quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Selvagem? - Paralamas do Sucesso (1986)

Para os Paralamas do Sucesso, e para toda a geração "rock Brasil" dos anos oitenta, "Selvagem?" representou a transição da adolescência para a idade adulta. Trata-se do primeiro disco de uma banda nacional com temática mais sofisticada, produção caprichada e a incorporação de elementos até então pouco utilizados nos trabalhos aqui realizados. No final, os Paralamas acertaram a mão e, por intermédio desse trabalho, acabaram por influenciar toda a obra imediatamente posterior de sua geração.
Produzido por Liminha, "Selvagem?" foi gravado e lançado no primeiro semestre de 1986. Os Paralamas vinham do sucesso de crítica e público obtidos com o deliciosamente adolescente "O Passo do Lui" (já resenhado aqui), mas queriam dar um salto qualitativo na carreira. Nas palavras do baterista João Barone, nada de muito especial - "os Paralamas do Sucesso só queriam fazer algo diferente e não repetir a fórmula do disco anterior".
"Selvagem?" abre com "Alagados", um dos maiores hits do disco e do grupo. Com uma deliciosa levada de guitarra, a canção faz um relato da dura realidade da vida nas favelas brasileiras, refletindo em parte a crise econômica enfrentada pelo Brasil durante a "década perdida" - os anos oitenta. Gilberto Gil participa da música - ele contribui ainda com "A novidade", parceria do baiano com os três paralamas.
Depois de "Alagados" aparecem, em sequência, o rock de protesto "Teerã", a já citada "A novidade", a divertida "Melô do Marinheiro" e "Marujo Dub", que mostra toda a influência que o trio recebia, nesse período, de gente como Yellowman, Sparrow, Toure Kundá e Fela Kuti. Conexão Jamaica-África-Brasil.
Para quem tem o vinil, o lado B começa com a pesada "Selvagem", uma canção de letra forte e contundente:
"A polícia apresenta suas armas
Escudos transparentes, cacetetes
Capacetes reluzentes
E a determinação de manter
Em seu lugar
O governo apresenta suas armas
Discurso reticente, novidade inconsistente
E a liberdade cai por terra
Aos pés de um filme de Godard
A cidade apresenta suas armas
Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos
E o espanto está nos olhos de quem vê
O grande monstro a se criar
Os negros apresentam suas armas
As costas marcadas, as mãos calejadas
E a esperteza que só tem quem tá
Cansado de apanhar"
O disco não era só de protesto e denúncia, porém. Talvez interessados em manter certos vínculos com seus discos anteriores, os Paralamas gravaram duas canções mais leves - "A dama e o vagabundo", que fala das dificuldades da vida a dois, e "Você", clássico setentista de Tim Maia. Como não podia deixar de ser, as duas músicas atingiram os primeiros lugares das paradas. O disco tem ainda a alegrinha "There´s a party", com a voz desafinada de Herbert Vianna em seu estado mais puro. Um deleite para os fãs do grupo.
O resto é história. Depois de "Selvagem?", os Paralamas foram alçados a outro patamar dentro do que se chama de Música Popular Brasileira. Se isso é bom ou ruim, não vem ao caso. O importante é escutar "Selvagem? com atenção, para se captar todos os detalhes desse trabalho tão instigante e tão importante para a cena rock no Brasil.
André Xampu
domingo, 30 de novembro de 2008
Dez de Dezembro - Cássia Eller (2002)

Essa estória de resenhar músicas tem sido muito legal... Esse movimento da escolha, no meu caso, passa sempre por um namoro prévio. Eu fico lá, ouvindo o cd, curtindo, ouvindo de novo e tal. E é sempre uma re-descoberta!
Eu tava ensaiando para escrever algo sobre a Cássia Eller - ela foi a primeira cantora por quem me apaixonei de verdade, dessas paixões de quando a gente quer ter todos os discos, quando a gente fica meio viciado.
E foi uma surpresa pra mim quando me peguei escolhendo o “DEZ DE DEZEMBRO”... Esse disco tem uma vibe diferente e acho que foi aí que fui capturada.
