quarta-feira, 22 de junho de 2011

Na calada da noite, Barão Vermelho


Mais um discaço pra nossa exposição permanente.
Meio acústico, com muitos violões e espaços, mas mesmo assim energético, mostrando que acústico não quer dizer necessariamente frouxo, largadão ou sem força.
Diferente de tudo que o Barão já tinha feito. Único disco com o sensacional baixista Dadi (ex-Novos Baianos e A Cor da Som), mais conhecido por ser inspiração para 'O leãozinho', depois da saída conturbada de Dé, que muitas músicas ainda compôs aqui.
Cazuza, que viria a falecer semanas antes do lançamento do disco, acompanhou as gravações, o que muito agradou à banda.
Maurício Barros volta como convidado, Peninha e Fernando são efetivados. Guto se arriscando a compor letras. Ezequiel sempre na área. Serginho Serra (Ultraje) auxiliando nas composições.

'Política voz' exemplifica tudo isso, já começando com o pé na porta, numa co-autoria do Frejat com o poeta Jorge Salomão, que participa bastante do disco. Poesia forte, política, comportamental. E um riff que parece muito com 'Smells like teen spirit' (que só saiu um ano depois).
"Eu não sou a porca que não quer atarraxar
E nem a luva que não quisna sua mão entrar
Eu sou a voz que quer apertar o cerco e explodir
Toda essa espécie de veneno
Chamado caretice
E expulsar do ar
Do ar, do ar a nuvem negra
Que só quer perturbar
Soprar e ver tudo voar
Soprar e não ficar nada pra contar"

'O invisível' traz uma cara hard rock, uma levada apressada que acelera e respira, grandes guitarras. Barão na veia! Tem um solo de violão flamenco alucinado no meio, a cargo de Gaetano 'Kay' Galifi.
"Nem tudo são rosas
Às vezes é amargo demais
Ela nem bate a porta
Nem tudo que reluz é ouro
Às vezes é nada mesmo
Nem tudo que vem
Volta atrás
Apenas eu vejo a luz
Será que só eu?" (eu sempre quis cantar isso!)

Volta a malandragem, violões, guitaras e slides sinuosos, percussão tropical, na faixa título, co-autoria com o negro gato Luis Melodia. Excelente. E um solinho em chamas no slide lembra que o rock'n'roll continua fluindo.
"O rumo da bola de vidro
Pode do céu despencar
Queimar a fúria dos homens
Queimando, cinzas tudo virar
É tudo questão de justiça
Eu não nasci na Suiça
Tão pouco no Canadá"

'Beijos de arame enfarpado' (Dé/Sérgio Serra/Ezequiel Neves) é uma das minhas favoritas do Barão, não só do disco, uma pérola pouco conhecida. Dinâmica, começa sutil, riff primoroso de baixo, depois vão entrando guitarras, quebras e balanço, solo longo e lindo, um letra primorosa, no nível do melhor do Cazuza:
"Naqueles dias
Todo dia eu renascia
Na pele dos teus lábios
E trazia comigo uma oração
Pros tumultos da paz
Porque naqueles dias
Eu te amava demais
Eram dias de pura luz
Refletindo nos metais
E pelos nossos beijos
Caravelas e língua passeavam
Em delírios fluviais
Amor à luz de velas
Mensagem na garrafa perdida
Vinda na saliva de outros carnavais
Mas hoje em dia meu amor
Nossos beijos tem sabor enferrujado
E nos machucam a boca
Feito arame farpado"

'Sonhos pra voar' traz o melhor do acústico e do rock, levada forte de bateria com violões, um trabalho bacana do Dadi, mas a letra dá uma patinada, com bons momentos e outros nem tanto. A preferida de Cazuza, que pediu que a banda gravasse essa ao vivo.

'Seco' é curtinha, quase uma vinheta, sem efeito nenhum - som seco, violão e voz.

E já emenda em 'Tão longe de tudo', violão e bateria muito bem casados, côro belíssimo, piano alegre, voicing de guitarra e voz, bonitaça! Ao vivo, o Dadi fazia um solo de baixo muito maneiro no lugar do solo cheio de notas de piano do Renato Neto em estúdio.

'A voz da chuva' é singela, um relax bem vindo, mais violões e guitarrinhas suingadas, mezzo country. Uma guitarra pica-pau wah-wah meio falante e um solo de guitarra matador. Percussão perfeita e mais um côro lindo.

'Tua canção' é uma bonita canção, que conta com o auxílio luxuoso da steel guitar de Rick Ferreira, que tocou muito com o Raul.
"Te faço uma canção
Tão Antiga e tão bonita
Não tem queixa e nem ferida
É proteção prá toda a vida
Porque você entende meus sonhos
Teu sexo tem o gosto que eu gosto
Tua boca, carne, tua saliva
Faz a minha carne mais viva
Então eu faço esse carinho
E assim fico menos sozinho
Meu coração não chora mais
Na ponta de qualquer espinho"

'Invejo os bichos' traz de volta o peso, rock'n'roll, solinhos acelerados! Uma letra meio ingênua, mas empolgante:
"Invejo os bichos, invejo os bichos
Que no mundo não procuram nexo
Vivem em paz sem ganância ou capricho
E só brigam por comida e sexo"

O disco termina com a emocionante 'O poeta está vivo' (Frejat/Dulce Quental), balada cheia de espaços, letra bonita, vozes dobradas e emocionadas. O hit do disco que, mesmo sem fazer referência direta ao Caju, assim ficou conhecido. O grande solo de Fernando Magalhães.

4 comentários:

  1. Quem é esse Gaetano Califi, mesmo? Também acho Beijos de Arame Farpado uma das melhores músicas do Barão... Mas as duas baladas, huuummm, deixam a desejar. Como você disse muito bem, escorregam na letra!

    Bela resenha, parabéns. [M]

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  2. Sonhos pra Voar é excelente. ZEBA

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  3. Arrico dizer que esse é o melhor disco deles. Com ou sem Caxuxa.

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  4. O melhor ainda é o maior abandonado, na minha inculta opinião. Mas esse tenho e vez ou outra tá no porta luvas do carro. ZEBA.

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