, em Campinas, em algum ano do início desse século, me mostrou, entre suas últimas aquisições, o CD “Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”. Na hora em que ouvi os primeiros acordes, fiquei impressionado e pensando como pude demorar tanto tempo para conhecer aquela instrumentista. Trata-se de um disco ímpar e desde então entrou para o rol dos meus prediletos, daqueles que escolheria para salvar em caso de incêndio.

Após Rosinha de Valença passar grande parte da década de 1960 acompanhando nomes principais da música brasileira e mundial como Stan Getz e ter se apresentado em diversos países do mundo como URSS, Israel, Moçambique e Angola, ela optou por gravar esse disco instrumental em Johnnesburg, na África do Sul ao lado dos músicos Duncan MacKay (órgão), Hilton Leite (bateria) e Bernardo Bernstein (contrabaixo) numa época em que a África do Sul ainda vivia sob o isolamento da sua política da Apartheid. E o resultado foi uma verdadeira obra-prima experimental, fortemente recomendada a todos que admiram um som diferente e marcante, com ritmos e acordes que, embora datados, têm muito valor. Não vou me ater muito a detalhes das 10 canções do disco, mas destaco a versão de “Je T’aime moi non plus” (clássico erótico de Gainsbourg de 1968, famoso pela interpretação de Jane Birkin & Serge Gainsbourg), “A White Shade of Pale” (Keith Reid), que tanto marcou o final da década de 1960 na interpretação de Procol Harum, além de duas composições dela mesmo (“Rosinha’s Mood” e “Bossa na Praia”).

O texto de apresentação da contra-capa, que leva a assinatura da própria autora, consegue transmitir fidedignamente a atmosfera da época. Pena que depois de passar 12 anos em coma, em 2004 perdemos essa excelente instrumentista. Mas felizmente deixou grandes obras, sejam pessoais como essa, seja ao lado de outros grandes nomes da música (por exemplo, participando do disco Álibe, de Maria Bethânia). Valeu Rosinha! [Paul]

Set list
“Rosinha de Valença apresenta Ipanema Beat”
1 – Sitting
2 – Isole Natale
3 – Je t’aime moi non plus
4 - Mercy, Mercy
5 – Rosinha’s Mood
6 – A White Shade of Pale
7 – Sunshine Superman
8 – Bossa na Praia
9 - T Bone Steak
10 – Forever Yet Forever

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Grande Circo Místico - Chico Buarque e Edu Lobo (1993)


Todo mundo cresceu sob um som. Inevitável experiência familiar… Eu cresci ouvindo Chico Buarque. Aliás, continuo sob alguns signos dos Buarques, quando ao invés do som do Chico, às vezes vem a voz do velho Sérgio... Durante anos Chico Buarque foi a trilha sonora da família e eu gostava muito de tudo isso. Era o mundo que eu tinha.


“O Grande Circo Místico” pintou em casa e eu já estava nos meus 12 para13 anos. De cara achei um disco diferente… Aquela capa azul celeste com aquele cavalo de visual mambembe com pernas humanas carregando um circo era demais! E rapidinho já queria ser a bailarina da música! E sempre quando penso num cd do Chico penso nesse. Adoro a idéia de poder existir um circo que é místico! Adoro e acho tão singular a estória desse cd: ele foi todo inspirado num poema de Jorge de Lima e criado para o Ballet do Teatro Guaíra... É o único cd ilustrado que eu conheço: são músicas que podem ser transformadas numa estória em quadrinhos! É um cd repleto de personagens. Um obra de arte de Chico e Edu Lobo.


As vozes da introdução nos transportam para um templo, o som funciona como ópio – preparando o corpo, dando condições para a mente receber todo o mistério e alegria que um circo místico pode oferecer. E o som explode numa banda, com um bumbo e um prato estridente marcando fielmente cada vígula, com os metais graciosos, com um xilofone esperto e rápido. E o show não para!


A estória começa na voz pacífica de Milton, que lindamente canta Beatriz. Essa música é um formigueiro de emoções. O único companheiro para a voz de Milton é um piano. Não podia ter um companheiro melhor. Beatriz é a atriz. Beatriz atriz. “Sim, me leva para sempre, Beatriz/ Me ensina a não andar com os pés no chão/Para sempre é sempre por um triz/ Ai, diz quantos desastres tem na minha mão/Diz se é perigoso a gente ser feliz”. Essa música é a gente querendo descobrir quem está escondido atrás da maquiagem, o que há atrás da atriz. O que mora atrás do faz-de-conta nos incomoda... É assombrosa de tão linda.


O palhaço chega com voz feminina! Magnifíco! Jane Duboc é dona da “Valsa do Clowns”, na comédia mais triste do circo. Nem no Circo Místico o palhaço consegue esconder o farrapo humano que dança nas cores e no nariz vermelho de sua fantasia. “A nova atração/ Tem um jovem coração/ Que apertado por estreito laço/ Amanhece partido/ Dentro dele sai mais um palhaço/ Que é um palhaço com o olhar caído”.


