segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Afrociberdelia - Chico Science e Nação Zumbi (1996)

Após emergir da Lama e do Caos (ver posts anteriores), que chacoalhou e devastou a terra brasilis dois anos antes, Chico Science retorna com sua Nação Zumbi propondo Afrociberdelia, senão como cura, pelo menos como remédio. Onde poderia se esperar mais do mesmo, uma continuação daquilo que havia dado certo no trabalho anterior encontram-se novos elementos no som de uma banda que tinha a preocupação de se reinventar sem perder a autenticidade, já no segundo trabalho, o que nos brindou com um dos melhores discos da década.


Eu vim com a nação zumbi, ao seu ouvido falar...

É Mateus Enter, o embaixador do maracatu enganando todo mundo num paródia heavy de Enter Sandman (Metallica), a trova que anuncia o início da festança. Com Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão vem, depois desta introdução, O Cidadão do Mundo. Se o som da banda perde em energia cinética (massa X quadrado da velocidade) ganha em afrociberdelia, e isso já fica claro nesta segunda faixa. A levada de baixo e bateria (uma novidade que depois se tornaria rotina no som da Nação Zumbi) acompanhada pelo violão (!) de Lúcio Maia é interrompida pelo breque com percussão de maracatu rural (uma paixão de Chico) e samples de sopro. O tema, banditismo è também recorrente na obra do compositor.


Etnia, música manifesto contra o racismo, também começa pesada, ameaçadora. Mas logo é dominada por scratches, samples e a batida de maracatu. No final, a miscigenação dos sons, a guitarra tornando o maracatu psicodélico, berimbau elétrico: nada de errado em nossa etnia!


Quilombo Groove é a faixa instrumental que abre Macô, um dos hits da banda. Além de uma canja mais que especial de Gilberto Gil nos vocais, a música traz uma levada de guitarra sutilmente funkeada e passagens de flauta que tornam a canção uma espécie de síntese da afrociberdelia. E Macô, quem é ou o que é, basta voltar à introdução, que contém um sample de Jorge Ben aconselhando: tosse! tosse! todo mundo tossindo!


Lúcio Maia repete ao longo de Um Passeio no Mudo Livre o lindo lick de introdução (a la John Frusciante), que tem uma letra desabafo, no estilo Sossego do síndico Tim Maia, se bem que muito menos explícito. A seção de sopros aqui é essencial, e o solo de trombone fazem deste um dos grandes momentos instrumentais do disco. Mas a minha favorita (?) vem depois desta: faminto e calmo e samba chegou... Carregado no wah-wah e com uma batida levemente acelerada, que lembra realmente um samba, Samba do Lado é outra faixa que poderia vira hino do movimento afrociberdélico (se o movimento existisse) com seu refrão que vai subindo de meio-tom em meio-tom até você ficar sem fôlego.


E não se dá um descanso, pois Maracatu Atômico (de Jorge Mautner) é outra afrociberdélica até a alma! A versão de CSNZ é uma aula de como fazer um cover. Sem descaracterizar a música, mantendo a estrutura melódica intacta, eles conseguem uma versão quase autoral: o maracatu fica mais atômico que nunca com Chico e a Nação, e ainda tem um gostinho de viagem ao fundo do mar (*).


Depois de narrar o Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu, o Corpo de Lama, é outra a firmar o marco psicodélico sobre o maracatu da Nação, antes de servir uma Sobremesa, experiência em inglês (mirando o mercado além-mar?) que Chico termina, aliviado ao que parece, na língua pátria.


Então entra uma linha de baixo e um vocal que parece sampleado de alguma coisa num inglês meio Jamaica que anunciam Manguetown. Tema que cairia bem no disco anterior, mas com a sonoridade típica deste aqui, Manguetown descreve a cidade e seus moradores andando por entre becos, andando em coletivos, ninguém foge ao cheiro sujo da lama da Manguetown! Crônica da capital pernambucana, o ponto final é de um realismo nada psicodélico: Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com urubu.