É um disco que faz sentir a presença forte de alguém que não tá mais aqui. Nando Reis escolheu e alinhavou as canções como ninguém. Só mesmo uma amizade de uma natureza tão especial transforma um conjunto de músicas numa coisa tão viva.
“Dez de Dezembro” é delicado, suave e marcante como uma prova de amor deve ser. É uma carta de amor que me toca e me faz chegar à cabeça as melhores sonoridades, as melhores palavras já amarradas. Esse cd é fruto de vários encontros e mais, “Dez de Dezembro” é uma homenagem de Nando à Cássia, mas também de Cássia a tudo e a todos. Aqui ela está escancarada e eu fico super feliz ao escrever sobre essa trama de homenagens da qual me sinto parte, afinal todas essas músicas passaram a fazer sentido para mim também.
Os Beatles abrem o cd e Cássia entra em cena com “Get Back”. Eu quase não conheço os Beatles mas devo dizer que essa música fica perfeita na voz da Cássia! Ela está confortável, como se esse mundo corresse em seu sangue. Ela escolhe um Beatles que é a cara dela. E no fundo, se você prestar bem atenção, Zélia Duncan, sempre discreta, canta junto. A percussão e o violão são um arraso. A música sobe e desce, abre e fecha. Cássia dá movimento a “Get Back”.
Sobre “Julia” ... Bem, para essa não é necessário gastar dedos e palavras:
“Julia, Julia, oceanchild, calls me
So I sing a song of love, Julia
Seashell eyes, windy smile, calls me.”
O que dizer depois disso?
“No Recreio” é uma explosão. É a melhor declaração de amor que alguém pode receber... E a palavra recreio é a ideal... Recreio é o momento onde as coisas são uma delícia! Nando inventa um recreio para a vida adulta. Não é o máximo? O som entra potente, e todos os instrumentos vão conversando: entra a guitarra sozinha, chega o baixo, o violão, a percussão, e o som explode com força e desespero, mas a voz de Cássia transforma essa potência em algo doce, em algo visual. “Quando é que você vai sacar?/ Que o vão que fazem suas mãos/ É porque você não está comigo?”. É o encontro simples e perfeito.
“No Recreio” é a ansiedade vislumbrando o amor possível. É uma música-filme, onde a trilha sonora dos instrumentos te deixa aflito, com os nervos à flor da pele, mas a fala, a voz, as frases são o que te dão a solução: “Só é possivel te amar/ Escorre aos litros, o amor”.
“All Star” é dedicado à Cássia. Não vale, né? Esse cd é o maior disco de amor… Aqui Cássia canta lindamente uma homenagem à amizade. “Não vejo a hora de te encontrar/ E continuar aquela conversa/ Que não terminamos ontem, ficou pra hoje”.
Cássia (e seu violão) vai te conquistando timidamente e você vai se entregando timidamente, como nas melhores amizades.
Quando eu assisto aos DVDs da Cássia e vejo os dois, ela e o Nando, naquela amizade onde o beijo na boca era possível, e agora, embalada por essa música, com essa voz se espalhando por toda a minha casa... Poxa, esse disco não podia mesmo ser outra coisa senão essa vontade de ouvir, ouvir e ouvir.
Dura e quebrada, “Eu sou Neguinha” roda sabendo o que quer. Cássia é certeira, canta Caetano com uma intimidade de tirar o fôlego. É isso, Cássia como ninguém, fica íntima das músicas e as traduz, deixando-as únicas. E com uma naturalidade impecável, ela faz o ontem conversar com o hoje: temos aqui a presença do X.
“Que as coisas conversam coisas supreendentes/ Fatalmente erram, acham solução/ E que, o mesmo signo que eu tento ler e ser/ É apenas o possível ou impossível em mim/ em mim em mil em mim em mil”.
“Eu sou Neguinha” me lembra uma marcha, algo que se deve seguir, não necessariamante por sua vontade, mas pela força em si – todos seguem a marcha, algo coletivo – “Mas aquilo ia e eu ia e eu ia eu ia eu ia”. Cássia arrasa porque põe aspereza na música. Como num prisma, ela absorve todas as emoções possíveis e espalha uma coisa nova, diferente, atravessada.
Ufa.