A vida fora lona é contada em coro em “Ópera do Casamento”. As rimas são as melhores, os metais os mais sintonizados e para um ouvinte desapercebido, a estória dura passa batido. Essa música mostra o lado conservador da vida “on the road”. As manchas no lençol, o guri que nasce apressado… Espaço para o imprevisto na vida circense parece que é só em cena…


E agora chegou a minha predileta! Num jazz que ganha um assanhamento perfeito na voz de Gal… Essa música me desmonta com sua malícia, com seu gozo…“Ele me comia/ Com aqueles olhos/ De comer fotografia/ E eu disse cheese/ E de close em close/ Fui perdendo a pose/ E até sorri, feliz”. Se estivesse no circo, essa seria minha música! Queria ser essa personagem… Que massa: ao 13 queria ser a bailarina, hoje, na boca dos 40 quero ser a estória de Lily Braun, a grande deslocadora que tinha no ventre um santo tatuado. Demais! Som delicioso. Nunca mais drink no dancing…


E após um canto gregoriano, “Meu Namorado” surge em meio de uma nuvem de incenso, como num presságio. É assim que funcionam os namorados… As palavras são cantadas uma a uma delicadamente, como devem ser os namorados. A melodia é tranquila, tudo sem pressa, com precisão e langor. Ah! Como são bons os namorados! “Vejo meu bem com seus olhos/ E é com os meus olhos que o meu bem me vê”. Entrosamento total. Astral.


É porque sempre é a perfeita do circo. Lembro que foi essa explicação que obtive do meu pai ao ficar encasquetada com a canção. Perfeição quase plástica, movimentos certeiros e gestos inequívocos que fazem riscos imaginários no ar. Acho um abuso ser bailarina! Um abuso de lindeza e ousadia. “Ciranda da Bailarina” mexe mesmo com o imaginário infantil feminino – música interpretada por crianças – sacada incrível. Ou será vice-versa?!


"I really want to see you/ I really want to be with you/ I really want to see you..." Estamos no Circo Místico e “Sobre Todas as Coisas” é o mantra. Mantra entoado por Gil, o mais cândido de todos. É o encontro da luz com a sombra: misto de religião com misticismo, do macho com a fêmea, do leite com o mel. Sobre essa música eu não quero falar. Te convido a ouví-la… E vá livre - sobre todas as coisas.


“Tatuador” vem para apaziguar ainda mais a nossa alma depois do mantra. Vem leve, com cores suaves e picadas encantadas. Num grande alívio de formas belas e sons calmantes.


Pé ante pé, sorrateira, “A Bela e a Fera” rasga o picadeiro com o nosso querido poeta-soul Tim Maia. Sua voz ardente crava entre sopros e poesias. “Tórax de Superman/ Tórax de Superman/ Coração de Poeta”. “A Bela e a Fera” é uma música de amor crua, feita com palavras triviais. Música onde letras de macarrão fazem poemas concretos e onde os canaviais esperam docemente pelo encontro dos corpos. Ah! O que falar disso tudo? “Abre teu coração/ Ou eu arrombo a janela”.


“Negro refletor/ Flores de organdi/ E o grito do homem voador/ Ao cair em si”. Uma voz melancólica e distante canta o “Circo Místico”. E a voz segue tranquila, descrevendo a magia desse planeta onde chove flor. "Duas meninas num imenso dragão". Pura fantasia. Misteriosa música de ninar.

Rapidinho e super alegre é o jeito que Chico Buarque e Edu Lobo juntam a lona e apagam as luzes do circo. “Mais um dia/ Mais uma cidade para se apaixonar”. Deixar a cidade escondido, como um amante, antes do dia clarear. E é esse o espírito de “O Grande Circo Místico”, que num rompante de felicidade vai arrancando sorrisos e deixando o bem querer.

E o que é um circo senão um sopro de surpresa em tempos de delicadeza?

[ANDRÉA]

terça-feira, 7 de julho de 2009

Na Pressão - Lenine (1999)


Lenine é um garimpeiro. Eu fico de boca aberta com a graça com que ele transita pela língua portuguesa e pinça suas palavras. Palavras que só podiam mesmo estar ali pela sua beleza, precisão, efeito, sutileza e agudeza.

E aí, depois do garimpo, Lenine põe essas palavras para dançarem, num encontro perfeito entre frases, estrofes, vozes e instrumentos. O encontro é magnético, atraindo vários dos meus sentidos, um de cada vez.


“Na Pressão” não poderia ganhar melhor nome. O embrulho anuncia a potência da bomba: na capa do encarte um carro em chamas.


A bomba visual explode estilhaçando meus ouvidos com “Jack Sou Brasileiro”. Jack tem sotaque e balanço. “Jack Sou Brasileiro” está para o Brasil assim como “Rio 40 graus” está para o Rio. Aritmética musical, sambal, cocal, funk-rockal.

Lenine aparece plastificado – só mesmo um plástico colado no corpo poderia conter tudo o que significa ser brasileiro – sua dor e sua delícia. Batida incrível. Palavras musicais.