Um Satélite na Cabeça é a faixa mais rock’n’roll do disco, marcada principalmente pela ênfase na bateria ao invés da seção percussiva da Nação e pelo vocal mais irado de Chico. A faixa prepara terreno, pois depois da psicocibernética instrumental Baião Ambiental, a banda vai quebrar tudo em Sangue de Bairro, que fez parte da trilha sonora de Baile Perfumado, gerando um clipe alucinado pelos cânions de Paulo Afonso (BA) enquanto o cangaceiro conta as sensações de ser decapitado. Heavy Metal perfeito primeiro porque está inserido num disco de outro gênero (um disco inteiro nesta toada seria um massacre), e depois pelos detalhes sutis da percussão (tem um triângulo que é especial mas, cá pra nós: alguns nem tão sutis. O maracatu da Nação prenuncia aqui a tonelada de peso que eles viriam a assumir num disco posterior). Enquanto o Mundo Explode acelera e pesa ainda mais (energia cinética a toda!) e tem os breques marcados pela percussão de Candomblé, enquanto que Interlude Zumbi é só percussão, voz e um berimbau alucinado.


Criança de Domingo é psico-folk-pop perfeito reinventado para o formato da Nação. Música mais lenta, Chico canta uma elegia otimista às pequenas alegrias do dia-a-dia. Seria a música perfeita para fechar o disco, mas eles ainda tem voz para uma história de amor. Simples, sem requintes românticos, Amor de Muito traz os metais de volta aos arranjos e apesar da batida do maracatu estar explícita, fica um ar quase bossa-nova (sem barquinhos, peixinhos e outras frescuras). O disco terminaria com uma faixa instrumental levada por Lucio Maia (psicodelicamente, é claro) na guitarra, se a gravadora não decidisse incluir três remixes distintos e totalmente dispensáveis do Maracatu Atômico (na era pré-mp3, o pessoal da grana achava que tinha que aproveitar ao máximo a memória do disquinho).


Chico deixaria a nação e a Nação tragicamente, num acidente de carro, o que não deixa de conferir à sua obra o charme dos heróis caídos em combate. Charme que ele certamente dispensaria em troca de poder desfrutar da Manguetown, como uma Criança de Domingo, passeando no Mundo Livre com toda sua afrociberdelia.


[MATEUS]

(*) Seriado de TV da década de 70.


domingo, 23 de novembro de 2008

Expresso 2222 - Gilberto Gil (1972)


Não tem jeito, tem músico que faz som bom de ouvir, que faz som bom de dançar, que faz som bom de escrever… E Gil nasceu sob este signo: inspira até a última gota.
Em “EXPRESSO 2222” , Gil está de volta ao Brasil e são super claras a sua alegria e também as marcas do exílio no outro hemisfério. Mas as marcas são as melhores… O disco é arejado e alegre, é envolvente. Temos aqui a sorte de um Gil com a cabeça já em outro século, experimentado e aberto para a vida. Nada melhor…

O disco começa numa boa com as flautas femininas e com os tambores fortes e masculinos, Gil e a Banda de Pífaros de Caruaru entram deslizando com “Pipoca Moderna”. Uma música que mexe com cada músculo do corpo, começando pela cintura e vai subindo devagarinho, chegando aos ombros, numa batida marcante. Alegremente você já tá respirando tudo isso, sorrindo, relax... “Pipoca Moderna” é moderna, feliz alívio de quem voltou pra casa. O título é lindo e inusitado.

“Back in Bahia”… Essa música é super especial: quem já sofreu de banzo sabe do que eu tô falando. Ela é uma bomba… Essa música é uma granada, que quando estoura, espalha pétalas. A música começa devagar, respeitando a ferida que a saudade abre, mas Gil malandro que só, não deixa barato! Te chacoalha com o som alegre, super rock - que ele trouxe na mala da ilha do norte - te faz reviver todas as sensações de calor, de cor, de amor pra mostrar que vale a pena! Aquelas palavras inventadas, os sons criados vão te inebriando como um gás, te envolvendo até te convencer que “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”. É assim que eu me sinto até hoje…

“Canto da Ema” chega num piano malicioso e num xote rapidinho. Gil não quer que sua morena se vá, mesmo com o sinal sinistro do canto da ema. O disco inteiro é uma delícia de ouvir e tem que ser a dois. “Canto da Ema” é erótica, e tem algo de Caribe, na escolha de alguns sons. O piano melódico e agudo cheira bastante aqueles mares de lá.

“Chiclete com Banana” tem algo de futurista. Num batuque suingado e charmoso, Gil tá a fim de miscelânea. Tá a fim de misturar. Essa música é sensacional! Gil propõe uma conversa entre diferentes tradições musicais. Gil continua na sua viagem, chega longe, trança os hemisférios num diálogo utópico.

