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quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Nave Manha", Trupe Chá de Boldo


Foi escutando música no Spotify que descobri essa trupe. Acho que foi quando escutava Bárbara Eugênia ou algum músico contemporâneo que reparei com certa curiosidade, entre os artistas relacionados, um nome no mínimo curioso: "Trupe Chá de Boldo”. Resolvi matar minha curiosidade e me surpreendi com um som bem original, animado,  com letras criativas e um gingado gostoso de ouvir, tudo isso com sob influência da boa e velha vanguarda paulistana, mas com uma roupagem mais atual.
Passei a escutar com frequência cada vez maior até que tive a oportunidade de vê-los ao vivo há pouco tempo no aconchegante Teatro Paiol de Curitiba (uma espécie de La Bombonera local, como eles mesmos citaram). Foi um show memorável de uma trupe de 11 músicos (no disco em questão são 12). Poderia ser um time de futebol, mas é uma banda! E que banda!

No final do show, pude conhecer rapidamente alguns de seus integrantes e comprar seus dois CDs (devidamente autografados por um deles): o mais recente (Presente) e o primeiro (Nave Manha), de 2012, selecionado para ingressar o rol dos 1001 discos brasileiros para escutar antes de morrer.
Encarte do CD, com ilustração de Laura Teixeira
Produzido por Gustavo Ruiz (irmão da Tulipa Ruiz) e contando com uma bela ilustração de Laura Teixeira, Nave Manha inicia “No Escuro”, música de autoria de Gustavo Galo (responsável pela voz dessa música). Trata-se de uma espécie de bossa com som que remete a Tom Zé, tendo a cidade de São Paulo como cenário. Começou muito bem!
Saindo da Estação da Luz (citada em “No Escuro”) para o rush no Minhocão, a segunda é outra preciosidade bem-humorada e repleta de duplo sentido: “A Rolinha e o Minhocão”. A música começa com uma linha de baixo interessante. No YouTube, tem um clipe dessa música muito original, gravado dentro do carro percorrendo as ruas de Sampa (chegando até o Minhocão, obviamente). Vale a pena checar: https://www.youtube.com/watch?v=k8ClQ9LOP1I

Depois de “Se For Parar” (com a participação, entre outras, de Alzira E), vem “Apesar”, uma baladinha gostosa de ouvir que termina com “então me leve para longe daqui”. No caso do disco, para “Belém Berlin”, a canção seguinte que conta com a participação de André Abujamra e Gustavo Ruiz: me leve meu bem pra Belém pra Berlin. 

A seguir vem a agradável “Box 11”, outra repleta de referências paulistanas que, segundo informações do encarte, aborda  um homem solitário que se depara um outro apaixonado fazendo uma serenata para recuperar o seu amor. Após essa, o disco atinge o clímax:

Não quero gota
Não quero gota
Quero você gostoso todo
Na garrafa
Não quero gota
Eu quero o gosto
De te tomar inteiro
Pra ver se chapa

“Na Garrafa”, é a melhor do disco e apresenta todas as características de um ótimo hit: letra sensacional, batida animada, vocais entusiasmados. Um clássico. A versão que tem no disco já é excelente e dá vontade de sair dançando, mas ao vivo consegue melhorar ainda mais, com uma performance empolgante, principalmente com a vocalista Julia Valiengo e do Cabelo na guitarra. Auge do disco e do show. Vale a pena ver também o clipe muito bem produzido dessa música: https://www.youtube.com/watch?v=sBG0k8k7hLUAlém disso, essa canção fez parte do disco “Rolê, News Sounds of Brazil”, lançado em 2014.

As duas seguintes parecem estarem propositalmente nessa ordem: primeiro “Mar Morro”, (outra das minhas preferidas) que relata a descida para o litoral para, em seguida, com uma levada caribenha, vem a canção “Verão”.

“Splix”, a próxima, é uma composição conjunta do Galo com a Ciça (outra vocalista) e Peri Pane, que juntamente com Tatá Aeroplano, participam da sua gravação. Novamente diversão garantida!

(...) Pra você que transforma
Rímel em rima
Fuga em fogo
Pra você que transforma
Linha em lenha
Careta em carinho (...)


Para fechar o disco em alto estilo, “Até Chegar no Mar”. Música mais suave com uma letra lindíssima.

Com disco bem produzido, esse time demonstra que é uma verdadeira seleção, com som equilibrado desde as linhas de baixo do Felipe Botelho bem articuladas com a bateria e a percussão de Gongom e Rafinha, acompanhado de bons metais de Mumu e Remi, guitarras afinadas de Bastos e Cabelo, tendo como a cereja do bolo os vocais do Galo, Ciça, Julia e Leila, além de músicos como Rayraí e outros convidados. Talvez eu tenha até errado a referência a algum deles, mas a intenção era citar todos.
O show que tive a oportunidade de presenciar foi espetacular. Espero que não demorem mais 10 anos para retornar (foi o primeiro deles aqui). Além do ótimo som, destaca-se ainda a postura politizada e bem esclarecida, algo fundamental nesse momento em que a democracia tem sido violentada nesse país. Vida longa para essa trupe!

 Paul

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Beth Carvalho, Nos Botequins da Vida



Ontem, 17 de abril de 2016, foi um dia triste na história do Brasil e da sua frágil democracia. Como se não bastasse o golpe impulsionado por figuras mais deploráveis da política nacional, a votação transmitida ao vivo escancarou o estarrecedor nível dos deputados federais. Foi um espetáculo dantesco.
E nessas horas, tentando me apegar a algo que possa dar algum significado ou esperança, lembrei de tantos artistas que se mobilizaram nos últimos dias em prol da democracia. Gente do nível de um Chico Buarque, Chico César e Beth Carvalho, que chegou a lançar um samba contra o golpe.