“Meu amor partiu/ Cansou dos meu vícios…” Com uma voz rouca e num blues quase rasgado, Cássia vem cansada em “Nada Vai Mudar Isso”, de Paulinho Moska. Como um camaleão, ela mimetiza e mergulha completamente no astral da música. Aqui ela se descabela por seu amor que partiu, mesmo sabendo que ele voltará, mas com outro feitiço. Em “Nada Vai Mudar Isso” fala daquele amor que a gente tira na marra de dentro da gente, mesmo sabendo que a gente corre o risco desse amor voltar, quem sabe ainda mais forte… Como se o amor tivesse vontade própria: “Meu amor se expulsou de mim”.
De matar.
E como boa camaleoa que Cássia é, “Fiz o que Pude” de rock vira um xote sem perdão! É uma misturança arretada de boa… Gil xorora com seu xororô, deixando a música ainda mais apaixonante. Cássia roqueia com seu rock deixando a música ainda mais delirante.
E fizeram a melhor coisa! Em “Fiz o que Pude” Cássia resolve não dar muito bola pra dor e te pede a mão pra uma dança, de um jeito charmoso, malicioso e gritado...
Essa já chega provocando: “Não quero nem saber/ Aonde está você/ Não que eu não saiba não”.
“Nenhum Roberto” é a música das coisas óbvias, não que eu não saiba não… Daquelas coisas que a gente sabe, sabe a ordem das vogais, das consoantes de trás pra frente, não que eu não saiba não… E daí?
João Barone, na sua bateria perfeita e maravilhosa, acompanha Cássia na música de Nando e com a ponta perfeita de Frejat todos engrenam numa alegria danada, brincando, buscando, se divertindo. “Nenhum Roberto” é uma gostosura! É pauleira, sonzaço total, um trem-bala.
Não que eu não saiba não…
E tudo se resume numa risada!
A coisa mais delicada chega em “Little Wings”… Cássia nos faz ir para um outro planeta. Deliciosamente cada palavra é cantada e sentida com uma intensidade que me deixa sem palavras. Jimi Hendrix adoraria ouvir “Little Wings” nessa voz quase que chorada, que quase nos faz levitar. Eu fico aqui viajando (grande herança de Cássia – a viagem…) nos músicos fazendo esse som, esse violão cheio de personalidade que vai te seduzindo, que te leva lá pra cima e depois te traz de mansinho pra baixo, como numa viagem num tapete mágico.
It’s alright she said it’s alright…
“Nos aviões que vomitavam pára-quedas/ Nas casamatas, caso vivas, caso morras/ E nos delírios, meus grilos rever/ O casamento, o rompimento, o sacramento, o documento/ Como um passatempo, quero mais te ver/ Oh, com aflição”.
“Vila do Sossego” de Zé Ramalho, abre uma ilha no teu sossego, te sangra a ferida, te pega e você não sabe por que e nem onde. Cássia canta todo esse desassossego como se estivesse lendo uma carta ditada por vozes sábias do além – “Que nas torturas toda carne se trai”…
Cássia tem isso de transitar pela dor, pela beleza, pela delicadeza e pela força sem peder o passo, sem deixar que a gente perca o passo...
“Dez de Dezembro” vai embora grandioso como Cássia... Em “Só Se For a Dois” - a última música do disco e uma das músicas mais belas de Cazuza - Cássia quase gritando canta que “As possibilidades de felicidade/ São egoístas meu amor/ Viver a liberdade, amar de verdade/ Só se for a dois”.
O piano nessa música dá a leveza, a percussão a vida, a voz de Cássia a delícia, e a poesia de Cazuza, a verdade…
“Essa é minha flor... a sua Repetalada”
E tudo isso acabou…
[ANDRÉA]
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Adoniran Barbosa (1975)
Quando Deus fez o homem
Quis fazer um vagolino que nunca tinha fome
E que tinha no destino, nunca pegar no batente e viver folgadamente
O homem era feliz enquanto Deus ansim quis
Mas depois pegou Adão, tirou uma costela e fez a mulher...
Desde então o homem trabalha pr'ela...
Vai daí o homem reza todo dia uma oração:
Se quisé tirá de mim arguma coisa de bão...
Me tira o trabáio, a muié não...