“Na Pressão” - a barriga da grávida é de arrepiar. A pele está no limite da tensão, tornando-a lisa, de um redondo quase plano.

“Dinamite é o feijão/ Dentro do molho dela.”.

A barriga e a música estão no limite da tensão. A barriga como metáfora para a surpresa, para o inesperado. Ali dentro corre o mundo – barriga branca, mandinga negra. Lenine branco, Naná Vasconcelos negro. Dois continentes.

E se a surpresa falhar, o caldo entorna, a garrafada de serpente se transforma em saliva da besta fera, guerrilha na fronteira perseguindo a feiticeira.


“Enquanto o tempo acelera/ E pede pressa/ Eu me recuso, faço hora/ Vou na valsa/ A vida é tão rara”.

“Paciência” é exigente. É lenta e sábia. É linda e forte. Música que me deixa em carne viva.


“Meu Amanhã” é a música que eu queria para mim! Música de amor com teor e nuance. Exagero, realidade, contradição, sonho, vontade e limite.

A viagem é inevitável. Caminho sem volta. O título é inspiradissímo – Meu Amanhã lança um olhar lá na frente, desejo de ficar junto para sempre. “Ela é minha sina/ O meu cinema/ A tela da minha cena/ A cerca do meu quintal”.

O som é todo sensual, eletrônico, uma anunciação com as melhores palavras. Não dá para não tripiar! E sempre me pego dançando.

Essa música tem um detalhe muito especial: a matemática mágica - dois vira o infinito, o amor com a lente na sua abertura máxima. Viagem sideral.


“A Rede” é uma outra favorita. Adoro o barulho do gancho da rede. O que falar desse som? Que é uma coisa? Que é um delírio? E eu caio na rede e não tem quem não caia…

A foto dos músculos másculos é outra baita rede. Sensacional.

Essa música faz parte do time daquelas que é gostoso de ouvir com a cabeça feita, canais abertos – assim todos os sons serão percebidos…
“Barulho do mar/ Pipoco de onda/ Ribombo de espuma e sal”.


“Medida da Paixão” é linda mas é muito triste… Como um amor pode escapar da gente assim e a gente não perceber? “É como se a gente pressentisse/ Tudo o que o amor não disse/ Diz agora essa aflição”.


Rua da Passagem” começa completamente Pernambuco, com direito a Siba na rabeca e banda de Pífanos de Caruaru. Gosto da mistura dos sons regionais, quase rurais com o tema que de tão urbano, cheira a concreto. Texto a quarto mãos, Arnaldo Antunes e Lenine. E aqui eu não sei o que é de quem. Mistura sem fases.

Começa som Lenine, passa Pedro Luis e a Parede e termina som Arnaldo.

Maravilhosa.


“Relampiando” dorme tranquilo na foto. O acordeom de Dominguinhos dá a leveza para a canção tão crua. A poesia do Lenine tem algo de João Cabral: a beleza do áspero, a flor do cactus. Me gusta.


A que vem agora é demais… “Eu sou meu Guia”. A levada é gostosa, e a letra é de uma esperança sem igual. Tem hora que eu acho que essa música é o Lenine lembrando dele quando criança - com os olhos no dilúvio, os dedos no violão e onde o resto de estrela da noite clareia a manhã.


“Na Pressão” faz um movimento circular: abre grande, corre o mundo, fala de tudo um pouco e fecha no pequeno, na pessoa, na unidade. E é justamente na unidade que a pressão acontece.

Tiro meu chapéu.

Come together, right now

Over me.

[ANDRÉA]

sexta-feira, 3 de julho de 2009

As Aventuras da Blitz (1982)


Aquele seria o primeiro show da minha vida. Mas não foi... Embora fossem ficar populares, nos idos de 1982, numa cidade do interior, um show de rock era sinônimo de drogas e violência (e o sexo?). Como cantava a Blitz em De Manhã: “Eu tinha doze anos, ainda me lembro do dia, eu escutava o que mamãe dizia. Ela dizia: tome cuidado, tenha juízo, esse mundo é o cão”. Assim, do alto dos meus doze anos, fui obrigado a passar aquele final de semana chuvoso na fazenda.
Nós (eu, meus irmãos, primos e amigos) sempre passávamos as férias lá, no maior esquema Sítio do Pica-Pau Amarelo. A gente jogava bola, nadava no rio, andava pelas matas, caçava cobra, morrendo de medo de achar, montava bicicleta pelas estradas enlameadas, passeava de canoa, versões antigas do rafting, trekking, mountain bike, etc. que se praticam hoje. Bom demais!, mas naquele fim de semana parecia mais um castigo...
Pra minha sorte (ou azar), a rádio local transmitiu o show e pude curtir (sofrer?) a energia da banda, que já nasceu no auge. Eu me lembro bem da primeira vez que os vi, no Fantástico. As gírias, as ironias, a temática adolescente, as referências pop (prestatenção na capa), mensagens subliminares, a conversa de mesa de bar, Fernanda Abreu deliciosa, e Evandro Mesquita, que com seu jeito Evandro de ser, perpetuado depois em dezenas de papéis na televisão e cinema, esbanjava carisma. Era tudo muito legal, muito diferente! Para quem cresceu ouvindo os discos dos pais (a MPB dos anos 70), não podia haver nada mais libertador, porque era a primeira vez que eu me identificava com uma banda/artista que era só meu.
Sei que a Blitz ficou careta, chata, as piadas foram perdendo a graça e eles acabaram pousando com Papai Noel num Maracanã lotado de crianças, criança que eu não queria mais ser. Mas passados quase trinta anos, talvez eu também esteja ficando careta, chato e minhas piadinhas ficando repetitivas. Sem problemas, o que importa é que minha namorada ainda ri delas e que a Blitz tem seu lugar reservado dentre as bandas que marcaram a minha vida. Eu não sabia, mas, como num rito de passagem ao contrário, naquele fim-de-semana eu comecei a virar adolescente.