Ao ouvir o samba da Beth Carvalho nesse momento da história do país, minha memória afetiva me levou diretamente para 1977, ano em que, criança, morei no Rio de Janeiro e, acompanhando minha mãe em algumas festas de amigos dela, passei a conhecer a fina nata da MPB e do samba, a começar pelo disco “Nos Botequins da Vida” que, inclusive, fazia parte da discografia de casa.  

 “Meu Deus mas para que tanto dinheiro
Dinheiro só pra gastar
Que saudade tenho do tempo de outrora
Que vida que eu levo agora
Já me sinto esgotado
E cansado de penar, meu Deus
Sem haver solução
De que me serve um saco cheio de dinheiro
Pra comprar um quilo de feijão”

O disco, lançado em março de 1977, abre com um clássico “Saco de Feijão” de autoria de Francisco Santana, com uma bem-humorada crítica às dificuldades econômicas da época do regime militar (e pensar que tem gente que sente saudades...).
Em seguida, outro samba clássico na voz da Beth Carvalho: “Olho por Olho”, de Zé Maranhão e Daniel: Dente por dente, olho por olho. Se tentar me enganar, bota a barba de molho. Irônico ela celebrar que a partir de hoje os direitos são iguais justamente quando se colocam em pauta dentro do Congresso Nacional diversas pautas retrógradas, inclusive relacionadas aos direitos das mulheres.

Depois, o primeiro samba-enredo da Portela: “Dinheiro Não Há (lá vem ela chorando), de Benedito Lacerda-  Ernani Alvarenga, de 1932. Consta que no desfile oficial da Praça XI, a então "Vai Como Pode" desfilaria com um samba de Paulo. Contudo, quando o líder portelense ouviu o samba de Alvarenga, imediatamente preferiu retirar seu samba, reconhecendo a superioridade da composição do amigo. Quase na hora do desfile, Paulo, empolgado, disse: "Alvarenga, o seu samba é melhor, nós vamos com ele. Vou retirar o meu" (1). Foi o primeiro samba apresentado em desfile a fazer sucesso nas rádios.

Os clássicos seguem com “Deus não castiga ninguém” (Paulinho Soares). Seria interessante que os nobres deputados de um país laico soubessem disso, afinal a gente mesmo é quem se castiga, meu bem.

Não Quero me vingar porque...vingança é sinal de covardia..: O disco segue em ritmo de roda de samba, com “Vingança”, de Carlos Cachaça. Talvez se Cunha gostasse de samba, poderiam ter poupado o Brasil do show de horrores proporcionado por vingança.

Tempo para respirar um pouco com “As moças”, de Paulinho Soares e Paulo César Pinheiro. Nessa, a roda de samba abre espaço para uma espécie de bossa.

A roda de samba volta com “Se você me ouvisse” do Nelson Cavaquinho e “Carro de Boi”, clássico de Manacea, que conta com a participação da Velha Guarda da Portela.

Depois de “Cuidado com a minha viola”, de Gracia do Salgueiro, vem “Desengano”, de Aniceto:

Um desengano dói
A minha alma tanto sente
Uma dor pungente,
Que invadiu meu coração
Depois de ser tão benevolente
Deste-me o desprezo ao invéz de gratidão
Recompensar-te a regalia que gozaste em minha companhia
Sempre procurei te agradar porém em vão
Me abandonaste sem qualquer satisfação
Hoje vivo assim a lamentar a minha sorte
Algo que só esquecerei com a morte.

Embora a letra remeta claramente a um desengano amoroso, ouvindo-a logo após o fatídico golpe de 2016, impossível não lembrar do Temer.

O ritmo diminui um pouco nas duas últimas lindas canções, deixando um certo ar de melancolia. Primeiro com “Sempre Só” (Edmundo Souto – Joaquim Vaz de Carvalho) para depois fechar com o clássico “O Mundo é um Moinho” do Cartola. Embora haja certos rumores de que ele teria composto essa música quando a filha estava saindo de casa, não encontrei nenhuma fonte confiável a respeito disso. De qualquer forma, quando a Beth Carvalho interpreta brilhantemente “Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos... Vai reduzir as ilusões à pó”, ficamos com certa esperança de que isso seja um recado ao Cunha e seus asseclas. Pode ser que demore, mas chegará um dia que quando notarem, estarão à beira de um abismo que cavaram a seus pés. Espero que não ainda tenha algo no país para ser salvo quando conseguirmos nos livrar desses bandidos. E que a luta da Beth Carvalho não seja em vão.

Para escutar no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=j2bgQW_vFu8

Paul
Nota
(1)    Informações obtidas em 18/042016 no site: http://www.portelaweb.com.br/arquivos.php?codigo=30&cod_cat=3

domingo, 10 de janeiro de 2016

Elis Regina: "Falso Brilhante"


Para fazer justiça, finalmente o blog inclui um disco de uma das maiores intérpretes brasileiras: Elis Regina. Há tempos já pensava em me arriscar a resenhar um disco dela, mas não sabia se estaria à altura desse desafio, já que embora grande admirador do seu talento e da sua voz imortal, não sou especialista na sua carreira e nos seus discos.

Entretanto, na sexta-feira, dia 8/1/16, no caminho do trabalho, escutei na BandNews o seu filho e crítico de música, João Marcelo Bôscoli tecendo diversos comentários interessantes, e encarei o fato de tê-lo escutado como um sinal de que era para finalmente incluir um disco da Elis no blog.

O escolhido para inaugurá-la aqui é Falso Brilhante, gravado em 1976 a partir de um espetáculo da Elis Regina que esteve em cartaz no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, durante 14 meses entre 1975 e 1976 com mais de 300 apresentações, sempre com lotação esgotada e enorme sucesso.

