sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Maria Bethania - Pirata (2006)

Entre os quatro baianos tropicalistas mais próximos (isto é, estou excluindo o Tom Zé), Maria Bethânia é sem dúvida a artista mais diferente. Talvez por isso até, seja menos popular que os outros três, e seja tão difícil encontrar um fã ardoroso seu. Eu mesmo, só conheci um. Chamava-se Alexandre e morava na rua 9 nos idos de 1987-88, por aí.


Com direção musical do violonista Jaime Alem, que se encarrega das cordas no disco, Pirata é um disco dedicado às águas, do mar e dos rios. Como de costume, Bethânia intercala poemas e/ou trechos de poemas com canções que evocam estes temas. História pra Sinhozinho de Dorival Caymmi é a primeira canção do disco, seguida por O Tempo e o Rio de Edu Lobo e Capinam. Nas duas a ênfase é na voz e interpretação de Bethânia, com o arranjo mínimo, acompanhada só ao violão. Todo cais é uma saudade de pedra declama a cantora antes de cantar os Argonautas do mano Caetano. Apesar de regravação, a canção é obrigatória devido à temática do disco: Navegar é preciso / Viver não é preciso... Se “preciso“ aqui vem do verbo precisar indicando necessidade ou do substantivo precisão que denotada certeza, talvez já tenha sido até esclarecido pelo autor, mas a dúvida torna a canção ainda mais bela. O arranjo com violão, baixo acústico e bandolim dá um belíssimo ar de fado, de Portugal...


Bethânia declama Perto de muita água tudo é feliz antes de Santo Amaro, samba em homenagem à terra natal. Aqui fica claro o cuidado na produção do disco, essas quatro músicas em seqüência dão um crescente de ritmo, de pique no disco. Depois vem a minha favorita, De Papo pro Ar. Clássico da música caipira (caipira mesmo!) acompanhada na viola por Jaime Alem, conta a vida boa do caipira que vive do rio da caridade alheia e não se incomoda com nada. Ou melhor, quase nada: Quando no terreiro faz noite de luar / E vem a saudade me atormentar / Eu me vingo dela, tocando viola de papo pro ar...


Fui quase injusto acima, pois Sereia de Água Doce é outra das músicas lindíssimas deste disco. Samba de autoria de Vanessa da Mata (Ei! Alguém tem que resenhar o disco Vermelho!?), mostra a sintonia de Bethânia com a novíssima geração de compositores, fazendo uma sutil e muito bem dosada mescla com canções da velha guarda.


Eu que Não Sei Quase Nada do Mar de uma levada meio espanhola também é da nova safra. Passando (bem) longe da minha lista de compositores favoritos, Ana Carolina e Jorge Vercilo assinam esta belíssima canção que parece sob medida para a sensual voz de Bethânia, como exige a letra carregada de erotismo. O arranjo traz um dos raros momentos orquestrais do disco. Segue A Saudade Mata a Gente, outro clássico de João de Barro e Antônio Almeida, desacelerando um pouco o bpm depois das duas anteriores, mais uma vez com arranjo bem suave centrado em violão em voz. De Antônio Almeida, Serenô segue na toada da canção anterior, ma um pouco mais bonita que aquela:

Minha vida, ai, ai ,a / È um barquinho, ai, ai, ai / Navegando sem vela, sem luz

Quem me dera, ai, ai, ai, quem me dera / O farol dos teus olhos azuis...


Segue o samba com batida de candomblé Memória das Águas e depois com Águas de Cachoeira de Jovelina Pérola Negra, samba de terreiro com cavaquinho e acompanhamento de palmas. Jaime Alem agrega várias Cantigas Populares, na faixa que leva o mesmo nome. Ainda que misture melodias distintas nos versos tirados de diferentes cantigas, a música apresenta uma unidade surpreendente. Bethânia declama Antonio Vieira e termina com A Coroa: voz solo, acompanhada no finalzinho por tambores e coral, tudo agregado com se fosse uma só canção.