As Aventuras da Blitz

1. Blitz cabeluda. Começa com uma vinheta, tipo Sgt. Pepper’s: “Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro”. Clássico!
2. Vai, vai Love. Fala da gata querendo ir pro Baixo Leblon e o cara argumentando: “Eu disse que não era bom. Acho Leblon-todo-dia, vicia. E você perde a classe, vadia. Desvaloriza o passe maninha”.
3. De manhã (aventuras submarinas). O cara acorda, preguiçoso, sol já alto, e passa o dia sonhando com musas de cinema, enquanto fica de bobeira. Antológica!
4. Vitima do amor. Um rock romântico, cheio de vocais legais.
5. O romance da universitária otária. De versos antológicos: “Era boa em línguas, mas não sabia beijar”; “Ser ou não ser, o que será que serei, o que será que eu vou ser”; “Eu não queria falar, mas agora vou dizer: todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”.
6. O beijo da mulher aranha. Nada especial, mas me amarro nela, acho que pela melodia, os vocaizinhos, sei lá.
7. Totalmente em prantos. “Todo vestido bonitinho e não tenho onde cair. E sem nenhum lugar pra ir”.
8. Eu só ando a mil. Começa com uma vinhetinha, também: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração tchanraaammm Um som que marcará toda uma época. Vocês verão Blitz no melhor papel de sua carreira. Blitz amando, sofrendo, chorando e tocando como jamais alguém ousou tocar em toda história do seu rádio, vitrola ou gravador”. Perfeito! Uma das minhas preferidas.
9. Mais uma de amor. Mega sucesso! “Essa é mais uma daquelas manjadas estórias de amor que já aconteceram comigo, com você e com todo mundo”. A do geme-gemiiiiiiiii, uuuuuuuuuu!!!
10. Volta ao mundo. Boba, mas era engraçada. “Eu e meu amigo Julio. Julio, o tal do Verne. Dando a volta ao mundo”.
11. Você não soube me amar. “Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na ruuuuuaaaa”. Precisa falar mais?
12. Ela quer morar comigo na lua. O disco ainda tinha isso, duas músicas censuradas por causa de palavrões. Era a glória! No vinil, as duas últimas músicas vinham arranhadas, pra gente não poder ouvir. E essa nem sei por quê. Talvez porque falava “bundando”.
13. Cruel, cruel, esquizofrenético blues. Essa é a outra censurada. Fala de brilho... nos olhos. E da empregada que pegou no peru do marido. No peru de Natal, lógico. Tá, tudo bem, lá pelas tantas rola um “puta que pariu”.
(LM)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Oblesqonversation... Õ Blesq Blom - Titãs (1989)


Minha primeira lembrança do Õ blesq blom, foi de um show dos titãs em Recife, no centro de convenções a meio caminho de Olinda... A banda estava instigadíssima e eu estava... bem, deixa pra lá... O legal é que quem abriu este show foram Mauro e Quitéria, pessoalmente! Então quando a banda atropelou com tudo em Miséria, miséria em qualquer canto, a platéia foi à loucura!...

Esse show foi muito bom, eu estava acompanhado de grandes amigos, nos divertimos muito e de quebra ainda encontrei umas primas na entrada, que eu nem sabia que curtiam os titãs... Tudo isso transformou õ blesq blom no meu disco favorito dos titãs. Foi minha primeira bolacha deles (comprei no dia seguinte!). Faz muito tempo que eu não ouço o disco, então prefiro começar esse papo mais de memória do que com uma impressão mais "amadurecida" sobre o disco, o que seria, talvez, injusto (com minhas lembranças, principalmente).


Que massa... cabeça feita, amigos queridos, Titãs de cabo a rabo, Mauro e Quitéria e ainda em Recife? Um privilégio... Eu já não tive tanta sorte... o meu Õ blesq blom foi só ouvido (e é ainda), mas ouvido de corpo e alma. Esse disco é muito bom! Com todos os Titãs e cheio de música de prima.

Os Titãs também pintaram cedo na minha vida, meu primeiro show deles foi o Sonífera Ilha e me lembro de ter ficado assustada pela quantidade de gente no palco. Eles eram um montão! E chegaram para fazer estória, pelo menos na minha vida...