As duas canções que abrem o discos são de autoria do Belchior e certamente a belíssima interpretação da Elis para ambas contribuiu para o reconhecimento dele como compositor. “Como nossos pais” tornou-se um clássico da MPB, enquanto “Velha Roupa Colorida” tem uma letra tão boa que suas frases permanecem na memória de muita gente até hoje, como: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Depois, trazendo um caráter libertário para o espetáculo, Elis interpreta a belíssima “Los Hermanos”, um verdadeiro clássico da América Latina, de autoria de Atahualpa Yupanqui, nome artístico de Héctor Roberto Chavero, argentino cujo pseudônimo vem de Atahualpa e de Tupac Yupanqui, dois dos últimos governantes Incas antes da consolidação do domínio espanhol (1).

“Lavo as mãos e prossigo adiante ...
Eu por mim mesma... Todos por mim, meu oportuno herói”

A quarta música é uma das três interpretações de canções de João Bosco e Aldir Blanc nesse disco. Ao longo da sua carreira, Elis encontrou nessa parceria uma das suas principais fontes de canções que, com sua voz, alcançaram maior brilhantismo.
Depois vem “Fascinação”, uma versão em português de Fascination, popular valsa francesa composta por F. D. Marcheti e Maurice de Féraudy em 1905 que, em 1946, Arnaldo  Louzada traduziu para o português,  sendo interpretada originalmente por Carlos Galhardo. Ao longo do tempo, em diversas versões, esta música foi interpretada por gente do calibre de Nat King Cole e Edith Piaf.  Mesmo ao lado dessa gente, Elis deixou também sua marca e imortalizou-a também. (2).

O ritmo muda novamente em "Jardim de Infância” (outra composição da dupla João Bosco e Aldir Blanc). Nessa canção são citadas diversas brincadeiras de crianças, sob um inegável tom metafórico referindo-se à “brincadeiras” de adultos e a sua violência. Aldir Blanc caprichou na letra.

                               “Quero ver o sol atrás do muro ...
Quero um refúgio que seja seguro 
Uma nuvem branca sem pó, nem fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou vidraça”

 Em “Quero”, de autoria de Thomas Roth, tanto a letra quanto a melodia rementem à turma do Clube de Esquina, com referências a uma vida lúdica e rural que ficou para trás.
O tom libertário latino retoma em “Gracias a la Vida”, outro clássico, anteriormente imortalizado na voz de Mercedes Sosa, de composição da chilena Violeta Parra.

A penúltima é “Cavaleiro e os Moinhos”, outra canção da dupla Bosco e Blanc. Começando com uma marcha, a canção altera o ritmo e remete aos anos de chumbo da ditadura que estavam vivenciando naquele período.

“Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem”

O disco fecha brilhantemente com “Tatuagem”, linda canção romântica do Chico Buarque e Ruy Guerra, do repertório de Calabar, e que Elis conseguiu, acertando na dramaticidade, eternizar com uma interpretação magnífica.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim que serviu para colocar a Pimentinha (apelido que a acompanhou durante sua carreira) definitivamente no rol das maiores intérpretes nacionais de todos os tempos.

Em uma entrevista, Rita Lee lembrou que quando foi presa pela ditadura, a Elis foi a primeira e única pessoa a visita-la na prisão e que a ajudou muito não só para ser solta, mas para retomar a carreira posteriormente (3). No início de 1982, a Elis acabou falecendo com apenas 36 anos, mas felizmente nos deixou não apenas uma vasta obra, mas também uma bela história de vida.

Para escutar mais esse clássico da MPB pode-se utilizar o aplicativo de músicas Spotify: https://open.spotify.com/album/1F57xqKnbpTQB2SPoovTGJ

 Paul

Notas



(3)    Vídeo da entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=ghUnVxgXvus

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Chico Canta (Calabar: o elogio da traição)


À esquerda, a primeira capa, branca após censurarem a capa original com Calabar escrito, e à direita, a capa de outras edições, com o nome Chico Canta



Após serem citados três álbuns do Chico Buarque no presente blog (um que eu mesmo tinha escrito – Construção), percebi que certamente caberia mais. Um deles, em especial, merece uma atenção especial: Calabar (cujo nome foi censurado e ficou Chico Canta).

Entre 1972 e 1974, em parceira com Ruy Guerra, Chico Buarque escreve uma peça musical denominada “Calabar: o elogio da traição” tendo como tema a vida de Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho do início do século XVII que se aliou aos holandeses e que, por isso, foi condenado e entrou na história (escrita pelos portugueses) como um traidor.
Capa original censurada
Na véspera da estreia da peça, a Policia Federal censurou totalmente a sua apresentação, estendendo a proibição à divulgação de que o espetáculo tinha sido proibido. Quanto ao disco com a trilha do musical, o nome Calabar foi proibido. Por isso, o disco teve que excluir seu nome e foi lançado apenas como “Chico Canta”. Muito mais do que questionar versões oficiais e demonstrar que a história depende de quem a escreve, a peça foi uma forma inteligente de questionar a própria ditadura que o Brasil vivia no início da década de 1970.

O disco começa com uma canção instrumental denominada “Prólogo”, para emendar em uma das minhas preferidas do Chico: “Cala a Boca, Bárbara”, canção que apresenta as faces romântica e política lado a lado. Como pessoalmente não conhecia o teor exato da peça proibida, fui pesquisar sobre quem seria a personagem Bárbara e encontrei uma análise muito interessante feita pela ensaísta Adélia Bezerra de Meneses, professora de literatura da USP e da Unicamp e autora de dois livros que dissecam a poética de Chico Buarque em entrevista à CULT ( ver http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/lirismo-e-resistencia-de-chico-buarque).