“Ele e Eu” é uma cama de gato! As palavras se entrosam e viram outras, a música vai rodando e a gente se sente num tobogã, num sobe e desce da mesma voz entonada de mil jeitos e tons diferentes, com inesperados breaks. Linda!
“Ele vive eletriconsumida, consumada ou mudamente/ Bem mais calmo/ Porque curte cada golpe do martelo”.
“Eu vivo calmargalarga, abertamente/ Bem mais louco/ Porque espero pelo beijo arrependido/ Da serpente do começo”.
Gil voltou outro de Londres, menos baiano, baianíssimo em cada milímetro. O ritmo de “Ele e Eu” é lento e penetrante. Tem a mesma força do rio quando a gente não consegue enxergar a outra margem… A música termina dengosa e a bateria vai te abandonando devagarinho…

“Expresso 2222”. Adoro o nome da música e fico viajando num trem todo colorido por fora, onde cada vagão é pintado de uma cor e de um jeito - um psicodélico, um grafitado e por aí vai. Esse trem tem a natureza do sonho, o destino é a liberdade e tem estação no mundo todo.
O violão é de matar! A percussão chega com o chocalho de arroz e depois com o afiado som do triângulo. Essa música tem velocidade especial. Sabe aquela velocidade do trem que você, mesmo do lado de fora, se correr um pouco, ainda consegue acompanhar? É dessa velocidade que eu tô falando. Uma velocidade ritmada, que precisa de fôlego.
“Expresso 2222” pede fôlego, exige sonho… É uma cápsula futurista, que se você olhar pela janelinha, dentro tem vento, tem fogo, tem água e sal. É o futuro que contém rastros do passado.
Baita inspiração…

“ O sonho acabou/ Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou…”
E o Gil, mestre total de novos sons usa e abusa da sua linguagem criativa e com seu violão canta a tristeza da realidade e lamenta por aqueles que não puderam sonhar.
“O Sonho Acabou” é a marca da ditadura, é o fim dos Beatles - “O sonho acabou hoje/ Quando o céu foi de-manhando, dessolvindo, vindo, vindo/ Dissolvendo a noite na boca do dia”.

Mas Gil é um ser que transpira liberdade. Esse sonho acabou, tudo bem, mas vamos inventar outro, esse é o seu desafio. E inevitavelmente o disco continua girando e ele nos surpreende com “Oriente”, que é exatamente isso “Se oriente rapaz/ Pela rotação da Terra em torno do Sol/ Sorridente rapaz/ Pela continuidade do sonho de Adão”.
Nessa música tão delicada, e num tom de conversa com alguém de quem se gosta muito, poeticamente Gil canta com as melhores palavras o tamanho do mundo, a grandiosidade de qualquer viagem, até daquela feita pela aranha na sua teia.
Essa música me acalma, me faz bem. Um mundo onde as coisas são possíveis, inclusive nossos desejos…

Caetano entra com uma voz trêmula e tímida em “Cada Macaco no seu Galho” e assim que Gil entra, a música estoura! Eles cantam o orgulho de serem baianos e você que procure o teu galho. Essa é pra gente cantar e dançar. E a música vai ficando rapidinha, parece até que Gil e Caetano estão numa corrida pra ver quem chega primeiro na Bahia!

Se eu tivesse que escolher a minha música de carnaval, eu escolheria “Está na Cara, Está na Cura”. Essa música é muito massa! “Está na cara/ Que você não vê/ Que a caretice está no medo/ Você não vê”.
“Expresso 2222” termina em ritmo de folia e não podia mesmo ser de outro jeito! Gil que foi, que voltou, que sofreu e que viveu, nos presenteia com essa lindeza , que é um suspiro de liberdade musical.

Eu vou indo e completamente contagiada por esse astral, deixo aqui umas linhas dos Beatles, que são para mim a melhor tradução de “Expresso 2222”...
“The deeper you go the higher you fly
The higher you fly the deeper you go
So come on come on"

[ANDRÉA]

Estrangeiro - Caetano Veloso (1989)


Caetano Veloso é tido como dos maiores gênios da MPB. Isso se dá, em larga medida, pelo que produziu entre Transa (1972) e Estrangeiro (1989). Durante esses quase vinte anos, o compositor baiano apresentou ao público uma música de altíssima qualidade. Curiosamente, as duas "pontas" desse ciclo trazem o melhor do melhor. Se "Transa" é maravilhoso em sua simplicidade e tristeza no exílio londrino, "Estrangeiro" é sofisticado, colorido e aponta para o futuro da música brasileira, mesclando tecnologia e influências diversas. É desse último disco que falo agora.