Onde Eu Nasci Passa Um Rio é outra da safra antiga de Caetano e essa aqui é a interpretação definitiva de uma canção pouco conhecida da obra do baiano. O arranjo, mais uma vez se destaca, só violão, voz e cello, conferindo a esta bela canção o tratamento que ela merece. O verso o rio da minha terra deságua em meu coração é de arrepiar... Francisco, Francisco é uma bela canção em homenagem ao velho Chico, e o disco termina de maneira bastante pessoal com Meu Divino São José.


O encarte é outro destaque, com figuras feitas de bordados...

Tudo isso faz deste, o melhor disco dos quatro baianos desde O Estrangeiro (resenhado aqui) ou até mesmo, desde Velô (que mais dia, menos dia, vai acabar pintando também). Como canta em Memória das Águas:

Amores são águas doces

Paixões são águas salgadas

Queria que a vida fosse essas águas misturadas,


neste Pirata, Bethânia consegue misturar essas águas. [M]


Tem Mas Acabou - Pato Fu (1996)

O que é o Pato Fu? Qual é o som da banda? Que tipo de música eles tocam? Bem, se você acha que vai encontrar a resposta a essas perguntas aqui, ou, até mesmo, se você acha que estas perguntas são importantes, então pode pular pra próxima resenha.


Pato Fu é daquelas bandas que não se encaixam em lugar nenhum, e que não tem a menor preocupação com este encaixe e o som deles reflete muito bem isso. Ora pesado, acelerado e distorcido, ora eletrônico e cheio de samples, ora lento e suave... Tudo muito bem-humorado, já chegou a ser considerado pela própria Rita Lee como os legítimos sucessores dos Mutantes, e talvez este seja mesmo o parente mais próximo.


Um bom exemplo da mistureba total é a quarta faixa deste Tem, mas Acabou, de 1996. Capetão é pesada na guitarra, cheia de colagens musicais e tem uma participação (nem poderia deixar de ser) muito bem-humorada de André Abujamra. Voltando ao começo, o disco abre com Nós Mes, que é o auto-retrato da banda. É ouvir e continuar sem as respostas às suas perguntas, se você insistiu em ler até aqui. Em seguida, Água, traz o lamento de que mora no poeirão esperando a chuva e quando ela vem, o poeirão vira lama...


Pinga é o hit do grupo. Pelo menos aqui em casa. As crianças adoram e virou a trilha oficial do nosso carro em viagens mais longas. É daquelas músicas que as crianças pedem pra repetir e cantar junto o refrão homenagem à seleção de 70:


Se eu fosse Pelé, tomava café

Se eu fosse Tostão, tirava o calção

Se eu Fosse Dario, pulava no rio

Se eu fosse Garrincha, não pulava não.


A quinta faixa é O Peso das Coisas, que, apesar do nome traz a suavidade da Fernandinha Takai nos vocais (numa época em que eles ainda dividiam os vocais entre ela e John), numa balada pop no estilo ‘essa é pra tocar no rádio’ da banda. Segue Tchau Tô Indo Já Fui, com John cantando, o que nos dá a certeza de que a decisão de deixar todos os vocais a cargo de Fernanda foi uma decisão muito acertada (ainda que tenha demorado muito a acontecer, eles ainda gravaram uns quatro discos com John cantando...). Mas a música é boa, não destoa do resto do álbum, de forma alguma. Céreblo é canção protesto a la Pato Fu, o que significa: não espera qualquer semelhança com o Chico Buarque. Assim como Nuvens é bossa nova a la Pato Fu (precisa repetir a advertência?), com Fernanda cantando (talvez tenha vindo daí a idéia do Nelson Motta de gravar um disco homenageando a Nara Leão, ver postagens anteriores).


Little Mother of the Sky apesar do nome é cantada em português por John e tem um lickzinho muito bem executado pelo mesmo. Porque Te Vas é outro ponto alto do disco. Cover da música que fez sucesso num filme espanhol da década de setenta (Marcelino Pan e Vino? Não me lembro...) aqui recebe uma interpretação e arranjo que a transformam numa música autoral. A levada ligeira com base no trio clássico de guitarra (inspiradíssima aqui), baixo e bateria recebe o acompanhamento de um naipe de metais bem latino com Fernanda detonando na voz. Perfeita!