 “O “Cala a boca” que marca a canção estigmatiza a peça e os tempos que a geraram: remete ao mesmo silêncio imposto de “Cálice” (= Cale-se) da época em a canção foi produzida, a década de chumbo dos inícios dos anos 70, auge da ditadura militar; mas também remete a uma imposição de silêncio, à proibição de pronunciar o nome de Calabar, personagem da história colonial do Brasil, na época do domínio holandês, e que tinha sido julgado pelos portugueses como traidor, executado e esquartejado, e condenado à extinção de sua memória, o que implicaria a proibição de mesmo pronunciar o seu nome (o que é infringido na canção, à força de repetição do refrão: CALA a boca BARbara: CALABAR). E esse é um dos mais belos poemas eróticos da língua portuguesa.”

A terceira é a bela “Tatuagem” (quero ficar no seu corpo feito tatuagem... que é pra te dar coragem..pra seguir viagem...quando a noite vem..).

“Ana de Amsterdam”, que vem na sequência, é outra música que retrata uma personagem da peça, no caso uma prostituta holandesa que cruzou o oceano em busca de dias melhores. Ana de Amsterdam reaparece na canção seguinte (“Bárbara”) em um tocante diálogo de amor entre as duas: Bárbara... Bárbara..nunca é tarde, nunca é demais. (...) Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas ..E mergulhar no poço escuro de nós duas.”

As próximas duas (“Não existe peca ao sul do Equador/ Boi Voador não pode”), gravadas juntas, são marchinhas de carnaval levadas com muita alegria. A censura moralista novamente incomodou e o Chico teve que trocar o verso “Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor” por “Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”. Anos depois, ao ser gravada por Ney Matogrosso, atingiu grande popularidade.

“(...) Sabe, no fundo eu sou um sentimental...Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo... (além da sífilis, é claro)...Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar. ..Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora. (...)”

“Fado Tropical” (com pequeno trecho citado acima), tem, como o próprio nome diz, o tradicional ritmo lusitano que dá nome à música, uma verdadeira poesia. Nesta há partes cantadas por Chico Buarque, que se contrapõem aos lindos versos recitados por Ruy Guerra. O resultado é belíssimo. Para variar, a censura novamente interferiu e mandou suprimir a palavra “sífilis”. Na gravação final restou um breve silêncio no lugar.

Depois do romantismo de “Tira as mãos do mim”, “Cobra de Vidro” retoma a crítica política finalizando sensacionalmente com vários Presta Atenção com inegável tom policialesco.

“Vence na Vida quem diz sim” teve a letra totalmente censurada, restando na primeira versão do disco apenas a versão instrumental. Posteriormente, com a letra um pouco alterada, Nara Leão gravou-a, com a participação do Chico Buarque.

Para fechar o álbum, a breve e contundente “Fortaleza”: (...) minha fortaleza é de um silêncio infame... Bastando a si mesma, retendo o derrame... A minha represa”. Simples e forte ao mesmo tempo.


Sou obrigado a confessar que quando comprei esse disco (em formato CD há uns 20 anos) e com o nome de “Chico Canta” (com a sua foto de perfil na capa), desconhecia a sua história e até mesmo o fato de que o nome era para ser “Calabar”. Mesmo assim sempre gostei muito desse disco a ponto de, como muito bem lembrou a Carol, ter sido o escolhido como trilha sonora para o primeiro café da manhã que fiz para ela. Quanto à capa, tempos depois de ter sido lançado com a branca ou ainda com o seu perfil, o disco finalmente teve sua capa original divulgada. Pena que nos tempos atuais poucos compram CD ou vinil.

Sobre a influência dos anos de chumbo, que se caracterizou pela forte repressão e censura na primeira metade da década de 1970, em entrevista à Rádio Eldorado em 1989 (encontra-se em seu site oficial www.chicobuarque.com.br) Chico Buarque  diz o seguinte:

“Existe alguma coisa de abafado, pode ser chamado de protesto... eu nem acho que eu faça música de protesto....mas existem músicas aqui que se referem imediatamente à realidade que eu estava vivendo, à realidade política do país”.

De fato, fica evidente essa relação e só temos a agradecer o Chico Buarque por ter transformado esses graves obstáculos políticos em inspiração para compor e encantar. Triste é constar que quarenta anos depois, Chico Buarque ao invés de lidar com estúpidos censores de uma ditadura, tenha que aguentar os filhotes da ditadura que voltam a perturbar todos aqueles que, como Chico Buarque, lutaram por um país mais democrático. A esses, resta dizer um sonoro "Tire as Mãos de Mim!"

Para escutar esse verdadeiro clássico da MPB pode-se utilizar o aplicativo de músicas Spotify: https://open.spotify.com/album/2HbAJZnA6a8orrEtZEooRH

Paul

domingo, 22 de fevereiro de 2015

"Eu quero é botar meu bloco na rua", Sérgio Sampaio





Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, tal como Roberto Carlos, chegou no Rio de Janeiro em 1967 para dar início a sua carreira artística, a começar com trabalhos em rádios como locutor. Após um início repleto de dificuldades e vivendo intensamente as noites cariocas, conheceu Raul Seixas, quando este era produtor da CBS, e gravaram juntos A Sociedade da Grã-Ordem Cavernista apresenta Sessão das 10 (disco que também merece uma resenha nesse blog), em companhia de Edy Star e Míriam Batucada em 1971, inspirado por Freak Out (1966), de Frank Zappa e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles

Em 1972, sua carreira finalmente parecia que iria decolar quando apresentou-se no VII Festival Internacional da Canção com a marcha-rancho “Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua”. Apesar de não ganhar o festival, foi um imenso sucesso popular, servindo como carro-chefe para que o disco das melhores canções do VII FIC chegasse a 500 mil cópias vendidas. Parte do seu sucesso pode ser atribuída ao fato de sua letra simbolizar tão bem um sentimento coletivo na época do auge da repressão imposta pelo regime militar no Brasil.