Produzido por Peter Sherer e Arto Lindsay (esse último trabalharia, anos depois, com Marisa Monte e também com David Byrne), "Estrangeiro" começa chamando a atenção pela capa - a reprodução de uma pintura de Hélio Eichbauer para o cenário da peça de Oswald de Andrade "O rei da vela" em montagem do Teatro Oficina, no ano de 1967. Ecos do tropicalismo, referência constante na obra de Caetano.

A faixa de abertura é "O Estrangeiro", o grande momento do disco. Com a participação dos produtores Sherer e Lindsay e também com Naná Vasconcelos na percussão e voz, a música é fenomenal. Um piano acompanhado de bateria eletrônica e algumas distorções de fundo seguem Caetano, que recita os primeiros versos.

"O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara/
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/
A Baía de Guanabara/
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:/
Pareceu-lhe uma boca banguela/
E eu menos a conhecera mais a amara?/
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela/
O que é uma coisa bela?

O amor é cego/
Ray Charles é cego/
Stevie Wonder é cego/
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem..."

E por aí segue, em sua letra quilométrica e recheada de citações. Mais de seis minutos de uma bela produção, que conta ainda com um interessante solo de guitarra. Sem dúvida, um dos maiores momentos da MPB em todos os tempos, apesar da discordância de alguns.

Na sequência, aparecem "Rai das cores", "Branquinha" e "Os outros românticos", três momentos fortes e extremamente bem conduzidos. Fica claro o peso da mão de Lindsay, que influenciava muito o compositor baiano à época das gravações. O disco traz ainda uma parceria em inglês do trio Caetano-Sherer-Lindsay, "Jasper", e as medianas (quando comparadas com as demais) "Este amor", "Outro retrato" e "Etc.". Assim como em outros trabalhos, Caetano dedica muitas dessas canções a antigos e eternos amores e amigos (a ex-Dedé Veloso, Paulinha Lavigne e Jorge Mautner).

A última canção é a mais alegre e colorida da obra. "Meia-lua inteira", do até então desconhecido Carlinhos Brown ("Carlinhos por parte de mãe, Brown do mundo", diz o genro de Chico Buarque), foi o grande hit do disco e chegou a fazer parte da trilha sonora de uma novela global. Com o próprio Brown na percussão e uma levada de guitarra deliciosa, fecha "Estrangeiro" em elevadíssimo astral.

'Meia Lua Inteira/
Sopapo na cara do fraco/
Estrangeiro gozador/
Cocar de coqueiro baixo/
Quando engano se enganou.../
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Martelo do tribunal/
Sumiu na mata adentro/
Foi pego sem documento/
No terreiro regional.../

Uera rá rá rá/
Uera rá rá rá/
Terça-Feira Capoeira rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá/
Verdadeiro rá rá rá/
Derradeiro rá rá rá/
Não me impede de cantar rá rá rá rá/
Tô no pé de onde der rá rá rá rá.../

Bimba birimba a mim que diga/
Taco de arame, cabaça, barriga/
São dim, dão, dão São Bento/
Grande homem de movimento/
Nunca foi um marginal/
Sumiu na praça a tempo/
Caminhando contra o vento/
Sobre a prata capital..."

Encerra-se assim a fase "genial" de Caetano Veloso. Depois disso, ele fez grandes turnês (sozinho e com Gilberto Gil), gravou em espanhol e em inglês, participou de trilhas sonoras de filmes nacionais e até flertou com o rock ("Cê", seu último disco, já resenhado por aqui). Nada, porém, que chegasse aos pés de sua produção setentista e oitentista. Em alguns momentos, chega a ser constrangedor.

"Estrangeiro", de todo modo, redime o baiano dessas críticas. Um disco para ser escutado e escutado e escutado, sempre. Brilhante.

(André Xampu)

Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)



Dessa vez vou falar de um disco que não foi lançado, mas descoberto. Trinta anos depois, foi encontrada uma fita com um show que Gil fez na Poli-USP em 1973 em protesto contra o assassinato dos estudantes Honestino Guimarães, à época presidente da UNE, e Alexandre Vanucchi Leme, pelo governo militar. Reza a lenda que o show, programado para meia hora de voz e violão, acabou durando três e foi repleto de estórias de Gil, bate-papos, interação com o público, num clima de intimidade que foi perfeitamente captado pela gravação.