Do ponto de vista estritamente musical, este álbum de 1975 nada mais é que a continuação daquele lançado no ano anterior. Nada mais justo, para um artista com a produção de Adoniran que estava estreando na era do disco. As diferenças ficam por conta dos arranjos mais diversificados deste segundo trabalho e o fato de que só um super-clássico aparece aqui. Samba do Arnesto ficou célebre não só por ser uma música genial, de apelo extremamente popular, mas também por ter marcado o uso “vulgar” do português (que aparece em quase toda obra do autor), um português incorreto na gramática mas perfeito na musicalidade, puro Adoniran.
O disco começa avisando o ouvinte que o silêncio da madrugada está pra ser desfeito pois o samba na casa verde enfezou! Segue o pagode com um agradecimento em forma de canção onde Adoniran faz questão de usar a língua castiça em Vide Verso meu Endereço. Tocar na Banda tem o som de coreto de praça em cidade do interior, uma música que cairia muito bem no repertório psicodélico dos Mutantes!
Malvina é uma de suas primeiras composições (de 1951, quando ganhou até concurso de marcha carnavalesca), canção-manifesto à mulher que deseja abandoná-lo não é das mais famosas quando se fala em Adoniran, e de fato sua obra é repleta de canções melhores que esta. Em Não Quero Entrar Adoniran não se julga digno de entrar na sua ex-casa, de sua ex-mulher, ele vem só mesmo pra buscar o meu cachorrinho, o meu cobertor e (é óbvio) o meu violão...
Piove, Piove! Ha tempo que piove quá... Gigi
E io, sempre io! soto la tua finestra
e voi senza me sentire, ridere ridere ridere de questo infelice qui!
Ti ricordi Gioconda di quela sera in Guarujá
Quando il mare te portava via... E me chiamaste:
Aiuto Marcelo! La tua Giconda ha paura de quest'onda!
O Samba Italiano deve ser o samba mais charmoso do mundo... Além da letra e da interpretação inigualável de Adoniran, a música é levada por uma batida deliciosa de bateria, um cavaquinho e um violino. O resultado da improvável salada é de lamber os beiços!
Em Triste Margarida, Adoniran volta ao tema das desventuras do amor, com a história do jardineiro que se fingiu de engenheiro do metrô pra conquistar o bem-querer de uma mulher. A bateria que embalou o Samba Italiano retorna em Mulher, Patrão e Cachaça, triângulo amoroso onde os personagens são eu, (o narrador) Violão da Silveira (seu criado); ela, Cuíca de Souza e o Cavaquinho de Oliveira Penteado. Adoniran consegue criar esta história a partir dos sons dos instrumentos de forma genial, quando o cavaquinho centrava, a cuíca soluçava e eu entrava de baixaria... Quando o violão se descobre traído e resolve tirar satisfação, é o amigo pandeiro quem aconselha:
Não seja bobo, não se escracha
Mulher, patrão e cachaça
Em qualquer canto se acha
A próxima canção é um samba ligeiro cuja descrição não pode ser melhor que os seus próprios versos:
Pafunça, Pafunça, Pafunça que pena Pafunça,
que nossa amizade virou bagunça...
O teu coração sem amor, se esfriô, se desligô
Inté parece Pafunça aqueles alivadô...
que tá escrito não fununça e a gente sobe a pé
E pra me judiá Pafunça, nem meu nome tu pronunça!...
E assim segue a sina de Adoniran, ouvindo Conselho de Mulher dizendo pra ele largar da boemia e ir trabalhar, afinal pogréssio, eu sempre escuitei falá: pogréssio vem do trabáio, então amanhã cedo nóis vai trabaiá...
E este delicioso segundo LP de Adoniran termina com o samba Joga a Chave,
Joga a chave meu bem! Aqui fora tá ruim demais...
Cheguei tarde perturbei teu sono, amanhã eu não perturbo mais.
E quando você acha que ele se redimiu é que vem a solução genial, a “malandreza” típica de Adoniran:
Faço um furo na porta, amarro um cordão no trinco
pra abrir pro lado de fora...
Não perturbo mais teu sono, chegue meia-noite e cinco
ou então a qualquer hora...
