domingo, 29 de março de 2009

Barão vermelho, o primeiro (1982)


E pensar que a dupla Cazuza & Frejat (‘o mais próximo de Jaggers & Richards que o rock brasileiro jamais chegou. Feitos um para o outro’ conforme Arthur Dapieve) só começou a nascer devido a um fracasso do grupo, um show furado na feira da Providência, no qual a produção não providenciou amplificação...
De posse de uma fita demo, Ezequiel Neves (um Barão de fato) convenceu Guto Graça Mello de que tinham boa coisa em mãos. Difícil foi convencer o diretor da Som Livre, João Araújo, pai de Cazuza. Mas assim foi.
A gravação do primeiro álbum foi tumultuada, muita gente no estúdio, Cazuza muito doido tendo problemas no andamento. Mas salvou-se, e foi lançado em 27/09/1982, um dia depois de ‘As aventuras da Blitz’.
Mal gravado, mas com muitas qualidades. Aproximava-se do amadorismo no melhor sentido, músicos inexperientes e muita vontade.
Afinal, um disco que tem ‘Todo amor que houver nessa vida’ necessariamente é um clássico.

‘Ser ter pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia’

Depois Caetano tocou essa música no show de seu disco ‘Uns’, elogiando Cazuza e criticando as rádios que não tocavam o Barão. Havia aí um pedido de desculpas ao enciumado Cazuza que jogou uma mesa pro alto ao ver Caê se desmanchando pelo seu namorado...mas isso está parecendo Caras.
Mais tarde, com mais uma benção da MPB – Ney Matogrosso (ex namorado de Cazuza, olha a Caras aí de novo) gravou ‘Pro dia nascer feliz’, finalmente o Barão seria tocado nas rádios.

O Barão era formado por 4 colegas dos cursos de música da Escola Pro Arte: Guto Goffi, Maurício Barros, Frejat e Dé. Chamaram Leo Jaime pra cantar que, achando o grupo ‘esporrento’ demais, indicou Cazuza.
Os caras, como bem definiu Ricardo Alexandre, ‘conseguiam, instintivamente, encontrar um elo perdido entre o blues americano e as canções de dor-de-cotovelo de Dolores Duran, entre os gritos hippie de Janis Joplin e o resmungo tosco do punk; fazia a ponte entre os riffs herdados dos Rolling Stones e a esperteza das esquinas cariocas. E as letras uniam a marginalidade cosmopolita de Lou reed à boemia de Lupicínio Rodrigues’.
Finalmente A Banda de Rock brasileira. Ou conforme o citado Ezequiel Neves ‘rock sem frescura, sem nada de bem-comportado, garagem mesmo’.

Mas vamos às músicas:
‘Posando de star’ inicia bem, com uma bateria e o vocal característico do Cazuza, depois vira um rock básico e animado.
Aí o álbum cresce, ‘Down em mim’ é uma belíssima balada, pena que pouco executada. Letra típica (‘da privada eu vou dar com a minha cara de panaca pintada no espelho e me lembrar sorrindo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados’) e bonito solo blues de guitarra limpa do Roberto Frejat!
‘Conto de fadas’ mantém o pique, e ao contrário da inspiração citada de fossa, mostra que a solução dessa geração era diferente. Se não deu certo, segue a vida.
‘Billy Negão’ estava na demo original, legal, animada, bem-humorada.
‘Certo dia na cidade’ começa instrumental, depois fica meio igual, mas dá uma mudada e vem mais um solo inspirado.
‘Rock’n’geral’ segue no pique, com solinho de teclado e tudo, uma declaração de princípios.
‘Ponto fraco’ é uma das melhores do disco, arrastada e malandra, uma letra que diz tudo (‘todo mundo tem um ponto fraco, você é o meu, por que não?’). Depois eles regravaram no ‘Ao vivo’, mais pesadona.
‘Por aí’ é mais uma declaração de princípios doidona, ouça e descubra de novo...
‘Todo amor que houver nessa vida’ dispensa comentários, poesia e rock’n’roll ao extremo.
E aí fecha com chave de ouro: ‘Bilhetinho azul’, tchu tchu tchuru.
(Dão)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Tim Maia, Descobridor dos sete mares, 1983



Depois da inclusão de diversos intérpretes e músicos entre os 1001 discos nacionais, torna-se questão de justiça citarmos algum disco (qualquer que seja) do nosso “síndico” Tim Maia. Uma das figuras mais célebres da música brasileira.