O que é Õ blesq blom? Nesse documentário que saiu dos Titãs (que você deveria ver, porque é bem emocionante) mostra o grupo nas areias de Boa Viagem e conta a estória que foi justamente nessas areias que o grupo travou seu o primeiro contato com a voz de Quitéria e de Mauro. Parece que quando os Titãs ouviram os dois cantando aquele monte de língua misturada, que o Paulo Miklos e acho que o Marcelo Fromer, sairam correndo atrás deles, enloquecidos.

Esse disco é cheio de memória. Acho que música boa tem esse viés, o da memória...

E o encarte? Gosto do jeito que as letras estão dispostas, como num xadrez, como num jogo da velha. O título é daquele jeito, com letrinhas recortadas de revista, sabe? E sobre um fundo que parece um azulejo do Brennan. Uma misturança genial: tradição lá de cima com o rock lá de baixo! E as fotos são super inusitadas (e bem engraçadas)! Cada um meio que vira um personagem de si próprio. E o cabelo do Nando naquela época crescia para cima! O Nando sempre brincou com a sua cabeleira!

ps: Acabo de descobrir que a capa é do Arnaldo Antunes... Agora as letrinhas começam a fazer sentido...!


Musicalmente este õ blesq blom me parece um pouco diferente dos outros anteriores. Acho que aquela fúria do cabeça dinossauro e de jesus não tem dentes no país dos banguelas fica mais sutil aqui. O próprio título do disco já é um sinal. A mais furiosa talvez seja Medo, que é uma das minhas favoritas. Na voz de Arnaldo, os titãs te conclamam a perder o(s) medo(s) na marra, na porrada. Além do vocal mais gritado, o ritmo é alucinado, bateria bem marcada, guitarras mais pesadas e repetitivas.

Além do Medo, minhas favoritas são a faixa-titulo Miséria, onde eles exploram o ping-pong sonoro que já tinham usado em Diversão (do disco anterior), mas agora de uma maneira mais rítmica, dançante. E a letra é um achado, com o jogo riquezas são diferentes / riquezas são diferenças. Gosto também de Flores, que foi a música de rádio deste disco. Ainda que a letra não seja das mais titânicas, o trabalho de banda é excelente, uma música muito bem construída pelos dois guitarristas. O Pulso é outra sensacional. A construção em forma crescente é demais. Tem um divertidíssimo rock de raiz em 32 dentes e o funk Deus e o Diabo, conferindo diversidade sem tirar a coesão do trabalho. Nesta última, Paulo Miklos canta o dilema de todos nós, com deus e o diabo habitando a mesma morada... Os pontos fracos do disco (fracos porque comparados às outras!) são o camelo e o dromedário e, por incrível que pareça, as duas do Nando Reis (Raciosímio e Faculdade), justo ele que é hoje o melhor dos músicos pós-titãs...
Mas a minha favorita mesmo é Palavras, que eu comecei a gostar mesmo depois do disco de quarentena, acústico mtv, com outra roupagem, totalmente diferente:

Palavras não são más / Palavras não são quentes

Palavras são iguais, sendo diferentes

Palavras não são boas

Os números pros dias / E os nomes pras pessoas


Õ blesq blom é um disco meio híbrido, com timbres menos punks, mas ainda muito profundo, com muito sangue correndo nas veias - como se fosse criado em pleno êxtase, onde a dor te retorce, mas é uma dor incolor, e você consegue continuar criando - daí talvez um som que soe menos agressivo, mas as letras são carregadas na angústia, dando um tom poético e ácido. Acidez e poesia, tá aí. Os Titãs por muito tempo foram um dos melhores tradutores do nosso inconsciente, sabiam como ninguém nomear nossas dores e desejos.

O discp abre com a reinvenção de uma língua na voz da dupla Mauro e Quitéria, língua onde ninguém entende nada, mas todo mundo entende tudo. Todo mundo tem sua própria língua. E vem Miséria, a língua entendida sem equívoco e fantasiada com cores modernas, para fácil digestão.

Filhos Amigos Amantes Parentes Fracos Doentes Aflitos Carentes

A morte não causa mais espanto / O sol não causa mais espanto

Camelo e o Dromedário dá a leveza na angústia. Adoro uns sonzinhos que pulam no meio da música, como se fossem um ponto de interrogação sonoro. Gosto do balanço, uma coisa meio reggae, meio relaxante, que dá um gosto especial pros nossos ouvidos. Afinal, porque um camelo e um dromedário poderiam nos trazer tantas dúvidas? Magnífico!

Palavras eu preciso preciso com urgência / Palavras que se usem em caso de emergência. As palavras escapam da boca de uma maneira frenética, parece que com uma necessidade mesmo de colocá-las para fora. Palavras que se diz / Se diz e não se pensa". Eu quero todas elas!

O Pulso é outra entre as minhas favoritas totais. Aquela lista de doenças do corpo e outras da alma conectadas com aquela palavra falada pulso, que tem hora que soa uma respiração e outras com a pulsação é um escândalo! É um escândalo de vida com morte. E o corpo ainda é pouco.