No ano seguinte, catapultado pelo sucesso dessa música, assinou com a Philips/Polygram para gravar um disco com esse mesmo nome. Segundo André Midani, presidente da gravadora na época, Sérgio Sampaio chegou à gravadora como um artista completo[1].

Produzido por ninguém menos que Raul Seixas, acompanhado ainda por músicos como José Roberto Bertrami, Alexandre Malheiros, Ivan Conti, Renato Piau e Wilson das Neves, o disco inicia-se com a criativa “Leros, Leros e Boleros”, cujo ritmo faz mesmo menção a um bom bolero e segue com a ótima “Filme de Terror”, que inspirou um criativo vídeo de Antonio Celso Barbieri (https://www.youtube.com/watch?v=M2RjMh17CVk).

Em seu conjunto, o vinil apresenta algumas canções mais autorais (“Pobre meu Pai”, “Eu sou aquele que disse”), outras mais melódicas (“Não tenha medo não”) e por fim algumas com uma batida mais ritmada como “Labirintos Negros”. 

Destaca-se ainda a ótima “Cala a boca Zebedeu”, composta por seu pai, Raul Sampaio, maestro de uma banda em sua cidade natal; a bela letra de “Viajei de Trem”, que conta com a participação de Raul Seixas; e o animado samba “Odete” (não é vivendo que se aprende, Odete... mas é vivendo que se aprende a viver), em que cita trechos de “Que Maravilha” de Jorge Ben.

O disco culmina de maneira apoteótica com “Eu quero é Botar meu Bloco na Rua”, a sua mais conhecida e tantas vezes regravada, e finaliza com “Raulzito Seixas”, uma espécie de homenagem ao seu parceiro que o ajudou no início. Para escutar o disco mais facilmente para quem não conhece, recomendo acessar: https://www.youtube.com/watch?v=etf6oyZmS-A

Apesar de músicas como Cala a boca, Zebedeu", "Odete" e "Viajei de trem" terem tocado nas rádios, infelizmente as vendas decepcionaram (estima-se em 5 mil cópias). Nessa época, Sérgio Sampaio já era muito conhecido pelo seu comportamento inquieto, um artista fora do sistema,  considerado para muitos como o maldito da MPB. Como diria Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, com seu porte magérrimo, seu cabelão comprido e seu comportamento bizarro, sempre bebendo, cantando ou gargalhando com espalhafato, ele jamais poderia passar despercebido ao mais distraído habitué de bares da zona sul carioca[2]

Nos anos 1970 e início dos 1980 teve ainda dois discos lançados (o último de forma independente) e acabou atravessando a maior parte da década de 1980 esquecido, embora compondo canções cada vez mais aprimoradas.

Tentou retomar a carreira nos anos 1990 mas morreu antes de finalizar seu novo trabalho, “Cruel, que acabou sendo posteriormente produzido e lançado por Zeca Baleiro em 2006. Em termos de melodias e qualidade das canções, pode-se afirmar que o resultado desse último trabalho supera o aqui citado, mas optei por começar com esse pela sua importância histórica com o intuito mais de falar do artista do que do disco em si. 

Embora sua importância para a música brasileira tenha sido relegada a segundo plano durante muito tempo, felizmente nos últimos anos trabalhos como a sua biografia escrita por Rodrigo Moreira; regravações interpretadas por cantores como Zeca Baleiro e Elba Ramalho; ou ainda o documentário "Cabine 103", de Julia Bosco (filha de João Bosco), Gustavo Macacko e Juliano Rabujah, com direção de Chico Regueira e Inês Garçoni (https://www.youtube.com/watch?v=yAS3nrLn8_U) tem contribuído para o justo resgate de sua memória. 

Depois de tanto tempo vivendo no ostracismo e após sua morte quase no esquecimento, nos damos conta da falta que nos faz artistas que como ele que contestam o sistema e que, fundamentalmente, vivem com intensidade. De acordo com Sérgio Natureza, seu parceiro em diversas canções e autor do prefácio do livro de Rodrigo Moreira, Sérgio Sampaio foi o verdadeiro "Garrincha da MPB" devido à postura rebelde e não enquadrada que sempre norteou sua vida. Tal como o eterno camisa 7, Sérgio Sampaio morreu abandonado, mas nos deixou um belo legado.[3]

[Paul]  



[1] MIDANI, André. Mùsica, Ídolos e Poder – do vinil ao download, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[2] SEVERIANO, Jairo e HOMEM DE MELLO, Zuza, A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras, São Paulo: Editora 34, 2006 (5ª. Edição).
[3] Parte das informações que constam aqui é de Bruno Ribeiro, no site: http://www.samba-choro.com.br/artistas/sergiosampaio, obtido em 22 de fevereiro de 2015.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

"É o que Temos" - Bárbara Eugênia


Nascida em Niterói e residente em Sampa desde 2005, Bárbara Eugênia estreou com pé direito ao participar da trilha sonora do filme “O Cheiro do Ralo” dois anos mais tarde. Desde então ela tem atuado em diversos projetos solos ou em conjunto com outros músicos, sempre bem acompanhada, exibindo seu talento tanto como intérprete, quanto como compositora.

Depois do promissor “Jornal da Bad” em 2010, seu primeiro trabalho solo, Bárbara Eugênia seguiu conquistando terreno até que obteve como prêmio no Festival MPTM (Música Para Todo Mundo)” a gravação de seu segundo álbum: “É o que Temos”, lançado em 2013.

Com a produção e participação de Edgard Scandurra (já parceiro dela em outros projetos)[1] e de Clayton Martin (baterista do Cidadão Instigado), o disco ficou tão bom que faturou o prêmio Multishow naquele ano. Vamos ao disco então...