As estórias são um ponto alto do show. Exemplo: o público pede Cálice, música dele e de Chico, prevista para ser tocada no Festival Phono 73, mas que na hora H o som foi desligado, para a irritação dos dois. Ele não só conta essa estória, como explica que como cada um iria cantar sua parte na apresentação, ele acabou não decorando a parte de Chico. Finalmente alguém da platéia escreve a letra em um papel para ele cantar. Terminada, ele pede pra ficar com o papel, pois não tinha a letra. Claramente viajandão, ele está no melhor da sua verve, da sua retórica gilbertiana (que nem nesse vídeo aqui http://www.youtube.com/watch?v=LfYM3iFG8qU).

Essas estórias saborosíssimas por si só já justificariam a citação desse disco, mas acima de tudo isso, há a música. Muito à vontade entre os estudantes, num show sem roteiro, como não se vê mais, ele vai desfilando canções próprias (Procissão, Expresso 2222, Back in Bahia) e do repertório de artistas que gosta, como Germano Matias (Senhor Delegado), Gordurinha e Almira Castilho (Chiclete com Banana), Dominguinhos (Eu só Quero um Xodó), João Gilberto (que lhe ajudou a entender Eu quero um samba), Clementina de Jesus (de quem ele evoca o espírito em O Sonho Acabou) e mostra consciência da importância e da qualidade da própria obra (“Não vai nenhuma vaidade, eu tô falando de fora de mim, agora. Eu gosto de Domingo no Parque, acho uma música belíssima. Se não fosse minha eu admiraria mais ainda”, fala aos risos, dele e de todos).

Gil dispensa justificativas, mas nesse caso vale um comentário. Caetano tem uma tese que a linha evolutiva da música popular brasileira se deu por meio de artistas que usavam o violão como instrumento preferencial de sua arte: Caymmi, João Gilberto, Jorge Ben e Gilberto Gil. E aqui a gente tem a oportunidade de ouvir o violão de Gil por inteiro, despido e, nesse caso, numa versão às avessas do rei nu, não há vestimenta mais rica. Ele passeia por sambas tradicionais, novos, xote, rock, bossa, afoxé, num largo leque de influências e interesses, todos transformados por sua forma personalíssima de tocar. Mostra em seu violão, na prática, a tese de Caetano. E depois de escutá-lo tocando, fica difícil não concordar com ela.

Luiz Marcelo

sábado, 22 de novembro de 2008

Por Pouco - Mundo Livre S/A (2000)


Como dizia Otto, Fred Zero Quatro é a mistura de Jorge Ben com The Clash. Difícil pensar numa combinação como essa, mas isso só se você ainda não ouviu Por Pouco. A variedade de ritmos (rock, reggae, rockabilly) e o discurso politizado do Clash estão presentes. O samba, bossa, samba rock, suíngue, lirismo, safadeza de Jorge Ben, também. A eles coloque-se uma pitada de Tom Zé e, pensando bem, não poderia haver melhor definição para este disco.


E uma palavra que une as três facetas é ironia. Tapa na cara, mas sem luva de pelica, nos melhores momentos, o disco serve de espelho da mediocridade da vida urbana brasileira do início do novo milênio, inútil, manipulada, que vem e vai no trânsito, no Jornal Nacional, no consumismo, no sonho da casa própria e na gostosa que sonhamos inutilmente um dia comer. Essa desilusão ganha um desenho extremamente sarcástico em Por Pouco, herdeira direta de Inútil, do Ultraje a Rigor, anti-hino da derrota das Diretas Já nos 80. Ela é um retrato do Brasil, o país das intenções nunca realizadas, da bola na trave, o país do futuro só que o ano 2000 chegou e a gente estava na mesma.


“Estamos quase sempre otimistas
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano esta quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dento em breve teremos um quase alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá.

Desilusão que já está presente desde a primeira música. Com jeito de manifesto, o Mistério do Samba é imperativo em sua desconstrução de tudo o que o samba não é:

“O samba não é carioca

O samba não é baiano

O samba nao é do terreiro

O samba não é africano”

E por aí vai, como se dissesse, o samba é livre, “não tem mistério”, terminando na conclusão perfeita: “E como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”.


Nesse clima de desilusão, o disco encontra um espaço para o amor, em momentos carinhosos e safados. Que nem Mexe Mexe, composta por Jorge Ben, ele mesmo, que é Jorgebeniana até o último fio de cabelo, sem o menor pudor. Começa com uma levadinha no violão, boa de dançar, devagar, difícil não mexer pelo menos a perna embaixo da mesa. Na sequência vem o Melô das Musas, com um elogio explícito a Wânia, a mulher "com um dábliu maiúsculo, um dábliu formidável, bem maior que minha testa", gostosíssima, saindo do mar e “eu não vou sair daqui sem ver ela sair da água”.