O disco segue legal, mas depois dessa música é inevitável perder um pouco o pique. 1 de Vocês, Lá se Vai, Dentro/Fora e Feliz Ano Novo fecham o disco com bons arranjos, boas passagens de guitarra, Fernanda cantando (que é sempre uma delícia...) mas nenhuma canção excepcional como Pinga, Água ou Porque te Vas. Não foi seu primeiro disco, mas este apresentou definitivamente a banda e sua graciosa vocalista. [M]

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Gal Costa - Coisa mais linda que existe!





Gravado em 1968 para ser lançado em 1969 durante um dos períodos mais pesados da ditadura militar, o primeiro disco solo da Gal Costa pode estar longe de ser um dos mais marcantes da sua carreira, mas para mim trata-se sim de um registro histórico que merece constar dessa lista, ainda que por motivos pessoais.

Contrastando com o período tenso politicamente, que resultou no exílio dos colegas tropicalistas Caetano e Gil, Gal acaba optando por um disco que ainda cultivava suas raízes tropicalistas, a começar pela direção do maestro Rogério Duprat e temáticas ao mesmo tempo leves e provocativas.

Começando com “Não Identificado”, belíssima canção de Caetano Veloso que também gravou no disco próprio quase que paralelamente (já citado nesse blog), Gal já anuncia sua opção por “fazer uma canção de amor... para gravar num disco voador”. Confesso minha inveja pessoal, pois quisera eu ter a capacidade de compor uma canção de amor para alguém especial.

Em seguida, Gal passeia pelo xaxado em “Sebastiana”, para interpretar em seguida outra canção de Caetano, também gravada por ele no disco contemporâneo: “Lost in Paradise”.

Depois usa as metáforas típicas do tropicalista Tom Zé ao interpretar a aparentemente singela “Namorinho no Portão”, sem abrir mão da crítica velada ao momento político que o país atravessava:
Conheço esta onda...Vou saltar da canoa...Já vi, já sei que a maré não é boa....É filme censurado

Chega de Saudade! Em “Saudosismo”, interpreta novamente Caetano Veloso em uma bela homenagem à Bossa Nova.
Eu, você, nós dois
Já temos um passado, meu amor
Um violão guardado...Aquela flor
E outras mumunhas mais

As próximas marcam definitivamente sua opção pelo tom ao mesmo tempo romântico e provocativo, com a escolha de duas canções da dupla Roberto e Erasmo (que talvez admirados pela interpretação dela, no mesmo ano comporiam “Meu nome é Gal”, canção que marcou a sua carreira em seguida).

Primeiro com “Se você pensa”, uma espécie de recado à pessoa amada que se mantém indecisa:
É melhor pensar depressa e escolher antes do fim
Você não sabe e nunca procurou saber
Que quando a gente ama pra valer
O bom é ser feliz e mais nada, nada.
Recado dado, manteve a linha em “Vou recomeçar”
Não sei por que razão eu sofro tanto em minha vida
A minha alegria é uma coisa tão fingida
A felicidade já é coisa esquecida
Mas agora vou recomeçar
Não vou ser mais triste
Vou mudar daqui pra frente

O importante é a vida aproveitar... e recomeçar.

Atenção menina! ...É Preciso estar atento e forte!
Em “Divino e Maravilho”, de Caetano e Gil, a mensagem está claramente contextualizada. Essa canção inicia a seqüência de três que tornaram-se clássicas dela.

“Que Pena”..ela já não gosta mais de mim. Na canção de Jorge Ben, Gal faz parceria belíssima com Caetano para estabelecer um belo diálogo. O importante, novamente, é a volta por cima em alto estilo ao sair de uma relação:
Mas eu não vou chorar
Eu vou é cantar
Pois a vida continua

Mantendo a dupla com Caetano, segue com “Baby”, clássico incluído nesse disco após o sucesso no disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, mas com um arranjo levemente diferente, em que sobressai um som orquestral. Majestoso!
Você precisa saber da piscina
Da margarina
Da Carolina
Da gasolina
Você precisa saber de mim


Em “Coisa mais linda que existe”, de Gil e Torquato Neto, Gal mantém o astral leve e carinhoso na dose certa.

Essa alegria, o perigo
Eu quero tudo contigo
Com você perto de mim (...)
Coisa mais linda que existe... é ter você perto de mim

Considero essa passagem uma pérola: simples, que emociona.