Depois de iniciar suavemente com “Coração”, a segunda canção merece destaque especial por resgatar “Porque brigamos”, sucesso da Jovem Guarda no início do anos 70 com a Diana interpretando uma versão de Rossini Pinto para “I am...I sad” de Neil Diamond. A nova versão ficou tão boa que até mesmo o som do órgão de Astronauta Pinguim (tecladista) consegue nos levar para a atmosfera “brega” (sem nenhuma conotação pejorativa) que fazia parte da gravação original da Diana. Para completar, o clipe dirigido por André Gagliardo e disponível no youtube é simplesmente genial.
https://www.youtube.com/watch?v=Nr5xeHMIGDQ

Tudo se resume, tudo se resume a uma
Uma dúzia, tantas dúvidas, as mesmas velhas dúvidas
E você numa atitude irresponsável me deixou suspenso no ar
Não é do meu feitio, mas vou entregar
Se foram as noites brancas que te dei
Por que essa roupa suja pra lavar
Se não tínhamos o menor cabimento
E pensando bem a gente deu o que tinha que dar


Mantendo como pano de fundo uma crise de relacionamento, “Roupa Suja”, composta e gravada em parceira com Pélico, mostra toda a sua capacidade de se cercar de bons músicos. O clipe, lançado recentemente em uma versão mais “acústica”, também merece ser observado com atenção: https://www.youtube.com/watch?v=pudTZfJllps

Você devia mudar o seu rumo
Você devia achar que merece mais
“O Peso dos seus Erros”, a quarta canção do álbum, nos leva novamente para o ambiente da Jovem Guarda, mas desta vez com uma canção de sua autoria.

Em “I Wonder”, a parceria desta vez é com os músicos de Mustache e os Apaches. O banjo de Pedro Pastoriz e o coro bem arranjado produzem um resultado muito criativo.

A próxima canção, “Sozinha” é uma adaptação feita por ela mesma de “Me siento solo”, do francês Adanowsky (Adan_Jodorowsky). Eu, particularmente, não conhecia a original, mas cheguei à conclusão que a versão da Bárbara Eugênia ficou muito melhor.

A sétima música, “Jusqu'a La Mort” é, pessoalmente, uma das minhas prediletas. Para falar de amor, desta vez ela se arrisca a compor em francês e acertou a mão incrivelmente, com uma sonoridade que me faz pensar em um improvável casamento do rock progressivo (Pink Floyd na veia) com o tropicalismo. O som de uma das guitarras me remete ao vocal da Gal Costa nos velhos tempos (viagem minha). Como se não bastasse, o clipe é de uma sensualidade de muito bom gosto: https://www.youtube.com/watch?v=26qBo16Uo0A

Em seguida, ela acelera o ritmo em um excelente rock com “Ugabuga Feeling”, canção na qual o amor se coloca de uma forma mais visceral e carnal, sob uma batida bem primitiva. Sensacional.

Eu piso na poça debaixo da chuva
Sai um arco-íris com raios de sol
Eu danço no vento, me perco no tempo
Balanço, sacudo o cabelo e não fico só
Não tenho medo da chuva e não fico só
“Eu Não Tenho Medo Da Chuva e Não Fico Só”, a próxima, é fruto da sua parceria com Tatá Aeroplano (que no primeiro disco já tinha rendido bons frutos), contando ainda com a participação de Chankas, com quem ela gravou o trabalho mais recente: Aurora. Nela o amor flui leve, sem medo.

Em “You wish, You get it”, retoma o tom mais animado,  alto astral, em uma feliz composição dela, desta vez em inglês, tal como a canção que encerra o álbum, “Out to the Sun”, que conta com a participação especial do violoncelo de Peri Pane, outro parceiro que rende bons trabalhos para ambos, como na “Note”, que faz parte do disco dele.

Por fim, tendo no amor das mais diversas formas como fio condutor, ela vagueia pelas canções com sua voz doce e afinada. Uma ponte unindo Niterói a São Paulo, canções próprias a versões, letras em português àquelas em inglês ou francês. Quase sempre com clipes muito bem produzidos (vale uma busca no YouTube na página dela). A sua beleza se traduz em suas canções. A continuar assim, sua carreira vai longe. Por enquanto, é o que temos, mas para Bárbara, nunca é tarde, nunca é demais.

 [Paul]






[1] Entre outros projetos dela com Scandurra, destaca-se o a homenagem a Serge Gainsbourg com o Les Provocateurs e a gravação do programa MTV na Brasa, com uma versão matadora de “Dor e Dor”, do Tom Zé: https://www.youtube.com/watch?v=wbbKbTrl0WU