Não sei de onde veio a história de que São Paulo é o túmulo do samba, mas se for por causa da música de Adoniran, que eu seja enterrado nele. [M]
Adoniran Barbosa (1974)
De gravatinha borboleta, chapéu de lado e bigodinho fino, João Rubinato ficou célebre como Adoniran Barbosa. A imagem é a de um malandro quase às avessas, o sambista que cantou São Paulo, a capital, como ninguém. Primeiro porque a música de Adoniran tem é cheiro de interior (bem, ele nasceu em Jundiaí, viveu tempos em Sto. André...). Segundo porque Adoniran é de um lirismo único, simples e inocente, até mesmo nos momentos em que é mais malandro.
Adoniran fez de tudo um pouco. Pintor, garçom, encanador, metalúrgico, até começar a carreira fazendo novelas de rádio e aos poucos compondo suas primeiras marchinhas carnavalescas lá pelos anos 30, até que iniciasse a sua célebre carreira de compositor nos anos 50, com seus primeiros sucessos. Como a época era de música de rádio e compactos simples, seu primeiro LP só viria a acontecer em 1974, com a regravação de antigos sucessos. Abrigo de Vagabundo abre este disco de “estréia” com a continuação da história da Saudosa Maloca, que legalizada, ninguém pode demolir e é oferecida ao vagabundos que não têm onde dormir. Bom Dia Tristeza, parceria do compositor com o poetinha Vinícius de Moraes, é uma das poucas composições “sérias” de Adoniran, refletida até no arranjo que inclui uma orquestração que acompanha um violão virtuoso, num lamento choroso atípico na obra do sambista. Adoniran convida a própria tristeza a beber com ele na mesa de bar e pede seu ombro como consolo, como se esta tristeza fosse uma pessoa, um companheiro da noite.
As Mariposas é um dos clássicos de Adoniran. Sua malícia aqui é bem humorada, tipicamente Adoniran, que inclui a introdução e um breque falado na sua voz rouca, numa mistura improvável (mas muito bem realizada) de Don Juan com Mazzaropi. Depois deste banho de bom-humor, Adoniran consegue transformar a tragédia da perda de um lar num dos momentos mais líricos e marcantes da música brasileira em Saudosa Maloca.
Iracema que se segue é outro exemplo da poesia de Adoniran. A perda do seu grande amor é narrada de maneira quase cômica, pois a amada morre vinte dias antes do casório por ter atravessado a av. São João na contra-mão. Já Fui uma Brasa é o lamento do artista que saiu de moda e vê ocupar “seu lugar”, outros nomes, outras canções, outras modas. Mesmo lamentando, Adoniran não perde a banca e desafia: eu também um dia já fui uma brasa, ..., mas se assoprar posso acender de novo.
Como o disco é marcado pelo balanço entre canções menos conhecidas e os clássicos do seu repertório, não poderia faltar O Trem das Onze. Esses dias tive que ouvir um comentário que classificava o samba como a história de um otário que prefere voltar pra casa da mãe, do que passar a noite com a namorada. Óbvio que no contexto em que a música foi escrita, outra possibilidade não existia.
Com a corda Mi, do meu cavaquinho
Fiz uma aliança pra ela, prova de carinho
Com uma introdução destas, qualquer música já seria boa. Mas Adoniran é um contador de histórias completo, e narra o sacrifício que é para o boêmio seresteiro se desfazer assim de parte do seu instrumento para dar a sua amada uma Prova de Carinho. Segue a esta um sambão-gafieira chamado Acende o Candieiro, que tem o ritmo acelerado e elementos de sopro. Apaga o Fogo Mané é uma canção de adeus, o poeta sai a procura da mulher (Inês, que o abandonara) na rua, na central, no hospital e no xadrez. A penúltima música é Véspera de Natal que narra a desventura do pai de família que resolveu bancar o papai noel: Ai meu deus que sacrifício! O orifício da chaminé era pequeno... E o disco termina com Deus te Abençôe, um sensível samba que conta a história do filho que rala pra caramba trabalhando de pedreiro que faz questão de mimar a mãe.
Histórias simples de gente do povo, com o sotaque convincente de um artista genuíno. Ave Adoniran! [M]
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
E vai rolar a festa...