O disco termina com “Deus é Amor” com a batida típica de Jorge Ben, cujo primeiro refrão me
faz recordar passagens recentes na minha vida:
Todo mundo vai embora
Pois a chuva não quer parar
Ninguém mais quer ficar
Só eu, sozinho, vou me molhar.
Mas eu tenho fé... que a chuva há de passar


Enfim... com a sua voz afinadíssima e belos arranjos, esse disco marcou de modo definitivo, para mim, o ingresso da Gal entre as maiores cantoras desse país.
[Paul]

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Parnasiano!? (A Terceira Lâmina-Zé Ramalho-1981)

























Prestes a iniciar aquele ciclo terrivelmente chato de vestibulares e já com o saco cheio de repassar um interminável rol de sínteses, formulinhas e truques, recordo de ter me deparado com algum material sobre escolas literárias.

Aquela coisa absolutamente desnecessária para nossa existência: classicismo, realismo, romantismo...rococó, sei lá. Tinha mais ou menos decorado as características estéticas de cada escola. Mas tinha o tal do parnasianismo.

E o parnasianismo? Foi aí que alguém me deu a seguinte dica: “se na prova de literatura você se deparar com um texto ininteligível, que você não entende lhufas. É parnasianismo”. Essa dica surge novamente quando pensei em como indicar esse “A Terceira Lamina” do Zé Ramalho.

Realmente, e para o exclusivo uso desse nosso espaço, decreto: Zé Ramalho é parnasiano. Tá aí o disco para não me desmentir. Até mesmo, há coisa de uns dez anos, ele gravou um “20 anos – Antologia Acústica” que, embora seja bom, se destaca justamente por um encarte onde há uma engraçada tentativa de explicar suas letras.

Mais. Outro dia, no Canal Brasil, num programa que pessoalmente acho uma tragédia pela indelicadeza do entrevistador (o cara fica olhando para o relógio indisfarcadamente), estava lá o Zé Ramalho falando de um disco seu totalmente fora de catálogo e que estaria valendo uma nota. No meio da entrevista, num generoso ato de humildade, ele afirma suspeitar que a raridade do disco se deve ao fato de ter a maioria das cópias sido queimada num incêndio que vitimou o estúdio. Após uma tentativa desesperada do entrevistador em justificar sua escolha do disco para aquele programa, Zé Ramalho concede um certo elogio ao seu trabalho, mas...ressalva: “era um momento todo peculiar nosso”. Ou algo assim. Disse tudo, se confessou parnasiano!

Por tudo isso, não tenho como ficar relacionando cada faixa com qualquer coisa que seja. São todas peculiares, também. Destaco algumas pelo prazer exclusivamente indeterminado que sinto, ou por algum fragmento de letra que suponho “profundo”.

“Terceira Lâmina”: “acho bem mais do que pedras na mão dos que vivem calados, pendurados no tempo...”, “afastado da terra, ele pensa na fera que o começa a devorar”. Olha o parnasianismo aí nesse segundo fragmento!

“Atrás do Balcão”: Essa é outra estranha. Lembra quase uma história que me ocorre seja triste...não, trágica. Isso! acho que trágica define melhor. Ou não...sabe lá deus.

“Kamikaze”: É minha música favorita de tudo que conheço de Zé Ramalho. Só ouvindo. Recordo com clareza o imenso prazer que senti quando a escutei pela primeira vez. O que é isso? O cidadão ta relatando algo...um manifesto? Não, manifesto certamente não. Francamente: ele tá lá falando: “Zeba, veja esta que sei que você vai gostar”.

“Cavalo do Cão”: A participação da Elba Ramalho é perfeita.

Então é isso. Não caiu nada sobre parnasianismo naquele vestibular. Também não prestei outros, já que passei neste primeiro. Assim nunca pude ter certeza se a dica que recebi era séria.