A dificuldade inicial é a escolha de um disco para citar aqui nesse blog. Um que pudesse representar dignamente a sua obra. Uma opção mais fácil seria citar algum Racional (dois volumes lançados, além de um terceiro que não chegou a ser lançado), muito em voga hoje em dia. Entretanto, seria injusto com o próprio Tim Maia, já que ele mesmo renegou posteriormente esses trabalhos feitos em uma fase careta, com letras ligadas à estranha seita que ele aderiu durante um curto período. Esses discos, embora tenham o seu valor, não servem ao propósito de retratar a carreira e a personalidade do Tim Maia.

Para mim, é importante citar um disco em que suas características marcantes estivessem mais que presente, ou seja: a polêmica, o vozeirão, o suingue, o romantismo e os metais da banda Vitória Régia, que sempre o acompanhava. Diante disso, optei por Tim Maia – Descobridor dos Sete Mares, de 1983. Trata-se de um disco com a cara dele, com seus dois estilos marcantes (funk e românticas), cada um ocupando um dos lados do vinil.

Começa com a música título do disco, um de seus maiores sucessos, que estourou nas rádios e tornou-se uma das músicas marcantes da década de 1980. “Pois bem cheguei, Eu quero ficar bem a vontade na verdade eu sou assim”.

Em seguida, Tim Maia arrebenta com “Terapêutica do Grito”. Uma música que tem a sua cara e a sua energia. Além disso, me faz recordar festas no tempo de Unicamp, já que era um dos sucessos do Álculos Escuros, um grupo formado por alguns amigos naquela época. Recomendada para acabar com qualquer estresse. Escutem.

O soul e funk que predominam nas primeiras músicas mantém-se em "Pecado Capital". Embora menos conhecida, é uma “loucura legal muito perto do prazer de ser”. Esse lado do disco termina com outras duas que também têm nos metais o seu forte, embora menos famosas: “mal de amor” e “3 em 1”.

No lado B do vinil, momento para rosto colado e música lenta. Aqui os metais e o funk cedem espaço ao romantismo, a começar com “Neves e Parques”: "comprei uma passagem no primeiro avião..voltei!".

Depois de outra romântica ("Rio Mon Amour"), Tim Maia vem com “Me dê motivos”, composição da dupla Sullivan e Massadas que marcou sua carreira. Trata-se de uma balada romântica clássica, que começa com ele narrando uma história com alta dose de dor de cotovelo. Até mesmo quem tem preconceito com música romântica (eu mesmo tenho um pouco), se emociona ao ouvir essa interpretação. “Me dê motivos... pra ir embora...estou vendo a hora...de te perder...”. Definitivamente, é nessas horas que um homem chora.

O disco termina com outras duas românticas de menor destaque: “Olá (emoções)” e “Essa dor me apanha”.

Enfim, trata-se de uma das obras do Tim Maia que sintetiza melhor o que ele foi e o que representou para a música brasileira. Figura ímpar no cenário musical que deixou muitas saudades. Felizmente sobraram seus registros musicais de 32 discos em 28 anos de carreira. Com a firmeza e os lampejos do farol. [Paul]

quarta-feira, 18 de março de 2009

REI!!!!!!!!!!!!!

Tem esse disco aí que é uma jóia, mora?

Até conhece-lo, e sendo fã do homem, vivia crente que ninguém cantava as musicas dele melhor que o próprio. Esse disco me fez mudar de idéia.

Como hoje todo mundo diz que idéia é projeto: esse foi um projeto que deu certo. Pegaram um monte de cantor pop da época e distribuiu-se algumas músicas do Roberto entre eles.

Quer coisa mais simples? Quem não gostaria de gravar uma musica do Rei? E que apelo melhor que colocar os pop’s da época? E o bacana é que quase todas as faixas deram certo!