sábado, 3 de janeiro de 2015

"Eu Menti pra Você", Karina Buhr


Cantora, compositora, percursionista, atriz, desenhista, ativista, enfim, Karina Buhr é uma artista completa. E como se não bastasse, os dois discos da sua carreira solo são tão bons que foi difícil escolher qual deles seria primeiramente selecionado para entrar nesse blog. 
Depois de muito escutá-los, resolvi falar sobre o primeiro. Com perdão do trocadilho, eu mentiria para você se dissesse que ouvi esse disco na época do seu lançamento, em 2010.  Não me recordo ao certo como que fui descobrir a Karina Buhr, mas creio que foi em 2012 através da internet e posso afirmar que foi paixão à primeira vista.
Baiana de nascimento, crescida em Recife, Karina Buhr é daquelas que se entrega de corpo e alma ao que faz. Embora eu ainda não tenha tido a oportunidade de assisti-la ao vivo (aguardo-a em Curitiba), já pude constatar em vídeos que seus shows são espetaculares. Sua música é carregada de energia. Seu suor, solidifica, vira pó.
Com currículo recheado de diversas manifestações culturais, em 1997 Karina Buhr formou a banda Comadre Fulozinha, com a qual gravou três discos[1]. Esse rico histórico certamente contribuiu para que seu disco solo de estreia já apresentasse uma sonoridade tão marcante, combinando canções ao mesmo tempo bonitas e fortes. Mas vamos ao disco em questão:
Depois de abrir com a canção que batiza o CD, na qual o sotaque pernambucano agrega muito à música e demonstra toda sua singularidade, o disco segue com a original “Vira Pó”, para emendar numa canção que é, para mim, uma das suas melhores: Avião Aeroporto.
“Porque o corpo humano tem a resistência perfeita
Se bate de leve, dói, bate de com força, mata”
Além de uma letra contundente, a música tem uma batida que nos remete ao mangue beat. No youtube tem algumas versões dessa canção nas quais ela dá um verdadeiro espetáculo. Recomendo a gravação no programa Na Brasa, com a participação da guitarra singular do Edgard Scandurra: https://www.youtube.com/watch?v=cltr2yXbn0M
“Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo Eu posso não ter mais você
Você não mais que isso”
“Nassíria e Najaf” nos emociona ao falar do universo de crianças que vivem nessas duas cidades iraquianas fortemente bombardeadas durante a guerra do Iraque. Infelizmente, esse tema se mantém na Palestina, Afeganistão e outros tantos lugares, tornando a música tragicamente atual. Seu clipe é tocante: https://www.youtube.com/watch?v=aPx5e4BVlWI
O disco segue brilhantemente com “O Pé” e “Ciranda do Incentivo”, canção na qual é faz uma paródia com o mercado fonográfico:
“Eu não sei negociar...eu sei no máximo tocar meu tamborzinho e olhe lá...”
Depois vem “Telekphonen”, música experimental em que ela insere uma letra em alemão. Som completamente diferente, mas que vale a pena escutar. Nessa canção, ela faz uso do Theremin, instrumento musical eletromagnético criado pelo russo de mesmo nome, cujos sons são obtidos com movimentos da mão. Interessante.
Depois o ritmo diminui, sem perder o tom crítico em “Mira Ira”:
“Tá tudo padronizado
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado”
O ritmo volta a subir em “Soldat”, o verdadeiro poema cantado em ritmo punk-rock. Depois vem as igualmente boas “Esperança Cansa” (minha fúria odiosa já está na agulha) e “Solo de Água Fervente”.
“Essa tarde dourada que traz
felicidade pras pessoas normais”
“Bem vindas”, a penúltima canção, é mais uma que tem uma letra inspirada, mas dessa vez com um ritmo mais lento, quase como se fosse uma canção de ninar. Excelente.
“Hoje eu não tô afim
de corre-corre e confusão
eu quero passar a tarde
estourando plastico bolha”
O disco encerra com a criativa “Plástico Bolha”, afinal quem nunca quis passar uma tarde estourando plástico bolha.
Enfim, trata-se de um disco impecável do começo ao fim, que traduz muito bem a sua energia. Um som desses para nos encher de esperança de que não está tudo padronizado nos nossos corações.

PS: para escutar, conhecer, ouvir, sugiro entrar no site dela, de onde se pode baixar ou comprar o disco:
http://www.karinabuhr.com.br/discos 
[Paul]




[1] Karina BUhr participou de rodas e côco e ciranda em Pernambuco, e integrou bandas como Eddie, Bonsucesso Samba Clube, Dj Dolores e Orchestra Santa Massa (com Erasto Vasconcelos e Antônio Nóbrega).

domingo, 27 de abril de 2014

"A Arca de Noé" - Vinícius de Moraes (1980)


 
Lembro até hoje do dia em que, ainda criança, minha mãe chegou com um disco Arca de Noé, que mostrava que músicas infantis não precisam ser bobas, ainda mais interpretadas por cantores do naipe de Ney Matogrosso, Chico Buarque e Alceu Valença entre outros.
O disco tinha uma capa interativa, daquelas que só os antigos vinis permitiam.  Pelo que me recordo, uma capa em branco com uma arca desenhada. O restante dos desenhos estava disposto em um encarte interno para recortar e colar na capa, algo que eu rapidamente me prontifiquei a fazer. Depois descobri que aquilo era mais uma criação do mestre Elifas Andreato (sobre os desenhos de Antonio Bandeiras).

Os poemas de A Arca de Noé foram escritos por Vinicius muitos anos antes de sua primeira edição para seus filhos Suzana e Pedro de Moraes. Por muitos anos, eles ficaram guardados. Só em 1970, o conjunto de poemas infantis ganhou o mundo em lançamento na Itália, país onde a presença do poeta era constante.

É lá, justamente que o disco com os poemas infantis é preparado com o nome  L’Arca. No mesmo ano, seus poemas musicados na Itália são lançados em livro no Brasil. Dez anos depois, com arranjos de Rogério Duprat e Toquinho, resolveram transformar o conjunto de belos poemas  em  disco (resultou em dois discos – embora aqui falarei apenas do primeiro), com o mesmo nome do livro. 
“E abre-se a porta da arca
Lentamente surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Após uma abertura orquestrada sob a narração de Chico Buarque, o disco abre de forma grandiloquente, com a canção “Arca de Noé” com a voz de Milton Nascimento trazendo tranquilidade alternando com um coro infantil que acelera no tempo certo. Belíssimo resultado.

Em seguida, lá vem “O Pato” para ver o quê que há, com o MPB-4. Que nunca se divertiu com a voz do próprio pato nessa canção? Depois vem a coitadinha da “Corujinha” (que feinha que é você) com a brilhante voz da Elis Regina, em talvez uma das suas últimas gravações antes de falecer,
"Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz”
O clima circense vem em grande estilo com a voz de Alceu Valença cantando “A Foca”, outra que se tornou clássica e emenda com o clima tropicalista de Moraes Moreira cantando “As Abelhas”.  Bebel Gilberto canta “As pulgas”, com um ritmo que deve  fazer a festa das crianças mais novas. Depois vem o divertido clima de cabaré com divertidas Frenéticas cantando “Aula de Piano”.