Daí o ritmo acelera forte pra Treme-treme, versão de Shackin’ all over, que vira “se tremendo toda”, rock com clima Clashiano, nervoso. “O seu olhar me comanda e manda eu me mexer. E a tremedeira é rebatida pra você”. É nervosa também na ansiedade dele pela conquista e daí a tremedeira passa pra ela, vira um orgasmo.


E depois da transa, do sexo forte, vem aquela relaxada na cama. Meu Esquema, uma bossa suingada, sopros suaves, a declaração de amor mais masculina que conheço: “ela é meu treino de futebol, ela é meu domingão de sol, concerto de rock and roll, torcida gritando gol, playcenter, pista alucinada, inferninho, esporte radical, poderosa viciante, mas não faz mal, o que meu médico receitou, Rivaldo maravilha mandando um gol, minha chapação”. Lendo assim, parece ridículamente machista, mas Fred Zero Quatro dá a ela uma convicção que muda completamente a maneira como a gente entende cada palavra.


Mas esse é um lado do disco. O outro é o do discurso politizado que apesar de às vezes beirar o panfleto, tem também sacadas excelentes. É metralhadora giratória, e sobra pra todo lado: a violência urbana (“Algo me alvejou, ai, olha o sangueiro irm ão, segura que eu vou cair”, no samba Tomzeniano Super Homem Plus); a sociedade de consumo e o mercado (“O mercado vive em guerra... Não há lugar pra escrúpulos... Cedo ou tarde você vai se entregar ao mundo livre, não adianta, não há como escapar”, de Concorra a um Carro); os Estados Unidos em Lourinha Americana; as mega corporações, a Nike, o Congresso, os governos, os partidos e políticos em Batedores.


Dentro desta perspectiva, Por Pouco é o Cabeça Dinossauro dos anos 90. Retratos do país, cada um em seu tempo mostra quem éramos. O Cabeça, mais explícito em sua crítica às instituições, era raivosamente adolescente, portanto mais inocente, como a democracia, que engatinhava. Por Pouco faz o mesmo, mas com um cinismo de quem está ficando adulto, perdendo as ilusões. Pois é claro que nós crescemos, superamos a ressaca do impeachment, ganhamos a guerra contra a inflação, saímos da faculdade e agora precisamos conseguir um emprego, comprar uma casa e constituir família (lembram do início de Trainspotting?). Se sobrar tempo, quem sabe você não continua indo em busca de seus sonhos? Só que a essa altura você já começou a perceber que aquele futuro brilhante que sua mãe e sua avó tinham certeza que te esperava talvez esteja um pouco mais distante do que você pensava ("Droga, foi por pouco!").


Não é fácil olhar pro nosso lado ruim. O Mundo Livre S/A teve a coragem de fazer isso, olhou o país, mastigou, regurgitou e vomitou Por Pouco em nossa cara. A gente pode até não gostar, mas vai ser difícil não se reconhecer nele. E ainda mais interessante é que apesar de toda a desilusão, o disco termina otimista, com as versões para Minha Galera, de Manu Chao, e de Garota de Ipanema, que exaltam coisas simples, como os amigos, a namorada, a praia. E nisso ele não consegue fugir de ser, ele mesmo, um espelho da contradição brasileira, sempre lidando com problemas que não consegue resolver, sonhando com coisas que não consegue ter, mas sempre otimista, exalando sensualidade e sempre disposto a curtir a vida.


Luiz Marcelo

Minas - Milton Nascimento (1975)

Tarefa difícil elogiar um disco de Milton. Não por falta de talento, que acho indiscutível. Grande voz, sempre bem acompanhado, repertório com diversos clássicos, e por aí vai. O problema é que ele ficou chato, virou uma mala sem alça. Obviamente que falo do artista, pois a pessoa é tão doce e tranquila que acho que qualquer um gostaria de bater um papo, trocar uma idéia. Ele, portanto, está longe de ser um Ivan Lins, porque aí também não dá, o cara é quase imbatível, sendo que eu tô dando o benefício da dúvida, porque não conheço ninguém mais chato.