É claro que tem aquelas sofríveis e que só nos dão o trabalho de ter que programar o cd para não toca-las. São: É Proibido Fumar - Skank, Por Isso Corro Demais - Marina Lima e Eu Sou Terrível - João Penca e os Miquinhos Amestrados. Mas, no meio de treze músicas o prejú não é grande.

Disco altamente recomendável para constar de qualquer “kit praia versão básica” de um solteiro da época: Rocambole Beach (toalha grande com recheio de um calção e duas cuecas) + Saco Americanas Summer (um Bukoswki qualquer, Dorflex, descongestionante nasal e o disco). Era sucesso garantido!

E tem até uma história ou mito interessante. No encarte interno tem um desenho do Angeli com todos as bandas caricaturadas...e um espaço em branco não ocupado por algum cantor qualquer. Dizem que era para ser o Lulu Santos na musica “quero que vá tudo pro inferno”.

Acontece que o Roberto Carlos não permitia mais ninguém falar coisas como inferno. O tal do TOC dele, sabem?. Assim não permitiu a faixa. Uma pena! Naquela época o seu ridículo tinha uma desculpa séria, depois disso ele só foi e é patético puro e simples mesmo com o seu quepizinho de capitão de navio “C” por aí.

Desabafo desnecessário de um fã à parte, o disco merece estar por aqui.

(ZEBA)

sábado, 14 de março de 2009

Chico Buarque - Construção (1971)



Acho que a demora em aparecer a resenha de “Construção” nesse blog decorre da imensa responsabilidade dessa tarefa. Trata-se de um clássico absoluto, obra obrigatória em qualquer lista que se tem notícia, inclusive um dos poucos nacionais citados na publicação “1001 Discos para Ouvir antes Morrer”, que nos inspirou. De minha parte, esperei surgir uma motivação extra que pudesse servir de inspiração, algo que ocorreu nessa semana.

Entretanto, ciente de que não há inspiração que dê conta da grandiosidade dessa tarefa, vou logo avisando que não tenho pretensão de escrever algo original sobre essa obra-prima mas simplesmente incluí-la aqui.

Lançado em 1971, com músicas composta em seu período de auto-exílio na França, esse disco marcou a entrada do Chico Buarque em uma fase mais contestatória em relação à ditadura militar, a começar com “Deus Lhe Pague”, faixa que abre o disco com um ritmo alucinante, influência dos arranjos de Rogério Duprat: “Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir, Por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe Pague”.

Em seguida, “Cotidiano” marcou um dos maiores sucessos de toda a carreira do Chico
“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com boca de hortelã”

“Desalento” é a das quatro compostas em parceria com Vinícius de Moraes, não por coincidência, uma das mais românticas desse disco: “corre e diz a ela que eu entrego os pontos”.

A quarta - faixa-título do disco - é um caso à parte. Estruturada em apenas dois acordes, com 41 versos dodecassílabos, terminados todos com proparoxítonas, essa canção narra a vida de um pedreiro sem perspectivas, destinado à morrer na construção civil. Elaborada em duas partes, uma antes e outra depois da morte do protagonista, Chico transforma o todo o sentido com uma simples alternância das últimas palavras de cada verso. Outro detalhe interessante refere-se ao aumento gradual da sonoridade, com entrada de instrumentos ao longo dos versos até a conclusão sinfônica que emenda com “Deus lhe Pague”.

Ninguém vai me acorrentar Enquanto eu puder cantar....Enquanto eu puder sorrir. Em “Cordão”, Chico Buarque lança mão mais uma vez de metáforas inteligentíssimas para criticar o regime e driblar a censura que tanto o perseguia naquela época.

Depois de “Olha Maria”, música em que Tom Jobim participa com o toque característico de seu piano, Chico vem com “Samba de Orly”, outra que se tornou um clássico do período de exílio (Orly é o aeroporto de Paris): “vê como é que anda aquela vida-à-toa e se puder me manda uma notícia boa”.

Na seqüência, Valsinha (outra em parceria com Vinícius) conta uma bela e feliz história de um encontro. Uma canção de amor, para amar, que acabou tornando-se mais um grande sucesso desse disco.