E eu sigo com Medo, que é outra obra-prima. O Pulso e Medo caminham juntas, na mesma frequência, na mesma tentativa de se livrar de algo. Enquanto Medo é alucinada, rápida, desesperada, Pulso é a própria pulsão, é a vida em si. O Medo é mental, o Pulso é físico e Deus e Diabo é a nossa fantasia.

E os Titãs simplesmente nos descrevem, nos musicam. Õ blesq blom vai embora na mesma voz que veio - na de Mauro e Quitéria - e o que fica é a sensação de um desenho do ser humano, um desenho que foi musicado - tá lá sua mente, seu corpo, sua imaginação, suas palavras.

Carteira de identidade / Perda de identidade / Identidade dupla / Identidade xerox / Não tenho mais identidade!


[ANDRÉA] & [M]

terça-feira, 16 de junho de 2009

LoveLeeRita - Ná Ozzetti (1996)


A Ná “desrroqueou” a Rita! E isso não é uma coisa que se pode fazer assim, todos os dias, certo?
Ná Ozzetti coloriu o som da Rita com cores diferentes, mais leves, com a cores de sua tradição vinda do Rumo e também de sua formação lírica. Demorei pra me convencer que o “LOVELEERITA” era legal, que podia sim, transformar o rock da Rita Lee em outra coisa e no fim, sair algo bonito.
E também acho que toda tentativa de interpretação tem muito de coragem, ousadia e amor. E que deve ser massa cantar Rita Lee, ah, isso deve! Irresistível…
Enfim, uma super homenagem com um repertório escolhido a dedo, precioso mesmo…

“Atlântida” (Saúde 1981) fica onde? Não sei se ela desapareceu do mapa ou sumiu mesmo foi do meu imaginário. E como a música diz “Que o mundo é dos que sonham/ Que toda lenda é pura verdade”. Ná Ozzetti canta bonito, lento, cada palavra fica nova com sua voz. O violão dá um som de roda, circular, que embala o ouvinte. O cd abre sonhando…

“Com a boca no mundo” (Entradas e Bandeiras 1976) tem um suingue gostoso e logo já vai dando aquela vontade de dançar. E aos poucos vou sendo levada por esse novo tom que Ná Ozzetti imprime às canções. Essa música é a cara da Rita Lee! Ela ainda meio menina, encontrando seu passo entre seu corpo, sua voz e sua vontade de botar a boca no trombone. “Com a boca no mundo” é uma verdadeira descoberta. É interessante como a Rita Lee (sozinha ou com outros compositores que não o Roberto de Carvalho - pelo menos no LOVELEERITA) compunha músicas completamente viajantes, grandes. Aqui eu falo de amplitude mesmo. Ela viaja em milhares de temas, descobre cavernas, anda por outras estradas. Com o Roberto, as composições já são mais sexuais, apaixonadas, muitas quase corporais. Que também é o máximo…
Acho esse poder de movimento muito legal – o de como uma parceria pode mudar teu “drive”. A Rita faz isso muito bem, se entrega.

“Mania de você” (Rita Lee 1979) na versão da Ná chega mais rápida, dançante. Acho que mais pop mesmo, menos carregada de estória. “Mania de você” foi composta pelo casal quando ainda estavam na cama… Na delícia da hora.
Foi interessante essa mudança de estilo (apesar de ser fã da versão original), já que com a Ná a estória é outra… No lugar da cama, entram os mil sopros que são de matar.

Bem, “Mutante” (Saúde 1981): essa é uma das minhas músicas favoritas da vida…
Ela chega chameguenta, entrando e tomando conta de mim sem pedir licença. E eu deixo…
Mutante é linda sempre e ainda mais nessa versão, que de quebra tem um trombone. É um escândalo simplesmente.
“Kiss me baby/ Pena que você não me kiss”.
É delicada, é exagerada, é a combinação perfeita das palavras. Tudo isso junto explode nessa música de amor temperada de todos os cheiros: dor, ressentimento, paixão, tesão e abandono.
E aí, “Mutante” levanta, toma força e nos deixa.

“Quem disse que eu tenho que me cuidar/ Tem certas coisas que a gente não consegue se controlar/ Comer um fruto que é proibido/ Você não acha irresistível?”
“Fruto Proibido” (Rita Lee & Tutti Frutti1975) malandraça! Essa versão tá cheia de percussão e guitarra. Tá muito massa! A música é um desses convites que a gente não tem coragem de fazer, sabe? “Fruto Proibido” é aquela vontade de desanuviar, de trocar de fantasia e sair vivendo.

Em “Luz Del Fuego”, que também está no disco Fruto Proibido, Ná Ozzetti não aguenta e roquenrroa total! Essa música é demais! “Hoje eu represento o segredo/ Enrolado no papel”. É incrível como Luz Del Fuego mexeu com o imaginário feminino. Muita cantora já cantou essa música e sempre muito bem. É que Luz Del Fuego não tinha medo…

O título “Raio X” (Bombom 1983) é perfeito para a velocidade da música. O som se arrasta e se espalha por cada vão e aí a gente se dá conta de “Quem nunca teve um sonho/ Quem é que não é sozinho”.
Essa música me faz pensar nessas cidades grandes, onde a janela da sala dá vista para enormes viadutos de concreto. O que a modernidade pode trazer de mais solitário.