Mas voltando a Milton, depois que ele virou menestrel, cantou pra Tancredo, aquela super exposição, as músicas, sei lá, perdi a paciência e aí acabei esquecendo que o cara teve uma produção excelente antes disso. E por isso, não foi sem surpresa quando fui apresentado a este disco.

Minha reação inicial foi de desconfiança natural, “O mala do Milton?”, mas o disco já começa conquistando de cara com Paula e Bebeto, música incidental que abre e fecha Minas. Linda, com coro de amigos, coral de meninos, vocalizes de Milton, que acompanha tudo com o violão. E mais nenhum instrumento. Bonito demais! Curioso é que Paula e Bebeto, além de seu momento solo, também faz participação especial/incidental em Idolatrada e Saudade dos Aviões da Panair.

Saudade que é palavra chave no disco (e talvez em toda a arte de Milton), porque o disco não é sobre Minas Gerais, mas sobre a Minas de Milton, desde a sua infância no interior à BH do Clube da Esquina, dos Beatles, dos amigos, que em cada música é evocada em imagens, símbolos e lembranças levemente melancólicas, saudosistas, com um quê de triste. Que nem em Ponta de Areia, mais um hino ao passado, lembranças de um lugar e um tempo que não existem mais.

E referências, há várias, como a música sacra, trazida pelo coral, e que fez parte da infância de Milton e mesmo de sua formação como cantor; ao barulho de trem, em Gran Circo; além de vocalizes de Beto Guedes, seu velho parceiro e amigo, que também divide os vocais em Fé Cega, Faca Amolada. E há outros, como costumava ser entre eles: Wagner Tiso em vários teclados e na produção, Nivaldo Ornellas nos sopros, Toninho Horta na guitarra (em excelente forma, às vezes límpida, às vezes torta), todos eles artistas com produção individual respeitada, mas com a humildade de saber ser coadjuvante, ainda mais num disco que preza a simplicidade nos arranjos.

Arranjos que são um dos destaques do disco. Simples, mas sofisticados, essa mistura difícil é típica dos discos de Milton, que conseguiu grandes resultados nos anos 70. Isso fica claro em Norwegian Wood, dos Beatles, que ganha uma versão com belos vocais, divididos com Beto Guedes, uma banda, com guitarra, baixo, bateria e teclados, além de uma orquestra que consegue dar um ar dramático sem cair na suntuosidade. Desde o início percebe-se que é uma música familiar, mas demora até cair a ficha, mérito do trabalho de recriação de um clássico.

Milton produziu grandes discos e este sem dúvida é um deles. Daqueles que, mesmo quem, como eu, não é fã, gostam. Daqueles que são bons, mesmo transbordando todos aqueles clichês de Minas, da vaquinha, o morrinho, o riozinho, o trenzinho. É prova de que não se deve ter preconceitos na arte, para não corrermos o risco de perder belos momentos como os deste disco.

Luiz Marcelo

Jesus não tem dentes no País dos Banguelas Titãs (1987)


“JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS ” é o nó do amor, da violência e do desejo. Esse cd é aquela hora que a gente volta à superfície depois de um mergulho profundo. É aquela primeira respirada, aquele momento em que a gente saca que tá vivo. E os Titãs com a sua poesia escura nos transportam para uma caixa preta e úmida, cheia de fumaça e com o eco que atordoa. Algo bastante perturbador.
É isso: a letra perturba, o som é de fliperama e quando a gente se dá conta, já fomos consumidos pela onda.

Jesus não tem dentes no país dos banguelas - Jesus é qualquer um, e mais: ele é mais um no emaranhado do nó. O título já sugere que quando se fala de jogos de sedução e violência, não há espaço para diferença e que agora vale tudo.

“Todo Mundo quer Amor de Verdade” começa com um som travado, desencontrado, quase desesperado. O amor é tratado como uma necessidade vital e diária, como um produto que devia ser grátis nas prateleiras. Os Titãs arrancam o amor da caixa cor-de-rosa e põe na caixa preta, aonde ninguém se vê e todo mundo se lambuza: o medroso, o faminto.
Ele quer, Ela quer.

E o som quase redondo-quase-quadrado da guitarra traz a “Comida”. Estamos na caixa preta, hipnotizados pelos sons, insaciáveis. A gente tem fome de algo mais, de tudo ao mesmo tempo agora. A gente tem fome da gente, do outro e do desejo… E se a gente não encara o desejo, ele se transforma numa força avassaladora e nos faz inimigos de nós mesmos. E num jogo sonoro os Titãs gemem e emendam, sem quase a gente perceber as duas músicas –“Comida” e “Inimigo”.
A gente já não sabe mais quem é o inimigo – só escutamos o eco e num vai e vem do desejo a gente cai na armadilha: às vezes você tem razão, às vezes não.