“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar...”. Se em outras canções, Chico Buarque conseguiu driblar a censura, em “Minha História”, não teve a mesma sorte. Trata-se de uma versão da canção italiana Gesubambino, que a censura não deixou que tivesse o nome de Menino Jesus.

Dorme minha pequena não vale a pena despertar... Para fechar o disco, Chico nos surpreende com uma linda canção de ninar, daquelas que dá vontade de cantarolar quando se vê uma criança (ou uma mulher amada) dormindo como um anjo.

Enfim, o disco é tão bom e já foi tão descrito que dificilmente eu conseguiria ser original. Mas estava mais que na hora de incluí-lo nessa lista.

Coincidência ou não, o período em que Chico Buarque mais tinha problemas com a censura foi quando compôs, na minha modesta opinião, suas músicas mais inspiradas. Que esse disco sirva de inspiração para a vida de todos! [Paul]

sábado, 31 de janeiro de 2009

Amor e Caos - Ana Cañas (2008)


É a primeira vez que acontece de um livro me lembrar um som. Lendo a “História do Olho” de Georges Bataille, muitas vezes a música de “AMOR E CAOS” da Ana Cañas me vinha à cabeça. O curto-circuito deve ter um motivo: acho o som desse cd estridente, um grito, quase uma necessidade. O filtro é poroso, passando quase todas as emoções. Ana Cañas brinca, assim como Simone e seu comparsa, personagens do livro.

Georges Bataille entra no mundo da literatura por sugestão de seu psicanalista: ele, paciente, era perturbado por suas altas fantasias eróticas e, sem saber o que fazer com elas, seu analista sugeriu que as colocasse no papel. Através da escrita, Bataille derivaria suas fantasias para o texto, fator decisivo para o processo de cura. Um livraço para quem gosta de literatura erótica.
Bem, a Ana Cañas parece fazer o mesmo. Sua música é um rasgo no marasmo de suas emoções e, por consequência, entra como uma flecha nas nossas. E isso é o que mais me atrai no seu som meio “jazzy” – essa capacidade que raspa o infantil, ao fazer um som que escuta e traduz seus próprios desejos.

“Mandinga Não” abre com uns sons deliciosos, já te preparando pro que vem! É uma música teimosa, um jogo: “Você diz sim/Mas eu digo não/Você, talvez/ Mas eu volto a dizer não”. É aquela dúvida que nos ronda, eu quero, eu não quero? Ah! Azar ou sorte. Cabo de guerra.
A Ana tem uma voz linda, usa e abusa, está confortável inventando sons. Parece que não tem medo, deixa tudo rolar. É envolvente com sua teia de arranjos e cordas.

“A Ana” é uma música que poderia ser “A Andréa”, “A Duda”, “A Gabi”, “O João”. Tantos versos simples, despretensiosos e verdadeiros. A primeira vez que ouvi me senti completamente identificada com “A Ana é azeda/ Mas é doce quando é doce/ A Ana é azeda/ Mas muito doce quando é doce”.
Ana Cañas abre fogo para o jogo de sedução, mostra o seu verso e reverso, tudo muito bem acompanhado por um violão e uma guitarra, que aparecem discretamente e docemente. Ana Cañas é dona aqui de uma música que poderia ser uma crônica, um rascunho desses que a gente faz na última folha do caderno espiral, sabe? E aí é que está sua graça.

“Vacina na Veia” é o máximo! O som é bonito, estoura como bolhas. A voz é transparente, quase líquida. Um balanço eletrônico na medida.
É uma contra-música: “Se você olhar pra trás e sentir uma saudade/ Não espere, não vacile/ Vá em frente e volte atrás”. É um som certeiro, rápido, que pede ação.
“Aqui não tem otária/ Só a mulher com a guarda em punho”. De novo o som me lembra o livro... A mulher numa posição “esperta”. E a história é assim: “The beauty of the sun/ By and by a cloud/ Takes all away”.