(ZEBA)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

links

Hoje vou relacionar alguns sites úteis para a garimpagem de álbuns clássicos para nós aqui do site:

http://alltribes.blogspot.com/
(excelente, discografias recentes do Arnaldo Antunes, Karnak, Uakti, Novos Baianos, além de muitos outros internacionais)
http://brnuggets.blogspot.com/
(mais voltado pra obscuridades, vale a curiosidade)
http://br-instrumental.blogspot.com/
(muito bom, obviamente com ênfase em instrumentais. Recomendo Moacir Santos, Medusa, João Donato, Pepeu Gomes, Banda Black Rio)
http://feijaotropeiro.blogspot.com/
(variado, recomendo Ana Cañas, o Lenine novo etc)
http://mercadodepulgas.blogspot.com/
http://trabalhomental.blogspot.com/
(comandado por um sampaulino de bom-gosto)
http://comberocks.blogspot.com/
(mias rock pesado, o que inclui os nacionais Azul Limão, Edu Ardanuy, Anthares, Korzus, Matanza, os Cascavelletes, os Mutantes, Platina, Sarcófago, Sepultura, Taurus e coletâneas clássicas com SP Metal)
http://erawilson.blogspot.com/
(um dos meus preferidos, bem variado entre nacional/internacional)
http://www.lagrimapsicodelica.blogspot.com/
(site pesado de abrir, mas vale muito a pena a garimpagem)

Divirtam-se e não fiquem ansiosos...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Selvagem? - Paralamas do Sucesso (1986)



Para os Paralamas do Sucesso, e para toda a geração "rock Brasil" dos anos oitenta, "Selvagem?" representou a transição da adolescência para a idade adulta. Trata-se do primeiro disco de uma banda nacional com temática mais sofisticada, produção caprichada e a incorporação de elementos até então pouco utilizados nos trabalhos aqui realizados. No final, os Paralamas acertaram a mão e, por intermédio desse trabalho, acabaram por influenciar toda a obra imediatamente posterior de sua geração.

Produzido por Liminha, "Selvagem?" foi gravado e lançado no primeiro semestre de 1986. Os Paralamas vinham do sucesso de crítica e público obtidos com o deliciosamente adolescente "O Passo do Lui" (já resenhado aqui), mas queriam dar um salto qualitativo na carreira. Nas palavras do baterista João Barone, nada de muito especial - "os Paralamas do Sucesso só queriam fazer algo diferente e não repetir a fórmula do disco anterior".

"Selvagem?" abre com "Alagados", um dos maiores hits do disco e do grupo. Com uma deliciosa levada de guitarra, a canção faz um relato da dura realidade da vida nas favelas brasileiras, refletindo em parte a crise econômica enfrentada pelo Brasil durante a "década perdida" - os anos oitenta. Gilberto Gil participa da música - ele contribui ainda com "A novidade", parceria do baiano com os três paralamas.

Depois de "Alagados" aparecem, em sequência, o rock de protesto "Teerã", a já citada "A novidade", a divertida "Melô do Marinheiro" e "Marujo Dub", que mostra toda a influência que o trio recebia, nesse período, de gente como Yellowman, Sparrow, Toure Kundá e Fela Kuti. Conexão Jamaica-África-Brasil.

Para quem tem o vinil, o lado B começa com a pesada "Selvagem", uma canção de letra forte e contundente:

"A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cacetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter
Em seu lugar

O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard

A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar

Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar"

O disco não era só de protesto e denúncia, porém. Talvez interessados em manter certos vínculos com seus discos anteriores, os Paralamas gravaram duas canções mais leves - "A dama e o vagabundo", que fala das dificuldades da vida a dois, e "Você", clássico setentista de Tim Maia. Como não podia deixar de ser, as duas músicas atingiram os primeiros lugares das paradas. O disco tem ainda a alegrinha "There´s a party", com a voz desafinada de Herbert Vianna em seu estado mais puro. Um deleite para os fãs do grupo.

O resto é história. Depois de "Selvagem?", os Paralamas foram alçados a outro patamar dentro do que se chama de Música Popular Brasileira. Se isso é bom ou ruim, não vem ao caso. O importante é escutar "Selvagem? com atenção, para se captar todos os detalhes desse trabalho tão instigante e tão importante para a cena rock no Brasil.