(Gilberto Gil & Rita Lee)
Começa já pra cima esse excelente disco ao vivo! ‘Refestança dança, dança, dança, dança quem pode dançar; refestança canta, canta, canta quem pode cantar; só não pode quem não quiser...’ (Refestança, a música). Guitarrinhas rock’n’roll, solinhos em stereo, os sons ao vivo são ótimos.
‘Proibido fumar’ do Rei, canta Rita com um riff ótimo de guitarra. Fumar o quê? Os dois foram presos, não sei se antes ou depois desse disco, por porte da erva em Florianópolis, que hoje um amigo meu chama de ‘a Jamaica brasileira’... Pois é, mas continua proibido.
‘Odara’ é uma boa surpresa, tudo a ver com o clima de festa. Começa climática, mas anima rápido.
‘Domingo no parque’ é antológica, qualquer versão. Essa aqui tem uns backing vocais de dar gosto!
‘Back in Bahia’, uma das preferidas da amiga Andréia, na voz de Rita é também excelente, animada e ‘pra cima’.
Segue ‘Giló’, uma homenagem de Rita a Gil, não é das minhas preferidas.
E aí Gil segue cantando uma ‘da comadre’, ‘Ovelha negra’, uma música que traduz perfeitamente a vida marginal, a opção da minoria, o fazer o que você sabe ser o melhor pra você, mesmo ouvindo que é e sendo ‘a ovelha negra’, tão ou mais política do que qualquer ‘caminhando e cantando’. A versão é voz(es) e o violão maravilhoso de Gil. Mais do que suficiente. E tem aquele solinho. [Mateus, você que tem esse disco, pode informar os músicos?]
Continuando o arrasta-pé, ‘Eu só quero um xodó’, do Gonzagão, com umas guitarras boas que fariam o Lua sorrir.
Sem parar, em ‘De leve (get back)’, Rita mantém a animação. De quem será essa versão? Do Lulu Santos? Nelson Motta? Ou da Rita?
Pra não dizer que não se falou em festa, ‘Arrombou a festa’, uma das muitas músicas tributo aos personagens da música popular brasileira.Pra terminar a festa (ou para recomeçar), ‘Refestança’ de novo...
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Afrociberdelia - Chico Science e Nação Zumbi (1996)

Após emergir da Lama e do Caos (ver posts anteriores), que chacoalhou e devastou a terra brasilis dois anos antes, Chico Science retorna com sua Nação Zumbi propondo Afrociberdelia, senão como cura, pelo menos como remédio. Onde poderia se esperar mais do mesmo, uma continuação daquilo que havia dado certo no trabalho anterior encontram-se novos elementos no som de uma banda que tinha a preocupação de se reinventar sem perder a autenticidade, já no segundo trabalho, o que nos brindou com um dos melhores discos da década.
Eu vim com a nação zumbi, ao seu ouvido falar...
É Mateus Enter, o embaixador do maracatu enganando todo mundo num paródia heavy de Enter Sandman (Metallica), a trova que anuncia o início da festança. Com Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão vem, depois desta introdução, O Cidadão do Mundo. Se o som da banda perde em energia cinética (massa X quadrado da velocidade) ganha em afrociberdelia, e isso já fica claro nesta segunda faixa. A levada de baixo e bateria (uma novidade que depois se tornaria rotina no som da Nação Zumbi) acompanhada pelo violão (!) de Lúcio Maia é interrompida pelo breque com percussão de maracatu rural (uma paixão de Chico) e samples de sopro. O tema, banditismo è também recorrente na obra do compositor.
Etnia, música manifesto contra o racismo, também começa pesada, ameaçadora. Mas logo é dominada por scratches, samples e a batida de maracatu. No final, a miscigenação dos sons, a guitarra tornando o maracatu psicodélico, berimbau elétrico: nada de errado em nossa etnia!
Quilombo Groove é a faixa instrumental que abre Macô, um dos hits da banda. Além de uma canja mais que especial de Gilberto Gil nos vocais, a música traz uma levada de guitarra sutilmente funkeada e passagens de flauta que tornam a canção uma espécie de síntese da afrociberdelia. E Macô, quem é ou o que é, basta voltar à introdução, que contém um sample de Jorge Ben aconselhando: tosse! tosse! todo mundo tossindo!