“Para todas as Coisas” é uma música de amor. De amor porque claramente é uma homenagem a “Diariamente” de Marisa Monte, ao Guimarães Rosa, à Clarice Lispector. Eu acho bem legal essas músicas que são feitas por associações livres. Acho a idéia legal, são geralmente letras cruas que trazem a fantasia do artista de querer sair da própria casca de artista.
A música seguinte “?” traz mais uma vez a dúvida. Linda! Uma mistura de dúvidas tão delicadas, tão humanas, tão infantis e ao mesmo tempo repleta de feminilidade.
“Como faz para musicar?/ Como faz pra não machucar?/Como faz para se libertar?”.
A melodia é um arraso... para cada pergunta, para cada como faz, tem um som de um baixo, que funciona como um companheiro, como o som daquela saliva difícil de engolir.
O movimento é super vivo: inicia discreto, quase sombrio e cresce, se ilumina, sugerindo vida. Tudo isso cantado por uma voz suave fazendo na voz dela, a tua.

“Cadê Você” chega rapidinha, me lembrando a Céu. Acho que essa é a minha favorita! É um som que se fosse uma imagem seria um quebra-cabeça, porque vai e volta, no movimento de tentativa e erro. Massa.
A banda tá forte, com um vigor, uma tensão especial. Ana Cañas é clara, pausada, segura a onda bonito e faz um som viajante. A música parece uma fuga, com gestos ágeis e que num ponto parece encontrar seu porto seguro. Que delícia de ouvir...
“Por isso me traga uma flor/ E faça o favor/ De não me irritar/ E conte uma bela história/ Se for confiante, vou acreditar”.
Se eu fosse você, ia correndo ouvir essa música!

“Devolve, moço/ Devolve, moço/ O meu coração pro bolso”. Foi o Dão que me contou da Ana Cañas, falou pra eu ouvir a música dessa paulista de voz bonita. “Devolve Moço” tem uma batida que é uma mistura jazz, dengo e tecno. E vem com o mesmo tom invocado, imperativo, provocador. Mas o jogo taí, o tom é provocador, mas o tema é sedutor. Essa é a novidade desse cd – Ana Cañas está se emancipando e achando o máximo esse processo! Ela vai e volta, brinca e fica brava, mostra as unhas e lambe. Testa as emoções e os limites. Sem fronteiras.
“Super Mulher” com sua anticapa voadora voa na mesma direção, mas com a alegria de trazer a chuva africana de Naná Vasconcelos . “Ela tem uma pantera/ Que arrasta na coleira/ Ela gosta dessa fera/ Porque é grande feiticeira/ E seduz os corações”. “Super Mulher” tem um som vibrante, ela tem aquela transa.

“They’ll stone you when you’re playing your guitar
Yes, but I would not feel so all alone
Everybody must get stoned”
(Rainy Day Women – Bob Dylan)

E Ana Cañas encerra seu disco na alma de Bob Dylan , pra gente nunca esquecer desse passado pulsante que insiste em trançar por nossas pernas.

[ANDRÉA]

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pérola Negra - Luiz Melodia (1973)


O caminho para alguns discos está longe de ser óbvio. Enquanto que na maioria dos casos, você ouviu alguma coisa no rádio ou na casa de alguém ou conhece o artista (e confia nele) e aí você acaba comprando o disco, às vezes as coisas acontecem de forma diversa.

No final dos 80 eu entrei na universidade, achando que o mundo estava errado e que eu iria ajudar a salva-lo de alguma forma. Claro que eu não fazia idéia de “como”, mas achava que com o tempo descobriria. É claro que, conhecendo a discografia completa do Led Zeppelin, eu só poderia estar certo e, logo logo convenceria todo mundo disso. Mas quando nós temos 18, 20 anos, precisamos de uma pausa nesta árdua tarefa de salvar o mundo e nos dedicar um pouco ao sexo oposto. Claro que você não percebe isso na hora, mas rapidamente as prioridades se invertem e você acaba deixando a missão de salvar o mundo para os intervalos da missão de conquistar as chicas. E os intervalos vão se tornando cada vez mais raros e curtos... Enfim, eu achava que, tanto pra salvar o mundo, quanto quando estamos “amando” (ou a mando), Led Zeppelin me indicaria o caminho.