O disco segue com “A Porta” (cantada por Fábio Jr.), “A Casa” (poema que consolidou a expressão rua dos bobos número zero) e “São Francisco”, numa bela interpretação do Ney Matogrosso depois de uma abertura com um coro gótico.

"Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão"
“O Gato” vem com a voz da Marina, canção que vai acelerando também em ritmo circense, alternando com trechos mais sossegados em arranjo caprichado. Depois vem o “O Relógio” com a voz de Walter Franco (outro que está até então ausente desse blog e que merece ser lembrado também).

"Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção"
Canção que certamente deve ter servido de inspiração para tantos pais ninarem suas filhinhas nos anos 80, “Valsa para uma Menininha” serve para ilustrar bem a bela parceria de Vinícius com Toquinho, que marcou a última década de vida do primeiro.

O disco termina com uma canção final que traz uma espécie de pout-pourri orquestrado de trechos das canções do disco.

Infelizmente pouco depois do lançamento desse belo disco que mereceu inclusive um especial na Rede Globo, quando planejava o volume 2 desse disco (lançado em 1981), Vinícius faleceu deixando um imenso e valioso legado.
Enfim, a Arca de Noé tornou-se um dos discos mais populares de Vinicius de Moraes por trazer o mundo da literatura e das canções para o público infantil, e de quebra aproveitando também para despertar a criança que há em cada adulto.  Dá até vontade de ter filhos só para ter pretexto de escuta-lo novamente.
[Paul]

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fim de ano é época de Noel...



Para fechar o ano, resolvi fazer justiça com um dos grandes artistas da música brasileira que até o momento não foi citado, muito provavelmente porque na sua época não se produzia “discos” tal como conhecemos conceitualmente nos dias de hoje, tornando-se mais conhecido pelas suas composições tão gravadas que por algum disco específico. Trata-se de Noel Rosa.

Como nos anos 20 e 30 as gravações de canções eram esparsas, o disco citado aqui foi lançado primeiramente apenas em 1965 através do Selo MIS, do Museu da Imagem e do Som, que foi criado com o objetivo de resgatar registros de nomes notáveis da música brasileira. Mas foi inteiramente constituído por gravações realizadas entre os anos de 1930 e 1936. Mais recentemente, em 1997, esse mesmo disco foi remasterizado em processo digital, mas suas canções não perderam aquela sonoridade antiga, cuja audição faz lembrar os velhos vinis rodando com seus ruídos característicos. Foi essa versão quefelizmente caiu em minhas mãos, presenteado pela minha mãe, que possui um acervo de discos nacionais espetacular (e a ela que dedico essa resenha).

Seu garçon faça o favor..de me trazer depressa...um boa média que não seja requentada....Quem não conhece “Conversa de Botequim”, que abre o disco? Gravada em 1935 com o Conjunto Nacional, essa canção marcou não só a sua curta carreira, mas sim a história da música nacional a ponto de ser gravada diversas vezes por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Rita e João Nogueira (provavelmente a versão mais conhecida).

Depois de “João Ninguém” e “Arranjei um Fraseado” (arranjei um fraseado que já trago decorado para quando lhe encontrar...”), vem “Onde está a honestidade”, mais um clássico samba, regravado recentemente pela Paula Toller e pela Orquestra Imperial.

Adepto da boemia, Noel encontra nessa vida a maior inspiração para suas canções, como as seguintes “Provei, (Quem fala mal do amor...não sabe a vida gozar...quem maldiz a própria dor.. tem amo, mas não sabe amar) e “Você vai se quiser” (você vai ser quiser...você vai se quiser...pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar...mas não vai dizer depois que você não tem vestido , que o jantar não dá pra dois), ambas gravadas  com Marilia Batista e Benedito Lacerda e seu conjunto.

Antes de completar 20 anos, no final de 1930, gravou “Com que Roupa”, que se tornou um seus maiores clássicos e fez grande muito sucesso no carnaval de 1931. Essa canção foi inspirada na ocasião em que sua mãe escondeu suas roupas na tentativa de impedir mais uma noitada.

Vivendo de trocados que conseguia com as suas composições, mas torrando tudo com bebidas e mulheres, Noel Rosa também transforma sua má relação com dinheiro em temas para músicas bem humoradas em “Quem dá mais?” e “Cordiais Saudações”. Até o lançamento desse disco, a versão de “Cordiais Saudações” aqui gravada estava inédita, já que o próprio Noel tinha classificado-a como “horrível” e rejeitado, para gravar outra com o Bando dos Tangarás. Terminou que essa versão ficou guardada por Almirante, um dos seus principais parceiros, e só foi revelada muito depois de sua morte.

Depois de desfilar seu bom humor com “Mulata Fuzarqueira” e “Coração” (na qual satiriza o tal sangue azul), o disco fecha com “Minha Viola”, canção em que faz uma ponte entre o samba e a legítima música caipira (estilo denominado como “embolada” no disco): Minha viola...tá chorando com razão....por causa duma marvada...que roubou meu coração.

A seleção das músicas nesse disco, por fim, ficou excelente. Mas é claro que com o repertório tão vasto, certamente muitas canções clássicas acabaram ficando de fora, como “Gago Apaixonado”, “Palpite Infeliz” ou ainda “Pra que mentir”. Mas de qualquer forma esse trabalho do MIS merece ser louvado. A se lamentar apenas o fato de que a falta de maiores cuidados com a saúde aliada à boemia acabou levando Noel Rosa muito cedo (com apenas 26 anos em 1937). Certamente ele teria deixado um legado muito maior. Mas o jeito é homenageá-lo da melhor forma: abrindo uma cervejinha e entrando no clima que esse disco consegue trazer.

Para escutar: http://grooveshark.com/#!/album/Noel+Rosa+E+Sua+Turma+Da+Vila/6399202

[Paul]