André Xampu

domingo, 30 de novembro de 2008

Dez de Dezembro - Cássia Eller (2002)


Essa estória de resenhar músicas tem sido muito legal... Esse movimento da escolha, no meu caso, passa sempre por um namoro prévio. Eu fico lá, ouvindo o cd, curtindo, ouvindo de novo e tal. E é sempre uma re-descoberta!
Eu tava ensaiando para escrever algo sobre a Cássia Eller - ela foi a primeira cantora por quem me apaixonei de verdade, dessas paixões de quando a gente quer ter todos os discos, quando a gente fica meio viciado.
E foi uma surpresa pra mim quando me peguei escolhendo o “DEZ DE DEZEMBRO”... Esse disco tem uma vibe diferente e acho que foi aí que fui capturada.
É um disco que faz sentir a presença forte de alguém que não tá mais aqui. Nando Reis escolheu e alinhavou as canções como ninguém. Só mesmo uma amizade de uma natureza tão especial transforma um conjunto de músicas numa coisa tão viva.
“Dez de Dezembro” é delicado, suave e marcante como uma prova de amor deve ser. É uma carta de amor que me toca e me faz chegar à cabeça as melhores sonoridades, as melhores palavras já amarradas. Esse cd é fruto de vários encontros e mais, “Dez de Dezembro” é uma homenagem de Nando à Cássia, mas também de Cássia a tudo e a todos. Aqui ela está escancarada e eu fico super feliz ao escrever sobre essa trama de homenagens da qual me sinto parte, afinal todas essas músicas passaram a fazer sentido para mim também.

Os Beatles abrem o cd e Cássia entra em cena com “Get Back”. Eu quase não conheço os Beatles mas devo dizer que essa música fica perfeita na voz da Cássia! Ela está confortável, como se esse mundo corresse em seu sangue. Ela escolhe um Beatles que é a cara dela. E no fundo, se você prestar bem atenção, Zélia Duncan, sempre discreta, canta junto. A percussão e o violão são um arraso. A música sobe e desce, abre e fecha. Cássia dá movimento a “Get Back”.
Sobre “Julia” ... Bem, para essa não é necessário gastar dedos e palavras:
“Julia, Julia, oceanchild, calls me
So I sing a song of love, Julia
Seashell eyes, windy smile, calls me.”
O que dizer depois disso?

“No Recreio” é uma explosão. É a melhor declaração de amor que alguém pode receber... E a palavra recreio é a ideal... Recreio é o momento onde as coisas são uma delícia! Nando inventa um recreio para a vida adulta. Não é o máximo? O som entra potente, e todos os instrumentos vão conversando: entra a guitarra sozinha, chega o baixo, o violão, a percussão, e o som explode com força e desespero, mas a voz de Cássia transforma essa potência em algo doce, em algo visual. “Quando é que você vai sacar?/ Que o vão que fazem suas mãos/ É porque você não está comigo?”. É o encontro simples e perfeito.
“No Recreio” é a ansiedade vislumbrando o amor possível. É uma música-filme, onde a trilha sonora dos instrumentos te deixa aflito, com os nervos à flor da pele, mas a fala, a voz, as frases são o que te dão a solução: “Só é possivel te amar/ Escorre aos litros, o amor”.

“All Star” é dedicado à Cássia. Não vale, né? Esse cd é o maior disco de amor… Aqui Cássia canta lindamente uma homenagem à amizade. “Não vejo a hora de te encontrar/ E continuar aquela conversa/ Que não terminamos ontem, ficou pra hoje”.
Cássia (e seu violão) vai te conquistando timidamente e você vai se entregando timidamente, como nas melhores amizades.
Quando eu assisto aos DVDs da Cássia e vejo os dois, ela e o Nando, naquela amizade onde o beijo na boca era possível, e agora, embalada por essa música, com essa voz se espalhando por toda a minha casa... Poxa, esse disco não podia mesmo ser outra coisa senão essa vontade de ouvir, ouvir e ouvir.