Tsc, tsc, tsc... É duro, é um golpe quase mortal e irrecuperável quando a tua primeira estratégia de ataque vai por água abaixo: Led Zeppelin?!?!... Você nunca ouviu Luiz Melodia?

Louis the fucking who? Eu deveria ter feito esta cara, esta frase, mas o golpe foi muito duro, as linhas inimigas já tinham minado meu ponto fraco. Quem mandou se meter a estudar ciências humanas? Viola recolhida, eu não tinha mais nada a declarar... Muito tempo depois fui me deparar com o estranho disco que trazia, na capa, o Melodia deitado numa banheira segurando o globo terrestre emoldurado por uma coleção de feijão preto cru.

Para apreciar um disco como este o sujeito não pode enxergar o mundo sob o prisma da discografia do Led, então levou muito tempo até eu chegar aqui. O disco é perfeito pra quem descobriu que não vai ajudar a salvar o mundo ou que Whole Lotta Love não é receita nem trilha pra conquistar qualquer garota. Pérolas são raras (e caras), e as negras então são o ó do borogodó. Este disco de ’73 é pérola negra em todos os sentidos. As letras são herméticas e a música é difícil de encaixar em categorias. Tem choro (a belíssima Estácio, eu e você que abre o disco), tem rock (Pra Aquietar, onde o título faz um jogo de palavras com a ilha de Paquetá, rock suingado e temperado por um lick de guitarra fuzz que não se ouvia muito por aqui), blues (Vale Quanto Pesa, uma baita música triste que não é blues no sentido clássico e termina orquestral, quase em festa), samba (Estácio, Holly Estácio, canção com o andamento mais lento onde aparece mais uma vez um de seus temas preferidos, a escola de samba do Estácio de Sá, música que ficaria perfeita na voz de Bethânia) e tem coisas que beiram o jazz (Objeto H e Absolutamente Morte, uma das minhas preferidas, só violão e a voz marcante do Melodia e poesia pra lá de difícil de entender... E dá pra entender porque que o “infalível” Led falhou naquele dia...). A música que dá nome ao disco é mais um blues a la Melodia e ficou célebre na voz de Gal Costa no famoso show A Todo Vapor (que viro disco e espero ver resenhado em breve, por aqui). O destaque fica mais uma vez pro arranjo que contrapõe voz e um naipe de sopros, e só. Ah, e o refrão que é das poucas frases que se entende no disco, mas que é de uma felicidade única: baby te amo, nem sei se te amo?!...

O disco segue com mais um blues de arranjo mínimo em Magrelinha, pra depois arrebentar com banda completa, metais e tudo que se tem direito na deliciosamente suingada Farrapo Humano, antes de voltar à jazzística Objeto H. E finaliza em Forró de Janeiro, que nem precisa dizer que tipo de música é. O que confere unidade ao disco é a voz única de Melodia, certa melancolia que às vezes é discreta e às vezes é explícita, quase suicida e, é claro, a ótima seleção de canções. Luiz Melodia foi durante muito tempo artista de década, pois lançava um disco a cada 10 anos. Isso antes de ser redescoberto nos anos 2000 e hoje parece que sai um disco ao vivo dele como se fosse um espirro.

Aquela noite terminou solitária pra mim, e eu abusei da bolacha ouvindo minha trilha oficial de fossa, Since I’ve been Loving You. O saldo positivo foi que, desde então o nome do Luiz Melodia não me saiu da cabeça, e hoje eu vejo que valeu a pena. [M]

Saúde - Rita Lee (1981)

O que fazer depois de 2 discos de sucesso em dois anos seguidos? A resposta parece óbvia: um terceiro disco de sucesso no terceiro ano. É assim que funciona a indústria fonográfica, ainda que o humor e criatividade dos artistas contratados nem sempre consigam acompanhar. Mas, para esta indústria fonográfica, pouco importa, o que vale mesmo é o saldo de vendas. Vamos examinar agora o outro lado da moeda, o lado do artista. Os dois discos de sucesso de Rita Lee, em 1979 e 1980 (resenhados aqui) tinham razão de ser: eram grandes coleções de canções inspiradas com arranjos criativos e modernos (pra época) e uma produção impecável. A somlivre não poderia deixar passar batido e em 1981 deveria vir outro campeão de vendas.