E o som vai ganhando poder. A violência chega grande, veloz, ferina, falando alto, dona do pedaço. "Corações e Mentes” estoura com a energia da dissociação.
"Alguma coisa aconteceu/ Inevitável acidente/ Rancor e ódio separaram/ Corações e mentes".
O amor grátis já não é mais tão grátis assim. É um amor com personalidade, dúvidas e ressentimentos. É o amor-cela, onde não se vê nem mar nem céu.
E o som, a histérica bateria do Charles Gavin vai nos envolvendo numa atmosfera de ansiedade, que é impossível não cair de boca na sonzeira, não se transformar num personagem e pulsar com a música.
“Não existe paz/ Não existe perdão/ Eu não suporto mais violência e paixão/ Não aguento mais viver dentro dessa prisão/ Meu amor, minha guerra, eu erro e você erra.”
Sou vidrada nessa música! Acho mesmo que a paixão é violenta, e tem que ser. É algo que tem que te rasgar, tem que botar no inferno, te fazer perder os sentidos. Êxtase
O teu beijo é tão doce/ O teu suor é tão salgado/ O teu beijo é tão molhado/ É tão salgado/ O teu suor.

Em “Diversão” é a diversão pelo avesso. Somos nós topando com o nosso vazio, com o nosso colorido desbotado. O som eletrônico me lembra um ambiente de porão com luz fosca onde a gente se tromba e não se fala. O outro não importa. É o anti-desejo. “Nada disso às vezes diminui/ A dor e a solidão”. É uma música imperativa, da entrega total ao nada: “Diversão é solução sim/ Diversão é solução pra mim”.

“Infelizmente” é um sermão que é quase uma praga. Ela vem pautada, cristalina, cruel. "Infelizmente” é a nossa consciência! É aquela voz que só chega à noite, que passa pelo vão da porta e cochicha no teu ouvido. É a tua verdade. As palavras são ditas devagar pra que você não corra o risco de não entendê-las. O som é pesado, denso.
Um arraso que vai embora sem dar tchau.

Nando é o dono de "Jesus não tem dentes nos país dos Banguelas”. Irado e embalado por um som cheio, ele só é capaz de cantar essa única frase. E a frase volta mais forte, num coro e a música volta mais forte e transborda. E chega o fim. “Jesus não tem dentes no País dos Banguelas” é pra você! Se vire com ela.

“Mentiras” é barulhenta. É que mentira é mesmo barulhenta… Sem mais nenhum comentário.
”Desordem” é um Jornal Nacional cantado. É o olho conservador posto em xeque. É a crítica à banalização da violência. A violência tá aí, mas e aí? “ Quem quer manter a ordem?/ Quem quer criar desordem?”

Não é à toa que depois de “Desordem”, os Titãs piram com “Lugar Nenhum”! Essa música é a gente, é a nossa desordem procurando um norte, querendo uma saída. De onde você é? A gente é um misto de tudo e isso é a grande sacada. “Eu não tô nem aí/ Eu não tô nem aqui”. E a guitarra vai te embalando, vai te fazendo se perder no labirinto dos lugares…
Essa música grita contra você ser aquilo que você naturalmente é. Você tem que se violentar e se transformar em um novo você. Tão implorando a transformação. É muito massa, porque o pedido de transformação nessa música passa pelo rompimento e negação da única certeza que a gente tem - o lugar do nosso nascimento.

Nossa! Esse cd corta como vidro! É tudo muito intenso, rápido. "Jesus não tem dentes do País dos Banguelas” te faz colocar pra fora todos os teus demônios. É quase um exorcismo! E eu gosto tanto…

“Armas pra Lutar” é a música que enterra a bandeira branca de paz no quintal. Chega. Água. É a desilusão, é a falta de tesão e ao mesmo tempo, as guitarras se falam e com elas vem uma gota de esperança para prosseguir.

Adoro a lista de “Nome aos Bois”. Acho genial como uma lista de nomes - de nomes fortes e inesquecíveis – pode ganhar força e vitalidade e tornar-se uma música. Curto também os urros do Nando. Urros de nojo.

E a energia punk termina em paz com “Violência”. E “os irmãos Morávios mandavam matar com cócegas…”
Demais.

[ANDRÉA]