
Aquele seria o primeiro show da minha vida. Mas não foi... Embora fossem ficar populares, nos idos de 1982, numa cidade do interior, um show de rock era sinônimo de drogas e violência (e o sexo?). Como cantava a Blitz em De Manhã: “Eu tinha doze anos, ainda me lembro do dia, eu escutava o que mamãe dizia. Ela dizia: tome cuidado, tenha juízo, esse mundo é o cão”. Assim, do alto dos meus doze anos, fui obrigado a passar aquele final de semana chuvoso na fazenda.
Nós (eu, meus irmãos, primos e amigos) sempre passávamos as férias lá, no maior esquema Sítio do Pica-Pau Amarelo. A gente jogava bola, nadava no rio, andava pelas matas, caçava cobra, morrendo de medo de achar, montava bicicleta pelas estradas enlameadas, passeava de canoa, versões antigas do rafting, trekking, mountain bike, etc. que se praticam hoje. Bom demais!, mas naquele fim de semana parecia mais um castigo...
Pra minha sorte (ou azar), a rádio local transmitiu o show e pude curtir (sofrer?) a energia da banda, que já nasceu no auge. Eu me lembro bem da primeira vez que os vi, no Fantástico. As gírias, as ironias, a temática adolescente, as referências pop (prestatenção na capa), mensagens subliminares, a conversa de mesa de bar, Fernanda Abreu deliciosa, e Evandro Mesquita, que com seu jeito Evandro de ser, perpetuado depois em dezenas de papéis na televisão e cinema, esbanjava carisma. Era tudo muito legal, muito diferente! Para quem cresceu ouvindo os discos dos pais (a MPB dos anos 70), não podia haver nada mais libertador, porque era a primeira vez que eu me identificava com uma banda/artista que era só meu.
Sei que a Blitz ficou careta, chata, as piadas foram perdendo a graça e eles acabaram pousando com Papai Noel num Maracanã lotado de crianças, criança que eu não queria mais ser. Mas passados quase trinta anos, talvez eu também esteja ficando careta, chato e minhas piadinhas ficando repetitivas. Sem problemas, o que importa é que minha namorada ainda ri delas e que a Blitz tem seu lugar reservado dentre as bandas que marcaram a minha vida. Eu não sabia, mas, como num rito de passagem ao contrário, naquele fim-de-semana eu comecei a virar adolescente.
As Aventuras da Blitz
1. Blitz cabeluda. Começa com uma vinheta, tipo Sgt. Pepper’s: “Espero que vocês gostem do disco, assistam o show, vejam o filme e leiam o livro”. Clássico!
2. Vai, vai Love. Fala da gata querendo ir pro Baixo Leblon e o cara argumentando: “Eu disse que não era bom. Acho Leblon-todo-dia, vicia. E você perde a classe, vadia. Desvaloriza o passe maninha”.
3. De manhã (aventuras submarinas). O cara acorda, preguiçoso, sol já alto, e passa o dia sonhando com musas de cinema, enquanto fica de bobeira. Antológica!
4. Vitima do amor. Um rock romântico, cheio de vocais legais.
5. O romance da universitária otária. De versos antológicos: “Era boa em línguas, mas não sabia beijar”; “Ser ou não ser, o que será que serei, o que será que eu vou ser”; “Eu não queria falar, mas agora vou dizer: todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”.
6. O beijo da mulher aranha. Nada especial, mas me amarro nela, acho que pela melodia, os vocaizinhos, sei lá.
7. Totalmente em prantos. “Todo vestido bonitinho e não tenho onde cair. E sem nenhum lugar pra ir”.
8. Eu só ando a mil. Começa com uma vinhetinha, também: “Vocês ouvirão um som que abalará toda uma geração tchanraaammm Um som que marcará toda uma época. Vocês verão Blitz no melhor papel de sua carreira. Blitz amando, sofrendo, chorando e tocando como jamais alguém ousou tocar em toda história do seu rádio, vitrola ou gravador”. Perfeito! Uma das minhas preferidas.
9. Mais uma de amor. Mega sucesso! “Essa é mais uma daquelas manjadas estórias de amor que já aconteceram comigo, com você e com todo mundo”. A do geme-gemiiiiiiiii, uuuuuuuuuu!!!
10. Volta ao mundo. Boba, mas era engraçada. “Eu e meu amigo Julio. Julio, o tal do Verne. Dando a volta ao mundo”.
11. Você não soube me amar. “Sabe essas noites que você sai caminhando sozinho, de madrugada, com a mão no bolso, na ruuuuuaaaa”. Precisa falar mais?
12. Ela quer morar comigo na lua. O disco ainda tinha isso, duas músicas censuradas por causa de palavrões. Era a glória! No vinil, as duas últimas músicas vinham arranhadas, pra gente não poder ouvir. E essa nem sei por quê. Talvez porque falava “bundando”.
13. Cruel, cruel, esquizofrenético blues. Essa é a outra censurada. Fala de brilho... nos olhos. E da empregada que pegou no peru do marido. No peru de Natal, lógico. Tá, tudo bem, lá pelas tantas rola um “puta que pariu”.
(LM)