Saúde, de 1981, consegue realizar bem o lado da gravadora, mas deixa um pouco a desejar do ponto de vista das canções, mas ainda assim, vale a audição. Aqui, Rita está um pouco mais cansada (ainda que o disco apresente umas 3 ou 4 canções muito boas) e a repetição das mesmas fórmulas nos arranjos e na produção dos discos anteriores, faça este disco soar como uma “continuação” dos álbuns anteriores.

Rita clama quero mais: saúde! E esse grito pode até ser interpretado dentro deste contexto que contrapõe artista e gravadora, ainda que a intenção da letra seja claramente outra:
Me cansei de escutar opiniões / de como ter um mundo melhor ... Mas ninguém sai de cima / nesse chove não molha / eu sei que agora eu vou é cuidar mais de mim!...

Por sinal, saúde, a música que abre e dá o título ao disco, é o pop-rock perfeito que Rita e Roberto conseguem repetir aqui, com certa cara de novidade. Naquele tempo a gente pousava delicadamente a agulha sobre a bolacha preta de vinil e o “shhhhhhhh” chiado baixinho (mas perceptível) do diamante percorrendo os sulcos eram como uma introdução sonora aos discos. Então vem a introdução de Saúde (a música), acho que não consigo lembrar de outra introdução de música tão bonita quanto esta: a batida levemente disco acompanhada de uma sutil guitarra e um lick repetitivo de piano elétrico soam como uma preparação para a música que vai começar. De repente uma frase de guitarra vem como que apresentar Rita que entra em seguida, cantando firme: me cansei! De lero-lero! Dá licença mas eu vou sair do sério...

E a música mistura a batida disco com um guitarra stoniana, seguindo a sugestão que os próprios já haviam dado em Miss You (1978). Saúde tem um andamento que fica entre o lento e o acelerado e é uma delícia de ouvir. Fiquei anos sem ouvi-la, e acho que hoje gosto mais dela do que da primeira vez que ouvi.


Outro momento memorável é Banho de Espuma, que alia à letra sutilmente sacana de Rita Lee, um arranjo cheio de metais (assinado por Lincoln Olivetti, que também tocou o piano em Saúde), mudanças de andamento e uma bateria eletrônica (não sei se é, ou é tocada de maneira a parecer assim...) que era marca registrada nos discos típicos dos anos 80 “hooked on classics”, “ hooked on swing”... Além destas destacam-se Mutante, que apesar do nome não é referência aos Mutantes, mas uma linda balada romântica, cheia de sons espaciais de sintetizadores e uma percussão meio puxada pro latino, e mesmo assim a mistura fica de muito bom gosto. Atlântida também é outro bom momento. Aqui também vemos Rita e Roberto experimentando uma sonoridade nova, que não aparecia nos disco anteriores. A bateria “eletrônica” citada antes aqui vem mais forte, mais marcada (primórdios do bate-estaca), já que o arranjo é, sonoramente, mais limpo, mais econômico. Destacam-se Rita Lee que canta sussurrando, o acompanhamento rítmico de piano de Lincoln e a guitarra inspiradíssima que vou creditar a Roberto (apesar de que o encarte do disco não deixa claro quem tocou). Tititi é o momento rock’n’roll do disco, e foi até trilha de novela numa versão regravada por Virginie e sua banda Metrô. Boa canção, mas não chega nem aos pés de Ôrra Meu (´80) ou Papai me Empresta o Carro (´79), dos discos anteriores. Tatibitati é prova cabal de que Rita e Roberto estavam se cansando de todo esse troço (Rita Lee tinha virado mega star com direito até a especial de fim de ano na Globo). Mother Nature é a versão em inglês para Mamãe Natureza (´74, ver a resenha de Atrás do Porto...) e nada acrescenta a versão original, enquanto que Favorita foi cedida pra Roberto de Carvalho cantar, experiência que não se repetiria mais, graças a deus. Duas canções com cara de “estamos enchendo lingüiça pra fechar o disco e lançar antes do natal”, como de fato aconteceu e eu, o ganhei no natal de 1981. [M]