A modinha mais poética que eu já vi é essa “Modinha”(Babilônia 1978) aqui. Linda…
“Todo remédio que me cura tem uma contra-indicação”. Perfeito.

Ná Ozzetti se descabela em “Mãe Natureza” (Atrás do Porto tem uma Cidade 1974). Não segura a onda dessa música e pira. Pira ela, pira a guitarra. E bem que fazem!
“Mãe Natureza” na minha opinião é a nossa erva de cada dia, aquela que embaça a mente na pitada certa e a gente já não sabe se estamos pirando ou as coisas é que estão melhorando!
Rock’n’roll de primeira, arraso. E eu tô facinha – que venha a mãe natureza tomar conta da minha cabeça. Oh yeah!!

Me lembro da primeira vez que ouvi “Doce Vampiro” (Rita Lee 1979). Eu ainda era menina e tinha uma prima mais velha que respirava Rita Lee. Um dia ela me chamou pra me mostar essa música, e eu mesmo ainda menina, achei o máximo…“Doce Vampiro” com Rita é imbatível…

Já que eu entrei no campo da memória… Enquanto no meu mundo só cabia Caetano, meus amigos de Barão, Mateus e Paulinho já ouviam Os Mutantes, ou pelo menos já sabiam da existência do grupo. E foram eles que me ensinaram essa musiquera toda. “2001” (1969) e “Vida de Cachorro” (1972) são lindas…
Adoro isso aqui: “Na velocidade da luz/ A cor do céu me compõe/ O mar azul me dissolve/ A equação me propõe/ Computador me resolve/ Amei a velocidade”.
Não é demais?

E o LOVELEERITA acabou. E eu que comecei esse texto ressabiada, enciumada da Ná roubando a minha Rita, termino esse post numa sensação de curtição total. Que delícia isso!
Ponto para Ná Ozzetti e um milhão de pontos para Rita Lee. I you love.

[ANDRÉA]

sábado, 13 de junho de 2009

Sim - Vanessa da Mata (2007)


SIM, o disco vermelho de Vanessa da Mata é um disco feminino. Começando pela capa, com aquela manta que parece uma mancha de esmalte sobre a areia, e que voa quando abrimos o encarte. Sua voz é bonita e cristalina, num balanço na medida entre a delicadeza e a braveza. Um pêndulo que só existe dentro de uma mulher.
Vanessa da Mata constrói um disco de sensações e sentimentos, que poderiam ser contados e cantados em grandes clichês, mas não, ela captura a magia do simples e o transforma em leveza. Deixa escorrer o desejo.
Seu disco tem um encaixe redondo, os fios se encontram numa poesia tranquila sem grandes surpresas no caminho. Talvez a surpresa esteja aí, nesse rio que corre manso. Seus sons são bons de ouvir, tem algo nisso tudo de misterioso, de atraente.

“Vermelho” abre num crescente, com uma voz que vem de longe e vai chegando pertinho. Lânguida face. Os sons se misturam com barulhos de bolhas explodindo. Vermelho é o sangue: o quente que arde, o quente que queima, o calor que pede o aconchego, mas que traz o vazio, que deixa a alma na solidão. E a voz vai como veio, desaparecendo, sumindo, enquanto o mundo roda em vão.
Vermelho de pepper sauce.

“Fugiu com a novela” é um charme! Gostosa até de ouvir com esse som de triângulo, com essa percussão melindrosa… Gosto muito da inversão de papéis: Vanessa da Mata canta um homem que reclama a perda de sua mulher para a novela das oito e bem agora que o caso tava no tom! Perfeito! Esse homem que parece mais um gato, que gostava de ser alisado, que contava piada e ela gargalhava, foi abandonado…
A letra é uma crônica conhecida e capta justamente um lapso: o vão entre os dois lados de um mesmo homem – o que acariciava e às vezes nem tanto. Com graça e sem alarde, Vanessa toma da voz masculina para dar o recado: “A vida era boa ela não reclamava/ Agora vive longe, não sei mais nada/ Fugiu da nossa casa com a televisão”…
Acho que já sei! “Vermelho” é feminino nos temas, é discreto nos tons e isso já é uma super novidade!