Lúcio Maia repete ao longo de Um Passeio no Mudo Livre o lindo lick de introdução (a la John Frusciante), que tem uma letra desabafo, no estilo Sossego do síndico Tim Maia, se bem que muito menos explícito. A seção de sopros aqui é essencial, e o solo de trombone fazem deste um dos grandes momentos instrumentais do disco. Mas a minha favorita (?) vem depois desta: faminto e calmo e samba chegou... Carregado no wah-wah e com uma batida levemente acelerada, que lembra realmente um samba, Samba do Lado é outra faixa que poderia vira hino do movimento afrociberdélico (se o movimento existisse) com seu refrão que vai subindo de meio-tom em meio-tom até você ficar sem fôlego.
E não se dá um descanso, pois Maracatu Atômico (de Jorge Mautner) é outra afrociberdélica até a alma! A versão de CSNZ é uma aula de como fazer um cover. Sem descaracterizar a música, mantendo a estrutura melódica intacta, eles conseguem uma versão quase autoral: o maracatu fica mais atômico que nunca com Chico e a Nação, e ainda tem um gostinho de viagem ao fundo do mar (*).
Depois de narrar o Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu, o Corpo de Lama, é outra a firmar o marco psicodélico sobre o maracatu da Nação, antes de servir uma Sobremesa, experiência em inglês (mirando o mercado além-mar?) que Chico termina, aliviado ao que parece, na língua pátria.
Então entra uma linha de baixo e um vocal que parece sampleado de alguma coisa num inglês meio Jamaica que anunciam Manguetown. Tema que cairia bem no disco anterior, mas com a sonoridade típica deste aqui, Manguetown descreve a cidade e seus moradores andando por entre becos, andando em coletivos, ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown! Crônica da capital pernambucana, o ponto final é de um realismo nada psicodélico: Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com urubu.
Um Satélite na Cabeça é a faixa mais rock’n’roll do disco, marcada principalmente pela ênfase na bateria ao invés da seção percussiva da Nação e pelo vocal mais irado de Chico. A faixa prepara terreno, pois depois da psicocibernética instrumental Baião Ambiental, a banda vai quebrar tudo em Sangue de Bairro, que fez parte da trilha sonora de Baile Perfumado, gerando um clipe alucinado pelos cânions de Paulo Afonso (BA) enquanto o cangaceiro conta as sensações de ser decapitado. Heavy Metal perfeito primeiro porque está inserido num disco de outro gênero (um disco inteiro nesta toada seria um massacre), e depois pelos detalhes sutis da percussão (tem um triângulo que é especial mas, cá pra nós: alguns nem tão sutis. O maracatu da Nação prenuncia aqui a tonelada de peso que eles viriam a assumir num disco posterior). Enquanto o Mundo Explode acelera e pesa ainda mais (energia cinética a toda!) e tem os breques marcados pela percussão de Candomblé, enquanto que Interlude Zumbi é só percussão, voz e um berimbau alucinado.
Criança de Domingo é psico-folk-pop perfeito reinventado para o formato da Nação. Música mais lenta, Chico canta uma elegia otimista às pequenas alegrias do dia-a-dia. Seria a música perfeita para fechar o disco, mas eles ainda tem voz para uma história de amor. Simples, sem requintes românticos, Amor de Muito traz os metais de volta aos arranjos e apesar da batida do maracatu estar explícita, fica um ar quase bossa-nova (sem barquinhos, peixinhos e outras frescuras). O disco terminaria com uma faixa instrumental levada por Lucio Maia (psicodelicamente, é claro) na guitarra, se a gravadora não decidisse incluir três remixes distintos e totalmente dispensáveis do Maracatu Atômico (na era pré-mp3, o pessoal da grana achava que tinha que aproveitar ao máximo a memória do disquinho).
Chico deixaria a nação e a Nação tragicamente, num acidente de carro, o que não deixa de conferir à sua obra o charme dos heróis caídos em combate. Charme que ele certamente dispensaria em troca de poder desfrutar da Manguetown, como uma Criança de Domingo, passeando no Mundo Livre com toda sua afrociberdelia.
[MATEUS]
(*) Seriado de TV da década de 70.