Dura e quebrada, “Eu sou Neguinha” roda sabendo o que quer. Cássia é certeira, canta Caetano com uma intimidade de tirar o fôlego. É isso, Cássia como ninguém, fica íntima das músicas e as traduz, deixando-as únicas. E com uma naturalidade impecável, ela faz o ontem conversar com o hoje: temos aqui a presença do X.
“Que as coisas conversam coisas supreendentes/ Fatalmente erram, acham solução/ E que, o mesmo signo que eu tento ler e ser/ É apenas o possível ou impossível em mim/ em mim em mil em mim em mil”.
“Eu sou Neguinha” me lembra uma marcha, algo que se deve seguir, não necessariamante por sua vontade, mas pela força em si – todos seguem a marcha, algo coletivo – “Mas aquilo ia e eu ia e eu ia eu ia eu ia”. Cássia arrasa porque põe aspereza na música. Como num prisma, ela absorve todas as emoções possíveis e espalha uma coisa nova, diferente, atravessada.
Ufa.

“Meu amor partiu/ Cansou dos meu vícios…” Com uma voz rouca e num blues quase rasgado, Cássia vem cansada em “Nada Vai Mudar Isso”, de Paulinho Moska. Como um camaleão, ela mimetiza e mergulha completamente no astral da música. Aqui ela se descabela por seu amor que partiu, mesmo sabendo que ele voltará, mas com outro feitiço. Em “Nada Vai Mudar Isso” fala daquele amor que a gente tira na marra de dentro da gente, mesmo sabendo que a gente corre o risco desse amor voltar, quem sabe ainda mais forte… Como se o amor tivesse vontade própria: “Meu amor se expulsou de mim”.
De matar.

E como boa camaleoa que Cássia é, “Fiz o que Pude” de rock vira um xote sem perdão! É uma misturança arretada de boa… Gil xorora com seu xororô, deixando a música ainda mais apaixonante. Cássia roqueia com seu rock deixando a música ainda mais delirante.
E fizeram a melhor coisa! Em “Fiz o que Pude” Cássia resolve não dar muito bola pra dor e te pede a mão pra uma dança, de um jeito charmoso, malicioso e gritado...

Essa já chega provocando: “Não quero nem saber/ Aonde está você/ Não que eu não saiba não”.
“Nenhum Roberto” é a música das coisas óbvias, não que eu não saiba não… Daquelas coisas que a gente sabe, sabe a ordem das vogais, das consoantes de trás pra frente, não que eu não saiba não… E daí?
João Barone, na sua bateria perfeita e maravilhosa, acompanha Cássia na música de Nando e com a ponta perfeita de Frejat todos engrenam numa alegria danada, brincando, buscando, se divertindo. “Nenhum Roberto” é uma gostosura! É pauleira, sonzaço total, um trem-bala.
Não que eu não saiba não…
E tudo se resume numa risada!

A coisa mais delicada chega em “Little Wings”… Cássia nos faz ir para um outro planeta. Deliciosamente cada palavra é cantada e sentida com uma intensidade que me deixa sem palavras. Jimi Hendrix adoraria ouvir “Little Wings” nessa voz quase que chorada, que quase nos faz levitar. Eu fico aqui viajando (grande herança de Cássia – a viagem…) nos músicos fazendo esse som, esse violão cheio de personalidade que vai te seduzindo, que te leva lá pra cima e depois te traz de mansinho pra baixo, como numa viagem num tapete mágico.
It’s alright she said it’s alright…

“Nos aviões que vomitavam pára-quedas/ Nas casamatas, caso vivas, caso morras/ E nos delírios, meus grilos rever/ O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento/ Como um passatempo, quero mais te ver/ Oh, com aflição”.
“Vila do Sossego” de Zé Ramalho, abre uma ilha no teu sossego, te sangra a ferida, te pega e você não sabe por que e nem onde. Cássia canta todo esse desassossego como se estivesse lendo uma carta ditada por vozes sábias do além – “Que nas torturas toda carne se trai”…
Cássia tem isso de transitar pela dor, pela beleza, pela delicadeza e pela força sem peder o passo, sem deixar que a gente perca o passo...

“Dez de Dezembro” vai embora grandioso como Cássia... Em “Só Se For a Dois” - a última música do disco e uma das músicas mais belas de Cazuza - Cássia quase gritando canta que “As possibilidades de felicidade/ São egoístas meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois”.
O piano nessa música dá a leveza, a percussão a vida, a voz de Cássia a delícia, e a poesia de Cazuza, a verdade…

“Essa é minha flor... a sua Repetalada”
E tudo isso acabou…

[ANDRÉA]