“Baú” é o lado do pêndulo bravo da estória. Num ritmo mais rápido, com um órgão que traz uma sonoridade ácida à música, Vanessa numa imagem linda de morrer, quer jogar o moço no seu baú vivo e mágico, cheio de desenhos herméticos, livrinhos de receita e palavras de Dalai Lama. Tá louca pra transformar seu sapo em príncipe.
Essa música somos nós naquele desespero total quando a gente vê que o nosso moço tá enguiçado, patinando… É bem aquela coisa de mulher, que vai dando nos nervos… E lá vem um chocalho à la cascavel. Típico! Quem tem uma mulher em casa sabe do que eu estou falando!
Mas claro, a estória poderia ser cantada ao contrário… Essa música é meio como búzios quando jogados na mesa, é tudo uma questão de encaixe, de interpretação…

“Boa Sorte/ Good Luck” é um encontro de dois tecidos transparentes. Gosto muito. Acho super legal essa idéia de sobrepor a mesma idéia em duas línguas diferentes: como se a tradução não fosse possível quando estamos falando de sentimento, então temos a necessidade das duas vozes. Estamos aqui falando da riqueza das línguas, como se fosse um concentrado de cultura e um código que tenta colocar pra fora tudo isso. Cada língua com suas nuances, com suas palavras ora mais carregadas, ora menos, e, como se tivessem vidas próprias, elas conversam entre si, e a música é só um pretexto onde todas essas idéias deslizam. É super lindo! E o Ben Harper é um parceiro mais que perfeito! Ele, na sua bagagem musical, esbanja liberdade, encontros e poesia.

Os dedos percorrem os pretos e os brancos do piano que abre “Amado” e com a voz mais doce do mundo, Vanessa da Mata mata já de cara: “Fico desejando nós gastando o mar/ Pôr-do-sol, postal, mais ninguém”…
Que música de amor linda, cheia de um amor seguro, em paz e arrebatado de desejo. Todo mundo de bem merece um amor desse…
E essa música me lembra uma estrofe do Nando Reis, numa de suas milhões de melhores estrofes: “Corre a lua, por que longe vai?/ Sobe o dia tão vertical/ O horizonte anuncia com o seu vitral/ Que eu trocaria a eternidade por essa noite? Por que está amanhecendo?/ Peço o contrário, ver o sol se pôr/ Por que está amanhecendo/ Se não vou beijar teus lábios quando você se for?”. O Nando com o seu jeito de cantar o amor onde todas as células do corpo amam juntas e num tom muito mais louco de amor, tem a mesma vibração que Vanessa em “Amado”. Os dois estão hipnotizados pelo desejo.
Em “Amado”, onde até a sonoridade respira e transpira num movimento único, Vanessa da Mata canta um amor livre: no mesmo espaço onde lá fora passa o tempo sem você, é o espaço sim, onde tudo pode acontecer. Sem prisão.
Quero dançar com você…

“Paçoca, suspiro, cocada, jujuba/ Quindim, bombom, churros, bomba”
Quindins, churros, bombons…
A única coisa que me vem à cabeça nessa música é esse monte de doces brilhantes e deliciosos. Pirraça é uma música visual! Eu juro que eu tô vendo um quindim bem amarelo aqui na minha frente…
Um sonho! Só de pirraça!

“Pensando em te matar de amor ou de dor/ Eu te espero calada”.
Em “Você vai me destruir”, Vanessa da Mata canta o que a gente também sente: o nó no peito do fim do amor. O som é dançante, feito mesmo para disfarçar a raiva, todo o desdém. A fúria dessa música também é bem feminina: a fúria que se mistura com a vontade de perdoar, de esquecer e de continuar amando com a potência do amor envolvente, aquele mesmo, aquele que te come, aquele cheio de contradição.

Gosto muito da bateria em “Absurdo”. A bateria leva a música, abre o caminho, marca o trilho.
“Absurdo” é uma música muito bonita, mas triste… “Cores, tantas cores/ Tais belezas/ Foram-se/ Versos e estrelas/ Tantas fadas que eu não vi”. Vanessa com tranquilidade, e escolhendo as melhores perguntas numa poética verde, deixa aqui seu recado.

“Ilegais” é a minha música favorita! É malandrinha, com balanço, com malícia. Me gusta!
Os backing vocals são discretos como devem ser, o eletronicozinho no fundo dando o tom, o trombone que aparece de curioso, enche um espaço e faz bonito, Vanessa da Mata funde tudo isso muito bem com sua letra dengosa.
É que não dá mesmo pra amar sem um dengo, né? Sem uma manha… Amar na legalidade? Tudo muito previsível? Demodé…
Eu adoro quando ela canta: “Desse jeito vão saber de nós dois/ Dessa nossa farra”.
Uma música gostosa, com um nome sensacional. E farra é farra… Nada mais sugestivo.

Me entrego total e acho uma verdadeira delícia a velocidade de “Quando um homem tem uma mangueira no quintal”! Uma música cheia de duplos sentidos, sem vergonha, cheia de siricotico e aventura. Essa música tem uma graça incrível, ela é toda livre, como numa trança solta, uma gostosura.
Fico viajando nesse quintal: com grama verde e com uns pedaços ainda com terra. Terra às vezes molhada pela água da mangueira. Um lugar pra poder brincar de amar, sem pensar no amanhã, aproveitar a tarde vazia.
É uma homenagem ao tempo livre, ao tempo vazio, ao deixar-se sair do sério.
E se é gostoso, por que não? Se é bem bom pro coração…
Let’s go?

[ANDRÉA]